terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Gostei de ler: "O Predador"
«Foi diretor do Caixa BI, o banco
de investimento da CGD, onde se especializou em parcerias público-privadas.
Esteve do lado da banca, a desenhar a estrutura financeira dos contratos que
mais tarde se revelaram ruinosos para o Estado: as PPP rodoviárias da Beira
Interior, do Pinhal Interior, do Litoral Oeste, do Baixo Tejo, do Baixo
Alentejo, do Litoral Algarve, entre outras. Foi ainda enquanto representante do
consórcio privado ELOS que assinou o contrato de financiamento, e respetivos
swap, associados à construção da linha de TGV Poceirão-Caia entretanto
cancelada. No processo foi nomeado administrador-executivo do banco.
Em 2011, passa a secretário de
Estado, com duas funções principais: a renegociação para o Estado dos contratos
feitos enquanto gestor e a privatização de empresas públicas. Para o assessorar
na difícil tarefa, contratou em exclusividade Teresa Falcão, advogada da Vieira
de Almeida, um dos maiores escritórios do país, onde trabalhava precisamente na
área de Infraestruturas. No dia 22 de janeiro de 2014, a advogada é exonerada
com louvores, para logo a seguir ter sido assinado um contrato de prestação de
serviços, em que recebia 31 mil euros por assessoria jurídica. No total, só em
2014, a Vieira de Almeida recebeu do Estado e entidades públicas 1 milhão e 160
mil euros.
Privatizou a ANA, com direito a
alterações na regulamentação do setor aeroportuário à medida do comprador
(segundo o próprio relatório de acompanhamento). Vendeu os CTT em Bolsa à
finança estrangeira que encaixou largos milhões com a súbita valorização em
Bolsa da empresa. Foi responsável pelo gigante embuste que foi a privatização
da TAP, despachou a CP Carga e concessionou os transportes urbanos de Lisboa e
Porto, cujos contratos (da Carris e Metropolitano de Lisboa) foram barrados
pelo Tribunal de Contas.
Ainda não tinha terminado o
mandato, e já se sabia dos seus novos voos: responsável pela venda do Novo
Banco, contratado pelo Banco de Portugal (BdP), por um período de 12 meses,
pela quantia de 30 mil euros mensais (descontos para a Segurança Social
incluídos). É o dobro do que recebe o governador e muito acima, já agora, do
que recebem os atuais administradores da Caixa BI.
Ainda assim, segundo o BdP, o
valor equivale ao anterior salário como administrador, esquecendo-se que o
lugar na Administração já foi preenchido por outra pessoa, e que nada garante
que o gestor para lá volte com o seu salário milionário.
Assim foram os cinco anos
meteóricos de Sérgio Monteiro, gestor, facilitador, governante. Sob a capa da
competência técnica, a eterna confusão entre o público, o privado e os
escritórios de advogados que, sendo privados, trabalham para ambos.» – Mariana Mortágua,
no JN.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Viva a democracia
Começo este como terminei o de
ontem, dizendo que o fim de tudo o que não presta não se lamenta e
acrescentando que o problema de pôr um ponto final ao que não serve muitas vezes está no que a
seguir ocupa o seu lugar. A primeira parte da formulação aplica-se inteiramente
à derrota
histórica de ontem do partido de Nicolas Maduro. Os venezuelanos começaram
a dizer adeus a um projecto político que começou bonito, a devolver a Venezuela
ao seu povo, mas terminará exactamente como terminou o regime que substituiu,
com a corrupção a invadir tudo, com a inflação a comer tudo e com as prateleiras dos supermercados com
falta de tudo. E, porque para já a segunda parte fica em aberto, quer porque
Maduro continuará a governar – na Venezuela governa o Presidente, quer porque a coligação que ontem obteve uma
maioria qualificada no Parlamento é composta por muitas e diferentes forças
partidárias, do centro-esquerda à direita mais conservadora, para além do fim
anunciado de um regime apodrecido, podemos comemorar também a vitalidade de uma
democracia à qual os cães de fila – os caniches também – das multinacionais que
antes de Chavez mandavam como queriam na Venezuela passaram os últimos 16 anos a chamar de ditadura.
Se os virem por aí a comemorar, não se esqueçam de recordá-los desse papelinho que
essa rafeirada adoptou como seu cartão de apresentação. Viva a democracia que tais
cromos (ainda?) não sabem o que é.
domingo, 6 de dezembro de 2015
Dois passos mais perto do fim
No referendo da última Quinta-feira
foi a vez da extrema-direita dinamarquesa mostrar que está a crescer com a vitória
folgada do não, que apoiou, a mais integração europeia e cedência de soberania em
matérias como Segurança e Justiça. Hoje foi a vez da extrema-direita francesa dar o mesmo sinal na primeira volta das eleições regionais com uma vitória retumbante
cavalgada sobre os mesmos temas Segurança, terrorismo, imigração e eurocepticismo
que há quatro dias fizeram a vitória dos colegas dinamarqueses. Um pequeno passo
na Quinta, um grande passo hoje. Só os fanáticos é que se recusam a verificar como
o projecto europeu vai galopando para o fim a que o condenaram à medida que o foram amputando da sua dimensão
de Europa dos cidadãos que o fez nascer. Esta Europa definitivamente
não serve e a morte do que não presta nunca será problema. O problema está no que
virá depois. E o que virá depois, com loucos furiosos como Marine Le pen com poder para dar largas à sua loucura, mete medo,
muito medo.
sábado, 5 de dezembro de 2015
Uma aflição feita ternura
"Ver Pedro Passos Coelho
sentar-se no hemiciclo de São Bento e assumir o seu mandato de deputado eleito
e o seu lugar de líder do principal partido da oposição é algo que revela a sua
qualidade política, mas que demonstra igualmente como pode e deve ser vivida
saudavelmente a democracia. Desde Mário Soares que nenhum líder partidário
voltava a sentar-se no Parlamento depois de ter sido primeiro-ministro. E a disponibilidade
e o à-vontade com que Passos o fez é meritório de elogio, pois mostra o
carácter democrático da sua personalidade." A ternura que varre as colunas
de opinião que se fazem mais à direita comove, toca-nos o coração. Ainda mais quando
tanta conversa mansa é dedicada a alguém que multiplicou por nove o velho sonho
de Manuela Ferreira Leite de suspender a democracia por seis meses para "pôr
tudo na ordem". E escolhi esta passagem do artigo de São José Almeida, do Público,
pelo tom pueril que lhe imprime mas sobretudo pela pergunta o "PSD vai
aguentar Passos como líder à espera que o Governo do PS caia?" À ternura junto-lhe
uma coisa chamada imunidade parlamentar, que não vem no texto. E à pergunta junto-lhe
um excerto de uma notícia desta
semana que diz assim: "Os responsáveis pelo processo de reprivatização
da TAP, que entregou 61% do capital da companhia aérea portuguesa ao consórcio
Atlantic Gateway, dos empresários Humberto Pedrosa e David Neeleman, vão ser
alvo de uma queixa-crime, que vai ser interposta por membros da Associação Peço
a Palavra. O anúncio foi feito pelo presidente da associação, o realizador
António Pedro Vasconcelos, num programa da RTP, e vai ser explicada no início
da próxima semana, numa conferência de imprensa convocada para esse efeito."
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Best fools forever, ou lá o que é
Uma breve nota para assinalar a injustiça
do dia: o estatuto de "coligação
vencedora" das eleições de Outubro passado não conseguiu fazer aprovar a
moção de rejeição que apresentou para derrubar o actual Governo. Outra breve
nota para destacar a surpresa do dia: PS, Bloco de Esquerda e PCP têm mais
deputados do que a coligação vencedora dessas eleições. E ainda mais uma breve
nota, esta em forma de "se", para repor a verdade que este dia manchou: se os
"sociais-comunistas" não tivessem elegido 122 deputados, os
vencedores das últimas eleições teriam aprovado a sua moção de rejeição com uma
cabazada histórica de 107 a zero. Os tolinhos não se contrariam, e estes bastante
furiosos ficaram (BFF). Façam o favor de continuarem a descredibilizar-se.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
Quem não quiser ser Zuckerberg que ponha o dedo no ar
Hoje o mundo amanheceu com vivas
ao capitalismo inflamadas pela filantropia do dono do facebook, que anunciou a
sua intenção de, ao longo da vida, ir doando grande parte da fortuna pessoal a
uma fundaçãotambém sua propriedade e com o seu nome. Não nos/se baralhem, por favor. Em primeiro lugar, porque
por melhor que seja uma fundação ela não substitui as funções que apenas podem caber
ao Estado. Se, tal como o Estado, as fundações aplicam os recursos de acordo
com a vontade de quem as financia, essa vontade não coincide necessariamente
com o interesse público e muito menos obedece – e não faz sentido que obedeça –
às regras democráticas a que está sujeita a gestão da coisa pública. Em segundo
lugar, porque a excepção (ainda) não faz a regra. E a regra é a acumulação de
riqueza que um resolveu doar e todos os restantes mantêm a salvo de qualquer
redistribuição, lucros poupados pela fiscalidade, a crescer, e salários
sobrecarregados com impostos, a diminuir, e, apesar do flagelo do desemprego condenar
milhões à miséria, porque os aumentos de produtividade decorrentes de avanços
tecnológicos não são repartidos entre quem emprega e quem trabalha, a jornada
de trabalho continua por reduzir, a idade para deixarmos o nosso posto de
trabalho a quem dele necessita vem sendo progressivamente aumentada juntamente
com a penalização da sua antecipação voluntária. E atenção que é sobre o capitalismo
que escrevo. Sobre o gesto de Zuckerberg, aplaudo-o, sim, mas sem me comover, não
consigo comover-me com o destino dado a um fruto de uma aberração que a maioria
aceita como natural apesar de proibi-los de também serem Zuckerbergs. Se já vivêssemos
num mundo em que a jornada de trabalho e a idade para a aposentação fossem fixadas
de forma a assegurar o direito ao trabalho de todos, se a riqueza gerada já fosse
distribuída de forma a assegurar uma vida digna para todos, se a fiscalidade deixasse
de sobrecarregar os rendimentos do trabalho com os impostos que poupa aos lucros
e às rendas, em vez da generosidade facultativa de um teríamos a solidariedade obrigatória
de todos: todos os dias e não apenas num só, com toda a naturalidade e sem agradecimentos,
Cada um de nós seria um Zuckerberg. E sê-lo-íamos porque não haveria Zuckerbergs,
nem dos generosos, nem dos avarentos e gananciosos.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Gostei de ler: "Quando o imoral se torna banal"
«Miguel Horta e Costa,
administrador da ESCOM, empresa do Grupo Espírito Santo, esteve na Comissão de
Inquérito ao BES para explicar o seu envolvimento na compra de dois submarinos
pelo Estado Português. Lembro que, à data, tentávamos descobrir o circuito dos
16 milhões de euros pagos pelo consórcio alemão GSC a título de comissão à
ESCOM. Já a meio da audição, Horta e Costa resolve explicar o porquê de o
dinheiro ter circulado tanto, bem como o paradeiro de 6 milhões: não foi
corrupção, era mesmo só para fugir ao Fisco, e o dinheiro em falta serviu para
pagar aos advogados, bancos de investimento e assessorias que construíram a
operação.
A declaração que supostamente
tranquilizaria o país - afinal não houve corrupção - foi mais uma das
provocações convenientemente ignoradas pela maioria dos deputados e
governantes. Porquê? Porque se assim não fosse seriam obrigados a admitir que a
trafulhice é generalizada e que usa e abusa de leis feitas para isso mesmo.
Tornar-se-ia óbvio que estes esquemas não são exclusivo dos Horta e Costa deste
país, e que só são possíveis com a colaboração ativa de muitos dos mais
conceituados bancos e escritórios de advogados da praça.
Há muito que a Zona Franca da
Madeira (ZFM) é um pilar para estes esquemas. Quem a defende diz que gera
emprego e atividade económica. Os factos mostram o contrário. Veja-se o caso da
Eloaliança, denunciado pelo "Expresso" esta semana. É a segunda
empresa que mais lucra em Portugal, e também uma das que recebe maiores
benefícios fiscais. Paga 5% de imposto, declara mais de 100 trabalhadores, mas
só tem instalações para meia dúzia, além de apresentar uma conta anual de luz
de 482euro, quase o mesmo que uma família.
Há poucas grandes empresas em
Portugal que não façam uso da ZFM para esquemas de "planeamento
fiscal". A Jerónimo Martins fê-lo, a partir de uma sociedade chamada
Hermes, envolvida num complexo esquema com empresas na Holanda e nas Channel
Islands. O processo por "planeamento fiscal agressivo" passou anos em
tribunal, com sucessivas impugnações por parte do Grupo. De resto, já nada
parece surpreender e até se acha normal que a Sonae, a Amorim, ou a Jerónimo
Martins antecipem o pagamento de dividendos relativos a 2016 com medo de um
possível aumento da taxa sobre este tipo de rendimentos.
A fuga ao Fisco, o
"planeamento" ou "engenharia" fiscal não são exceções, são
a regra na gestão diária das grandes empresas, e todos os anos significam
milhares de milhões de euros de receita perdida para o Estado. São estas
empresas, estes empresários, banqueiros e advogados que não hesitam um segundo
em exigir mais austeridade enquanto clamam por novas descidas no IRC, cavando
assim uma desigualdade - entre trabalho e capital - que ninguém parece querer
encarar.» – Mariana Mortágua, no JN.
1º de Dezembro, ex-feriado da Restauração da Independência, seria bonito e simbólico que hoje fosse o dia escolhido para...
Publicado por Filipe Tourais em Terça-feira, 1 de Dezembro de 2015
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
Clima: "são três desejos, não é possível"
Querer reduzir as emissões
poluentes que estão a matar o planeta e, ao mesmo tempo, não querer um acordo
com metas de curto prazo nem sanções comerciais para quem o viole lembra aquele
anúncio de há uns anos onde alguém dizia “são três desejos, não é possível”. As duas potências mais
poluidoras, China e Estados Unidos, e esta Europa dos estranhos consensos,
sempre tão bem comportadinha quando se trata de proteger as empresas europeias
da voracidade de multinacionais que as arruínam com uma concorrência desleal feita
de produtos obtidos sem custos ambientais e, por que não dizê-lo também, com o
factor trabalho remunerado à malga de arroz e sem direitos laborais de espécie
nenhuma, bem podem passar a Cimeira do Clima de Paris a ensaiar discursos
bonitos sobre um planeta verdejante e sustentável. Já tivemos experiências
suficientes para perceber que tanta boa vontade, invariavelmente ancorada num
livre comércio que eles juram será bom para todos, voltará a resultar no
prolongamento da licença que continuarão a conceder àqueles que enriquecem
rentabilizando a destruição de um recurso que é de todos, o nosso planeta. E se
não é verdade que a Cimeira de Paris não serviu para nada devemo-lo a uma manifestação
que deu exposição mundial a medidas de segurança que em vez de combaterem o terrorismo,
que sem o fim dos paraísos do segredo bancário e sem beliscar os interesses dos traficantes de armas também não combatem, limitaram a liberdade de milhares de pessoas se manifestarem livremente
contra o banquete dos comensais do globo terrestre, que da Cimeira receberão luz
verde para continuarem a comer-nos o chão. O mundo está em muito boas mãos.
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
Eu cá sou pelos exames porque sou de esquerda
A direita é pelos exames por serem
à antiga portuguesa. A esquerda é contra os exames por serem à antiga
portuguesa. Sei que haverá quem se decepcione com o que lerá a seguir, este é
dos tais temas que põem quase toda a gente a berrar de cabelos em pé, mas eu
sou pelos exames porque sou de esquerda. Passo a explicar-me: sem a boa nota
que pode obter no tal exame que a esquerda diaboliza, o aluno pobre fica em pé
de desigualdade com o aluno rico que obtém uma nota menor. E escrevi pé de
desigualdade e não pé de igualdade porque, quando ambos saem do sistema de ensino
e entram no mercado de trabalho, o desempate entre este bom aluno pobre e este
mau aluno rico é feito pelo papá do segundo, que em regra, usando a gíria do
maravilhoso mundo da cunha, tem mais “conhecimentos”do que o do primeiro, que
se relaciona maioritariamente com gente tão simples e sem poder como ele
próprio, já para não mencionar todas as experiências enriquecedoras que apenas os
alunos de classes mais abastadas têm a possibilidade de vivenciar e que, pelas competências que desenvolvem, também entram
neste desempate.
E antes que alguém diga que os
conhecimentos de um aluno não se conseguem medir cabalmente em duas horas de
exame, ideia com a qual estou completamente de acordo, antecipo-me deixando
algumas questões para as quais confesso não ter respostas. E então como é que
se distingue o bom do mau aluno? Como é que se convence um puto que a escola
não é apenas um sítio divertido para ir passar o dia se, quer trabalhem, quer
não o façam, o “sucesso” é garantido à partida para todos? Como é que se diferencia
o bom do mau professor e uma escola de uma vendedora de boas notas sem uma avaliação
externa que sirva de termo de comparação? Já agora, o primeiro teste de
conhecimentos que façam, na faculdade ou no primeiro concurso para um posto de trabalho,
e serão obrigados a fazê-lo mais cedo ou mais tarde, também é “fascista”? Responda
quem tiver a certeza absoluta. E sim, exames
no 4º ano talvez fossem um exagero, aos 9 anos talvez seja demasiado cedo para
sujeitar uma criança a tanta pressão. Mas apenas talvez. E as questões que enumerei
atrás não desaparecem neste talvez.
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