E você, caro leitor, também é daqueles que ainda acreditam nos glutões?
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
E você, (ainda) acredita nos glutões?
São aos milhares as queixas que
por estes dias inundam as associações de defesa do ambiente e dos animais em
geral. Tudo porque de há uns tempos para cá a direita e os seus avençados da
comunicação social começaram a engolir sapos, crueldade das crueldades, vivos e
inteiros , fazendo perigar a espécie.
Tudo começou quando descobriram
que segundo a Constituição da República Portuguesa não basta ser o partido mais
votado para ser Governo, é preciso reunir o suporte da maioria do Parlamento. Esta curiosa moda de comer
batráquios foi inaugurada pelo próprio Presidente da República, que serviu o
primeiro sapo ao tentar contrariar a Lei fundamental.
O sapo presidencial caiu-lhes tão
mal que começaram a dizer que a esquerda jamais se entenderia num acordo que viabilizasse
um Governo com suporte maioritário no Parlamento. E lá comeram outro sapo, a
esquerda entendeu-se mesmo. Depois disso nunca mais pararam de engolir
bicharada verde, Cavaco teve que engolir um e empossar o Governo das esquerdas
e não lhes restou outra que não a de imitarem o seu Presidente, engolindo sapos
aos milhares, como se fossem pílulas do dia seguinte, as quais, como é sabido,
se tomam para evitar chorar sobre o leite derramado.
A seguir era a Comissão Europeia
que não iria permitir, a Comissão europeia não se opôs com aquela veemência que
lhes interromperia a dieta, mais sapos. Que os mercados iriam ficar nervosos, mas
os mercados andam atemorizados é com a situação financeira dos colossos da banca europeia, não lhes passaram cartucho, ainda mais sapos. Que a esquerda
nunca aprovaria um orçamento de mais austeridade, e a esquerda aprovou-o no
pressuposto de uma melhor distribuição dos sacrifícios e de dar um forte sinal
de que é possível devolver o país às pessoas, precisamente o oposto do projecto
de país destes glutões, novamente ainda mais sapos. Para cúmulo, a Moody's deu nota
positiva ao Orçamento que os alarves rotularam de irresponsável, chuva de
sapos.
E agora até a renegociação da
dívida e a nacionalização do Novo Banco deixaram de ser temas tabu e começaram
a ser discutidos abertamente fora do espartilho ideológico da voracidade destes
comilões da esperança de voltarmos a ser um país minimamente decente. Os sapos que
se cuidem, este brutal sapicídio não vai ficar por aqui.
E você, caro leitor, também é daqueles que ainda acreditam nos glutões?
E você, caro leitor, também é daqueles que ainda acreditam nos glutões?
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Porreiro, pá
O Acordo Ortográfico de 1990
sempre me irritou. Pelo resultado final, transformou a nossa Língua numa
amálgama ilógica e disforme, pela argumentação utilizada para o imporem sem
referendo, que vivemos num mundo cada vez mais global sem lugar para a riqueza
da diversidade e que uma Língua com regras ortográficas comuns para as suas
diferentes variantes, que nenhum acordo tornaria iguais ,resultaria numa Língua
mais inclusiva, pelo que acabou por acontecer, hoje somos o único país da
lusofonia onde há quem escreva segundo as novas regras, os outros deixaram-nos
a escrever sozinhos com o aborto nos braços, mas sobretudo por termos aceitado negociar
alterações a uma Língua que por ser nossa não fazia qualquer sentido negociar.
Se repararem bem, Maastricht, que
aconteceu mais ou menos pela mesma altura para evoluir até ao Tratado de
Lisboa, embora divirja do AO nas cores políticas dos apoios que obteve, foi
beber à mesma fonte dos disparates. Também nos armámos em gajos porreiros para nos esquecermos
de quem somos, um país pobre que ficaria ainda mais pobre se aceitasse reger-se
por regras que, nesse mundo cada vez mais global onde mergulhámos de cabeça
ignorando os tubarões e as alforrecas, apenas trariam proveitos para os países
ricos. Também nos foi imposto como facto consumado, conseguiram impô-lo sem consulta
popular. Também abdicámos desse poder que é nosso e só nosso de escolher que
presente e que futuro queremos para a comunidade que vamos deixando de ser à
medida que empobrecemos.
E a União Europeia também se vai
transformando numa amálgama disforme, um absurdo ainda maior do que o AO que
cresce à sombra da nossa capacidade de acomodar disparates. Ele é o Ministro
das Finanças da Alemanha a disfarçar o colapso iminente do Deutsche Bank com
paleio moralista sobre o nervosismo causado pelos, no máximo dos máximos, para
usar a benevolência ao extremo, 0,2%
de alívio da austeridade num país cujo PIB não chega a ser nem 2% do PIB
europeu. Ele é o Ministro das Finanças da Holanda, um dos paraísos fiscais que
anualmente nos rouba milhares de milhão em impostos, a alinhar na mesma
conversa do moralista alemão. Ele é a Dinamarca a aprovar legislação
absolutamente vergonhosa para confiscar os poucos pertences que os refugiados
que cheguem ao país ainda possam conservar na sua posse. Ele é a Hungria que
decide murar o país sem que haja uma voz que se insurja quer contra a violação
da liberdade de circulação dentro do espaço europeu, quer contra a desumanidade
que lhe está subjacente e viola todos os tratados internacionais.
E agora o Reino Unido. Em vez de
exigirmos regras que excepcionem países como Portugal, Grécia e Espanha do pior
que a Europa tem, aceitamos regras excepcionais
com o pior que a Europa passará a ter para vigorarem apenas no Reino Unido. Um
trabalhador português continuará a descontar tanto como um britânico mas apenas
terá direito ao mesmo abono de família que ele se os seus filhos estiverem no
país, o britânico não perderá esse direito nem que os seus filhos vivam na
China. Os bancos europeus poderão continuar a arruinar-se sem qualquer controlo
no grande casino da city londrina mas o Reino Unido ficará isento de qualquer
contribuição no caso de ser necessário tapar os rombos causados por uma especulação
financeira que adquiriu o estatuto de sagrada.
Tudo isto se tornou um absurdo
tão grande que, ao mesmo tempo que David
Cameron se vangloria de ter alcançado o melhor de dois mundos, por cá, primeiro
pela voz de António Costa, logo a seguir pela de Augusto Santos Silva, o PS desdobra-se
em convites ao PSD para "consensos não apenas potenciais, também absolutamente
necessários" em matérias que incluem esta política europeia e o comprometimento
com esta União Económica e Monetária, isto é, um consenso para acomodar o contrário
do melhor dos dois mundos do PM britânico. Se depender do centrão, tal como no Acordo
Ortográfico, acabaremos sozinhos a dar beijinhos aos tubarões e a fazer carinhos
às alforrecas que se servem da fortuna que nos cobram em juros para, através da
chantagem, nos imporem a austeridade que melhor nos aniquila. Esta gente mete medo.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
Uma despedida em grande
Dizia eu há uns dias que as
ordens honoríficas portuguesas andam a precisar de novas denominações. Só na
fornada anterior de condecorados por Cavaco Silva tínhamos Maria de Lurdes
Rodrigues e Nuno Crato, isto originaria a Gran-cruz do colégio privado; Vítor
Gaspar justificaria inteiramente a Ordem do Gran-lacaio; Álvaro Santos Pereira,
a cruz da nulidade pasteleira; Pires de Lima, a gran-carica dos negócios
banqueiros. E vá lá, dizia eu com os também condecorados Zeinal
Bava, Dias Loureiro , Durão
Barroso e Pedro Santana Lopes na memória, o mano Paulo Santana Lopes foi
preso a tempo de não ser condecorado. Mas isto na semana passada, porque, já nesta, Cavaco Silva condecorou Sousa Lara, um
homem que entre os serviços que prestou à Nação se notabilizou imenso: enquanto
membro de um Governo, sub-secretário de Estado da Cultura, usou esse poder para tudo
fazer para que José Saramago não fosse o
único português com um Nobel da Literatura e, enquanto gestor desse antro
de tudo
o que Portugal teve de mais podre, que se chamou Universidade Moderna, foi acusado
de quatro crimes de apropriação ilícita, 1 de associação criminosa e 1 de
administração danosa e acabou condenado a uma pena de prisão de dois anos e
meio suspensa
por dois anos. Não vale a pena alongar-me muito mais em comentários sobre a
última condecoração da nódoa que habitou Belém nos últimos dez anos, um
cadastrado. Quer como balanço da década, quer como despedida de uma carreira
política onde evoluiu sempre rodeado pelos
piores entre os piores e sempre inspirado no que de pior um dia se conte sobre o
que os portugueses deixaram que fizessem à sua, nossa democracia, a derradeira escolha
de Cavaco Silva não poderia ter sido melhor.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Gostei de ler: "O estágio não remunerado do pai Tomás"
«Uma empresa chamada “Work 4 U –
Gestão de Carreiras” colocou esta semana na internet um anúncio que dizia:
“Receba sem compromisso um estagiário durante 2 dias!” E por baixo:
“EXPERIMENTE GRÁTIS”. Exactamente assim, com este vocabulário. Em pleno século XXI,
na Europa, é possível publicar um anúncio destes, sem uma única informação
adicional. A como sai cada estagiário ao quilo? Não dizem. Em que condições
está a dentição dos estagiários? Omitem. As grilhetas vêm de origem ou são um
extra? Não revelam. Como podem as empresas tomar decisões informadas se o
marketing falha desta maneira? É esta a sociedade moderna em que queremos
viver?
O resto do anúncio é igualmente
insatisfatório. Diz assim: “Condições de pagamento à Work4U: 1 ano de estágio a
pronto: 969€ (desconto 15% – poupa 171€); 6 meses a pronto: 510€ (10% desconto
– poupa 60€); Pagamento mensal: 95€/mês (pago em débito directo)”. Como é
evidente, saúda-se que os estagiários estejam em promoção, mas creio que os
preços continuam a ser demasiado elevados. Não quero com isto menosprezar o
valor do trabalho da Work4U. Recrutar e comercializar estagiários é uma
actividade difícil, porque gente desesperada para entrar no mercado de trabalho
costuma ser má de aturar. Choradeiras, perguntas parvas (por exemplo: “Dentro
de quantos anos começarei a receber um salário?”) – enfim, há de tudo, e é
realmente exasperante. Mas o empresário que busca trabalho gratuito e depois é
confrontado com um pagamento sentir-se-á burlado, e com razão.
O mercado do trabalho gratuito
necessita de regulamentação urgente, para evitar situações como esta, que roçam
a imoralidade. Sobretudo porque esta tabela de preços é concluída com uma nota
inaceitável: “Acresce IVA e taxa de activação de 60€ por estagiário”. Ou seja,
ao que parece, mesmo depois de efectuado o pagamento, a empresa recebe o
estagiário desactivado, e só após o depósito da taxa de activação consegue que
ele comece a desempenhar tarefas. No entanto, não é fornecido um PIN ou um PUK,
para o caso de o estagiário bloquear no serviço.
Mas o escândalo maior vem no
rodapé do anúncio: “Apoio ao estagiário: Adicionalmente, é a sua empresa que
define o valor mensal de apoio que pretende pagar ao estagiário, para custo de
transporte e alimentação.” Mais uma alcavala inopinada imposta pela Work4U,
numa manobra que se aproxima perigosamente da vigarice e da exploração. Só no
fim do anúncio, e em letras pequenas, nos é comunicado que estes estagiários
pretendem não só alimentar-se e fazer-se transportar para a empresa que os
acolhe como ainda têm a intenção de cobrar essas despesas extravagantes. Ao
preço de 969€ anuais por cada estagiário, será demais esperar que seja a
própria Work4U a construir uma senzala, ainda que provisória, dentro da empresa
ou na sua vizinhança, senzala essa na qual os estagiários possam pernoitar?
Convém corrigir estes pormenores, para que a comercialização do trabalho
gratuito possa reaver o prestígio que já teve noutros séculos.» - Ricardo Araújo
Pereira, na Visão.
"Quem pensa como a direita acaba a governar como a direita", pois acaba.
"Governo aprova novas regras
da reforma antecipada" é um dos títulos que se lêem na imprensa do dia.
Quem se dê ao trabalho de não se ficar pela leitura do título fica a saber que,
na verdade, o Governo se limitou a recuperar o "regime transitório"
aprovado pelo anterior Governo, mantendo as enormes penalizações e substituindo a impossibilidade de requerer a
reforma antecipada pela possibilidade dada ao trabalhador que a solicite de
parar o processo quando receba uma carta a dar-lhe conta do valor que irá receber.
Simplificando, até agora um trabalhador com 55 anos que tenha começado a
trabalhar aos 15 anos, e há-os que começaram aos 11 e aos 12, apesar de ter
completado os 40 anos de descontos obrigatórios, não podia requerer a reforma
antecipada. A partir de agora pode fazê-lo e, quando receba a cartinha da
Segurança Social a comunicar-lhe que receberá apenas 176
euros mensais, ainda menos do que os cerca de 260 euros da pensão mínima,
chegará à conclusão de que de nada lhe serviu trabalhar uma vida inteira e que,
na prática, está proibido de assinar a sua própria sentença de miséria para o
resto da vida. Quando ainda não era Primeiro-ministro, uma vez António Costa disse
que quem pensa como a direita acaba a governar como a direita. Não disse mentira
nenhuma. Em 2016, o desemprego sexagenário irá continuar a arrastar-se por aí. Enquanto
isso, aqueles empregadores que pagam os salários mais miseráveis irão beneficiar
de um desconto na TSU de 0,75%. A subsidiação da exploração do trabalho também foi
aprovada hoje e com efeitos
retroactivos a Fevereiro. O dinheiro que existe para financiar esta borla é exactamente o mesmo que não
existe para garantir velhices dignas a quem não teve o direito a gozar a juventude.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Gostei de ler: "É mesmo, Schäuble?"
«Verão de 2007. Portugal estava a
banhos e descansava sobre um crescimento económico de quase 2,5%, a que se
juntava o défice abaixo das exigências de Bruxelas e uma dívida de 68% do PIB.
Do lado de lá do mar, o
sentimento era outro. O Lehman Brothers mostrava os primeiros sinais de
instabilidade. Ainda assim, ninguém fez grande caso, até o banco apresentar
perdas de 3900 milhões, deixando os mercados em estado de sítio. O resto da
história já sabemos. O fim da bolha do imobiliário norte-americana deixou o
sistema europeu em apuros, secou o financiamento à atividade económica e
obrigou a gigantescos resgates com dinheiro dos contribuintes. As economias
periféricas, mais frágeis, foram as primeiras a cair, assim que a loucura dos
especuladores chegou às dívidas públicas. Sob a pressão das agências de rating,
o financiamento dos estados ficou insuportavelmente caro, precisamente no
momento em que era mais necessário. E, tudo isto, sob o olhar parado e
indiferente do todo-poderoso BCE.
Passaram oito anos. Com
desemprego, pobreza e recessão, os países periféricos pagaram o facto de serem
a economia errada, no momento errado, no sítio errado. Promessas foram feitas:
os mercados seriam controlados. Mas, desde então, o BCE injetou milhões de
milhões de euros num sistema financeiro que continua demasiado endividado,
forrado de ativos tóxicos ou desvalorizados pela crise prolongada na Europa.
Crise europeia que, diga-se, o desempenho das economias emergentes já não
consegue mascarar.
Eis agora que o maior banco
alemão, o Deutsche Bank, aparece a anunciar perdas de 6000 milhões de euros,
sabendo-se que detém derivados no valor de 65 triliões, umas vinte vezes o PIB
alemão. E que foi condenado a pesadas multas por manipulação de mercado.
Perante isto, tudo isto e mais a
crise dos refugiados, o perigo da extrema-direita e a eventual saída do Reino
Unido da União Europeia, o ministro das finanças Alemão, Wolfgang Schäuble, não
encontrou melhor explicação para o "nervosismo" dos mercados do que o
Orçamento do Estado português, o tal que se atreveu a fazer valer, ainda que
timidamente, um pouco de autodeterminação.
Isto já só não espanta quem tiver
deixado de ver para além da pequena gaiola onde nos enfiaram com a história do
"portem-se bem, a culpa é toda vossa, viveram acima das vossas
possibilidades". Uma Europa lamentável e, acima de tudo, muito triste.» – Mariana
Mortágua, no JN.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
O "possível", o aplauso da "vergonha"
Muita gente escolhe o projecto
político que defende de acordo com as decisões que vão sendo tomadas pelo
partido que apoia, quando o que deveria fazer, e ao não fazê-lo vai ajudando o
debate político a transformar-se numa disputa de claques estéril que alimenta
uma abstenção que não para de aumentar, seria apoiar o partido que melhor execute o
projecto político em que acredita. É esta forma de estar que hoje rapidamente
transforma medidas que objectivamente foram uma vergonha quando eram executadas
pelo PSD em medidas "possíveis" e "realistas" quando são e
por serem implementadas pelo PS, ou, na versão da facção rival, transforma em "vergonha"
as "reformas estruturais necessárias" implementadas pelo PSD e pelo CDS.
Para não me alongar muito, irei saltar
os milhares de milhão de dinheiro público que estão a ser desviados para a
espanholização em curso do nosso sector financeiro, a oferta da TAP, que não
foi anulada como devia, que se prepara para resultar numa venda a chineses que irá
render um encaixe de muitos milhões a um consórcio que ficou dono da TAP sem
ter que pagar um cêntimo, a actualização, injustificável num contexto de queda
abrupta das cotações do petróleo, de 2,5% nos tarifários da energia, decidida à
medida de um aumento ainda maior da renda garantida pelo anterior Governo aos
chineses que a compraram ao preço da chuva, o acréscimo de vários milhares de
milhão previsto no Orçamento deste ano para garantir um aumento equivalente nos
lucros das PPP rodoviárias, o desinvestimento que irá continuar a apodrecer o
Serviço Nacional de Saúde este ano e o corte que foi decidido para o sector da
Educação em paralelo com a manutenção dos contratos de associação através dos
quais todos nós continuaremos a subsidiar o negócio dos colégios privados. Se
tudo isto era uma vergonha, e era, nos anos negros da governação PSD-CDS, o
argumento da falta de tempo é muito fraco para transformar toda a série noutra
coisa qualquer, a vergonha é a mesma, mantém-se.
E já me alonguei demasiado. O meu
propósito inicial era escrever um texto curtinho sobre a entrevista que o Ministro Vieira da
Silva deu ao DN e à TSF para deixar no ar a promessa vaga de que as pensões
com carreiras contributivas mais longas vão ser recompensadas e acenar com uma redução
da Taxa Social Única dos trabalhadores com salários até 600 euros em 2017, isto
é, um, para justificar publicamente por que razão, e tanto como o anterior, o
actual Governo continua a obrigar aqueles trabalhadores que perderam a
juventude começando a trabalhar aos 12 e aos 13 anos a carreiras contributivas
de 50 e mais anos para não serem penalizados na reforma que recebem e, dois,
para não explicar o inexplicável, o impossível da redução da TSU dos
trabalhadores com salários inferiores a 600 euros que aconteceu em simultâneo
com a compensação daqueles patrões que pagam os salários mais miseráveis com um
incentivo à exploração do factor trabalho através de um desconto na
mesma TSU que não pôde ser reduzida aos trabalhadores.
Não é que a utilização no
presente de dinheiros da Segurança Social que farão falta no futuro seja uma
medida da minha simpatia, pelo contrário, o que defendo passa por uma redução
quer da idade da reforma quer do horário semanal de trabalho, só assim se consegue
garantir trabalho a quem tem esse direito obstruído por políticas que
privilegiam o lucro e a concentração da riqueza em vez do pleno emprego e só assim,
juntamente com a diversificação das suas fontes de financiamento, se garante a sustentabilidade
da Segurança Social, mas também aqui nada mudou. Desagrada-me ainda mais, sinto-me
intrujado, esta série interminável de apostas na continuidade que vão sendo vendidas
como alteração da orientação de política económica que definitivamente não são.
Cabe-nos apoiar o Governo em tudo o que faça de diferente e melhor relativamente
ao anterior, e tem feito algumas coisas bonitas, estou de acordo. No que faça de mau e de igual
ou semelhante, porém, não contem comigo para aplaudi-los. Isto não é um Benfica-Sporting,
é política, e a política esvazia-se quando perde de vista o país e as vidas que
todos queremos melhores. Nunca vi nada a mudar ao som de aplausos. O que se aplaude
fica sempre muito bem como está.
sábado, 13 de fevereiro de 2016
Gostei de ler: "Escravatura por dívida"
«A história conheceu e conhece
muitas circunstâncias em que, por não pagamento de uma dívida, uma pessoa
perdia a sua liberdade e ia preso ou, pior ainda, era reduzido a um estatuto de
escravatura, temporária ou definitiva. Estas práticas existiam na Grécia
antiga, com a sempre especial excepção de Atenas, onde Sólon as proibiu. E mais
ou menos espalhadas continuaram na Índia praticamente até aos nossos dias,
tendo conhecido formas variadas de trabalho forçado durante a expansão colonial
europeia. Hoje, uma das formas modernas de escravatura por dívida é praticada
pelos grupos mafiosos que exportam mão-de-obra e emigrantes para a Europa e
América e mulheres para redes de prostituição, retirando-lhes os documentos, em
nome da dívida que contraíram ou as suas famílias para "pagar" a
viagem e a entrada ilegal nos países mais ricos. Estamos a falar, como é óbvio,
de actividades criminosas, visto que a escravatura é um crime.
Ah!, afinal não é bem assim. Se
se tratar de um Estado soberano que tenha uma grande dívida, por exemplo,
Portugal, este pode ser obrigado, sob pena de morrer à fome ou de uma qualquer
forma de intervenção estrangeira mais ou menos agressiva que o transforme num
pária, como aconteceu na Grécia, a aceitar uma qualquer forma de escravatura
por dívida. Escravatura significa aqui deixar de ser um país democrático,
porque os seus habitantes deixam de poder votar como entenderem, ou então votam
sem consequência, porque as políticas que lhe são exigidas são sempre as mesmas
— trabalhar para pagar aos credores, sob a forma que os credores consideram ser
mais eficaz em função dos seus interesses. Escravatura significa aqui que um
país, Portugal, por exemplo, deixa de ser propriedade dos portugueses para o
ser dos credores, que definem os orçamentos, as políticas, até ao mais pequeno
pormenor, deixando apenas a intendência muito menor aos responsáveis locais.
Escravatura significa que esses países e povos que assinaram em desespero de
causa um contrato, seja um memorando, seja um tratado orçamental, um contrato
por dívida, ou outro, um contrato que obriga todas as políticas a servir a
dívida e o seu pagamento, não podem sequer escolher qualquer outro caminho para
pagar a dívida que não seja o de aceitarem a escravatura, senão partem-lhes as
pernas. Os credores controlam a "reputação" e a "confiança"
de um país, conforme ele cumpre os preceitos do bom escravo, e, caso haja
dúvidas sobre a sua obediência, tiram-lhe de imediato o ar.
Lembro-me disto quando ouço
justificar tudo o que acontece com a "bancarrota Sócrates". E tudo o
que nos acontece não é coisa de somenos, é aquilo que define a liberdade de um
país e de um povo, é a perda de democracia, a perda de autonomia dos
portugueses para se governarem, a redução das suas instituições como o
Parlamento à impotência, é o taxation without representation, é a humilhação
pública de governos através de fugas de informações de funcionários de
Bruxelas, é o desprezo e o deitar gasolina para a fogueira de pessoas como
Schäuble e, pior que tudo, é ver portugueses muito contentes com a submissão do
seu país. Percebe-se porquê: as políticas que nos são impostas são as deles,
identificam-se com elas e os interesses que representam (e representam muitos
interesses) sentem-se confortáveis com a escravatura que nos é imposta. Podem
não governar já hoje Portugal, mas governam-no a partir de Bruxelas, das
agências de rating e do senhor Schäuble. (...)
O contentamento mal escondido da
direita radical com as dificuldades do Governo Costa coloca-a com entusiasmo ao
lado da vozearia que vem de Bruxelas e Berlim, alguma de uma arrogância que
devia ofender já não digo um patriota, mas um português que gosta do seu país.
Responsáveis do Eurogrupo, altos funcionários sob a capa das fugas anónimas,
antigos e actuais ministros das Finanças europeus, holandeses, bálticos,
alemães, dão entrevistas pronunciando-se sobre um governo legítimo da União
Europeia com uma desenvoltura que nunca tiveram com os responsáveis políticos
húngaros e polacos, cujas malfeitorias em direitos e liberdades são-lhes
bastante menos importantes do que uma décima no défice português. E quando
alguém acha que todas estas vozes, falando também para as agências de rating e
para os "mercados", são demais, eles encolhem os ombros e dizem que
um país em bancarrota é escravo da dívida.
Não, não é só isso — é que eles
gostam do que ouvem, pena é que Schäuble não fale mais vezes para varrer este
Governo do Syriza português, mais o PCP e o BE. Pensam acaso que eles estão
muito preocupados com a dívida? Enganam--se. Tanto mais que a aumentaram
consideravelmente quando estiveram no poder e que em segredo sussurram que
"no fim de tudo tem de haver uma reestruturação da dívida". Não é a
dívida que os preocupa, é o poder político deles e dos seus e a prossecução de
uma política que faça recair sobre uma parte dos portugueses, aqueles a que se
tornou maldito restituir salários e pensões, o ónus do défice e da dívida e,
acima de tudo, que o alvo desses custos não sejam outros. A escravatura do país
é para eles bem-vinda, ajuda-os a manter o poder, "porque não há alternativa".
Conheço vários exemplos na história destes "não há alternativa" e
nenhum acabou bem.» - Pacheco Pereira, no Público.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Da longa série "o crime do milénio" (continuação)
Por maior que seja a
teatralização que a direita faça sobre o Orçamento, por mais incendiárias que
sejam as atoardas que sobre ele apareçam na imprensa que essa direita tem ao
seu serviço, por maior que seja o entusiasmo da esquerda que o é sobre o inegável sucesso que obteve na inversão
do caminho de injustiça social que conseguiu introduzir-lhe, bastará prestar
atenção a como decorreu a sessão
parlamentar de ontem para verificar que o que se discutiu não foi muito
mais do que diferenças de 0,1 e 0,2% do PIB e que o défice orçamental previsto
está abaixo e não acima quer do tecto de 3% do PIB imposto pelas regras do
euro, quer da melhor performance orçamental alguma vez conseguida pelo anterior
Governo.
Como tal, é um absurdo chamar
"brutal aumento de impostos" a uma pequena recomposição da estrutura
fiscal comprometida com o objectivo de introduzir alterações nas suas parcelas com
um significado enorme, entre outros, sobre a vida das pessoas, sem contudo alterar
significativamente o total arrecadado.
E
é um absurdo ainda maior dizer que a austeridade acabou ou que foi
sequer aliviada porque, olhando para o país como um todo e não para as parcelas que o compõem, a
austeridade em 2016 será ainda maior do que a de 2015. Se o que nos andaram a
dizer ao longo de todos estes anos sobre a predilecção que os mercados têm pela
austeridade se mantiver, se for verdade que esses mercados que tudo sabem, e
com toda a certeza também sabem o que se lê atrás, se acalmam quando a austeridade aumenta, os juros da
dívida portuguesa deveriam estar a descer e não a subir, como se lê na notícia-delícia
do dia da direita e dos seus corneteiros da comunicação social.
Ao contrário do que a imaginação
destas criaturas possa vomitar sobre as consequências de um Orçamento que, sim
ou sim, será de austeridade, o que esta escalada de juros demonstra mais uma
vez é a dimensão da patranha que andaram a vender aos portugueses com o objectivo de convencer
a opinião pública a aceitar uma agenda de reconfiguração social que enriqueceu
uma pequena minoria empobrecendo todos os demais.
Os senhores de Berlim e de Bruxelas
bem podem vir agora exigir
ainda mais austeridade, como se lê na outra notícia que complementa a delícia
destes patriotas. De uma vez por todas, esta Europa é uma mentira enquanto projecto
de desenvolvimento económico e social, este euro é um instrumento de dominação que
nos transforma numa colónia que deverá eternamente obediência ao império da grande finança, o Tratado Orçamental
é um instrumento de subjugação arquitectado à medida da nossa escravização (ler
aqui)
e quem diga ou defenda o contrário um dia será julgado por ter colaborado com toda
esta monstruosidade. E sim, o tempo irá encarregar-se de demonstrar como tudo isto
a que hoje assistimos foi o crime do milénio.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
Gostei de ler: "Deste lado do muro"
«São milhares. Colados a vedações
de rede, de arame farpado. Olhar fixo. Onde? Nem eles sabem. Seguramente, num
local distante do barulho de bombas, de estilhaços, onde possam caminhar na
rua. Com algum sossego. Para trás, ficou a casa, ficou tudo. Uma cidade
bombardeada, uma guerra absurda, onde não há bons, só há maus.
Deste lado muro, do ponto fixo
para onde eles miram, são olhados com indiferença. Não os querem. Há dinheiro
para os deter, não para os acolher. Na Turquia, o lugar onde se encontra o
arame farpado a que eles se encostam em desespero, ninguém sabe o que fazer.
Milhões de refugiados sírios atravessaram a fronteira. Muitos ficaram. E as
autoridades turcas, com dois milhões no seu território, dizem não ter
capacidade para receber nem mais um. Mulheres. Crianças, algumas sem mãe, sem
pai, sem ninguém.
Acabam nas fábricas, a fazer
trabalho escravo para as marcas que enchem de glamour as low-cost as cidades da
almejada Europa. Trabalho escravo, infâncias perdidas. Melhor, dir-se-á, do que
viver sob a ameaça das bombas, a toda a hora. Menos duro do que a fome em cidades
sitiadas. O horror à porta da Europa.
E a Europa, a fazer de conta, não
vê. A ajuda humanitária resume-se a dar dinheiro aos países-tampão para travar
o passo aos fugidos da guerra, aos acossados da fome. Ontem, mais 35
desesperados perderam a vida nas águas do Mediterrâneo.
Estamos perante uma realidade que
acorda velhos fantasmas, medos, ódios que pareciam extintos. Os violadores são
agora refugiados sírios, e os terroristas, sim, também eles são refugiados,
pensa o comum cidadão europeu.
E bastou António Costa
disponibilizar, junto de Angela Merkel, 2000 vagas nas universidades
portuguesas destinadas a acolher refugiados, para um coro de vozes, que pululam
demagógicas pelas redes sociais, se insurgir contra a solidariedade manifestada
pelo primeiro-ministro. Alguém ouviu essa gente contestar a possibilidade de
esses mesmos refugiados virem trabalhar para a agricultura? Trabalho de pobre,
adequado portanto. Estudar para doutor, nem pensar. Vão mas é para a terra
deles. Convém lembrar a essa gente: a terra deles não existe, foi destruída
pelas bombas.» – Paula Ferreira, no JN.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Então e a dívida, pá?
A série de barbaridades sobre o
Orçamento de Estado para 2016 soma e segue em toda a comunicação social, num registo de confronto de facções
que reduz o debate a um simples "o meu Orçamento é melhor do que o
teu". Simples mas nada ingénuo, refira-se. Senão reparemos no elemento que
transforma este antagonismo aparente num consenso absoluto, os mais de oito mil
milhões de euros do serviço da dívida pública, os mais de 800 euros por
cabeça que custam anualmente os juros dessa dívida, os pormaiores de um debate moldado
no pressuposto de ser possível pagá-la, conduzido para nos porem a dizer que
preferimos que seja o vizinho a pagar com o corte no seu salário ou na sua
reforma o que nós não queremos pagar
quando abastecemos o carro ou compramos cigarros e para nos porem a defender um
Estado mínimo sem Saúde nem Educação, onde cada um as tem e se vai safando em
função das suas posses. Podíamos estar a discutir a renegociação da nossa
dívida, devíamos preferir que fosse quem continua a não pagar impostos a pagar
aquilo que nós e o vizinho pagamos, podíamos e devíamos rejeitar continuar a
pagar o banco seguinte e a actualização constante das rendas garantidas da
energia e das PPP, caber-nos-ia exigirmos trabalho e salários dignos para
todos, mas para isso teríamos que ser a comunidade que deixámos de ser e saber ficar
de fora desta conflitualidade alimentada para nos pôr uns contra os outros a consumir
a energia que devíamos canalizar contra aqueles que vão enriquecendo à margem destas
algazarras fratricidas, das quais saímos sempre a perder. Temos que aprender a dizer
"eu não quero ser eu, nem quero que seja o meu vizinho a pagar, não quero que
paguemos nada nem com cortes de salários e de pensões nem com impostos indirectos
enquanto os donos disto tudo não forem obrigados a pagar também, não aceitamos que
uns senhores que não elegemos decidam o nosso presente e o nosso futuro em Bruxelas,
devolvam-nos aquele país que começámos a reconstruir em 1974 e deixámos desbaratar
pela nossa inconsciência colectiva".
domingo, 7 de fevereiro de 2016
Nem de esquerda, nem de direita, antes pelo contrário
Às vezes, o centro é a pior das
escolhas. Apanha-se de um lado e apanha-se do outro. Até cair. A História está
repleta de exemplos do erro que muitas vezes é querer agradar a gregos e a
troianos. Acaba por não se agradar a ninguém. Foi o que aconteceu no Brasil no
final do século XIX. A monarquia caiu depois de abolir a escravatura. Os donos
de engenhos e os fazendeiros agrícolas não perdoaram à coroa ter-lhes retirado
o direito de propriedade que tinham sobre os seus escravos. Os escravos e os
movimentos abolicionistas não perdoaram à coroa não ter tomado as medidas
necessárias para evitar que os escravos libertados continuassem escravos da
falta de direitos para garantirem o seu sustento.
Sem querer abusar da comparação e
borrifando-me na popularidade que sempre se perde quando se nada contra a corrente,
o certo é que os acontecimentos dos últimos dias me puseram a recordar a
conjugação de descontentamentos que estão na génese da proclamação da República
no Brasil no ano imediatamente a seguir ao da Lei Áurea que aboliu a
escravatura. É verdade que, entre outros esforços bastante louváveis, ao repor
algum poder de compra aos salários e ao
aliviar a sobretaxa de IRS, o Orçamento de Estado deste ano traduz um esforço
de inversão do sempre a perder dos últimos sete anos. Porém, também é verdade
que a carga fiscal irá aumentar e que muita dessa recuperação do poder de
compra se irá diluir no aumento de preços
sua consequência, que o investimento público é insuficiente, que haverá
cortes na Educação, que a Saúde não receberá nada que se compare com a injecção
que o BANIF recebeu nos últimos dias de 2015 para substituir e reparar os
equipamentos inutilizados nos anos negros de um desinvestimento que se mantém e
que, à excepção do IMI dos fundos imobiliários, os muito ricos e as grandes
empresas permanecerão à margem de qualquer contribuição.
Costa também escolheu aquele centro
onde, porque não se agrada o suficiente a ninguém, se leva porrada de todos os lados. Tem contra
si uma comunicação social que nem se dá
ao trabalho de esconder o seu apoio à linha de subserviência a Bruxelas do seu
antecessor. E ainda se põe a jeito ao viabilizar um negócio ruinoso, o
da privatização da TAP, que seria sempre nulo por ter sido firmado por um
Governo em gestão. A austeridade continua, as injecções de dinheiro público em
bancos falidos também, os negócios em que o Estado perde
sempre para um privado também. Para
a grande maioria vai ser complicado sentir no bolso as diferenças entre 2015 e
2016, se é que não o será igualmente relativamente a 2008, há uma criseinternacional por aí a bater à porta. Costa tinha tudo para virar em definitivo
uma página negra da nossa História. É uma lástima ir verificando como vai
deitando tudo a perder.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Gostei de ler: "A quadratura do círculo venceu?"
«Triunfo de António Costa, depois
de últimas horas de negociações difíceis, dizem agora alguns jornais (mesmo
naqueles onde se escrevia que o Orçamento era uma geringonça e que a Comissão
ia varrer esta tropa fandanga à bordoada, como ela sem dúvida merece,
acrescentavam). Os corajosos porradistas foram-se desvanecendo à medida que os
porta-vozes de Bruxelas iam amenizando o tom, e acabaram mesmo a comunicar
altivamente que, “a bem da Pátria”, preferem ficar calados. Bruxelas reserva
entretanto – e majestaticamente – a decisão de aceitar o Orçamento que só por
regra de abuso institucional é sujeito à sua consideração. Até os juros
desceram. Tudo termina como tinha que terminar.
Do que se conhece do Orçamento,
ele cumpre as regras mínimas dos compromissos que sustentam o governo (redução
da sobretaxa, aumento do salário mínimo, devolução dos salários da função
pública, descongelamento de pensões) e vai mesmo mais longe (extensão da tarifa
social da energia) e não agrava impostos sobre o trabalho. Introduz uma
excelente novidade: o fim da isenção em IMI para os fundos financeiros
imobiliários, que o PS não tinha aceite na negociação anterior dos acordos de
governo e a que agora se resigna. Tem um aumento dos impostos sobre gasolina e
outros produtos, com impacto nos custos dos transportes e portanto na vida das
pessoas, mesmo que em escala incomparável com os aumentos recentes do IRS, e
mantém o aperto orçamental, uma política restritiva. É uma viragem e uma
viragem visível, demonstra que podem ser aplicados critérios diferentes dos da
austeridade contra os trabalhadores e os pensionistas. Mesmo que seja somente o
início de uma viragem, mesmo que falte uma política social contra a pobreza, em
particular dos pensionistas, e uma política de investimento para o emprego, é
mesmo uma viragem. De facto, faltam recursos a este Orçamento para responder de
forma completa ao seu compromisso com o país, mas percebe-se a vontade de
forçar uma nova via.
A mudança de agulha foi portanto
saudada e é uma vitória para o governo e para os partidos que negociaram o
Orçamento. Estou certo de que uns e outros têm também a percepção clara de duas
limitações. A primeira é que a execução orçamental será muito difícil,
sobretudo se factores externos, como a bolha financeira internacional ou
simplesmente a pressão política das agências de notação, prejudicarem o
contexto da economia portuguesa. Se assim for, a Comissão Europeia, que agora
foi forçada a ceder, voltará nos próximos meses à carga exigindo mais medidas
para uma austeridade como a que aprecia. Vai haver conflito ainda antes do
Verão.
A segunda limitação é que este
orçamento não tem dinheiro. Portugal só terá recursos para políticas
sustentáveis de recuperação económica quando abater o custo da sua dívida
externa, pública e privada. Não existiu nem vai existir outro caminho.
Entretanto, só pode escolher entre austeridade (Passos Coelho e Portas) e
contenção e pequenos aumentos da procura (o governo actual). A escolha nem é
indiferente nem é pequena. Pelo contrário, é significativa. Mas não basta,
porque não há emprego sem investimento e reconversão da estrutura produtiva.
Portanto, Costa ganhou. Mostrou
que podia fazer frente à Comissão, mesmo que a solução fosse previsível.
Mostrou que os cortes nas pensões e salários não são o destino que nos foi
reservado pelos céus. Mas é melhor que saiba também, e sabe, que está ainda no
fio da navalha e que as decisões maiores para o futuro de Portugal ainda não foram
tomadas, mesmo que sejam urgentes. A quadratura do círculo nunca se consegue, a
não ser em jogos geométricos que não são da nossa vida.» Francisco Louçã, no TME.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
"Europeísmo", ou lá o que é
"Moscovici aprova novo
esboço do OE para 2016". O título é capaz de suscitar alívio a quem se
abstraia do facto do tal Moscovici ser um ente estranho à democracia da
república soberana que ainda somos e, com alguma certeza, de incendiar o
triunfalismo de facção entre aquelas três que disputam o poder de comandar as
operações com vista a agradar a estes todo-poderosos que se colocam entre o
povo que somos e o futuro que deixámos de poder escolher, escolhem-no eles.
Lendo a
notícia, porém, sem ler a
seguinte, e não perdendo de vista que no ano que vem e em todos os
seguintes teremos pela frente a mesma prepotência, que se ofende porque o
Governo português teve a ousadia de não os consultar previamente sobre o que
inscrever no esboço de orçamento e que se atreve a dizer que lhe dá luz verde
por já ter sido alcançado o seu objectivo de "efeito puxão de
orelhas" sobre Espanha e sobre Itália, esse alívio e esse triunfalismo
diluem-se na percepção que todo este processo deve deixar sobre o sarilho em
que estaremos metidos enquanto pertencermos a uma Europa onde apenas nos cabe
obedecer, com regras diferenciadas e aleatórias, flexíveis para países grandes
e ricos e rígidas para países pequenos e pobres. Aos mais distraídos,
recordo-os que nunca ninguém foi capaz de adiantar uma base científica para o
tecto de 3% do PIB que quem manda e quem lhes obedece e nos representa aceitam
como a regra das regras a seguir, como tal, a seguir porque sim, porque eles
mandam e nós obedecemos. Aos mais atentos, deixo-lhes os links para dois textos
que os convido a ler. O primeiro foi escrito por Francisco Louçã e é sobre o
conceito de "défice estrutural", a fantasia mais badalada nas
notícias depois da eleição de Marcelo Rebelo de Sousa. O segundo foi escrito
por João Ramos de Almeida e é sobre a justiça fiscal que jamais poderemos
decidir para nós enquanto pertencermos a esta Europa das obediências e dos
caprichos prepotentes. Já vai sendo tempo de termos a coragem de conceber um
plano B que nos devolva o direito a ter presente e a construir um futuro melhor
para todos.
«(...) O “défice estrutural” é um animal
curioso que merece ser fotografado. A receita é assim: tome o défice real (o
saldo do Orçamento em proporção do produto interno bruto da economia) e
retire-lhe o efeito cíclico e mais as medidas temporárias. E tem o défice
“estrutural” pronto para servir à mesa.
Tem mesmo? Não tem. Falta ainda um
ingrediente. É que o défice “estrutural” não é o défice real, menos ciclo e
medidas temporárias, comparado com o PIB verdadeiro. As variações do défice
“estrutural” são comparadas com o PIB “potencial”, ou seja, o PIB que se
registaria, mas não se pode registar porque não existe, se toda a economia
estivesse a utilizar toda a sua capacidade produtiva, ou seja, todas as
máquinas e capital mas também todo o trabalho, ou seja, o desemprego acabou – e
depois o utópico sou eu. Martin Wolf, um dos analistas do Financial Times,
publicou recentemente um livro que lembra como o FMI alterou os seus cálculos
sobre o PIB “potencial” da Irlanda e da Espanha em poucos anos, num dos casos
em nada menos que 4%. Pode ser uma coisa e pode ser o seu contrário, este
cálculo é uma conveniência.
Qual então é o efeito de considerar este
valor fantasioso, que aliás não se pode calcular de nenhum modo inquestionável
e objectivo? É simplesmente aumentar a conta. Assim, se houver uma regra que
diz que o défice “estrutural” deve ser reduzido em 2%, então trata-se de um
corte de 2% sobre um PIB potencial que é maior do que o real. Portanto o corte
tem que ser maior em termos absolutos do que o que seria necessário para
reduzir o peso do défice real sobre o PIB real em 2%. Em situação de restrição
orçamental e sobretudo em situação de recessão prolongada, adoptar o critério
do PIB “potencial” é o mesmo que uma
máquina para impor privatizações e degradação de despesa em serviços públicos
essenciais. continuar
a ler)» - Francisco Louçã.
«(...) Tem passado sem muito alarde na
comunicação social, a denúncia feita pelo anterior director-geral da Autoridade
Tributária, Azevedo Pereira, de que há uma meia dúzia de família de muito ricos
que não pagam os impostos devidos - pagam 0,5% do IRS cobrado quando deviam
pagar 25% (aqui). E
isso acontece porque têm "acesso aos decisores políticos que fazem as
leis", que influenciam a sua feitura e que criam alçapões que permitem a
fuga aos impostos destas famílias.
Essa
fuga não é novidade: as estatísticas têm demonstrado ao longo de duas décadas
que o IRS é pago significativamente por pensionistas e assalariados
(actualmente vai em 90%), o que não é crível que seja essa a distribuição do
rendimento em Portugal. E nada tem acontecido, apesar de reformas fiscais
parciais e parcelares. Fazem-se notícias, crónicas, mas nunca é um
escândalo na comunicação social. Tudo passa sossegadamente, como uma pedra no
lago.
Houve já diversas propostas que tentaram
quebrar este ciclo de injustiça, mas que nunca tiveram força política - e
partidária - para ser sequer discutidas. Relembro as propostas de Miguel
Cadilhe e de Octávio
Teixeira, no sentido de tributar o património financeiro. Alguém se lembra
disto? Não, apenas se fala de património imobiliário porque, na sua maioria, é
pago pelos mesmos e em que os
mais ricos escapam a essa tributação em IMI.
Não é
uma questão ideológica: é apenas dinheiro. Esta realidade parece ser fruto de
um único pensamento: "Como é que nos safamos de pagar impostos e
continuarmos ricos na mesma?" Só depois é que vêm as justificações:
"No fundo, os ricos são quem cria valor na sociedade; sem eles não haveria
empresas nem empregos". E só finalmente vêm as consequências omitidas
deste raciocínio: "Devemos é colocar aqueles que são os beneficiários do
Estado" - ou seja, da redistribuição da riqueza - "a pagar para o
bolo que vai ser redistribuído entre eles". Este é o verdadeiro sentido da
austeridade, da política de austeridade.» - João
Ramos de Almeida.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Corrupção é isto e só isto, o resto é conversa fiada
Porque vejo por aí muita gente a chamar
corruptos e a falar em corrupção a pessoas e a actos que não o são, aqui deixo esta pequena definição que, se bem assimilada, espero eu, os ajude a canalizar para as
escolhas políticas que se recusam a fazer o que vão empurrando para os tribunais,
os quais, felizmente para todos nós, não podem definir corrupção ao sabor das marés
ou em função da cobardia que se esconde atrás deparolices cheias de "corruptos"
e de "corrupção".
Apenas se pode falar em corrupção
quando uma pessoa, que ocupa uma posição dominante, aceita receber uma vantagem
indevida em troca da prestação de um serviço. O Código Penal português prevê o
crime de corrupção no quadro do exercício de funções públicas (artigos 372.º a
374.º-A), embora a corrupção possa existir nos mais diversos sectores de actividade.
O crime de corrupção implica sempre
a conjugação dos seguintes elementos, ou então não é corrupção:
– Uma acção ou
omissão
– A prática de
um ato lícito ou ilícito
– A
contrapartida de uma vantagem indevida Para o próprio ou para terceiro
A corrupção pode ser activa ou
passiva, dependendo se a acção ou omissão for praticada pela pessoa que corrompe
ou pela pessoa que se deixa corromper. Assim, quando alguém entrega dinheiro em
troca de um favor, pratica um crime de corrupção activa. Quando alguém recebe
dinheiro para cumprir ou omitir certos actos, pratica o crime de corrupção
passiva.
Por outro lado, fala-se de
corrupção pública activa quando uma pessoa directamente ou através de outra
pessoa, para si ou para outra pessoa, faz uma oferta, promessa ou propõe um
benefício de qualquer natureza, a um funcionário público para que este cumpra
ou se abstenha de cumprir um determinado ato. E fala-se de corrupção pública
passiva quando um funcionário público pede, aceita ou recebe, directamente ou
através de outra pessoa, para si ou para outra pessoa, oferta, promessa ou
benefício de qualquer natureza para cumprir ou se abster de cumprir um
determinado ato.
Finalmente, a corrupção será para
ato lícito se o ato ou omissão não for contrário aos deveres de quem é
corrompido, caso haja violação desses deveres, então trata-se de corrupção para
ato ilícito.
O elemento determinante no crime
de corrupção é o elo de ligação entre aquilo que é prometido ou entregue e o
objectivo que se pretende alcançar, a saber a adopção de um determinado
comportamento. Existe corrupção, mesmo que o ato (ou a sua ausência), seja ou
não legítimo no quadro das funções desempenhadas pelo interessado, não se tenha
realizado. Da mesma forma existe corrupção qualquer que seja a natureza ou o
valor do benefício. O ato unilateral de oferecer, dar, solicitar ou receber uma
vantagem é suficiente para existir corrupção. O acordo entre as partes
constitui uma circunstância agravante do crime.
Gostei de ler: "Miguel Relvas, diz-lhe alguma coisa?"
«Banco Efisa, diz-lhe alguma coisa? Era o antigo banco de
investimentos do BPN e que está parado desde 2009. Está longe de ser um banco
relevante no sistema, mas tem uma mais-valia: uma licença bancária para operar
em Portugal, Moçambique, Angola e na América Latina, que foi mantida à custa da
injeção de dinheiros públicos, cerca de 52 milhões desde 2014.
Em julho de 2015, já depois de ter vendido o BPN, o Estado
decide vender também o Banco Efisa, que até aí se encontrava dentro da
Parvalorem, o veículo criado para gerir os restos do BPN. O Efisa é assim
entregue à Pivot por 38 milhões de euros.
Na altura pouco se sabia da Pivot, a não ser que congregava
investidores angolanos, norte-americanos e portugueses. Ficámos, no entanto, na
semana passada, a conhecer um pouco mais desta história.
Miguel Relvas, diz-lhe alguma coisa? Foi secretário de
Estado da Administração Local em 2004, altura em que ajudou a Tecnoforma - em
que esteve Passos Coelho como administrador - a montar a fraude dos aeródromos.
Mais tarde tornou-se número dois do primeiro-ministro Passos, e ministro dos
Assuntos Parlamentares até abril de 2013.
Miguel Relvas já tinha sido consultor do banco de
investimento do BPN antes da nacionalização. Na altura, o deputado e
administrador da Kapaconsult (que tinha como único cliente o Efisa) era crucial
para abrir as portas da política e dos negócios no Brasil .
Em 2012, foi o seu Governo a nomear Francisco Nogueira
Leite, ex-administrador da Tecnoforma com Passos Coelho, para presidente da
Parvalorem. Para além de chamar outros quadros próximos da Tecnoforma, Nogueira
Leite manteve homens da confiança de Oliveira e Costa em lugares críticos da
empresa. E foi ele, enquanto responsável máximo da Parvalorem, a conduzir a
venda do Efisa à Pivot em 2015.
Já fora do Governo, é Miguel Relvas quem aparece, mais uma
vez, a prestar serviços de consultoria à Pivot. Mas na semana passada o
consultor Relvas foi promovido a acionista, e pede agora ao Banco de Portugal
que ateste a sua idoneidade para ser dono de um banco, o Efisa.
Miguel Relvas e idoneidade, uma contradição nos termos capaz
de arrancar uma boa gargalhada a qualquer um se não corresse o risco de vir
mesmo a ser declarada.» – Mariana Mortágua, no JN.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
A situação que o país atravessa/atravessava (riscar o que não interessa)
A "situação que o país atravessa"
e essas coisas. Na ressaca laranja, pouco depois de sabermos que o anterior Governo
vendia como definitivos em Bruxelas os cortes salariais na função pública que porcá andava a vender como transitórios, ficamos
a saber que, por decisão do mesmo Governo poucos dias antes de deixar de o ser,
a remuneração mensal do presidente da Autoridade Nacional de Aviação Civil
(ANAC) subiu de 6030 euros para 16075, a do vice-presidente de 5499 euros para
14468 e a da vogal de 5141 euros para 12860. Atrás lê-se "a situação que o
país atravessa". Tal como a reversão do negócio ruinoso da venda da TAP, nulo
por força da legitimidade que um Governo que deu asas ao nosso dinheiro, então já
em gestão, não tinha para assinar, caberá ao actual Governo corrigir o tempo verbal
para "a situação que o país atravessava". De nada serve andar eternamente a compilar
os podres de um Governo que, mesmo sem esse espólio, seria sempre o pior Governo
da nossa História recente. A obrigação de um Governo – deste ou de outro
qualquer – que queira realmente fazer diferente é fazer aterrar o dinheiro que
os malfeitores que o antecederam puseram a voar. O poder para decidi-lo tem-no todo.
Que tenha também a vontade.
Vagamente relacionado: As dívidas do empresário José Guilherme ao Novo
Banco foram reestruturadas. O empresário, que “ofereceu” um presente de €14
milhões a Ricardo Salgado quando este liderava o então BES, chegou a ter
empréstimos superiores a €200 milhões junto daquela instituição. José Guilherme
terá pago uma parte destes créditos e nas respostas que enviou, no início do
ano passado, à Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BES admitiu que devia
cerca de €121 milhões. O Expresso
apurou que as dívidas do empresário foram agora reestruturadas num processo de
resolução dos problemas que a herança da anterior gestão deixou no banco. Este
é apenas um dos processos muito complicados que Eduardo Stock da Cunha tem para
resolver no Novo Banco. Quase todos com as mesmas características. Uma fonte da
instituição disse ao Expresso que são vários os casos de créditos avultados que
estão em incumprimento e que não têm qualquer garantia. Em alguns, inclusive,
existem apenas avais pessoais que são extremamente difíceis de cobrar. Seja
pela lentidão do sistema judicial, seja pelo simples facto de os devedores não
terem bens em seu nome que possam responder pela dívida.
domingo, 31 de janeiro de 2016
Gostei de ler: "O feminismo favorito dos machistas"
«No tempo de antena de Maria de
Belém, alguém lhe pergunta se há “uma forma feminina de encarar a política”. A
candidata responde: “A engª. Maria de Lurdes Pintasilgo costumava dizer que
sim. Dizia que a importância da entrada das mulheres na política era para
acrescentar alguma coisa.” Estamos perante uma espécie de feminismo em segunda
mão, do qual devemos desconfiar. Tenho sérias dúvidas de que Pintasilgo tenha
dito aquela frase – que é, aliás, bastante canhestra. E quero acreditar que
responderia de outro modo a perguntas sobre a “forma feminina de encarar a
política”. Como feminista, considero o seguinte: a importância da entrada das
mulheres na política reside no facto de as mulheres terem tanto direito a estar
na política como os homens. Não é relevante se acrescentam, retiram ou deixam
tudo na mesma. Têm o mesmo direito, e é tudo. Qual é a importância da entrada
dos negros na política? A mesma. Têm esse direito. No entanto, creio que toda a
gente teria achado absurdo que alguém perguntasse a Barack Obama se havia uma
forma negra de encarar a política. Assim como não se pergunta a Donald Trump se
há uma forma alaranjada de encarar a política. Trump, bem como qualquer outra
pessoa cor-de-laranja, tem o direito de participar na vida política.
A ideia de que “as mulheres
acrescentam” é, por isso, um pouco perigosa. Primeiro, porque parece ser sempre
formulada por quem acha que o argumento da igualdade de direitos não é
suficiente. Daí sugerirem que as mulheres devem entrar na política porque são
diferentes (para melhor, claro) dos homens. É uma ideia paternalista que a
realidade, felizmente, se encarrega de desmentir. Não vejo grandes diferenças
entre a governação de Margaret Thatcher, Angela Merkel, Fátima Felgueiras ou
Dilma Rousseff e a de vários políticos do sexo masculino. Em segundo lugar, em
que medida é que enunciar a expressão “as mulheres são”, seguida de um
adjectivo agradável, é menos preconceituoso do que dizer “os negros são” e
acrescentar um adjectivo desagradável?
Noutra entrevista, Maria de Belém disse:
“Nunca tive complexos com a minha altura, porque sempre tive muitos
pretendentes”. A ex-ministra para a Igualdade é tão feminista como o meu tio
Alfredo. Para o meu tio Alfredo, a medida dos complexos de uma mulher também é
o interesse que ela desperta nos homens. Para ele, também é natural que uma
mulher que não tenha muitos pretendentes seja complexada em relação à sua
altura. Creio que, mais uma vez, fica comprovado que “as mulheres” são um grupo
bastante heterogéneo, e que algumas, tal como alguns homens, não acrescentam
nada de novo. Mas têm o mesmo direito a participar na vida política.» – Ricardo
Araújo Pereira, na Visão.
sábado, 30 de janeiro de 2016
À mesa do café
Alguns de nós escolhem o projecto
político que apoiam de acordo com o que for defendendo o partido ou o líder
político da sua devoção. Outros escolhem o partido e o líder político que apoiam segundo o critério da proximidade
e da interpretação da defesa do projecto
político que defendem previamente. Isto parece um mero jogo de palavras mas
está muito longe de o ser.
É muito diferente aquele que
consegue defender um Orçamento que não reverte o desinvestimento na Saúde que
vamos rapidamente deixando de ter apenas por ser um Orçamento PS e aquele que
repara que sem o investimento necessário para repor os equipamentos do SNS que
se avariaram e não foram nem reparados nem substituídos durante a década negra da austeridade um dia destes
acabará obrigado a ajudar a enriquecer uma seguradora privada se quiser
assegurar minimamente o seu, e apenas o seu, direito à Saúde.
E são em tudo iguais a forma de
pensar daquele que aceita como mudança significativa uma ligeira recomposição
da carga fiscal que continua a abusar dos rendimentos do trabalho por não haver
vontade política de pôr a pagar quem nunca contribuiu e a forma de pensar daquele
que critica a "irresponsabilidade" de arrecadar na bomba de gasolina e na subida dos preços de todos os bens que
repercutem o aumento do imposto sobre combustíveis os milhões para pagar juros
que antes eram arrecadados através de uma sobretaxa e de cortes salariais
inconstitucionais que se mantêm, que agora podiam sê-lo englobando a
distribuição de lucros e proveitos financeiros nos rendimentos tributados em
sede de IRS.
Fui-me lembrando disto à medida
que ia ouvindo a animada discussão que acontecia na mesa de café mesmo ao lado
da minha em torno da notícia
do DN de hoje sobre a chegada limpa da equipa da troika que veio a Lisboa
exigir cortes nas nossas vidas de valor equivalente ao da injecção de vida que
foi dada ao BANIF no final de Dezembro para capitalizar o Santander que o
comprou ao preço da uva mijona.
Um dos amigos defendia o Governo
que permitiu deixar crescer o monstro. O outro defendia o Governo que cometeu a
monstruosidade de engordá-lo ainda mais. Discutiam apesar de, e sobre isso não me ficou nenhuma dúvida, estarem
de acordo sobre a obediência que devemos a uma Europa que, numa semana, ordena que
se descubram 2 mil milhões de dinheiro que alegadamente não há para serem oferecidos
a quem sempre tem que ganhar e, apenas um par de semanas depois, ordena que esse
valor seja extorquido a quem sempre tem que perder. O motivo da discussão era tão-somente
o do nome do capataz preferido para espremer cada um destes dois amigos dos amigos
do alheio.
A seguir o tema da conversa mudou
para o futebol. O meu Benfica é melhor do que o teu Sporting, o meu Sporting é melhor
do que o teu Benfica. Os argumentos não mudaram nadinha. Convenceram-me. O Bayern Munich ganhou-lhes também a segunda discussão. É a vida.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Gostei de ler: "Santander et al"
«O Santander divulgou ontem,
quarta-feira, os resultados
de 2015. O interessante é que reconheceu, só em 2015, ganhos com a compra
do Banif de 283 milhões de euros (vide página 18 deste relatório). Ou seja,
para o Santander a posição que adquiriu por 150 milhões às 23:30h de 20 de
Dezembro de 2015 valia, no final do dia 31 de Dezembro de 2015, 433 milhões de
euros. Um retorno líquido de +188,7%, em 11 dias “de trabalho”, ou o
equivalente a uma taxa de 10,1% ao dia (foi mais elevada porque o Santander de
certeza não transferiu os 150 milhões de euros no dia 20/12).
Nada mau. A taxa anualizada é
astronómica, 189 seguido de 15 zeros e do sinal de percentagem. Devem ter
existido no mundo, em 2015, poucas taxas de retorno comparáveis a esta (para o
montante em questão) e, por conseguinte, o Santander é certamente dos
recordistas, se calhar a par de alguns especuladores no franco suíço ou no
rublo russo – mas, evidentemente, teve ajudas….
Claro que o Santander estará a
ser modesto: os ganhos com a compra do Banif são, provavelmente, muito
superiores ao declarado. O banco irá reconhecer, ao longo dos próximos anos, as
mais-valias resultantes desta compra do Banif, mas já misturadas com o resto do
negócio do banco. Por conseguinte, parece-me que o Santander é um sério
contendente a uma inscrição no Livro Guinness dos Recordes do ano de 2015.(...)»
– Ricardo Cabral, no TME.
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