terça-feira, 3 de novembro de 2015
Gostei de ler: "Não é para quem quer, é para quem pode"
«Já se está a tornar um hábito.
Todos os anos o Tribunal de Contas acrescenta uns largos milhões à lista dos
benefícios fiscais reportados pela Autoridade Tributária. Ficámos agora a saber
que ficaram 490 milhões fora das contas de 2013, a maioria aplicável a grandes
empresas. Num país em que a espoliação fiscal do trabalho quer fazer tradição,
as auditorias do Tribunal à Conta Geral do Estado constituem um dos raros
momentos em se ouve falar em benefícios fiscais. É lamentável. Porquê?
Para começar, porque torna muito
claro que os princípios de disciplina e rigor se aplicam unicamente à relação
entre o Estado e os pequenos contribuintes e/ou beneficiários de apoios
sociais. A implacável máquina fiscal que persegue quem menos tem revela-se
incapaz de divulgar com precisão e transparência as benesses que legalmente
concede a quem mais pode. Os quase 500 milhões que o Estado deixou de receber
são mais do que necessários ao cumprimento de muitas outras funções. Ter a
informação que nos permita avaliar o regime atualmente existente é o mínimo que
se pode exigir.
Em segundo lugar, a dimensão
deste tipo de benefícios fiscais - cerca de 1500 milhões de euros - é mais um
fator da crescente desigualdade na tributação dos rendimentos em Portugal. Nos
últimos quatro anos, a carga fiscal sobre o trabalho aumentou monumentalmente
ao mesmo tempo que as empresas usufruíram de várias formas de desagravamento:
descida da taxa de IRC e o aumento do número de anos para reporte de prejuízos
fiscais são só alguns dos exemplos mais simples.
Por último, é importante realçar
que, na sua larguíssima maioria, estes benefícios não servem para ajudar as
pequenas empresas. Regra geral, as PME não se constituem enquanto SGPS
(sociedades gestoras de participações sociais), não têm sede na Madeira e
muitas vezes nem têm lucros para pagar IRC.
Vejamos, então, a lista dos nomes
dos maiores beneficiários. A Spiering SGPS, registada na Madeira, está à
cabeça. Segundo se sabe, é a holding de topo do grupo de Ilídio Pinho. Em segundo
lugar, temos a Farrugia, também registada na Zona Franca da Madeira, controlada
por uma empresa brasileira de construção. Em terceiro lugar, a Tertir, uma
empresa do Grupo Mota-Engil, que terá tido direito ao benefício por via de uma
operação de reorganização interna do próprio grupo. Na lista dos principais
beneficiários constam ainda outros suspeitos do costume: EDP, Grupo Amorim,
Grupo Jerónimo Martins, Portucel, fundos de pensões de bancos, poderosas IPSS e
a Santa Casa da Misericórdia. Mas estes são os mais fáceis de identificar, já
que a maior parte dos nomes são desconhecidos e remetem para empresas-fantasma,
criadas para o efeito, sobre as quais sabemos muito pouco. Algumas são testas
de ferro de grandes fortunas portuguesas e estrangeiras.
Conhecem aquele conto de fadas da
economia composta por pequenas mas muito dinâmicas empresas onde o mérito e a
competência imperam, longe da mão destruidora do Estado? Esqueçam. O que temos,
não só aqui, mas um pouco por todo o Mundo, são grandes corporações com um
incomparável poder político, e cuja estratégia de acumulação de riqueza passa,
em larga medida, por explorar buracos legais gentilmente concedidos pelos
estados. E o Mundo assiste, porque isto da fuga ao Fisco não é para quem quer,
é para quem pode.» – Mariana Mortágua, no JN.
domingo, 1 de novembro de 2015
Gostei de ler: "Compromisso socioeconómico"
«A sensatez não é de Direita e
muito menos a Direita tem o monopólio da sensatez. Há uma espécie de sistema de
crenças, de caráter absolutista, produzido pelos poderes dominantes e
reproduzido pelos formadores de opinião dos grandes meios da Comunicação Social,
que nos tenta impingir uma dicotomia que coloca a Direita do lado certo da
interpretação do interesse nacional e defensora do rigor orçamental, atribuindo
à Esquerda comportamentos de aventureirismo económico e de despesismo
irresponsável.
As práticas e o debate político
que estamos a viver no país põem a nu esta falsa dicotomia: vem ao de cima, de
forma clara, que os traços marcantes que distinguem a Esquerda da Direita se
situam, acima de tudo, no campo da justiça social, nos valores e princípios que
colocam os cidadãos no centro das soluções políticas.
Cavaco Silva fez, nos últimos
meses, teorizações sobre as instabilidades políticas e a importância de
governos com apoio maioritário na Assembleia da República (AR). Mas os
resultados das eleições de 4 de outubro não lhe agradaram e a sua sensatez de
imediato se esfumou, passando ele próprio a produtor de medos e a gerador da
incerteza quanto a quem vai governar. Arvora-se em exclusivo intérprete do
"superior interesse nacional", situando-o na subjugação a poderes
externos e aos mercados e na quase total ausência dos direitos, interesses e
responsabilidades dos portugueses. Porquê o presidente da República se refugia
em procedimentos que a Constituição da República lhe permite adotar, apenas
para impor o seu Governo, quando sabe que a maioria da AR o derrotará? Quanto
vai custar ao país esta falta de sensatez?
No dia em que deu posse ao
Governo fantasma e aparelhístico de Passos Coelho, Cavaco Silva insistiu em
credibilizar os cenários cor-de-rosa dos êxitos da austeridade e do
empobrecimento. É significativo que nesse mesmo dia o presidente da CMVM tenha
vindo a público denunciar a "falta de ética existente na banca e nos
negócios" e o Ministério Público tenha denunciado e acusado um agiota (académico
de Harvard) que em 2010, denegrindo a dívida púbica portuguesa e especulando a
partir daí, obteve 819 mil euros de mais-valias. Passaram quase cinco anos a
subjugar o povo e a culpabilizá-lo pelos problemas do país, ao mesmo tempo que
fecharam os olhos aos roubos, passados e presentes, e ao crescendo das
desigualdades e injustiças.
O país está carente de justiça
social. A convergência de esforços das forças de Esquerda pode e deve responder
positivamente a esse desafio. Os compromissos para o atingirem têm de ter um
grande equilíbrio entre o social e o económico, o que implica a necessidade de
serem desenhadas e implementadas em simultâneo, as políticas nestes dois
campos.
Sem dúvida, é preciso atenção ao
equilíbrio orçamental, mas grande parte das medidas mais prementes, por exemplo
na área do trabalho - garantia de salários dignos, atualização do SMN,
reposição de direitos fundamentais e combate à precariedade -, podem ser
adotadas sem provocar desequilíbrios orçamentais e até podem ter efeitos muito
positivos na economia e logo, por consequência, nas receitas do Estado.
A reposição dos cortes em pensões
de reforma, nos salários e em direitos dos trabalhadores da Administração
Pública, bem como em algumas condições de acesso à Saúde ou à Justiça, têm, com
certeza, impacto no Orçamento. Isso obriga a trabalhar equilíbrios entre a
viabilidade orçamental, a justiça social e a dinamização da economia. É isto
que as forças de Esquerda serão capazes de fazer e a Direita jamais faria,
porque a centralidade das suas preocupações é o lucro em benefício de quem já
detém a riqueza, transformando todos os direitos sociais fundamentais e até a
pobreza em áreas de negócios.
O país precisa de crescimento
económico, mas também de desenvolvimento humano. Exige-se rigor na obtenção das
receitas e na gestão das despesas, mas é indispensável uma ação política de
exigência social, moral e ética quanto à distribuição da riqueza.
No atual contexto ser
revolucionário exige muita moderação, mas é preciso ser ofensivo, sem tréguas.»
– Manuel Carvalho da Silva, no JN.
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Que ninguém sopre, senão eles caem
Tomou hoje posse o XX Governo
Constitucional. Vamos fazer de conta que é mesmo um Governo para durar
quatro anos. Finjamos também que acreditamos que Cavaco Silva afrouxou o seu
anti-esquerdismo primário por se ter dado conta que é Presidente da República de uma democracia que não exclui nenhuma força
partidária. A farsa só vai durar dez dias. Rimo-nos depois, quando dissermos
adeus a Passos e a Portas e quando virmos a azia do nosso Aníbal a ser obrigado
a dar posse à esquerda dos seus pesadelos. Vai ser giro. Que ninguém sopre, senão eles caem.
Os tolos e as lebres, as lebres e os tolos
Nada como soltar uma lebre, há
sempre quem corra atrás. O CDS foi o único partido que votou contra a
Constituição da República Portuguesa e desde a primeira hora, ao longo das
últimas quatro décadas, sempre se manifestou contra ela. A comunicação social
pertence a quem pertence e essa voz nunca se ouviu a dizer que o CDS não podia
governar quando governou, e nos últimos quatro anos fez parte do Governo que
foi sucessivamente batendo todos os recordes da inconstitucionalidade para
chegar ao final do mandato com uma economia devastada, uma sociedade depauperada,
uma população envelhecida pela sangria de emigração jovem e um país
incomparavelmente mais endividado.
Já à lebre contra a maioria que
não pode juntar forças no Parlamento para sustentar um Governo que inverta este
rumo de destruição vemo-la por aí, doida, em corrida desenfreada, a semear
medos que se propagam pela multidão que corre atrás dela, e isto porque, sem
que de nenhum deles se fale que irá integrar
o futuro Governo e apesar dos documentos em causa não terem o mesmo valor da
CRP, dois partidos dessa maioria se relacionam com o Tratado Orçamental e as
regras do euro de forma semelhante à que o CDS se foi relacionando com a nossa
Lei fundamental, com a grande diferença de que defender salários mais dignos e
mais equidade fiscal não viola nem um nem o outro, antes
pelo contrário.
Têm medo concretamente do quê,
afinal?
Do primeiro e do segundo medo, os
mais imediatos, ressalta uma estranha aliança entre enriquecidos e empobrecidos
pela política desastrosa de quatro anos e meio que acabaram tal como começaram,
com um défice orçamental bastante acima dos 7%, e com a dívida pública atirada
para a estratosfera. Entende-se que os que enriqueceram queiram continuar a
enriquecer, e daí a lebre, mas é absurdo que quem empobreceu se junte aos
primeiros no coro contra o aumento do salário mínimo para os 600 euros que
chegaram a estar acordados para vigorarem a partir de 2013, e 90% de nós vive
de rendimentos do trabalho, e cada um desses 90%, entre eles os que ajudam a
lebre a correr, perdeu em média dois salários nos últimos quatro anos. Da
mesma forma, entende-se que quem nunca
pagou impostos queira continuar à margem de qualquer contribuição para a
sociedade que o enriqueceu e estranha-se que quem pertence aos 90% que até
agora tudo pagou junte a sua voz à dos primeiros contra uma esquerda que sempre
lutou por uma equidade fiscal que agora finalmente porá a pagar aqueles que
nunca pagaram para aliviar quem sempre pagou tudo.
E mais estranha ainda é que essa
cumplicidade raivosa se mantenha intacta mesmo depois de se saber que alguém
que atestou a idoneidade de Ricardo Salgado foi escolhido
para Ministro, que o Secretário de Estado que ofereceu ao desbarato o Metro
e a TAP tenha sido escolhido para repetir tais façanhas na
venda do Novo Banco e que o Governo aprovou às escondidas um diploma que
impõe como requisito obrigatório para a atribuição de pensões de invalidez o
atestado, que nenhum médico passa, de que o candidato a essa prestação social irá
falecer ou ficar completamente dependente nos três anos seguintes.
Portanto, medo de salários mais
dignos, medo do aumento de receitas fiscais e do emprego
criado por uma riqueza mais bem distribuída, medo de mais justiça
fiscal, medo que acabe a falta de pudor, medo que cesse a venda do país ao desbarato,
medo que se inverta um caminho rumo a uma sociedade que nega sustento a quem
deixa de poder trabalhar e abandona os seus doentes À sua sorte, medo que a
direita se dilua na percepção colectiva de quatro anos e meio de sacrifícios
draconianos a favor de uma casta de milionários que enriqueceu como nunca antes.
E medo da descoberta de um papão que afinal não estava na esquerda que soube
transigir no que lhe era possível e
ficar à espera que se torne maioritária a percepção de que o euro e as regras
do Tratado Orçamental nos condenam ao declínio e à miséria para evitar que o
papão comesse o que restava de país.
Claro está, tudo isto poderá
terminar com Bruxelas a chumbar logo o primeiro orçamento de forma a forçar
repetições de eleições até que vençam os melhores intérpretes do papel que reservaram para nós,, mas isso
depois logo se vê como reagir-lhes, o erro maior seria nem sequer tentar. E ao
longo deste processo haverá sempre lebres para todos os tolos e tolos para
todas as lebres, aqui e onde seja. De tolos que defendem quem os rouba e se
atiram a quem os defende nunca se poderá esperar grande coisa. É deixá-los
falar. Acabam invariavelmente na panela. Mas juram que são felizes assim.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Se a tradição mandasse alguma coisinha....
E cá está ela outra vez, a tradição,
a tal que muitos queriam ver a subordinar a Constituição da República
Portuguesa. Olho para os nomes dos escolhidos para não ministros do não governo
que a não imparcialidade do nosso não presidente tentou impor-nos e dou de
caras com o nome do senhor da foto, Calvão
da Silva, o escolhido para a pasta da Administração Interna. Calvão da Silva
foi um dos inquilinos da Praça do Parecer que aqui há uns meses atestou a
idoneidade de Ricardo Salgado no caso do presente de 14 milhões que
recebeu de José Guilherme com uma prosa sobre
" o "bom princípio
geral de uma sociedade que quer ser uma comunidade – comum unidade –, com
espírito de entreajuda e solidariedade". Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e Ricardo Salgado escolheram o mesmo mercenário. Maldita tradição – favores
pagam-se com favores – que não tem
qualquer valor legal na nossa democracia. Seria bonito ver tão bons princípios a
nortearem a acção das polícias que este senhor iria tutelar de forma a que, de
uma vez por todas, deixassem de importunar cidadãos idóneos. Esse ilustre cidadão
que dá pelo nome de Manuel Dias Loureiro acaba por ser o não escolhido para não
ministro de nenhuma pasta deste não Governo: tanta solidariedade e espírito de
entreajuda fazem-no estar lá sem estar, o que também é bonito. Mas mais bonito
ainda, bonito mesmo, será ver tanta indigência regressar para donde quer que a tenham encomendado daqui a duas
semanas. E pela porta pequena, como manda a tradição aplicável a tudo o que não presta.
Vagamente relacionado: da
esquerda à direita, o Presidente da República é trucidado por boa parte da
imprensa internacional. À cabeça das publicações mais críticas encontra-se o
conceituado diário britânico The Telegraph. (...) "O Sr. Cavaco Silva está
realmente a usar o cargo para impor uma agenda política reaccionária, no
interesse dos credores e do establishment da zona euro e travestindo tudo isto
com assinalável Chutzpah [nota do tradutor: descaramento] como defesa da
democracia". A concluir, Evans-Pritchard nota que "os conservadores
portugueses e os seus media comportam-se como se a esquerda não tivesse direito
legítimo a assumir o poder, e devesse ser mantida ao largo por todos os meios.
Estes reflexos são conhecidos - e arrepiantes - para qualquer pessoa
familiarizada com a História ibérica do século XX, ou da América Latina".
E mais adiante: "Bruxelas criou realmente um monstro". (continuar
a ler)
Vitória, vitória, mas ainda não acabou a História
A boa notícia do dia é também a
vitória do dia da democracia sobre uma ditadura podre: ao 36º dia, ontem, Luaty
Beirão deu
por finda a sua greve de fome. Final feliz para o episódio dos 17 putos
que, sem o quererem, conseguiram dar visibilidade mundial aos crimes de um
regime cleptocrático, à ao qual fizeram cair a máscara. Será sem ela e com os
olhos do mundo pregados em Angola que o simulacro de Justiça da ditadura de José
Eduardo dos Santos irá julgar os 17 heróis nacionais pelo crime... de terem
lido um livro sobre formas pacíficas de protesto. Qualquer condenação, por mínima
que seja, e teremos o mundo inteiro novamente a assistir ao regime angolano a
dar mais um tiro no seu próprio pé.
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Que fim em grande: "A TAP e o céu na Terra"
«(...) Depois do meu último
post sobre a TAP e sobre o Secretário de Estado dos Transportes, asseguro
ao leitor que planeava deixar ambos em paz por umas semanas ou meses.
O problema é que o Conselho de
Ministros do XIX Governo Constitucional reuniu pela última vez a 22 de Outubro
de 2015 para uma “importante”
resolução sobre a TAP, (a única
resolução dessa reunião do Conselho de Ministros e não tenho conhecimento
de outros pontos na agenda). Houve direito a um “briefing”
à imprensa, em que também participou o Secretário de Estado dos Transportes
e a Secretária de Estado do Tesouro.
A resolução do Conselho de
Ministros meramente aprova um
anexo a um acordo de venda, que não é público. E deve o cidadão confiar
nesta transparência toda? Da resolução publicada em Diário da República deveria
constar o anexo aprovado ou, pelo menos, o teor das medidas alteradas nesse
acordo. O que não ocorreu.
Segundo a imprensa, a alteração
ao anexo do acordo de venda, alegadamente, resulta da dificuldade do consórcio
comprador em refinanciar
a dívida da TAP e pedir
mais 120 milhões de euros emprestados, i.e., endividar a TAP ainda mais do
que já estava.
O governo tinha assegurado que o
comprador é que tinha de mostrar que tinha meios para financiar a compra da TAP
(e injectar
imediatamente 269 milhões de euros). Mas aparentemente os
bancos “não
foram na conversa” (em particular, o Deutsche
Bank) e o Governo achou que tinha de dar a proverbial “mãozinha” ao
comprador, i.e., no que se me afigura consubstanciar uma forma de ajuda
estatal.
Na conferência de imprensa os
governantes presentes falaram sobre alguns detalhes das alterações introduzidas
no anexo ao acordo. E, como já se tornou habitual nestes casos, foi o
Secretário de Estado dos Transportes que estava mais a par dos detalhes e que
explicou porque se justificava a resolução do Conselho de Ministros,
evidenciando o seu elevado envolvimento pessoal em todas as fases do processo.
Fiquei espantado pela medida
aprovada.
Então não é que a TAP privatizada
vai passar a ser mais controlada pelo sector público, que a TAP (ou a sua
gestão) quando esta era pública? Vai ter de apresentar contas consolidadas
mensais; ser auditada todos os meses, para se saber do estado das contas; se o
comprador não cumprir, a TAP reverte logo para o sector público mas sempre mais
capitalizada do que quando foi vendida. Ou seja o Secretário de Estado dos
Transportes promete-nos o céu. Só que quando a esmola é muita…
Não é possível analisar, com base
em “conversas”,
o que consta no referido anexo ao acordo e qual o seu propósito. Posso, no
entanto, fazer um “educated guess”: a banca pretendia manter as garantias
estatais para os seus empréstimos à TAP. E, a forma encontrada parece simples:
se o negócio correr mal para o grupo comprador e a TAP enfrentar problemas, a
TAP reverte para o Estado e os bancos vêem os seus empréstimos passar de um
grupo privado — em dificuldades — novamente para o Estado. Ou seja, se a coisa
correr bem os lucros privatizam-se, se correr mal socializam-se as perdas.
Se o meu “educated guess” estiver
correcto, ganham os compradores porque sem esta intervenção do Estado a banca
não concordaria com o negócio, dado que exigia garantias bancárias que os
compradores (ao que tudo indica) não possuem. A banca beneficia, em parte,
porque renova os empréstimos a taxas de juro mais altas, como se estivesse a
emprestar a uma empresa do sector privado quando, na realidade, se o comprador
do sector privado não cumprir o contrato de empréstimo a TAP e a sua dívida
passam novamente para o Estado (através da Parpública). A TAP passa a ter uma
despesa com juros mais elevada, deteriorando a sua viabilidade
económico-financeira. E o erário público lá estará, no final da linha, à espera
de assumir os resultados deste experimentalismo todo, com toda a dívida da TAP
como dívida contingente.
Em suma, parece que o Secretário
de Estado dos Transportes é mesmo incompreendido. Muitos, no país e no
estrangeiro, no sector público e privado, têm de passar a imitar as melhores
práticas aprovadas neste Conselho de Ministros – certamente que alguns dos
membros do Conselho de Ministros já passaram por processos de encerramento de
contas consolidadas anuais ou trimestrais e, por isso, sabem que é mesmo mesmo
fácil, passar a encerrá-las e auditá-las todos os meses –. E nada como ter o
Estado a meter o bedelho no dia-a-dia de uma empresa recém-privatizada.
Onde é que se vão desencantar
estas ideias maravilhosas? Ainda por cima publicadas, com orgulho e para a
posteridade, no Diário da República. E logo a última resolução do XIX Governo
Constitucional! Que fim em grande…» – Ricardo Cabral, no TME.
Actualização: a negociata confirmou-se poucos dias depois. Ler aqui.
domingo, 25 de outubro de 2015
A tradição eram eles (post #7000)
De repente, a nossa democracia
ficou dividida em duas. Para um lado, a democracia cujas regras vêm definidas
na Lei fundamental. Para o outro, uma democracia cujas regras alegadamente
estão numa coisa chamada tradição. Ao meio, a separar os dois lados, a delimitação
que o senhor Presidente da República fez o favor ao país de enunciar.
Não, não foi de repente. Já lhe
perdemos a conta ao tempo, mas há muito que o país anda a ser bombardeado com a
mesmíssima tradição que agora vemos vociferada com raiva pelas mesmas bocas e
pelas mesmas mãos que na imprensa falada e escrita nos foram embalando com uma
versão de mundo dividida em "realismo" e "irrealismo", "responsabilidade"
e "irresponsabilidade", "sentido de Estado" e falta dele que
cabiam ou não dentro de uma criação dessas bocas e dessas mãos que dá pelo nome
de "arco da governação". Há muito tempo que essas bocas e essas mãos entretinham
quem os levasse a sério – e há tanta gente que assume como verdade tudo o que
sai do rádio e do televisor lá de casa ou aparece escrito no jornal do café,
rejeitando em simultâneo tudo o que o desdiga e desmistifique – com narrativas
sobre eleições por eles transformadas num invariável Benfica-Sporting para
escolher o Primeiro-ministro e não para o que realmente servem, para eleger
deputados.
De repente, aqui sim, vêem-se
desautorizados e, agora sim, pela
realidade. A tradição é o argumento que lhes resta. Mas a tradição são
eles, a tropa de homens e mulheres da situação que doutrinam para a tradição do
futebol eleitoral, o seu rebanho de devotos que se organizam em procissão para
carregar a cruz até à urna de voto e a tradição do toureio a pé e a cavalo
daqueles que usam o poder angariado pelas tradições dos anteriores para nos
cravarem os destinos sem dó nem piedade com os seus ferros curtos e longos.
Não havia alternativa, pois era.
Temos pena, a tradição foi derrotada nas urnas. A tradição não pode ser o que nunca foi. Experimentem ler a
Constituição da República Portuguesa. A tradição que conta é a que lá vem, a
soberania popular que, venham de lá essas tretas sobre o que não pode ser por
causa dos mercados, não é só em Portugal que anda a quebrar tradições.
Já agora, continuem a ler o país
do Burro. Este é o post número 7000. Os especialistas que se pronunciem se
chega para começar também para aqui a armar-me à tradição.
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
Gostei de ler: "Comentaristas e politólogos"
«Há dias, António Vitorino, um
político-painelista, isto é, com lugar cativo nos “painéis” televisivos,
comentava na SIC Notícias a situação política pós-eleitoral, contracenando com
um seu colega também painelista Pedro Santana Lopes. Riu muito, sem moderação,
brincou com o facto de ter sido poupado aos últimos desenvolvimentos do
folhetim político por ter estado uns dias no estrangeiro e — disse ironicamente
— acabado de aterrar no estúdio ainda com jet lag.
O que significam tanta galhofa,
tanto informalismo, tanta displicência? Significam que este comentador está tão
habituado àquele lugar e apropriou-se de tal modo dele que o ocupa como se
estivesse em casa ou no café com os amigos. O chamado “comentário político” —
na televisão, na rádio, nos jornais — tornou-se um lugar de convívio e de
tertúlia, onde se encenam consensos e polémicas, acordos e beligerâncias. Um
exército armado de painelistas e comentadores capturou a esfera pública e
assegura a prossecução desta festa diária que em momentos críticos e de
irrupção de algo novo, como é este que estamos a viver, se torna uma torrente
de discursos que nos sufocam e sufocam tudo. Trata-se de um exército de elite
que tem a seu cargo a acção de mortificar aquilo em que toca.
Para esta orgia tanatológica —
oposta, portanto, ao erotismo, nada de vivo passa por ela — muito conta o
regime de versatilidade instituído: os políticos tornaram-se jornalistas e os
jornalistas tornaram-se políticos. Uns e outros restauram uma função que até no
campo da literatura há muito tempo começou a vacilar: a função-autor. Ela é
agora uma função vazia, mas com a capacidade de criar uma fábula, a dos
autores-comentaristas (não foi também assim que surgiram em França “os novos
filósofos”?). Há-os de todos os géneros: satíricos, carnavalescos, épicos e
romanescos, dramáticos, raramente líricos, já que o lirismo, ao contrário da
narrativa, não satisfaz a exigência de continuidade, tende para a interrupção.
Esta torrente mantém-se porque funciona como um sistema homeostático,
alimentando-se de si próprio: atinge o ponto da homeostase e, passando a um
regime autotélico, deixa de precisar de uma fonte de alimento exterior.
Dito de maneira mais simples: o
exercício do comentário tem como objecto outros comentários que, por sua vez,
também são comentários de comentários. E assim cresce um burburinho
espectacular e um ambiente de guerra civil a partir de uma semiose infinita e
barroca, de um processo auto-referencial imparável. Ver aqui uma forma de
propaganda, por analogia com a propaganda dos totalitarismos, é não descortinar
o essencial: a propaganda era instrumental, enquanto o comentário é,
tendencialmente, um meio sem fim, é o todo da política na época em que ela foi
cooptada pelo fetichismo da mercadoria. É um poder real, mas tem de ser analisado
na perspectiva de um poder constituinte, mais do que de um poder constituído.
A espiral barroca do comentário
passa também pelos politólogos. São eles os legitimadores de última instância,
chamados de vez em quando a fornecer umas pitadas de verosimilhança científica
(ou, pelo menos, de um saber universitário), algo que eles fazem — hipótese
benevolente — com a mesma atitude com que um médico receita um comprimido
inócuo ao seu doente para produzir um efeito placebo. Enquanto um comentador
diz muito simplesmente que “hoje não chove e por isso ainda não vamos ter
governo”, o politólogo diz antes: “A chuva é, em termos kantianos, um
transcendental governativo, isto é, uma condição de possibilidade de formação
do governo. E como estamos em seca...” – António Guerreiro, no Público.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
A voz aos traidores
Antes do que fez hoje, Cavaco
Silva já era, e de muito longe, o pior Presidente da República de todos os
tempos. Indigitar Passos Coelho Primeiro-ministro sem maioria absoluta no
Parlamento já ultrapassaria, e por muito, todos os limites da decência democrática.
Mas sua excelência real, em corrida desenfreada para o recorde mundial das abjecções, foi capaz de ir
ainda mais longe. Hoje foi o dia em que os portugueses viram o seu
Presidente da República de cabeça completamente perdida a dirigir-se à bancada
socialista a apelar à desobediência ao seu líder, a desafiar quem queira passar-se
para o outro lado e juntar o seu voto ao dos 107 deputados do PSD e do CDS na viabilização
do Governo cuja indigitação anunciava e a ameaçar com um Governo de gestão caso
a sua vontade não seja satisfeita. Cavaco Silva acaba de ficar para a História como
o Presidente da República que colocou o nosso futuro colectivo nas mãos de quem
queira conquistar um lugar ao seu lado na galeria dos traidores colaborando no
seu golpe palaciano. A voz aos traidores, portanto. Bastam nove para garantirem
a Pedro Passos Coelho o poder de continuar a dar-nos cabo do país e das vidas.
A imprensa fala em quinze magníficos.
Não liguem, foi só um pequeno deslize
Se tivesse sido um cidadão
anónimo a lembrar-se de dizer que a ideia de exterminar os judeus não foi de
Hitler e sim de um palestiniano
que o aconselhou, tratar-se-ia de mais um caso dessa ignorância que tão bem
caracteriza os fanáticos de extrema-direita. Se esse cidadão anónimo fosse
judeu, à comprovada ignorância juntar-se-ia
um fortíssimo indício de atraso mental, só mesmo a um atrasadinho ocorreria branquear o holocausto do seu próprio povo. Quem o afirmou, porém, não foi
nenhum cidadão anónimo, foi um judeu, por sinal um judeu com responsabilidades,
nem mais nem menos do que Benjamin
Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, um estado que adoptou para os
palestinianos uma réplica adaptada do genocídio nazi que vitimou mais de seis
milhões de judeus nos anos 30 e 40 do século passado. Será, portanto, veneração.
Uma veneração assumida, legitimadora do extermínio movido por Israel ao povo que
afinal gerou o conselheiro que o seu Primeiro-ministro foi desencantar à sua própria
imaginação. E uma veneração que, embora prontamente rejeitada, por
exemplo, por Angela Merkel, continuará a ser consentida juntamente com todas
as mentiras e todos os crimes hediondos de um estado germicida. Esta poderia
ter sido a gota de água que faria transbordar um copo há muito demasiado cheio de crimes para ser
tolerado. Nada disso. "Continuem a matar à vossa vontade mas atenção a
esses pequenos deslizes, façam o favor de ter mais cuidado com o que dizem".
E que honra é para nós, portugueses, fazermos parte da grande família NATO que sempre
sustentou material e diplomaticamente todos os excessos do regime do Hitler judeu,
ao qual também prestamos vassalagem. A obediência cega aos "compromissos internacionais"é
sinónimo do tal "sentido de Estado", qualidade enunciada pelo senhor
Presidente da República como imprescindível para assumir responsabilidades
governativas.
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Gostei de ler: "Angola: carta aberta aos meus amigos do PCP"
« Escrevo-vos de cidadão para
cidadão, muito para lá da retórica da política, na defesa do inalienável
direito político da liberdade de expressão. Escrevo-vos também num acto
solidário de artista para outro artista, privado dessa mesma liberdade e da sua
própria liberdade. Escrevo-vos sem saber se, à hora da publicação desta carta,
Luaty Beirão foi libertado ou se morreu, mas, seja o que seja, quero
perguntar-vos: porquê, então, o silêncio?
Não se ofendam. Com Apolinário, e
como aprendi com o meu avô Amílcar Castro, sei que “a verdade é uma força que
ultrapassa a própria dimensão em que combato”. E fico atónito, meus amigos do
PCP. É que eu vi passarem por casa dos meus avós maternos muitos e muitos
comunistas abnegados na luta pela liberdade na nossa Pátria, ali chegando, às
vezes acabados de fugir das prisões da ditadura. Prisões onde também familiares
meus estiveram, e um cumpriu pena e outro sofreu torturas. E não consigo
entender a vossa ausência na luta pela libertação de um preso de consciência.
Porquê, então, o silêncio político?
Nada é suficiente para aceitar
qualquer terrorismo de Estado. Todavia, outros factos, num quadro histórico
diverso e numa época incomparavelmente diferente da de hoje, não vêm para aqui
ao caso e não os vou meter no mesmo saco, nem cabe aqui confundi-los.
Escrevo-vos, meus amigos do PCP, por um homem e um símbolo luso-angolano, preso
por um regime de matriz fascista no plano interno e de feição neoliberal da
globalização da intensificação de miséria dos povos no plano externo. De resto
evidente na gula dos seus investidores no nosso Portugal privatizado em saldo
por Passos e Portas. Porquê, então o silêncio político vosso?
O caso de Luaty Beirão ocorre num
regime bem semelhante às velhas oligarquias e plutocracias da América Latina,
como a Cuba contra quem Fidel y los barbudos subiram à Sierra Maestra para
descer com o apoio popular e derrubar Baptista. É um regime que assenta num
modelo social bem longe daquilo porque se bateram Agostinho Neto, Pinto de
Andrade e muitos outros, incluindo Nito Alves e milhares de anónimos angolanos
combatendo nas fileiras do MPLA. Aliás, no olhar tranquilo e determinado –
quase místico de ascensão à utopia da justiça total – de Guevara morto e no de
Luaty Beirão, disposto a levar até ao fim a greve da fome, há muita
proximidade. Tal como o olhar hipócrita da filha do Presidente, quando vai em
jacto particular a Paris tomar chá ou às compras nos costureiros da Avenue
Montaigne, se identifica com o ar hipocritamente cândido de Imelda Marcos a
nadar entre milhares de sapatos! Porquê, então, o silêncio político vosso,
incompreensível?
Angola está no ranking dos cinco
países de maiores desigualdades sociais; 70% da população vive com menos do que
o equivalente a cerca de 50 euros por mês (ao câmbio anterior à desvalorização
imparável do kwanza); está em 186.º lugar de esperança de vida (menos de 38
anos para os homens, e de 40 para as mulheres), dos países integrantes da ONU
(198), segundo fontes da mesma, e abaixo do Uganda, da Eritreia ou da Somália…
e de ex-colónias portuguesas, como Timor Lorosae e Guiné, qualquer uma delas
com recursos naturais incomparavelmente menores. Angola é um país de saque e
violência policial; a falta de saneamento nos musseques eleva brutalmente a
taxa de mortalidade infantil por difteria e onde tudo falta: equipamentos
médicos, escolas, alimentação, vestuário. Por contraste com o luxo concentrado
na pequeníssima elite em torno do Presidente e seu generalato privado. Porquê,
então, o silêncio político vosso, incompreensível e contraditório?
O que acontece com Luaty Beirão
em Angola, lembra-me o Portugal de Salazar: onde o cantor Zeca Afonso foi preso
por escrever canções de protesto social; onde, para lá dos prazos legais no
ordenamento jurídico-constitucional do regime soberano, havia as “medidas de
segurança” da PIDE, que permitiram que dezenas de antifascistas ficassem
eternamente nas masmorras; onde o dirigente comunista Militão Bessa Ribeiro
morreu preso em greve da fome. Porquê, então, o silêncio político vosso,
incompreensível e inexplicável, inaceitável?
Desculpem, meus amigos do PCP,
mas não consigo de todo discernir sequer uma razão lógica ou ideológica que me
deixem lugar à mais pequena explicação para este silêncio vosso,
incompreensível e inexplicável, inaceitável. Creiam, meus amigos do PCP, que a
indignação por tamanho choque é proporcional à tristeza que me invade por ser
cometida por um partido de memórias que respeito, meus amigos do PCP. Um
regime, cuja prática é antípoda daquela sobre que o próprio MPLA se ergueu. Dos
Santos, além do criminoso que é, é um traidor, um cleptocrata abjecto. Porquê,
então, o silêncio político vosso em convergência com o dos que o fazem pela
susceptibilidade dos mercados e do respeitinho pelos poderosos do mundo?
Porquê, então, o silêncio
político vosso de quem, sem ironia, em Portugal se bateu até à morte pela
liberdade e se mantém firme entre os que lutam contra a exploração sem limites
e a opressão? Porquê?» – Castro Guedes, no Público.
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
O baile irá enfim terminar
Bem-vindos sejam à semana em que
se decidirá o nosso futuro mais próximo. Cavaco Silva terá a sua oportunidade
de se despedir em grande indigitando Pedro Passos Coelho para
Primeiro-Ministro. A seguir, o PS terá a sua de se definir de uma vez por
todas, ou viabilizando o Governo do senhor Presidente, e note-se que apenas é necessário
o voto de 9 deputados para que tal aconteça, ou assumindo a responsabilidade de
governar à esquerda com a maioria que detém no Parlamento em conjunto com Bloco
e CDU. Porventura o sinal mais importante de como tudo isto irá terminar tê-lo-emos
lá para Quarta ou Quinta-feira no momento da eleição do Presidente da
Assembleia da República, que tanto Poderá ser uma figura do PS com os votos de
PSD e CDS como ser uma figura da
esquerda com os votos de PS, Bloco e CDU. O que acontecer depois com toda a certeza será uma réplica desta escolha. E será o PS que irá fazê-la. Com o passar dos dias, haverá cada
vez mais máscaras caídas pelo chão.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Europa: quando o crime se tornou virtude
Sem sanções de qualquer tipo para
os nossos respeitáveis parceiros europeus que recebem refugiados como se de
bandidos se tratassem, com polícia armada com metralhadoras e erguendo muros e
barreiras de arame farpado para lhes travar o passo, o primeiro morto a tiro
seria uma questão de tempo. Foi esta noite, na Bulgária. As autoridades
búlgaras contam uma história incrível: a polícia detectou um grupo de meia
centena de afegãos desarmados numa
localidade a 30 quilómetros da fronteira com a Turquia, deu-lhes ordens para
que parassem, o grupo resistiu, a polícia foi obrigada a disparar tiros de
aviso para o ar e um destes tiros fez ricochete e atingiu mortalmente na nuca
um dos refugiados. Que tipo de munição utilizam para dar tiros de aviso e
ricochete onde, se os tiros foram disparados para o ar? Esqueceram-se de
dizê-lo, acrescento-o eu, em certos países ali por aquela zona há uma espécie
de nuvens de betão que tornam muito perigoso qualquer tiro disparado na sua
direcção.
Por causa destas nuvens, um pouco
mais a Leste, na Turquia, a polícia quando quer avisar que não quer ninguém a
auxiliar as centenas de feridos do atentado perpetrado pelo próprio regime do presidente
Erdogan, que no passado Domingo vitimou mais de uma centena de cidadãos
indefesos que se manifestavam pacificamente pela paz, é obrigada a disparar
directamente contra os que ousem desobedecer-lhe, não vá uma bala fazer
ricochete lá em cima e errar o alvo. Comecei este que lêem a falar na ausência
de sanções a um terrorismo de Estado que envergonha a Europa, termino-o com um
prémio que aumenta ainda mais essa vergonha: entre outras vantagens, e fala-se
em aceleração
do processo de adesão à UE de mais um "respeitável parceiro" para
somar à lista, a Turquia irá receber da União Europeia 3 mil milhões de euros para
servir de tampão à vaga de refugiados, que irá reter no seu território e
impedir que cheguem à Europa. Não sei se estão a ver o filme: um regime que
trata como trata os seus próprios cidadãos irá receber 3 mil milhões, que
deveriam ser canalizados para a integração da juventude que renovaria esta
Europa envelhecida, para dar tratamento de cidadãos estrangeiros e sem direitos
a todos os que consiga interceptar no seu território. Sem dúvida alguma, temos
cada vez mais motivos para nos orgulharmos da pertença a esta Europa que tão
bem sabe zelar
pela nossa felicidade. Esta brincadeira não vai terminar nada bem.
Actualização: A
União Europeia vai pagar três mil milhões de euros à Turquia ,
alegadamente para melhorar as condições
de vida dos cerca de 2,5 milhões de refugiados da guerra da Síria que ali estão
a viver,, porém, na prática, em troca de Ancara se empenhar em garantir que menos
pessoas fazem a viagem até às fronteiras do espaço europeu para pedir asilo. A
Turquia será o campo de concentração desta Europa do IV Reich. E o único país
que se opôs foi a Itália, e não por motivações humanitárias, longe disso:
simplesmente por não querer que a sua contribuição para o fundo conte para o défice.
Conseguiu.
E o fundo lá foi, como se lê na imprensa deste 3/2/2016, "finalmente"
aprovado.
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Negociar sem maioria absoluta: umas vezes é-se Godofredo, noutras é-se Asdrubal
Há dias uns amigos contaram-me a
história que passo a reproduzir tal e qual me foi contada.
«O grande Benfica-Sporting era
naquele dia. Os bilhetes estavam a acabar. O mais barato custava 20 euros e,
tragédia das tragédias, Godofredo só tinha 19. Tentou que os amigos do café lá
do bairro lhe emprestassem o euro que lhe faltava. Em vão, estavam todos lisos
ou com os tostões bem contados. Os minutos iam passando, o desespero ia
aumentando. Lamentava-se da sua pouca sorte quando Asdrúbal se sentou na mesa
ao lado da sua. Calou-se, Asdrúbal era o seu rival de sempre.
Mas Asdrúbal ouviu-o. Era a sua
oportunidade. Asdrúbal diz para o ar que tem cinco euros no bolso, “à boa vida”,
para aumentar a provocação. Na verdade só tinha um. Godofredo olha para o
relógio e inquieta-se. Imagina uma jogada espectacular com o Nicolas Gaitan a
fintar quatro adversários de enfiada e inquieta-se ainda mais. Vê o Jonas a
corresponder de cabeça ao cruzamento com um toque para trás para Talisca e a
inquietação começa a ferver-lhe nas têmporas. Vê a bola como um foguete a
encaminhar-se para o cantinho da baliza, vê Rui Patrício a voar para ela, mas
de repente tudo se turva e não consegue ver se foi golo ou não. Porra!
“Amigo Asdrúbal, por acaso não
tens para aí um eurito que me emprestes?” O Asdrúbal diz-lhe que sim, desde que
Godofredo lhe consertasse à borla aquela torneira que na semana anterior queria
reparar por 10 euros. Godofredo vê-se a perder 9 euros com a brincadeira mas,
que remédio, aceita e estende-lhe a mão para recolher a moeda. Asdrúbal
pede-lhe calma e continua, “e me consertes também o chuveiro e a tomada da
sala”. Godofredo vê mais 40 euros a voar mas, que remédio, pelo Benfica tudo, continua
a aceitar, agora já a imaginar tudo o que poderia avariar na casa do Asdrúbal para
se vingar. E Asdrúbal continua: “e me passeies o anormal do cão durante um mês”.
Aí Godofredo encoleriza-se e responde-lhe: “e o rabinho lavado com água de
malvas, não?” Ao que Asdrúbal responde: “pode ser. Tu é que sabes se queres ir
ver o jogo ou não”.»
E mais não me contaram, lamento,
prometo compensar-vos com outra mais daqui a bocadinho, sim? Antes queria
sublinhar o facto de haver circunstâncias que podem multiplicar por muitos o
valor de uma posição minoritária numa negociação, realçar como a arte de
negociar tanto pode maximizar o valor final dessa multiplicação como deitar
tudo a perder e constatar como negociações que até podem deixar ambas as partes
aparentemente satisfeitas no presente também podem potenciar uma instabilidade latente
no período seguinte. Atenção que nada a ver com o Costa que anda a fazer de Godofredo
para a esquerda e de Asdrúbal para a direita, essa história não é para aqui chamada,
ele é que sabe se quer ser Primeiro-ministro ou não.
Prefiro terminar de imediato este
que já vai longo com a compensação que prometi há pouco. Então cá vai, passou-se
na campanha eleitoral das legislativas de 2011 e ninguém ma contou, li-a num
artigo do DN de 14 de Maio desse ano sobre o debate televisivo entre Passos
e Portas. Dizia assim (e viva
o Benfica):
"Para o líder do CDS, não é importante
na formação do próximo Governo se o PS tem mais votos: se a direita tiver
maioria absoluta, governará. (...) 20h54. "Vamos ver se o PSD consegue ou
não uma maioria", diz Passos. Mas "não é irrealista. E não vale a pena
ficar a olhar para trás para ver se fizemos um erro", insiste. Portas
responde: "Portugal precisa de mais uma candidatura a
primeiro-ministro". E diz que juntos ("com o CDS com 23,5% e o PSD
com 23%") a direita "faz a maioria que o PR pede" - mesmo que o
PSD não vença, leia-se."
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Onze mil milhões depois (em bancos)
Coiso e tal, a luta de classes
pertence ao passado, o combate às desigualdades é um fetiche ideológico de quem
não percebe nada de economia, o que importa é que o PIB cresça com políticas
ideologicamente neutras para que a vida de todos melhore. Os mitos dos tempos
que correm. Não há comentador que não saiba que tem que ajudar a difundi-los para
garantir o seu lugar ao sol. Não há imbecil que não saiba que tem que saber
papagueá-los para projectar aquela imagem de cidadão informado e moderno que
lhe garante um lugar na “solução”, o hemisfério “positivo” de um mundo de
frases feitas cujo hemisfério “negativo”, de onde apenas não fogem os
antiquados que não saibam ver “as coisas como elas são”, os “sábios realistas”
denominaram “problema”.
Como o poder de decidir o que é
ou não notícia deixou de ser considerado uma arma numa luta de classes que
pertence ao passado, já nem estranho não encontrar uma linha que seja na
imprensa escrita sobre uma peça que ouvi
na rádio há uma semana. Até porque notoriamente o estudo conduzido pelo
Prof. Pedro Ramos, da Universidade de Coimbra, pertence ao tal hemisfério
“negativo”. Dele apenas fiquei a saber o que se ouve nos minutos que dura a
gravação, que nos últimos sete anos, em que o bolo total também encolheu, a
fatia correspondente a rendimentos do trabalho reduziu-se de 57% de um PIB que
há sete anos era maior para 52% de um PIB hoje muito menor, o que é o mesmo que
dizer que as fatias distribuídas por lucros, rendas e dividendos financeiros aumentaram
os mesmos 7%, 11 mil milhões de euros em termos absolutos, em que se reduziram
os rendimentos do trabalho. Uns enriqueceram os 11 mil milhões que os outros
empobreceram. E 11 mil milhões é uma soma que equivale ao que nos custaram BPN
e BES. Dois bancos.
E ainda faltam mais três. Se
multiplicarmos aqueles 11 mil milhões pelos 11% que cada trabalhador desconta
para a Segurança Social e lhe somarmos os quase 24% correspondentes ao que cabe
aos empregadores descontarem, 35% de 11 mil milhões são 3850 milhões que
desapareceram quando os 11 mil milhões deixaram de ser salários e passaram a
ser lucros, rendas ou proveitos financeiros, que não geram quaisquer receitas para a Segurança Social. Aqui está ele, o terceiro banco.
Nestes 3850 milhões cabem os 2400 milhões que a coligação diz ser agora
necessário cortar às reformas a pagamento nos próximos quatro anos, os cortes
no rendimento social de inserção e no complemento solidário para idosos dos
últimos quatro, o aumento da idade necessária para ganhar o direito a receber
uma pensão de reforma sem penalizações, cabe lá isto tudo e ainda sobra.
Sustentabilidade da Segurança Social, já devem ter ouvido falar.
Sobre a sustentabilidade da Saúde,
da Educação, da Cultura e sobre as reduções salariais que tantas
sustentabilidades juntas alegadamente tornaram necessárias por não haver
dinheiro, também já ouviram falar com toda a certeza. Quatro em cada cinco
euros de receita fiscal provêm, directamente (IRS) ou indirectamente (IVA), dos
rendimentos do trabalho. Ao passarem da fatia que contribui com 4 destes 5
euros para a fatia que apenas paga um, aqueles 11 mil milhões deixaram de
render o equivalente a mais um banco, o quarto, ao qual se soma ainda mais um
quinto, o que resulta do aumento brutal de impostos que pôs uma massa salarial
diminuída de 11 mil milhões a gerar receitas fiscais superiores às que gerava
antes do roubo. Cinco bancos.
Cinco bancos que não aparecem nas
notícias. E se não aparecem é porque nada disto aconteceu.
Mas aconteceu. Nos últimos sete anos, para além do BPN e do BES, há o equivalente a mais cinco bancos que foram roubados aos 90% que vivem de rendimentos do trabalho. Roubados na maior das calmas, lá está, porque a luta de classes, coiso e tal, o combate às desigualdades, essas ideologias esquerdistas, tudo isso pertence ao passado. Nós agora somos cidadãos informados e muito responsáveizinhos. O Governo que se siga que não se ponha a aumentar salários à parva: cortar 11 mil milhões em sete anos aconteceu porque tinha que ser e fruto de políticas ideologicamente neutras, fazê-los retornar ao lugar de onde foram roubados seria um radicalismo ideológico que não faz qualquer sentido porque a luta de classes… isso mesmo, porque não damos luta.
Mas aconteceu. Nos últimos sete anos, para além do BPN e do BES, há o equivalente a mais cinco bancos que foram roubados aos 90% que vivem de rendimentos do trabalho. Roubados na maior das calmas, lá está, porque a luta de classes, coiso e tal, o combate às desigualdades, essas ideologias esquerdistas, tudo isso pertence ao passado. Nós agora somos cidadãos informados e muito responsáveizinhos. O Governo que se siga que não se ponha a aumentar salários à parva: cortar 11 mil milhões em sete anos aconteceu porque tinha que ser e fruto de políticas ideologicamente neutras, fazê-los retornar ao lugar de onde foram roubados seria um radicalismo ideológico que não faz qualquer sentido porque a luta de classes… isso mesmo, porque não damos luta.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
PREC: processo de recondução em Costa
Malditas eleições que obrigaram o
PS a sair do muro das indefinições onde passou as últimas décadas a agitar
bandeirinhas de esquerda ao seu eleitorado e a governar ou a fazer oposição à
direita. Malditas eleições que deram pela primeira vez à esquerda uma expressão
eleitoral que, conjugada com os resultados dos outros partidos, fazem cair por
terra o mito – que tantos votos rendia – de uma alegada alergia à governação de
Bloco e CDU. Para que lado cairá Costa? Empurram-no para a direita, puxam-no
para a esquerda, Costa é pressionado por todos os lados menos por um, o dos
votos que já lá cantam e que agora irão cantar a música que Costa quiser.
O pior Presidente da República da
nossa História faz uma derradeira entrada a pés juntos sobre a Constituição que
jurou cumprir e fazer cumprir para fazer pressão pela formação de um Governo
liderado pelo seu partido.
Uma tropa furiosa de homens e
mulheres da situação, que domina a comunicação social e passou a campanha a
ajudar a esquecer a Constituição, continua a fazer de conta que as eleições
legislativas servem para eleger Governos e não deputados e diz a quem lhes
preste atenção e os leve a sério que os deputados são eleitos para aplaudirem o
Governo do líder da formação que obtenha mais votos, alinha-se com o senhor
Presidente, esgrimindo argumentos que vão desde o clássico da estabilidade, e
qualquer acordo será instável, até ao argumento da idade de uma senhora que
sempre se disse de esquerda e agora diz estar demasiado velha para apoiar o que
sempre disse apoiar.
Uma espécie de sindicalista junta-se
ao coro e expressa publicamente a sua preferência por um Governo que congregue
o centrão que tem retribuído os serviços prestados garantindo a sobrevivência legal
e financeira do seu sindicato sem sindicalizados.
A imprensa económica dá-lhes uma
ajuda e noticia uma variação de cêntimos na bolsa como um sinal dos mercados sobre
o cataclismo que se abaterá sobre o país se Costa puser o seu PS a fazer o que
nunca fez, a governar à esquerda, pois sim, a tradição também faz pressão. E os
barões do partido também.
Pressões em sentido contrário são
em muito menor número e com um peso incomparavelmente menor, resumindo-se a
pouco mais do que as garantias dadas publicamente por Jerónimo de Sousa de que
a CDU viabilizará um Governo PS que se abstenha de continuar a fazer o que
sempre fez aos rendimentos do trabalho e aos direitos laborais e, preenchidas
as mesmas condições, o mesmo apoio manifestado entre – mais pressão – despedidas
a Passos Coelho por Catarina Martins e Mariana Mortágua.
Os que empurram para a direita são
em muito maior número e têm um poder incomensuravelmente maior do que os que
tentam puxá-lo para a esquerda. E o peso político de António Costa na manta de farrapos
que é o actual PS é praticamente nulo. Gostava imenso que o futuro se
encarregasse de me demonstrar que estou errado, mas não vejo nenhum Supercosta
a surgir no horizonte cheio da coragem que notoriamente sempre faltou ao Costa
poucochinho.
Cheira-me que daqui a uns dias
iremos todos verificar que António Costa o que andou a fazer à esquerda foi um bluff
descarado para valorizar a sua posição
negocial junto de
Passos e de Portas. Uma parte do eleitorado socialista irá cobrar a
traição, o início da PASOKização do PS poderá ter início no preciso dia em que a recondução de Passos
e de Portas seja anunciada, Costa sabe, mas também sabe que a sua liderança
excede o prazo de validade desde o passado dia 4 de Outubro. O senhor que se
siga que se encarregue da missão impossível de convencer os portugueses que votar
numa cópia mal amanhada é preferível a votar no original que essa cópia pôs a
governar.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Uma dose semanal de desinformação, na rádio PÚBLICA
Começou hoje “O Fio da Meada”,
rubrica diária na rádio pública com, anunciaram,
“crónicas matinais com pistas que alimentam uma reflexão sobre o país e o mundo”.
Ouvi e fiquei a reflectir sobre Rui Ramos, o convidado que nos encomendaram
para as Segundas-feiras, todas as Segundas-feiras, vai ser dose. Uma dose
semanal de desinformação pela voz de um radical da direita mais desonesta e
trauliteira que por aí anda, como fez questão de deixar bem claro logo na
primeira aparição.
Há os que promovem uma cidadania
responsável e participativa que procura conhecer as regras da democracia do seu
país, Rui Ramos pertence aos que promovem uma espécie de cidadania ignorante e
alérgica à democracia que, ai, aplaude os Ruis Ramos que rentabilizam a sua
ignorância dizendo-lhes que, ui, podem e devem sentir-se enganados quando lêem
uma notícia que os confronta com o seu direito a serem ignorantes e, aiai, a
atribuírem a culpa dessa ignorância a todos menos ao jornalista cuja função não
é informá-los e sim elogiar-lhes as falhas.
Uma salva de aplausos fáceis,
pois, para o Rui Ramos que hoje lhes deu uma novidade velha de quase 40 anos:
os partidos que consigam um resultado acima dos 50 mil votos recebem uma ajuda
estatal por cada voto obtido. Uma onda de simpatia para o Rui Ramos que, a
troco de umas palmas e para angariá-la, hoje lhes incendiou a sua alergia à
democracia com a repetição da notícia da semana
passada sobre os milhões que cada partido irá receber função da votação
obtida nas eleições de Domingo passado. Ainda mais aplausos e toda a razão
deste mundo e do outro para o Rui Ramos que, montado em tanto entusiasmo, usou
o seu tempo de antena para propor que cada partido sobreviva apenas com os
donativos dos seus militantes e simpatizantes, isto é, aplicar à nossa
democracia o modelo de financiamento da publicação online que lhe paga as
contas lá de casa.
Poupar com a democracia. Uma
democracia de mercado (ler aqui). Que maravilha seria se um Belmiro, um Amorim, um Salgado
e uma Isabel dos Santos, juntos ou separados, pudessem, agora a coberto da lei que
actualmente apenas o permite pela porta do cavalo ou pela dança de ex-governantes
nas administrações das suas empresas, comprar uns quantos partidos, financiar as
suas campanhas com milhões e pô-los a disputar eleições com partidos financiados
com os tostões do cidadão que vive do seu trabalho. Seria a forma de rentabilizar
ainda melhor os investimentos na comunicação social que já detêm. Ganhar eleições seria ainda mais fácil. Controlar o poder político também. Quem sabe,
talvez se pudesse arranjar qualquer
coisita para o Rui Ramos. O rapaz bem se tem esfalfado pela causa das desforras
ao 25 de Abril.
sábado, 10 de outubro de 2015
Gostei de ler: "Liberdade de escolha em Educação"
«Temos assistido na última década
a um esforço bastante consistente e com resultados no sentido de, em nome de um
conceito truncado de liberdade de escolha, desmontar progressivamente a rede
escolar pública do ensino não-superior.
Esse esforço tem-se traduzido em
medidas que, de um modo claro ou mais encoberto, retiram eficácia e qualidade a
essa rede, enquanto se mantêm situações de excepção e privilégio em nichos de
interesses particulares no sector que permanecem quase intocados ou que,
perante a fortíssima contracção do investimento na rede pública, ganharam
imenso em termos comparativos. Tudo graças a um trânsito opaco de personagens
que não encontram qualquer obstáculo ético em ter estado ontem num gabinete
ministerial, estarem hoje como consultores de empresas privadas e amanhã a
apresentar-se como especialistas ao serviço de grupos parlamentares a estudar
“reformas” futuras. Que acusam o ministério de ter sido dominado pelos
interesses corporativos dos professores, que na maior parte dos casos lutam
pela justa remuneração pelo seu trabalho, enquanto outros lutam pela acumulação
de excedentes a distribuir pelos sócios.
A análise poderia concentrar-se
em números, mas entrar nessa lógica é empobrecer um debate que deve ser de “ideias”
e “princípios” como os defensores de certa “liberdade de escolha” gostam de
afirmar. Poderia comparar-se a redução dos custos com a rede pública, sob a
justificação da redução do número de alunos, com a manutenção dos subsídios às
parcerias público-privadas que se perpetuam, com ligeiros retoques de
cosmética. Poderia mesmo comparar-se o número de escolas públicas que são
obrigadas a revelar, em nome da transparência, todos os dados sobre o contexto
socioeconómico dos seus e as escolas privadas ou público-privadas que o fazem.
Até se poderia fazer a contabilidade dos alunos com necessidades educativas
especiais nas escolas públicas e os que têm autorização para “escolher” as
escolas privadas que se orgulham de dominar os rankings.
Mas, como referi, prefiro ir ao
plano das ideias mais “sistémicas” sobre a lógica da organização, em liberdade,
de uma rede pública, ou serviço público que é uma designação que alguns
preferem, de ensino universal ao serviço de um desenvolvimento equilibrado do
país.
E nesse plano, concedo que a
ideia da “liberdade de escolha” me atrai sobremaneira e que a gostaria imenso
de ver concretizada no terreno, assim os titulares governativos tivessem a
coragem para a implementar na rede escolar pública existente, não lhes impondo soluções
únicas e espartilhos que a impedem de fazer diferente, fazer melhor e “fazer”
em liberdade tudo o que poderiam para concorrer em plano de igualdade com
outras redes de estabelecimentos que funcionam de acordo com a sua própria
lógica e sem se ralar com todas as portarias, despachos ou circulares emanadas
deste ou daquele director geral ou de serviços.
Gostaria de ver uma verdadeira
“liberdade de escolha” das populações e famílias a quem os decisores políticos,
em conluio central e local em torno de envelopes financeiros, retiraram a
presença de escolas do 1º ciclo de proximidade, de uma forma que levou a que as
suas comunidades ficassem cada vez mais repulsivas e incapazes de combater um
país tão ou mais assimétrico que no século XIX.
Gostaria de ver uma verdadeira
“liberdade de escolha” no modo como a rede escolar se organiza, sem a imposição
de mega-agrupamentos baseados em cálculos de “economias de escala”, que se
traduziram na poupança de alguns horários de docentes e levaram outros a
desempenhar funções em diversas escolas, prejudicando as suas condições de
trabalho e o serviço prestado aos alunos.
Gostaria de ver uma verdadeira
“liberdade de escolha” na forma de funcionamento interno das escolas, não as
obrigando a adoptar um figurino único que reduz qualquer pretensão de autonomia
que não seja conquistada através dos interstícios da lei e vulnerável a uma
qualquer inspecção enviada em dia de mau humor burocrático-administrativo.
Gostaria de ver uma verdadeira
“liberdade de escolha” ao nível dos métodos pedagógicos e de trabalho, sem
autoritarismos que chegam ao ponto de obrigar as famílias a adquirir montanhas
de manuais escolares e materiais auxiliares ou os professores a seguir sebentas
de modo a atingir “metas” que não são mínimas a partir das quais há liberdade,
mas sim grelhas de indicadores específicos. Sem autoritarismos que impõem o
mesmo tipo de refeições a todos os alunos, com base no cêntimo mais baixo.
Depois de ver implementadas todas
estas “liberdades” numa rede pública de ensino universal e justa, sem escolas
públicas de primeira, segunda e terceira ordem, em que a “liberdade” de a
recusar e recorrer a outra lógica deve ir a par da rejeição de subsídios
públicos para pagar humores privados, estou perfeitamente disponível para discutir
outros mecanismos de “liberdade de escolha”, mesmo os que sabemos irem gerar
situação de privilégio. Infelizmente, não me parece que isso seja possível num
horizonte próximo.» – Paulo Guinote, no Público.
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
O Nobel do comentário 2015
Foi um alívio o Nobel
da Paz 2015 não ter ido, como chegou a ser ventilado, nem para Angela
Merkel, nem para António Guterres. Teria sido um insulto para milhões de
depauperados e refugiados económicos vítimas da primeira e um prémio para as
cumplicidades silenciosas do segundo, por exemplo, com regimes como a
cleptocracia assassina angolana. Para além do alívio, a decisão desta manhã também
tornou este dia particularmente rico do ponto de vista lúdico. Foi imensamente
enriquecedor assistir ao desfile de comentários sobre uma organização
completamente desconhecida, o "Quarteto para a paz na Tunísia". Às
vezes nota-se menos, outras nota-se mais. Desta vez notou-se imenso. Foi divertidíssimo
assistir ao cortejo de comentários de gente que também não conhecia a organização
mas comentou como se tomasse café com ela todos os dias. Eles sabem tudo e
sobre tudo.
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