segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Então e a dívida, pá?
A série de barbaridades sobre o
Orçamento de Estado para 2016 soma e segue em toda a comunicação social, num registo de confronto de facções
que reduz o debate a um simples "o meu Orçamento é melhor do que o
teu". Simples mas nada ingénuo, refira-se. Senão reparemos no elemento que
transforma este antagonismo aparente num consenso absoluto, os mais de oito mil
milhões de euros do serviço da dívida pública, os mais de 800 euros por
cabeça que custam anualmente os juros dessa dívida, os pormaiores de um debate moldado
no pressuposto de ser possível pagá-la, conduzido para nos porem a dizer que
preferimos que seja o vizinho a pagar com o corte no seu salário ou na sua
reforma o que nós não queremos pagar
quando abastecemos o carro ou compramos cigarros e para nos porem a defender um
Estado mínimo sem Saúde nem Educação, onde cada um as tem e se vai safando em
função das suas posses. Podíamos estar a discutir a renegociação da nossa
dívida, devíamos preferir que fosse quem continua a não pagar impostos a pagar
aquilo que nós e o vizinho pagamos, podíamos e devíamos rejeitar continuar a
pagar o banco seguinte e a actualização constante das rendas garantidas da
energia e das PPP, caber-nos-ia exigirmos trabalho e salários dignos para
todos, mas para isso teríamos que ser a comunidade que deixámos de ser e saber ficar
de fora desta conflitualidade alimentada para nos pôr uns contra os outros a consumir
a energia que devíamos canalizar contra aqueles que vão enriquecendo à margem destas
algazarras fratricidas, das quais saímos sempre a perder. Temos que aprender a dizer
"eu não quero ser eu, nem quero que seja o meu vizinho a pagar, não quero que
paguemos nada nem com cortes de salários e de pensões nem com impostos indirectos
enquanto os donos disto tudo não forem obrigados a pagar também, não aceitamos que
uns senhores que não elegemos decidam o nosso presente e o nosso futuro em Bruxelas,
devolvam-nos aquele país que começámos a reconstruir em 1974 e deixámos desbaratar
pela nossa inconsciência colectiva".
domingo, 7 de fevereiro de 2016
Nem de esquerda, nem de direita, antes pelo contrário
Às vezes, o centro é a pior das
escolhas. Apanha-se de um lado e apanha-se do outro. Até cair. A História está
repleta de exemplos do erro que muitas vezes é querer agradar a gregos e a
troianos. Acaba por não se agradar a ninguém. Foi o que aconteceu no Brasil no
final do século XIX. A monarquia caiu depois de abolir a escravatura. Os donos
de engenhos e os fazendeiros agrícolas não perdoaram à coroa ter-lhes retirado
o direito de propriedade que tinham sobre os seus escravos. Os escravos e os
movimentos abolicionistas não perdoaram à coroa não ter tomado as medidas
necessárias para evitar que os escravos libertados continuassem escravos da
falta de direitos para garantirem o seu sustento.
Sem querer abusar da comparação e
borrifando-me na popularidade que sempre se perde quando se nada contra a corrente,
o certo é que os acontecimentos dos últimos dias me puseram a recordar a
conjugação de descontentamentos que estão na génese da proclamação da República
no Brasil no ano imediatamente a seguir ao da Lei Áurea que aboliu a
escravatura. É verdade que, entre outros esforços bastante louváveis, ao repor
algum poder de compra aos salários e ao
aliviar a sobretaxa de IRS, o Orçamento de Estado deste ano traduz um esforço
de inversão do sempre a perder dos últimos sete anos. Porém, também é verdade
que a carga fiscal irá aumentar e que muita dessa recuperação do poder de
compra se irá diluir no aumento de preços
sua consequência, que o investimento público é insuficiente, que haverá
cortes na Educação, que a Saúde não receberá nada que se compare com a injecção
que o BANIF recebeu nos últimos dias de 2015 para substituir e reparar os
equipamentos inutilizados nos anos negros de um desinvestimento que se mantém e
que, à excepção do IMI dos fundos imobiliários, os muito ricos e as grandes
empresas permanecerão à margem de qualquer contribuição.
Costa também escolheu aquele centro
onde, porque não se agrada o suficiente a ninguém, se leva porrada de todos os lados. Tem contra
si uma comunicação social que nem se dá
ao trabalho de esconder o seu apoio à linha de subserviência a Bruxelas do seu
antecessor. E ainda se põe a jeito ao viabilizar um negócio ruinoso, o
da privatização da TAP, que seria sempre nulo por ter sido firmado por um
Governo em gestão. A austeridade continua, as injecções de dinheiro público em
bancos falidos também, os negócios em que o Estado perde
sempre para um privado também. Para
a grande maioria vai ser complicado sentir no bolso as diferenças entre 2015 e
2016, se é que não o será igualmente relativamente a 2008, há uma criseinternacional por aí a bater à porta. Costa tinha tudo para virar em definitivo
uma página negra da nossa História. É uma lástima ir verificando como vai
deitando tudo a perder.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Gostei de ler: "A quadratura do círculo venceu?"
«Triunfo de António Costa, depois
de últimas horas de negociações difíceis, dizem agora alguns jornais (mesmo
naqueles onde se escrevia que o Orçamento era uma geringonça e que a Comissão
ia varrer esta tropa fandanga à bordoada, como ela sem dúvida merece,
acrescentavam). Os corajosos porradistas foram-se desvanecendo à medida que os
porta-vozes de Bruxelas iam amenizando o tom, e acabaram mesmo a comunicar
altivamente que, “a bem da Pátria”, preferem ficar calados. Bruxelas reserva
entretanto – e majestaticamente – a decisão de aceitar o Orçamento que só por
regra de abuso institucional é sujeito à sua consideração. Até os juros
desceram. Tudo termina como tinha que terminar.
Do que se conhece do Orçamento,
ele cumpre as regras mínimas dos compromissos que sustentam o governo (redução
da sobretaxa, aumento do salário mínimo, devolução dos salários da função
pública, descongelamento de pensões) e vai mesmo mais longe (extensão da tarifa
social da energia) e não agrava impostos sobre o trabalho. Introduz uma
excelente novidade: o fim da isenção em IMI para os fundos financeiros
imobiliários, que o PS não tinha aceite na negociação anterior dos acordos de
governo e a que agora se resigna. Tem um aumento dos impostos sobre gasolina e
outros produtos, com impacto nos custos dos transportes e portanto na vida das
pessoas, mesmo que em escala incomparável com os aumentos recentes do IRS, e
mantém o aperto orçamental, uma política restritiva. É uma viragem e uma
viragem visível, demonstra que podem ser aplicados critérios diferentes dos da
austeridade contra os trabalhadores e os pensionistas. Mesmo que seja somente o
início de uma viragem, mesmo que falte uma política social contra a pobreza, em
particular dos pensionistas, e uma política de investimento para o emprego, é
mesmo uma viragem. De facto, faltam recursos a este Orçamento para responder de
forma completa ao seu compromisso com o país, mas percebe-se a vontade de
forçar uma nova via.
A mudança de agulha foi portanto
saudada e é uma vitória para o governo e para os partidos que negociaram o
Orçamento. Estou certo de que uns e outros têm também a percepção clara de duas
limitações. A primeira é que a execução orçamental será muito difícil,
sobretudo se factores externos, como a bolha financeira internacional ou
simplesmente a pressão política das agências de notação, prejudicarem o
contexto da economia portuguesa. Se assim for, a Comissão Europeia, que agora
foi forçada a ceder, voltará nos próximos meses à carga exigindo mais medidas
para uma austeridade como a que aprecia. Vai haver conflito ainda antes do
Verão.
A segunda limitação é que este
orçamento não tem dinheiro. Portugal só terá recursos para políticas
sustentáveis de recuperação económica quando abater o custo da sua dívida
externa, pública e privada. Não existiu nem vai existir outro caminho.
Entretanto, só pode escolher entre austeridade (Passos Coelho e Portas) e
contenção e pequenos aumentos da procura (o governo actual). A escolha nem é
indiferente nem é pequena. Pelo contrário, é significativa. Mas não basta,
porque não há emprego sem investimento e reconversão da estrutura produtiva.
Portanto, Costa ganhou. Mostrou
que podia fazer frente à Comissão, mesmo que a solução fosse previsível.
Mostrou que os cortes nas pensões e salários não são o destino que nos foi
reservado pelos céus. Mas é melhor que saiba também, e sabe, que está ainda no
fio da navalha e que as decisões maiores para o futuro de Portugal ainda não foram
tomadas, mesmo que sejam urgentes. A quadratura do círculo nunca se consegue, a
não ser em jogos geométricos que não são da nossa vida.» Francisco Louçã, no TME.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
"Europeísmo", ou lá o que é
"Moscovici aprova novo
esboço do OE para 2016". O título é capaz de suscitar alívio a quem se
abstraia do facto do tal Moscovici ser um ente estranho à democracia da
república soberana que ainda somos e, com alguma certeza, de incendiar o
triunfalismo de facção entre aquelas três que disputam o poder de comandar as
operações com vista a agradar a estes todo-poderosos que se colocam entre o
povo que somos e o futuro que deixámos de poder escolher, escolhem-no eles.
Lendo a
notícia, porém, sem ler a
seguinte, e não perdendo de vista que no ano que vem e em todos os
seguintes teremos pela frente a mesma prepotência, que se ofende porque o
Governo português teve a ousadia de não os consultar previamente sobre o que
inscrever no esboço de orçamento e que se atreve a dizer que lhe dá luz verde
por já ter sido alcançado o seu objectivo de "efeito puxão de
orelhas" sobre Espanha e sobre Itália, esse alívio e esse triunfalismo
diluem-se na percepção que todo este processo deve deixar sobre o sarilho em
que estaremos metidos enquanto pertencermos a uma Europa onde apenas nos cabe
obedecer, com regras diferenciadas e aleatórias, flexíveis para países grandes
e ricos e rígidas para países pequenos e pobres. Aos mais distraídos,
recordo-os que nunca ninguém foi capaz de adiantar uma base científica para o
tecto de 3% do PIB que quem manda e quem lhes obedece e nos representa aceitam
como a regra das regras a seguir, como tal, a seguir porque sim, porque eles
mandam e nós obedecemos. Aos mais atentos, deixo-lhes os links para dois textos
que os convido a ler. O primeiro foi escrito por Francisco Louçã e é sobre o
conceito de "défice estrutural", a fantasia mais badalada nas
notícias depois da eleição de Marcelo Rebelo de Sousa. O segundo foi escrito
por João Ramos de Almeida e é sobre a justiça fiscal que jamais poderemos
decidir para nós enquanto pertencermos a esta Europa das obediências e dos
caprichos prepotentes. Já vai sendo tempo de termos a coragem de conceber um
plano B que nos devolva o direito a ter presente e a construir um futuro melhor
para todos.
«(...) O “défice estrutural” é um animal
curioso que merece ser fotografado. A receita é assim: tome o défice real (o
saldo do Orçamento em proporção do produto interno bruto da economia) e
retire-lhe o efeito cíclico e mais as medidas temporárias. E tem o défice
“estrutural” pronto para servir à mesa.
Tem mesmo? Não tem. Falta ainda um
ingrediente. É que o défice “estrutural” não é o défice real, menos ciclo e
medidas temporárias, comparado com o PIB verdadeiro. As variações do défice
“estrutural” são comparadas com o PIB “potencial”, ou seja, o PIB que se
registaria, mas não se pode registar porque não existe, se toda a economia
estivesse a utilizar toda a sua capacidade produtiva, ou seja, todas as
máquinas e capital mas também todo o trabalho, ou seja, o desemprego acabou – e
depois o utópico sou eu. Martin Wolf, um dos analistas do Financial Times,
publicou recentemente um livro que lembra como o FMI alterou os seus cálculos
sobre o PIB “potencial” da Irlanda e da Espanha em poucos anos, num dos casos
em nada menos que 4%. Pode ser uma coisa e pode ser o seu contrário, este
cálculo é uma conveniência.
Qual então é o efeito de considerar este
valor fantasioso, que aliás não se pode calcular de nenhum modo inquestionável
e objectivo? É simplesmente aumentar a conta. Assim, se houver uma regra que
diz que o défice “estrutural” deve ser reduzido em 2%, então trata-se de um
corte de 2% sobre um PIB potencial que é maior do que o real. Portanto o corte
tem que ser maior em termos absolutos do que o que seria necessário para
reduzir o peso do défice real sobre o PIB real em 2%. Em situação de restrição
orçamental e sobretudo em situação de recessão prolongada, adoptar o critério
do PIB “potencial” é o mesmo que uma
máquina para impor privatizações e degradação de despesa em serviços públicos
essenciais. continuar
a ler)» - Francisco Louçã.
«(...) Tem passado sem muito alarde na
comunicação social, a denúncia feita pelo anterior director-geral da Autoridade
Tributária, Azevedo Pereira, de que há uma meia dúzia de família de muito ricos
que não pagam os impostos devidos - pagam 0,5% do IRS cobrado quando deviam
pagar 25% (aqui). E
isso acontece porque têm "acesso aos decisores políticos que fazem as
leis", que influenciam a sua feitura e que criam alçapões que permitem a
fuga aos impostos destas famílias.
Essa
fuga não é novidade: as estatísticas têm demonstrado ao longo de duas décadas
que o IRS é pago significativamente por pensionistas e assalariados
(actualmente vai em 90%), o que não é crível que seja essa a distribuição do
rendimento em Portugal. E nada tem acontecido, apesar de reformas fiscais
parciais e parcelares. Fazem-se notícias, crónicas, mas nunca é um
escândalo na comunicação social. Tudo passa sossegadamente, como uma pedra no
lago.
Houve já diversas propostas que tentaram
quebrar este ciclo de injustiça, mas que nunca tiveram força política - e
partidária - para ser sequer discutidas. Relembro as propostas de Miguel
Cadilhe e de Octávio
Teixeira, no sentido de tributar o património financeiro. Alguém se lembra
disto? Não, apenas se fala de património imobiliário porque, na sua maioria, é
pago pelos mesmos e em que os
mais ricos escapam a essa tributação em IMI.
Não é
uma questão ideológica: é apenas dinheiro. Esta realidade parece ser fruto de
um único pensamento: "Como é que nos safamos de pagar impostos e
continuarmos ricos na mesma?" Só depois é que vêm as justificações:
"No fundo, os ricos são quem cria valor na sociedade; sem eles não haveria
empresas nem empregos". E só finalmente vêm as consequências omitidas
deste raciocínio: "Devemos é colocar aqueles que são os beneficiários do
Estado" - ou seja, da redistribuição da riqueza - "a pagar para o
bolo que vai ser redistribuído entre eles". Este é o verdadeiro sentido da
austeridade, da política de austeridade.» - João
Ramos de Almeida.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Corrupção é isto e só isto, o resto é conversa fiada
Porque vejo por aí muita gente a chamar
corruptos e a falar em corrupção a pessoas e a actos que não o são, aqui deixo esta pequena definição que, se bem assimilada, espero eu, os ajude a canalizar para as
escolhas políticas que se recusam a fazer o que vão empurrando para os tribunais,
os quais, felizmente para todos nós, não podem definir corrupção ao sabor das marés
ou em função da cobardia que se esconde atrás deparolices cheias de "corruptos"
e de "corrupção".
Apenas se pode falar em corrupção
quando uma pessoa, que ocupa uma posição dominante, aceita receber uma vantagem
indevida em troca da prestação de um serviço. O Código Penal português prevê o
crime de corrupção no quadro do exercício de funções públicas (artigos 372.º a
374.º-A), embora a corrupção possa existir nos mais diversos sectores de actividade.
O crime de corrupção implica sempre
a conjugação dos seguintes elementos, ou então não é corrupção:
– Uma acção ou
omissão
– A prática de
um ato lícito ou ilícito
– A
contrapartida de uma vantagem indevida Para o próprio ou para terceiro
A corrupção pode ser activa ou
passiva, dependendo se a acção ou omissão for praticada pela pessoa que corrompe
ou pela pessoa que se deixa corromper. Assim, quando alguém entrega dinheiro em
troca de um favor, pratica um crime de corrupção activa. Quando alguém recebe
dinheiro para cumprir ou omitir certos actos, pratica o crime de corrupção
passiva.
Por outro lado, fala-se de
corrupção pública activa quando uma pessoa directamente ou através de outra
pessoa, para si ou para outra pessoa, faz uma oferta, promessa ou propõe um
benefício de qualquer natureza, a um funcionário público para que este cumpra
ou se abstenha de cumprir um determinado ato. E fala-se de corrupção pública
passiva quando um funcionário público pede, aceita ou recebe, directamente ou
através de outra pessoa, para si ou para outra pessoa, oferta, promessa ou
benefício de qualquer natureza para cumprir ou se abster de cumprir um
determinado ato.
Finalmente, a corrupção será para
ato lícito se o ato ou omissão não for contrário aos deveres de quem é
corrompido, caso haja violação desses deveres, então trata-se de corrupção para
ato ilícito.
O elemento determinante no crime
de corrupção é o elo de ligação entre aquilo que é prometido ou entregue e o
objectivo que se pretende alcançar, a saber a adopção de um determinado
comportamento. Existe corrupção, mesmo que o ato (ou a sua ausência), seja ou
não legítimo no quadro das funções desempenhadas pelo interessado, não se tenha
realizado. Da mesma forma existe corrupção qualquer que seja a natureza ou o
valor do benefício. O ato unilateral de oferecer, dar, solicitar ou receber uma
vantagem é suficiente para existir corrupção. O acordo entre as partes
constitui uma circunstância agravante do crime.
Gostei de ler: "Miguel Relvas, diz-lhe alguma coisa?"
«Banco Efisa, diz-lhe alguma coisa? Era o antigo banco de
investimentos do BPN e que está parado desde 2009. Está longe de ser um banco
relevante no sistema, mas tem uma mais-valia: uma licença bancária para operar
em Portugal, Moçambique, Angola e na América Latina, que foi mantida à custa da
injeção de dinheiros públicos, cerca de 52 milhões desde 2014.
Em julho de 2015, já depois de ter vendido o BPN, o Estado
decide vender também o Banco Efisa, que até aí se encontrava dentro da
Parvalorem, o veículo criado para gerir os restos do BPN. O Efisa é assim
entregue à Pivot por 38 milhões de euros.
Na altura pouco se sabia da Pivot, a não ser que congregava
investidores angolanos, norte-americanos e portugueses. Ficámos, no entanto, na
semana passada, a conhecer um pouco mais desta história.
Miguel Relvas, diz-lhe alguma coisa? Foi secretário de
Estado da Administração Local em 2004, altura em que ajudou a Tecnoforma - em
que esteve Passos Coelho como administrador - a montar a fraude dos aeródromos.
Mais tarde tornou-se número dois do primeiro-ministro Passos, e ministro dos
Assuntos Parlamentares até abril de 2013.
Miguel Relvas já tinha sido consultor do banco de
investimento do BPN antes da nacionalização. Na altura, o deputado e
administrador da Kapaconsult (que tinha como único cliente o Efisa) era crucial
para abrir as portas da política e dos negócios no Brasil .
Em 2012, foi o seu Governo a nomear Francisco Nogueira
Leite, ex-administrador da Tecnoforma com Passos Coelho, para presidente da
Parvalorem. Para além de chamar outros quadros próximos da Tecnoforma, Nogueira
Leite manteve homens da confiança de Oliveira e Costa em lugares críticos da
empresa. E foi ele, enquanto responsável máximo da Parvalorem, a conduzir a
venda do Efisa à Pivot em 2015.
Já fora do Governo, é Miguel Relvas quem aparece, mais uma
vez, a prestar serviços de consultoria à Pivot. Mas na semana passada o
consultor Relvas foi promovido a acionista, e pede agora ao Banco de Portugal
que ateste a sua idoneidade para ser dono de um banco, o Efisa.
Miguel Relvas e idoneidade, uma contradição nos termos capaz
de arrancar uma boa gargalhada a qualquer um se não corresse o risco de vir
mesmo a ser declarada.» – Mariana Mortágua, no JN.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
A situação que o país atravessa/atravessava (riscar o que não interessa)
A "situação que o país atravessa"
e essas coisas. Na ressaca laranja, pouco depois de sabermos que o anterior Governo
vendia como definitivos em Bruxelas os cortes salariais na função pública que porcá andava a vender como transitórios, ficamos
a saber que, por decisão do mesmo Governo poucos dias antes de deixar de o ser,
a remuneração mensal do presidente da Autoridade Nacional de Aviação Civil
(ANAC) subiu de 6030 euros para 16075, a do vice-presidente de 5499 euros para
14468 e a da vogal de 5141 euros para 12860. Atrás lê-se "a situação que o
país atravessa". Tal como a reversão do negócio ruinoso da venda da TAP, nulo
por força da legitimidade que um Governo que deu asas ao nosso dinheiro, então já
em gestão, não tinha para assinar, caberá ao actual Governo corrigir o tempo verbal
para "a situação que o país atravessava". De nada serve andar eternamente a compilar
os podres de um Governo que, mesmo sem esse espólio, seria sempre o pior Governo
da nossa História recente. A obrigação de um Governo – deste ou de outro
qualquer – que queira realmente fazer diferente é fazer aterrar o dinheiro que
os malfeitores que o antecederam puseram a voar. O poder para decidi-lo tem-no todo.
Que tenha também a vontade.
Vagamente relacionado: As dívidas do empresário José Guilherme ao Novo
Banco foram reestruturadas. O empresário, que “ofereceu” um presente de €14
milhões a Ricardo Salgado quando este liderava o então BES, chegou a ter
empréstimos superiores a €200 milhões junto daquela instituição. José Guilherme
terá pago uma parte destes créditos e nas respostas que enviou, no início do
ano passado, à Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BES admitiu que devia
cerca de €121 milhões. O Expresso
apurou que as dívidas do empresário foram agora reestruturadas num processo de
resolução dos problemas que a herança da anterior gestão deixou no banco. Este
é apenas um dos processos muito complicados que Eduardo Stock da Cunha tem para
resolver no Novo Banco. Quase todos com as mesmas características. Uma fonte da
instituição disse ao Expresso que são vários os casos de créditos avultados que
estão em incumprimento e que não têm qualquer garantia. Em alguns, inclusive,
existem apenas avais pessoais que são extremamente difíceis de cobrar. Seja
pela lentidão do sistema judicial, seja pelo simples facto de os devedores não
terem bens em seu nome que possam responder pela dívida.
domingo, 31 de janeiro de 2016
Gostei de ler: "O feminismo favorito dos machistas"
«No tempo de antena de Maria de
Belém, alguém lhe pergunta se há “uma forma feminina de encarar a política”. A
candidata responde: “A engª. Maria de Lurdes Pintasilgo costumava dizer que
sim. Dizia que a importância da entrada das mulheres na política era para
acrescentar alguma coisa.” Estamos perante uma espécie de feminismo em segunda
mão, do qual devemos desconfiar. Tenho sérias dúvidas de que Pintasilgo tenha
dito aquela frase – que é, aliás, bastante canhestra. E quero acreditar que
responderia de outro modo a perguntas sobre a “forma feminina de encarar a
política”. Como feminista, considero o seguinte: a importância da entrada das
mulheres na política reside no facto de as mulheres terem tanto direito a estar
na política como os homens. Não é relevante se acrescentam, retiram ou deixam
tudo na mesma. Têm o mesmo direito, e é tudo. Qual é a importância da entrada
dos negros na política? A mesma. Têm esse direito. No entanto, creio que toda a
gente teria achado absurdo que alguém perguntasse a Barack Obama se havia uma
forma negra de encarar a política. Assim como não se pergunta a Donald Trump se
há uma forma alaranjada de encarar a política. Trump, bem como qualquer outra
pessoa cor-de-laranja, tem o direito de participar na vida política.
A ideia de que “as mulheres
acrescentam” é, por isso, um pouco perigosa. Primeiro, porque parece ser sempre
formulada por quem acha que o argumento da igualdade de direitos não é
suficiente. Daí sugerirem que as mulheres devem entrar na política porque são
diferentes (para melhor, claro) dos homens. É uma ideia paternalista que a
realidade, felizmente, se encarrega de desmentir. Não vejo grandes diferenças
entre a governação de Margaret Thatcher, Angela Merkel, Fátima Felgueiras ou
Dilma Rousseff e a de vários políticos do sexo masculino. Em segundo lugar, em
que medida é que enunciar a expressão “as mulheres são”, seguida de um
adjectivo agradável, é menos preconceituoso do que dizer “os negros são” e
acrescentar um adjectivo desagradável?
Noutra entrevista, Maria de Belém disse:
“Nunca tive complexos com a minha altura, porque sempre tive muitos
pretendentes”. A ex-ministra para a Igualdade é tão feminista como o meu tio
Alfredo. Para o meu tio Alfredo, a medida dos complexos de uma mulher também é
o interesse que ela desperta nos homens. Para ele, também é natural que uma
mulher que não tenha muitos pretendentes seja complexada em relação à sua
altura. Creio que, mais uma vez, fica comprovado que “as mulheres” são um grupo
bastante heterogéneo, e que algumas, tal como alguns homens, não acrescentam
nada de novo. Mas têm o mesmo direito a participar na vida política.» – Ricardo
Araújo Pereira, na Visão.
sábado, 30 de janeiro de 2016
À mesa do café
Alguns de nós escolhem o projecto
político que apoiam de acordo com o que for defendendo o partido ou o líder
político da sua devoção. Outros escolhem o partido e o líder político que apoiam segundo o critério da proximidade
e da interpretação da defesa do projecto
político que defendem previamente. Isto parece um mero jogo de palavras mas
está muito longe de o ser.
É muito diferente aquele que
consegue defender um Orçamento que não reverte o desinvestimento na Saúde que
vamos rapidamente deixando de ter apenas por ser um Orçamento PS e aquele que
repara que sem o investimento necessário para repor os equipamentos do SNS que
se avariaram e não foram nem reparados nem substituídos durante a década negra da austeridade um dia destes
acabará obrigado a ajudar a enriquecer uma seguradora privada se quiser
assegurar minimamente o seu, e apenas o seu, direito à Saúde.
E são em tudo iguais a forma de
pensar daquele que aceita como mudança significativa uma ligeira recomposição
da carga fiscal que continua a abusar dos rendimentos do trabalho por não haver
vontade política de pôr a pagar quem nunca contribuiu e a forma de pensar daquele
que critica a "irresponsabilidade" de arrecadar na bomba de gasolina e na subida dos preços de todos os bens que
repercutem o aumento do imposto sobre combustíveis os milhões para pagar juros
que antes eram arrecadados através de uma sobretaxa e de cortes salariais
inconstitucionais que se mantêm, que agora podiam sê-lo englobando a
distribuição de lucros e proveitos financeiros nos rendimentos tributados em
sede de IRS.
Fui-me lembrando disto à medida
que ia ouvindo a animada discussão que acontecia na mesa de café mesmo ao lado
da minha em torno da notícia
do DN de hoje sobre a chegada limpa da equipa da troika que veio a Lisboa
exigir cortes nas nossas vidas de valor equivalente ao da injecção de vida que
foi dada ao BANIF no final de Dezembro para capitalizar o Santander que o
comprou ao preço da uva mijona.
Um dos amigos defendia o Governo
que permitiu deixar crescer o monstro. O outro defendia o Governo que cometeu a
monstruosidade de engordá-lo ainda mais. Discutiam apesar de, e sobre isso não me ficou nenhuma dúvida, estarem
de acordo sobre a obediência que devemos a uma Europa que, numa semana, ordena que
se descubram 2 mil milhões de dinheiro que alegadamente não há para serem oferecidos
a quem sempre tem que ganhar e, apenas um par de semanas depois, ordena que esse
valor seja extorquido a quem sempre tem que perder. O motivo da discussão era tão-somente
o do nome do capataz preferido para espremer cada um destes dois amigos dos amigos
do alheio.
A seguir o tema da conversa mudou
para o futebol. O meu Benfica é melhor do que o teu Sporting, o meu Sporting é melhor
do que o teu Benfica. Os argumentos não mudaram nadinha. Convenceram-me. O Bayern Munich ganhou-lhes também a segunda discussão. É a vida.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Gostei de ler: "Santander et al"
«O Santander divulgou ontem,
quarta-feira, os resultados
de 2015. O interessante é que reconheceu, só em 2015, ganhos com a compra
do Banif de 283 milhões de euros (vide página 18 deste relatório). Ou seja,
para o Santander a posição que adquiriu por 150 milhões às 23:30h de 20 de
Dezembro de 2015 valia, no final do dia 31 de Dezembro de 2015, 433 milhões de
euros. Um retorno líquido de +188,7%, em 11 dias “de trabalho”, ou o
equivalente a uma taxa de 10,1% ao dia (foi mais elevada porque o Santander de
certeza não transferiu os 150 milhões de euros no dia 20/12).
Nada mau. A taxa anualizada é
astronómica, 189 seguido de 15 zeros e do sinal de percentagem. Devem ter
existido no mundo, em 2015, poucas taxas de retorno comparáveis a esta (para o
montante em questão) e, por conseguinte, o Santander é certamente dos
recordistas, se calhar a par de alguns especuladores no franco suíço ou no
rublo russo – mas, evidentemente, teve ajudas….
Claro que o Santander estará a
ser modesto: os ganhos com a compra do Banif são, provavelmente, muito
superiores ao declarado. O banco irá reconhecer, ao longo dos próximos anos, as
mais-valias resultantes desta compra do Banif, mas já misturadas com o resto do
negócio do banco. Por conseguinte, parece-me que o Santander é um sério
contendente a uma inscrição no Livro Guinness dos Recordes do ano de 2015.(...)»
– Ricardo Cabral, no TME.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
Zica, o vírus que veio da América para distrair a Saúde que deixámos de ter
Escolha a notícia à qual dedicar toda a sua atenção:
1. A
Organização Mundial de Saúde (OMS) vai reunir na próxima segunda-feira o comité
de emergência para decidir uma resposta global à rápida disseminação de
infecções pelo vírus Zica na América
Latina. A doença, que foi associada a um aumento de casos de microcefalia
em recém-nascidos, tornou-se uma ameaça de “proporções alarmantes”, afirma a
directora-geral da organização.
2. Desigualdade
no acesso aos serviços de saúde, atrasos nas cirurgias, dificuldade em fazer
tratamentos no estrangeiro, elevado número de cesarianas, dificuldade de acesso
a médico de família e cuidados de saúde oral fora do Serviço Nacional de Saúde
são algumas das áreas que estão a contribuir para uma avaliação mais negativa
do sistema de saúde português. De
acordo com o ranking internacional feito pela organização sueca Health
Consumer Powerhouse, Portugal surge na edição de 2015 no 20.º lugar do
Índice de Assistência Médica Europeu, quando em 2014 estava na 13.ª posição. Eis
a lista: 1º Holanda, 2º Suíça,3º Noruega, 4º Finlândia, 5º Bélgica, 6º
Luxemburgo, 7º Alemanha, 8º Islândia, 9º Dinamarca, 10º Suécia, 11º França, 12º
Áustria, 13º República Checa, 14º Reino Unido, 15º Eslovénia, 16º Croácia, 17º
Estónia, 18º Macedónia, 19º Espanha, todos eles têm melhor Saúde do que o 20º
Portugal.
3. O
Observatório dos Direitos Humanos concluiu que "foi violado" o
direito à saúde dos utentes que morreram nas urgências de sete hospitais portugueses no Inverno de 2015,
aconselhando as respectivas administrações a seguirem recomendações para
prevenir situações idênticas. No relatório publicado na sua página da Internet,
o ODH indica que "a
ineficiência dos serviços e a reduzida capacidade de resposta que demonstraram
nos períodos em causa leva a que se possa afirmar que os direitos à saúde
destes utentes [e dos demais que aí se encontravam e que sofreram iguais
demoras no seu atendimento e tratamento] foram violados".
Normalidade uma ova
Vamos sabendo como foi com o
BANIF. Três dias foi tudo quanto demorou a Bruxelas impor ao Governo português uma
injecção de quase 2 mil milhões em mais um banco falido para, imediatamente a
seguir, quando ainda decorriam negociações com outros interessados, o BANIF ser
oferecido ao Santander por 150 milhões, potenciando-se um prejuízo para os
contribuintes de 3,2 mil milhões de euros. Agora que Marcelo já foi eleito, tão
bom que foi ter evitado a chatice de ter que debater política, vamos sabendo
como vai ser com o Orçamento de 2016. Em tom de ameaça, Bruxelas escreveu um
ultimato ao Governo a pedir explicações em três dias sobre a razão do
"ajustamento" planeado estar
700 milhões abaixo do "acordado". António Costa afiança que é uma
carta "absolutamente normal". É impossível negá-lo. E o problema está
precisamente aí, em ser tão anormalmente "normal" a obediência com
que se aceitam ordens de Bruxelas, em ser tão normal ser generoso quando o
destino dado aos milhões é a delinquência banqueira e em ser tão normal ser
sovina quando o destino a dar-lhes é uma ínfima – e reforço o ínfima, a
austeridade continua a matar – reposição da normalidade nas vidas das
vítimas de tanta normalidade. Quer no primeiro, quer no segundo ultimato, seria
nem mais nem menos do que isto que se exigiria ouvir a um Primeiro-ministro de um
país soberano que desse a cara pelos seus e se recusasse a colaborar com o esbulho e a humilhação do seu povo. Normalidade uma ova. Os países são espaços geográficos onde vive gente, não mercados onde os bancos têm sobrevivência garantida. E Portugal tem demasiada gente a viver muito mal e bancos e banqueiros a sobreviver demasiadamente bem.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Gostei de ler: "Para as mãos das pessoas "
«The
Inquiry, um dos podcasts mais interessantes da actualidade, dedicou um
dos seus últimos episódios a discutir a questão “Deveriam os governos atirar
dinheiro a partir de helicópteros?”. A pergunta, que fora de contexto
parece absurda, remete
para uma reflexão teórica desenvolvida originalmente por Milton Friedman,
economista que ficou famoso por liderar a contra-revolução anti-keynesiana na
década de 1970, pelas posições libertárias de direita e pela proximidade e
colaboração com o regime de Pinochet.
Quais seriam as consequências se[, à semelhança do que o BCE tem feito com o sector financeiro,]
um helicóptero sobrevoasse uma determinada economia e largasse milhares de
dólares em notas prontamente recolhidas pelos agentes económicos, estando estes
convencidos de que se trata de um evento único e irrepetível? Numa economia em
situação de pleno emprego, tal como postulado por Friedman, a injecção
monetária não terá qualquer efeito expansivo e não alterará os equilíbrios de
mercado. Mas a conclusão de ineficácia depende da premissa de pleno emprego
original, e como é óbvio nem todos concordam com a justeza desta última.
A partir desta formulação
seminal, “helicopter
money” passou a designar, de forma genérica, a colocação directa de moeda,
criada escrituralmente pelas autoridades monetárias, nas mãos dos agentes
económicos – ainda que em vez da hipótese literal (e seguramente espectacular)
dos sacos de notas atirados a partir de helicópteros se tenha habitualmente em
mente algo como a entrega de cheques, sem qualquer contrapartida, a todos os
cidadãos.
Os vinte minutos do podcast da
BBC são infelizmente demasiado curtos para permitir tratar a questão com
suficiente profundidade, mas ainda assim o episódio reúne depoimentos de alguns
economistas com reflexões interessantes e relevantes sobre estas matérias, tais
como Richard Koo (cujo tratamento teórico das “balance sheet recessions” é um
dos mais relevantes para a compreensão da crise iniciada em 2007-08) e Adair
Turner (que, apesar de provir de uma carreira na finança, tornou-se nos últimos
anos numa das vozes mais críticas das disfuncionalidades dessa mesma finança).
Dos quatro economistas
entrevistados, Turner é aliás o que mais explicitamente defende uma política de
tipo “helicopter money”, que na sua proposta assumiria a forma de um cheque de
montante idêntico enviado a todos os cidadãos, financiado não através da
cobrança de impostos mas pela criação de moeda por parte do Banco Central, com
o objectivo de estimular a economia e/ou produzir inflação. Aliás, num contexto
caracterizado tanto pela subutilização da capacidade produtiva como pela
existência de um enorme lastro de endividamento que constrange a procura, não é
sequer fundamental antecipar em que medida é que a injecção monetária se traduz
em
inflação ou em estímulo à actividade económica, pois ambos são desejáveis
(o estímulo à actividade por motivos óbvios, a inflação por permitir erodir
progressivamente o lastro do endividamento).
Não admira assim que este tipo de
discussão volte a estar em cima da mesa no contexto actual, ainda que para já
apenas num registo principalmente académico. Especialmente se tivermos em conta
que a medida em causa permite fazer mais directamente aquilo que o quantitative
easing faz apenas indirectamente e com alguns efeitos secundários nefastos. O
estímulo à procura por parte do QE actua, a meu ver, através de três canais
principais: a redução do custo de financiamento dos estados no mercado primário
através do aumento da procura no mercado secundário de títulos de dívida
pública; o aumento do património líquido dos agentes que detêm títulos que são
objecto de procura pelo Banco Central, o que alivia as restrições dos seus
balanços e tende a favorecer o consumo e/ou investimento; e o aumento das
reservas dos bancos a quem são adquiridos títulos. Todos estes mecanismos são
indirectos e, o que é mais importante, não é certo que actuem sobre os factores
que em cada momento restringem activamente a procura. A colocação directa de
moeda nas mãos da população, em contrapartida, actuaria de forma imediata e
mais eficaz – para além de socialmente menos iníqua, pois não valorizaria
tendencialmente o património dos mais ricos.
Claro que, chegados a este ponto,
podemos dar um passo adicional e defender, em vez do envio de um cheque
idêntico a todos os cidadãos, o envio de cheques diferenciados em função do
rendimento, de modo a reduzir a desigualdade e combater a pobreza. Ou então,
como na proposta de People’s Quantitative Easing de Jeremy Corbyn, mandatar o
Banco Central para investir “na
renovação do parque habitacional e energético, no sistema de transportes e em
projectos digitais: quantitative easing para as pessoas e não para os bancos”.
Ou, finalmente, propôr uma combinação de ambas as coisas: transferências
directas para os grupos sociais mais necessitados e investimentos públicos de
elevado retorno social.
E claro que aqui chegados
percebemos que não estamos a falar de outra coisa que não da possibilidade de
articulação entre a política orçamental e a política monetária, algo de
desesperadamente necessário no contexto de estagnação tendencial e
endividamento crónico em que se encontra grande parte da economia mundial, mas
que se encontra vedado por décadas de evolução institucional no sentido da
independência dos bancos centrais – com a agravante, no nosso caso, do banco
central ter sido entretanto subtraído ao seguramente mais democrático âmbito
nacional.» – Alexandre Abreu, no Expresso.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Um passeio até Belém
Terminou o passeio à Presidência
da República do comentador Marcelo. A fórmula de sucesso aí fica para qualquer celebridade
que se lembre de aproveitar a desistência daquele que se reclama o maior
partido da esquerda para querer ser Presidente da República. Não vale a pena
inventar muito, basta olhar para o trajecto do agora Presidente. Mais de uma década
de Domingos no papel do catequista que evita polémicas e se limita a compilar e
reproduzir a média da média das histórias de encantar contadas pela maioria de
homens e mulheres da situação que detêm a hegemonia do comentário político que
se faz em Portugal dispensaram-no da necessidade de ter cartazes de campanha. A
popularidade assim angariada colocou-o em primeiro lugar em todos os
alinhamentos de todos os jornais de campanha e dispensou-o de falar sobre
política nos programas de informação dirigidos por colaboradores que, quando o tema surgia, se encarregaram de fazê-lo desaparecer no
campeonato da simpatia em que transformaram toda uma campanha feita para fazer
esquecer que Marcelo era o candidato daquela direita radical que andou quatro
anos a desmantelar e a vender um país em que ser popular e à prova de povo é
mais apreciado do que dar a cara pelo povo e afrontar as consensualidades dos
fazedores de popularidades.
Marcelo ganhou-o à primeira, poisganhou, e ficou com o poder de dissolver a AR no momento mais oportuno para
devolver o poder à direita que o apoia. Era impossível que não ganhasse.
Repare-se como até na segunda
divisão da popularidade também foi o mais simpático Tino de Rans que ficou à
frente. Repare-se como a comunicação social cola o rótulo de populista ao
campeão da segunda divisão que não cola
ao campeão dos campeões. Como Sampaio da Nóvoa perdeu a aposta de tentar competir
com um discurso simpático e redondinho no campeonato da popularidade que não
tinha, nem poderia ter sem quinze anos a
fio à mesa do jantar dos portugueses, em vez de ter a coragem de assumir
rupturas e apostar naquilo que poderia diferenciá-lo, um discurso político
forte que enchesse a garrafa vazia do seu tempo novo. Como Maria de Belém se
afundou estrondosamente quando a sua impopularidade explodiu. Como todo este
circo de popularidades e simpatias, vazio de política, produziu uma abstenção
superior a 50% que facilita a eleição de um simpático com pouco
mais de metade dos votos da metade que não ficou em casa.
E repare-se como é falando sobre
política, sobre a vida de cada um de nós, que se arranca os desistentes dessa
abstenção para o combate que interessa, para a luta que confere sentido a
qualquer eleição em democracia. Os mais de dez por cento da Marisa Matias foram
conseguidos sem primeiros nem segundos lugares nos alinhamentos dos jornais de
campanha, com jornalistas que fizeram tudo o que puderam para desviar uma
disputa política para outra dimensão o mais longe possível daquela que
permitiria percepcionar que é na democracia que estão as respostas para as
vidas que as popularidades vão condenando e que só com respostas políticas
podem ser melhoradas. À Marisa devemos o sinal de esperança deixado nestas
presidenciais. O povo que não desiste nem se deixa levar em cantigas aí está,
firme e a crescer em número e em mobilização.
sábado, 23 de janeiro de 2016
Sobre um absurdo chamado Europa
Falando em nome de uma Europa
que, diz ela, está a perder a paciência, a Ministra do interior austríaca,
prontamente secundada pela voz da directora-geral do FMI, defende a “exclusão
provisória” da Grécia do espaço Schengen se Atenas não reforçar os seus controlos
fronteiriços face à vaga de refugiados que tenta entrar na Europa, a qual, reclamam,
faz perigar a sobrevivência das
instituições europeias. É impressionante a quantidade enorme de absurdos que se
detectam numa frase tão curta como a anterior. Contemo-los. Em vez de repudiar os
excessos anti-democráticos e de exigir recuos a países como a Áustria, a
Polónia ou a Hungria, a Europa permite-lhes tudo. Em vez de resolver de uma vez
por todas a questão dos refugiados, a Europa vai agravando o problema adiando a
resposta que é incapaz de lhe dar. Em vez de ser a Europa a defender as suas
instituições à luz do humanismo que sempre caracterizou a matriz de integração
europeia, permite que sejam esses países que é incapaz de condenar a aparecerem, juntamente com a líder de uma
organização estranha à UE, no papel de porta-vozes e defensores de instituições
europeias que ninguém lhes reconhece, fazendo-o à luz do anti-humanismo
xenófobo que lhes é permitido, que agora já exigem seja decalcado pela Grécia, que
não pode ter dinheiro para Saúde e para Educação mas tem que arranjá-lo para erguer
muros que devolvam os refugiados ao mar que os afogue. Ainda poderíamos acrescentar-lhes
mais uns quantos, mas creio que estes já chegam e sobram para concluir que o absurdo
é a própria Europa, a moribunda à qual é um absurdo cada vez maior pertencermos.
E sobre o absurdo em que nos estamos a tornar voltaremos a conversar um dia destes.
O tema regressará muito em breve, no dia em que chegar o veredicto sobre o OE-2016. Não foi por acaso que o calendarizaram para depois de terem garantida a eleição de mais um PR que chame "europeísmo" ao absurdo.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Quem paga esta tropa?
Se há tema sobre o qual se têm
escrito mais mentiras do que verdades, como tal, se há tema que torna visível com particular nitidez
aquilo que hoje é a nossa imprensa, uma prostituta descarada frequentada por uma
tropa de colegas do mesmo ofício ao serviço de interesses mal camuflados, em número
e com uma visibilidade suficientes para abafarem qualquer esforço de reposição
da verdade que vão distorcendo à vontade do dono, esse tema é a privatização da
TAP. Um destes laboriosos profissionais, J. Martins Pereira Coutinho, abusou na
dose. António Pedro Vasconcelos, um dos rostos do movimento cidadão que se
organizou para lutar contra mais um negócio ruinoso em que todos perdemos para
o bolso de um comprador privado, encarregou-se de lhe compilar e desembrulhar
as mentiras. Vale a pena lê-lo
na íntegra e usar as redes sociais
para lhe dar a visibilidade negada pelo jornal que o publicou. "Quem
são, afinal, os coveiros da TAP?" termina assim:
«(...) No auge do seu entusiasmo pela
concretização do negócio com Neeleman, Coutinho enumera depois os investimentos
que o benemérito cidadão americano já teria feito na TAP, esquecendo-se que foi
preciso o governo demitido ter-se responsabilizado pela dívida da nossa
companhia aérea, durante 7 anos (aval sem o qual o novo dono não teria
conseguido o acordo dos bancos), um negócio ilegal e, esse sim, de alto risco para
os contribuintes.
Mas isso não preocupa Coutinho, como não o
preocupa conhecer o que, entretanto, Neeleman anda a fazer. Já se interrogou,
por exemplo, onde está a compensação que é devida à nossa companhia aérea pelo
facto de a Azul se ter apropriado da posição da TAP nas encomendas dos A350,
tanto mais que, em 2008, o Eng.º
Fernando Pinto assegurou que a TAP já estava a pagar esses aviões?
Já se perguntou como é possível existirem
benefícios concedidos aos accionistas da Atlantic Gateway pelos accionistas da
ANA, com garantias sobre o património dos terrenos e edifícios da TAP?
E será que Coutinho considera que é por
“bondade” que a Azul se propõe “ceder” à TAP os Embraier que estão parados no
Brasil (por não haver rotas para eles), e que são umas das causas do prejuízo
de €63 milhões que o benemérito David Neeleman teve na companhia aérea
brasileira?
E por que razão não se questiona sobre os
termos do acordo de code-share com a Azul, em que, sendo um contrato entre
partes relacionadas, o benefício é todo do accionista Neeleman?
Com tantos embustes, por parte de Neeleman,
que teve sempre a conivência de Fernando Pinto e de Passos Coelho, António
Costa tem todo o suporte legal para declarar nula a transferência de acções e a
tomada de controlo da TAP por parte da Atlantic Gateway; e, mais do que
legitimidade, tem a obrigação de recuperar, antes que seja tarde, o controlo
público sobre a nossa companhia aérea.
Até porque só a declaração de nulidade
tornará possível, sem encargos para o Estado, declarar nulos, por sua vez,
estes e outros contratos lesivos que têm vindo a ser realizados pela nova
Administração e o comportamento danoso dos intervenientes, que o assanhado
Coutinho, à semelhança de muitos outros “comentadores”, tem o despudor de vir
defender na praça pública e nos jornais.»
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
Positivo mas poucochinho
O Governo de António Costa vai
alterar o processo de atribuição de reformas antecipadas. Por agora, pelo que já
foi tornado público, as principais alterações são duas, a possibilidade até
aqui vedada ao trabalhador de parar o processo ao saber o valor exacto do que
irá receber até ao final da vida e um desconto na penalização para
trabalhadores com carreiras contributivas mais longas do que os 40 anos
necessários para não ser penalizado. Ambas
são avanços no sentido correcto, e saudemo-las por isso, mas também avanços
muito tímidos, há que apontá-lo.
A primeira mais não é do que o
fim de uma aberração que resultou da vontade de alguém que se lembrou de pôr o
medo de não poder voltar atrás a diminuir o direito de cada um a decidir
livremente e na posse do dado mais importante
o momento em que se retira da vida activa.
A segunda aparece na vez da
completa eliminação de penalizações que não deixam de ser injustas mesmo com
desconto, quem começou a trabalhar aos 12 ou 13 anos continuará a ser
penalizado se quiser ou for obrigado a decidir pela aposentação antes dos 66
anos e dois meses que vigoram como mínimo também para si, isto é, 66-12=54,
apesar do desconto na penalização, quem começou a trabalhar aos 12 continua a ser obrigado a trabalhar 54 anos
para ter direito a uma reforma por inteiro e sem qualquer bonificação pelos 14 anos de descontos que
fez para além dos 40 anos obrigatórios para aqueles que puderam desfrutar a
juventude e começaram a trabalhar muito mais tarde, já para não referir os 12 anos
que dão direito à subvenção vitalícia àqueles cuja falta de escrúpulos lhes
chega e lhes sobra para reclamá-la.
E termino este com duas breves
referências a mais duas aberrações não contempladas pela timidez destas
alterações.
A primeira, o poder político
continua insensível à dificuldade de tantos portugueses que se vêem numa
situação de desemprego prolongado no final da sua vida activa. Continuaremos a
ter desempregados aos 58, aos 62 e aos 65 anos por não haver nenhum mecanismo
em sede de aposentação capaz de responder politicamente à improbabilidade de
conseguir trabalho com esta idade.
A segunda, pelo visto também
ainda não será desta que aqueles portugueses aos quais as seguradoras fazem
repercutir no valor do prémio a pagar a menor esperança de vida que têm verão
este último dado reconhecido pelo Estado numa redução da idade para se reformarem
sem penalizações, à semelhança do que acontece em países tão diferentes como a Holanda
ou o Brasil, onde se diferencia o que é diferente, e muito diferente. Falo-vos dos
portadores de deficiências, outra vez esquecidos, desta vez pelo primeiro Governo
a incluir no seu elenco uma cidadã portadora de uma deficiência. O processo não
está fechado, com toda a certeza que ainda vai muito a tempo para se fazer ouvir.
O Parlamento tem um deputado que também é portador de uma deficiência, estou certo
que irá ajudá-la a não se esquecer de o fazer.
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Triste, triste, triste
Quando o tema é subvenções
vitalícias de ex-detentores de cargos políticos, gera-se imediatamente uma
histeria colectiva que tudo abafa. É extremamente fácil escrever uma porcaria
qualquer sobre o tema, daquelas que
sempre fazem disparar as partilhas e põem a popularidade do seu autor em forte
alta. Não gosto de alimentar histerias.
Sobre as subvenções apenas direi
que são, ou melhor, eram um privilégio injustificável, este post não é sobre
subvenções vitalícias.
Nem sobre a aberração de fazer
depender o seu recebimento da prova de rendimentos do agregado familiar abaixo
dos dois mil euros, que quem defenda que as regras não podem ser alteradas no
final do jogo, por mais que deteste políticos, tem que avaliar como um avanço
perigoso para terrenos onde os direitos adquiridos desaparecem ao sabor da
vontade de políticos que, se resumirmos a coisa ao plano dos afectos, também
têm todo o direito de não morrerem de amores pelos seus titulares.
Finalmente, o que fez saltar
estas linhas também não foi a decisão do Tribunal Constitucional, ontem tornada
pública, pela inconstitucionalidade da
norma atrás referida, com a qual, pela razão já apontada, não me resta outra alternativa que não a de
estar de acordo.
O que aponto aqui como errado, e
muito errado, começa no pedido que lhe deu origem, subscrito por pelo menos 23
deputados anónimos, e termina na decisão de obrigar o Estado a devolver as
subvenções cortadas pelo artigo em causa.
O primeiro é uma cobardia
inqualificável, mais inqualificável ainda por ter obtido cobertura de um Tribunal
Constitucional que se presta ao papel de se colocar entre eleitos e eleitores, qual
guarda-costas que protege a cobardia gananciosa dos primeiros do julgamento
político dos segundos. Podemos não saber exactamente quem são, mas não há
Tribunal Constitucional com poderes de influenciar a percepção precisa que
temos sobre os partidos a que pertencem.
A segunda é uma arbitrariedade
vergonhosa, o mesmo Tribunal Constitucional que adiou o mais que pôde a
declaração de inconstitucionalidade de cortes de salários, de pensões e de
complementos de reforma, o mesmo que decidiu que não haveria devolução desses
confiscos feitos ao arrepio da Lei fundamental nem mesmo depois de se
pronunciar pela sua inconstitucionalidade, porque desta vez são subvenções e
não salários ou pensões, porque desta vez são ex-políticos e não cidadãos que
vivem dos rendimentos do seu trabalho, decide o que se negou a decidir no
pronunciamento anterior e ainda por cima fundamenta o seu veredicto nos
princípios da igualdade e da confiança, exactamente aqueles que a sua decisão
mais agride.
Não há igualdade que resista a um
tribunal superior que trata ex-políticos de uma maneira e o cidadão comum de
outra, da mesma maneira que não há confiança que resista à cobertura dada pela
falta de vergonha dos juízes que o compõem ao anonimato cobarde de pelo menos
23 nódoas que mancham um Parlamento composto por 230 deputados todos
diferentes. A gravidade da decisão de ontem está aqui. O valor das
subvenções, que nem é assim tão elevado, o objecto do burburinho e a delícia desses
comentadores que se tornam populares opinando ao paladar de plateias que aplaudem
o que querem ler e ouvir, é apenas um figurante de mais um episódio triste de uma
história triste, ainda mais triste pela confusão instalada entre figurantes e protagonistas,
um contributo para que ainda mais gente volte as costas à democracia e à participação
nas nossas escolhas colectivas. E um bom bocado mais triste ainda por ser a nossa
história.
Actualização: entretanto
foi revelada a
lista dos deputados que pediram a fiscalização sucessiva da norma do OE 2015
que fazia depender o recebimento da subvenção do rendimento auferido. Há 21 magníficos
do PS e 9 magníficos do PSD. À cabeça está a candidata presidencial Maria de Belém
Roseira, que em 2012 se recusou a fazer parte
dos 23 deputados do Bloco e do PS que solicitaram a fiscalização que culminou no
chumbo das normas do OE relativas ao confisco de salários de funcionários públicos
e de pensões de reforma. Nas mesmas condições estão os actuais ministros João Soares e Ana Paula
Vitorino, os ex-ministros Alberto Costa, Alberto Martins e Jorge Lacão, todos socialistas,
João Bosco Mota Amaral, ex-presidente da Assembleia da República, e os
ex-ministros do PSD Carlos Costa Neves e Couto dos Santos. Completam a lista André Figueiredo, António
Braga, Celeste Correia, Fernando Serrasqueiro, Idália Serrão, José Junqueiro,
José Lello, José Magalhães, Laurentino Dias, Miguel Coelho, Paulo Campos,
Renato Sampaio, Rosa Albernaz, Sérgio Sousa Pinto e Vitalino Canas, todos do PS;
e Arménio Santos, Correia de Jesus, Francisco Gomes, Guilherme Silva, Hugo
Velosa e Joaquim Ponte, do PSD.
Gostei de ler: "Uma nova crise não é um risco, é uma certeza"
«O Royal Bank of Scotland, hoje
uma divisão do Santander, emitiu um alerta nos termos mais catastrofistas:
vendam tudo, 2016 é para a desgraça.
O Santander é o gigante adquiriu
recentemente a preço da chuva o Banif, depois de uma curiosa inconfidência de
alguém que desencadeou notícias alarmistas e uma corrida aos balcões do banco.
Repete-se agora a dose em plano inclinado: fiquem só com dívida alemã e
norte-americana, tudo o resto é para perder. Como se percebe, o banco recomenda
uma acção de manada que realizaria o seu próprio prognóstico.
É um jogo perigoso e que
demonstra o nervosismo das grandes instituições financeiras. Elas temem um novo
crash financeiro como o de 2007 e 2008, que foi desencadeado pelo incumprimento
de pagamentos em algumas hipotecas num mercado reduzido e muito marginal, mas
que provocou o congelamento dos mercados monetários e efeitos mundiais.
Há em todo o caso fortes razões
para alarme. Primeiro, a recessão no Brasil e a desaceleração das economias
emergentes. Segundo, a aterragem da China e a sua instabilidade financeira: em
seis meses, é a segunda vez que o seu mercado financeiro dá sinais de colapso,
que as Bolsas são suspensas e que o governo é forçado a gastar somas colossais
para manter a flutuação financeira. Terceiro, o Plano Draghi, uma enxurrada de
dinheiro para financiar a banca e os mercados especulativos, nem conduziu a um
aumento do investimento nem retirou as economias da zona da deflação.
Lagarde, do FMI, chama a este
período o “Novo Medíocre”. Depois do tempo dos foguetes em que se anunciava, a
“Grande Moderação” e o fim do ciclo económico, não está mal. O Banco Mundial
anuncia que se está a formar a “tempestade perfeita”. E Joseph Stiglitz, que
antecipou todos estes profetas, explica as razões da estagnação.
Uma nova crise financeira não é
uma possibilidade. É uma certeza. E essa certeza tem consequências para o euro,
para a Europa, para as economias emergentes, para as relações internacionais de
poder. Como terá para o Orçamento do Estado português para 2016.» – Francisco Louçã,
no TME.
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