segunda-feira, 19 de outubro de 2015
O baile irá enfim terminar
Bem-vindos sejam à semana em que
se decidirá o nosso futuro mais próximo. Cavaco Silva terá a sua oportunidade
de se despedir em grande indigitando Pedro Passos Coelho para
Primeiro-Ministro. A seguir, o PS terá a sua de se definir de uma vez por
todas, ou viabilizando o Governo do senhor Presidente, e note-se que apenas é necessário
o voto de 9 deputados para que tal aconteça, ou assumindo a responsabilidade de
governar à esquerda com a maioria que detém no Parlamento em conjunto com Bloco
e CDU. Porventura o sinal mais importante de como tudo isto irá terminar tê-lo-emos
lá para Quarta ou Quinta-feira no momento da eleição do Presidente da
Assembleia da República, que tanto Poderá ser uma figura do PS com os votos de
PSD e CDS como ser uma figura da
esquerda com os votos de PS, Bloco e CDU. O que acontecer depois com toda a certeza será uma réplica desta escolha. E será o PS que irá fazê-la. Com o passar dos dias, haverá cada
vez mais máscaras caídas pelo chão.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Europa: quando o crime se tornou virtude
Sem sanções de qualquer tipo para
os nossos respeitáveis parceiros europeus que recebem refugiados como se de
bandidos se tratassem, com polícia armada com metralhadoras e erguendo muros e
barreiras de arame farpado para lhes travar o passo, o primeiro morto a tiro
seria uma questão de tempo. Foi esta noite, na Bulgária. As autoridades
búlgaras contam uma história incrível: a polícia detectou um grupo de meia
centena de afegãos desarmados numa
localidade a 30 quilómetros da fronteira com a Turquia, deu-lhes ordens para
que parassem, o grupo resistiu, a polícia foi obrigada a disparar tiros de
aviso para o ar e um destes tiros fez ricochete e atingiu mortalmente na nuca
um dos refugiados. Que tipo de munição utilizam para dar tiros de aviso e
ricochete onde, se os tiros foram disparados para o ar? Esqueceram-se de
dizê-lo, acrescento-o eu, em certos países ali por aquela zona há uma espécie
de nuvens de betão que tornam muito perigoso qualquer tiro disparado na sua
direcção.
Por causa destas nuvens, um pouco
mais a Leste, na Turquia, a polícia quando quer avisar que não quer ninguém a
auxiliar as centenas de feridos do atentado perpetrado pelo próprio regime do presidente
Erdogan, que no passado Domingo vitimou mais de uma centena de cidadãos
indefesos que se manifestavam pacificamente pela paz, é obrigada a disparar
directamente contra os que ousem desobedecer-lhe, não vá uma bala fazer
ricochete lá em cima e errar o alvo. Comecei este que lêem a falar na ausência
de sanções a um terrorismo de Estado que envergonha a Europa, termino-o com um
prémio que aumenta ainda mais essa vergonha: entre outras vantagens, e fala-se
em aceleração
do processo de adesão à UE de mais um "respeitável parceiro" para
somar à lista, a Turquia irá receber da União Europeia 3 mil milhões de euros para
servir de tampão à vaga de refugiados, que irá reter no seu território e
impedir que cheguem à Europa. Não sei se estão a ver o filme: um regime que
trata como trata os seus próprios cidadãos irá receber 3 mil milhões, que
deveriam ser canalizados para a integração da juventude que renovaria esta
Europa envelhecida, para dar tratamento de cidadãos estrangeiros e sem direitos
a todos os que consiga interceptar no seu território. Sem dúvida alguma, temos
cada vez mais motivos para nos orgulharmos da pertença a esta Europa que tão
bem sabe zelar
pela nossa felicidade. Esta brincadeira não vai terminar nada bem.
Actualização: A
União Europeia vai pagar três mil milhões de euros à Turquia ,
alegadamente para melhorar as condições
de vida dos cerca de 2,5 milhões de refugiados da guerra da Síria que ali estão
a viver,, porém, na prática, em troca de Ancara se empenhar em garantir que menos
pessoas fazem a viagem até às fronteiras do espaço europeu para pedir asilo. A
Turquia será o campo de concentração desta Europa do IV Reich. E o único país
que se opôs foi a Itália, e não por motivações humanitárias, longe disso:
simplesmente por não querer que a sua contribuição para o fundo conte para o défice.
Conseguiu.
E o fundo lá foi, como se lê na imprensa deste 3/2/2016, "finalmente"
aprovado.
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Negociar sem maioria absoluta: umas vezes é-se Godofredo, noutras é-se Asdrubal
Há dias uns amigos contaram-me a
história que passo a reproduzir tal e qual me foi contada.
«O grande Benfica-Sporting era
naquele dia. Os bilhetes estavam a acabar. O mais barato custava 20 euros e,
tragédia das tragédias, Godofredo só tinha 19. Tentou que os amigos do café lá
do bairro lhe emprestassem o euro que lhe faltava. Em vão, estavam todos lisos
ou com os tostões bem contados. Os minutos iam passando, o desespero ia
aumentando. Lamentava-se da sua pouca sorte quando Asdrúbal se sentou na mesa
ao lado da sua. Calou-se, Asdrúbal era o seu rival de sempre.
Mas Asdrúbal ouviu-o. Era a sua
oportunidade. Asdrúbal diz para o ar que tem cinco euros no bolso, “à boa vida”,
para aumentar a provocação. Na verdade só tinha um. Godofredo olha para o
relógio e inquieta-se. Imagina uma jogada espectacular com o Nicolas Gaitan a
fintar quatro adversários de enfiada e inquieta-se ainda mais. Vê o Jonas a
corresponder de cabeça ao cruzamento com um toque para trás para Talisca e a
inquietação começa a ferver-lhe nas têmporas. Vê a bola como um foguete a
encaminhar-se para o cantinho da baliza, vê Rui Patrício a voar para ela, mas
de repente tudo se turva e não consegue ver se foi golo ou não. Porra!
“Amigo Asdrúbal, por acaso não
tens para aí um eurito que me emprestes?” O Asdrúbal diz-lhe que sim, desde que
Godofredo lhe consertasse à borla aquela torneira que na semana anterior queria
reparar por 10 euros. Godofredo vê-se a perder 9 euros com a brincadeira mas,
que remédio, aceita e estende-lhe a mão para recolher a moeda. Asdrúbal
pede-lhe calma e continua, “e me consertes também o chuveiro e a tomada da
sala”. Godofredo vê mais 40 euros a voar mas, que remédio, pelo Benfica tudo, continua
a aceitar, agora já a imaginar tudo o que poderia avariar na casa do Asdrúbal para
se vingar. E Asdrúbal continua: “e me passeies o anormal do cão durante um mês”.
Aí Godofredo encoleriza-se e responde-lhe: “e o rabinho lavado com água de
malvas, não?” Ao que Asdrúbal responde: “pode ser. Tu é que sabes se queres ir
ver o jogo ou não”.»
E mais não me contaram, lamento,
prometo compensar-vos com outra mais daqui a bocadinho, sim? Antes queria
sublinhar o facto de haver circunstâncias que podem multiplicar por muitos o
valor de uma posição minoritária numa negociação, realçar como a arte de
negociar tanto pode maximizar o valor final dessa multiplicação como deitar
tudo a perder e constatar como negociações que até podem deixar ambas as partes
aparentemente satisfeitas no presente também podem potenciar uma instabilidade latente
no período seguinte. Atenção que nada a ver com o Costa que anda a fazer de Godofredo
para a esquerda e de Asdrúbal para a direita, essa história não é para aqui chamada,
ele é que sabe se quer ser Primeiro-ministro ou não.
Prefiro terminar de imediato este
que já vai longo com a compensação que prometi há pouco. Então cá vai, passou-se
na campanha eleitoral das legislativas de 2011 e ninguém ma contou, li-a num
artigo do DN de 14 de Maio desse ano sobre o debate televisivo entre Passos
e Portas. Dizia assim (e viva
o Benfica):
"Para o líder do CDS, não é importante
na formação do próximo Governo se o PS tem mais votos: se a direita tiver
maioria absoluta, governará. (...) 20h54. "Vamos ver se o PSD consegue ou
não uma maioria", diz Passos. Mas "não é irrealista. E não vale a pena
ficar a olhar para trás para ver se fizemos um erro", insiste. Portas
responde: "Portugal precisa de mais uma candidatura a
primeiro-ministro". E diz que juntos ("com o CDS com 23,5% e o PSD
com 23%") a direita "faz a maioria que o PR pede" - mesmo que o
PSD não vença, leia-se."
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Onze mil milhões depois (em bancos)
Coiso e tal, a luta de classes
pertence ao passado, o combate às desigualdades é um fetiche ideológico de quem
não percebe nada de economia, o que importa é que o PIB cresça com políticas
ideologicamente neutras para que a vida de todos melhore. Os mitos dos tempos
que correm. Não há comentador que não saiba que tem que ajudar a difundi-los para
garantir o seu lugar ao sol. Não há imbecil que não saiba que tem que saber
papagueá-los para projectar aquela imagem de cidadão informado e moderno que
lhe garante um lugar na “solução”, o hemisfério “positivo” de um mundo de
frases feitas cujo hemisfério “negativo”, de onde apenas não fogem os
antiquados que não saibam ver “as coisas como elas são”, os “sábios realistas”
denominaram “problema”.
Como o poder de decidir o que é
ou não notícia deixou de ser considerado uma arma numa luta de classes que
pertence ao passado, já nem estranho não encontrar uma linha que seja na
imprensa escrita sobre uma peça que ouvi
na rádio há uma semana. Até porque notoriamente o estudo conduzido pelo
Prof. Pedro Ramos, da Universidade de Coimbra, pertence ao tal hemisfério
“negativo”. Dele apenas fiquei a saber o que se ouve nos minutos que dura a
gravação, que nos últimos sete anos, em que o bolo total também encolheu, a
fatia correspondente a rendimentos do trabalho reduziu-se de 57% de um PIB que
há sete anos era maior para 52% de um PIB hoje muito menor, o que é o mesmo que
dizer que as fatias distribuídas por lucros, rendas e dividendos financeiros aumentaram
os mesmos 7%, 11 mil milhões de euros em termos absolutos, em que se reduziram
os rendimentos do trabalho. Uns enriqueceram os 11 mil milhões que os outros
empobreceram. E 11 mil milhões é uma soma que equivale ao que nos custaram BPN
e BES. Dois bancos.
E ainda faltam mais três. Se
multiplicarmos aqueles 11 mil milhões pelos 11% que cada trabalhador desconta
para a Segurança Social e lhe somarmos os quase 24% correspondentes ao que cabe
aos empregadores descontarem, 35% de 11 mil milhões são 3850 milhões que
desapareceram quando os 11 mil milhões deixaram de ser salários e passaram a
ser lucros, rendas ou proveitos financeiros, que não geram quaisquer receitas para a Segurança Social. Aqui está ele, o terceiro banco.
Nestes 3850 milhões cabem os 2400 milhões que a coligação diz ser agora
necessário cortar às reformas a pagamento nos próximos quatro anos, os cortes
no rendimento social de inserção e no complemento solidário para idosos dos
últimos quatro, o aumento da idade necessária para ganhar o direito a receber
uma pensão de reforma sem penalizações, cabe lá isto tudo e ainda sobra.
Sustentabilidade da Segurança Social, já devem ter ouvido falar.
Sobre a sustentabilidade da Saúde,
da Educação, da Cultura e sobre as reduções salariais que tantas
sustentabilidades juntas alegadamente tornaram necessárias por não haver
dinheiro, também já ouviram falar com toda a certeza. Quatro em cada cinco
euros de receita fiscal provêm, directamente (IRS) ou indirectamente (IVA), dos
rendimentos do trabalho. Ao passarem da fatia que contribui com 4 destes 5
euros para a fatia que apenas paga um, aqueles 11 mil milhões deixaram de
render o equivalente a mais um banco, o quarto, ao qual se soma ainda mais um
quinto, o que resulta do aumento brutal de impostos que pôs uma massa salarial
diminuída de 11 mil milhões a gerar receitas fiscais superiores às que gerava
antes do roubo. Cinco bancos.
Cinco bancos que não aparecem nas
notícias. E se não aparecem é porque nada disto aconteceu.
Mas aconteceu. Nos últimos sete anos, para além do BPN e do BES, há o equivalente a mais cinco bancos que foram roubados aos 90% que vivem de rendimentos do trabalho. Roubados na maior das calmas, lá está, porque a luta de classes, coiso e tal, o combate às desigualdades, essas ideologias esquerdistas, tudo isso pertence ao passado. Nós agora somos cidadãos informados e muito responsáveizinhos. O Governo que se siga que não se ponha a aumentar salários à parva: cortar 11 mil milhões em sete anos aconteceu porque tinha que ser e fruto de políticas ideologicamente neutras, fazê-los retornar ao lugar de onde foram roubados seria um radicalismo ideológico que não faz qualquer sentido porque a luta de classes… isso mesmo, porque não damos luta.
Mas aconteceu. Nos últimos sete anos, para além do BPN e do BES, há o equivalente a mais cinco bancos que foram roubados aos 90% que vivem de rendimentos do trabalho. Roubados na maior das calmas, lá está, porque a luta de classes, coiso e tal, o combate às desigualdades, essas ideologias esquerdistas, tudo isso pertence ao passado. Nós agora somos cidadãos informados e muito responsáveizinhos. O Governo que se siga que não se ponha a aumentar salários à parva: cortar 11 mil milhões em sete anos aconteceu porque tinha que ser e fruto de políticas ideologicamente neutras, fazê-los retornar ao lugar de onde foram roubados seria um radicalismo ideológico que não faz qualquer sentido porque a luta de classes… isso mesmo, porque não damos luta.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
PREC: processo de recondução em Costa
Malditas eleições que obrigaram o
PS a sair do muro das indefinições onde passou as últimas décadas a agitar
bandeirinhas de esquerda ao seu eleitorado e a governar ou a fazer oposição à
direita. Malditas eleições que deram pela primeira vez à esquerda uma expressão
eleitoral que, conjugada com os resultados dos outros partidos, fazem cair por
terra o mito – que tantos votos rendia – de uma alegada alergia à governação de
Bloco e CDU. Para que lado cairá Costa? Empurram-no para a direita, puxam-no
para a esquerda, Costa é pressionado por todos os lados menos por um, o dos
votos que já lá cantam e que agora irão cantar a música que Costa quiser.
O pior Presidente da República da
nossa História faz uma derradeira entrada a pés juntos sobre a Constituição que
jurou cumprir e fazer cumprir para fazer pressão pela formação de um Governo
liderado pelo seu partido.
Uma tropa furiosa de homens e
mulheres da situação, que domina a comunicação social e passou a campanha a
ajudar a esquecer a Constituição, continua a fazer de conta que as eleições
legislativas servem para eleger Governos e não deputados e diz a quem lhes
preste atenção e os leve a sério que os deputados são eleitos para aplaudirem o
Governo do líder da formação que obtenha mais votos, alinha-se com o senhor
Presidente, esgrimindo argumentos que vão desde o clássico da estabilidade, e
qualquer acordo será instável, até ao argumento da idade de uma senhora que
sempre se disse de esquerda e agora diz estar demasiado velha para apoiar o que
sempre disse apoiar.
Uma espécie de sindicalista junta-se
ao coro e expressa publicamente a sua preferência por um Governo que congregue
o centrão que tem retribuído os serviços prestados garantindo a sobrevivência legal
e financeira do seu sindicato sem sindicalizados.
A imprensa económica dá-lhes uma
ajuda e noticia uma variação de cêntimos na bolsa como um sinal dos mercados sobre
o cataclismo que se abaterá sobre o país se Costa puser o seu PS a fazer o que
nunca fez, a governar à esquerda, pois sim, a tradição também faz pressão. E os
barões do partido também.
Pressões em sentido contrário são
em muito menor número e com um peso incomparavelmente menor, resumindo-se a
pouco mais do que as garantias dadas publicamente por Jerónimo de Sousa de que
a CDU viabilizará um Governo PS que se abstenha de continuar a fazer o que
sempre fez aos rendimentos do trabalho e aos direitos laborais e, preenchidas
as mesmas condições, o mesmo apoio manifestado entre – mais pressão – despedidas
a Passos Coelho por Catarina Martins e Mariana Mortágua.
Os que empurram para a direita são
em muito maior número e têm um poder incomensuravelmente maior do que os que
tentam puxá-lo para a esquerda. E o peso político de António Costa na manta de farrapos
que é o actual PS é praticamente nulo. Gostava imenso que o futuro se
encarregasse de me demonstrar que estou errado, mas não vejo nenhum Supercosta
a surgir no horizonte cheio da coragem que notoriamente sempre faltou ao Costa
poucochinho.
Cheira-me que daqui a uns dias
iremos todos verificar que António Costa o que andou a fazer à esquerda foi um bluff
descarado para valorizar a sua posição
negocial junto de
Passos e de Portas. Uma parte do eleitorado socialista irá cobrar a
traição, o início da PASOKização do PS poderá ter início no preciso dia em que a recondução de Passos
e de Portas seja anunciada, Costa sabe, mas também sabe que a sua liderança
excede o prazo de validade desde o passado dia 4 de Outubro. O senhor que se
siga que se encarregue da missão impossível de convencer os portugueses que votar
numa cópia mal amanhada é preferível a votar no original que essa cópia pôs a
governar.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Uma dose semanal de desinformação, na rádio PÚBLICA
Começou hoje “O Fio da Meada”,
rubrica diária na rádio pública com, anunciaram,
“crónicas matinais com pistas que alimentam uma reflexão sobre o país e o mundo”.
Ouvi e fiquei a reflectir sobre Rui Ramos, o convidado que nos encomendaram
para as Segundas-feiras, todas as Segundas-feiras, vai ser dose. Uma dose
semanal de desinformação pela voz de um radical da direita mais desonesta e
trauliteira que por aí anda, como fez questão de deixar bem claro logo na
primeira aparição.
Há os que promovem uma cidadania
responsável e participativa que procura conhecer as regras da democracia do seu
país, Rui Ramos pertence aos que promovem uma espécie de cidadania ignorante e
alérgica à democracia que, ai, aplaude os Ruis Ramos que rentabilizam a sua
ignorância dizendo-lhes que, ui, podem e devem sentir-se enganados quando lêem
uma notícia que os confronta com o seu direito a serem ignorantes e, aiai, a
atribuírem a culpa dessa ignorância a todos menos ao jornalista cuja função não
é informá-los e sim elogiar-lhes as falhas.
Uma salva de aplausos fáceis,
pois, para o Rui Ramos que hoje lhes deu uma novidade velha de quase 40 anos:
os partidos que consigam um resultado acima dos 50 mil votos recebem uma ajuda
estatal por cada voto obtido. Uma onda de simpatia para o Rui Ramos que, a
troco de umas palmas e para angariá-la, hoje lhes incendiou a sua alergia à
democracia com a repetição da notícia da semana
passada sobre os milhões que cada partido irá receber função da votação
obtida nas eleições de Domingo passado. Ainda mais aplausos e toda a razão
deste mundo e do outro para o Rui Ramos que, montado em tanto entusiasmo, usou
o seu tempo de antena para propor que cada partido sobreviva apenas com os
donativos dos seus militantes e simpatizantes, isto é, aplicar à nossa
democracia o modelo de financiamento da publicação online que lhe paga as
contas lá de casa.
Poupar com a democracia. Uma
democracia de mercado (ler aqui). Que maravilha seria se um Belmiro, um Amorim, um Salgado
e uma Isabel dos Santos, juntos ou separados, pudessem, agora a coberto da lei que
actualmente apenas o permite pela porta do cavalo ou pela dança de ex-governantes
nas administrações das suas empresas, comprar uns quantos partidos, financiar as
suas campanhas com milhões e pô-los a disputar eleições com partidos financiados
com os tostões do cidadão que vive do seu trabalho. Seria a forma de rentabilizar
ainda melhor os investimentos na comunicação social que já detêm. Ganhar eleições seria ainda mais fácil. Controlar o poder político também. Quem sabe,
talvez se pudesse arranjar qualquer
coisita para o Rui Ramos. O rapaz bem se tem esfalfado pela causa das desforras
ao 25 de Abril.
sábado, 10 de outubro de 2015
Gostei de ler: "Liberdade de escolha em Educação"
«Temos assistido na última década
a um esforço bastante consistente e com resultados no sentido de, em nome de um
conceito truncado de liberdade de escolha, desmontar progressivamente a rede
escolar pública do ensino não-superior.
Esse esforço tem-se traduzido em
medidas que, de um modo claro ou mais encoberto, retiram eficácia e qualidade a
essa rede, enquanto se mantêm situações de excepção e privilégio em nichos de
interesses particulares no sector que permanecem quase intocados ou que,
perante a fortíssima contracção do investimento na rede pública, ganharam
imenso em termos comparativos. Tudo graças a um trânsito opaco de personagens
que não encontram qualquer obstáculo ético em ter estado ontem num gabinete
ministerial, estarem hoje como consultores de empresas privadas e amanhã a
apresentar-se como especialistas ao serviço de grupos parlamentares a estudar
“reformas” futuras. Que acusam o ministério de ter sido dominado pelos
interesses corporativos dos professores, que na maior parte dos casos lutam
pela justa remuneração pelo seu trabalho, enquanto outros lutam pela acumulação
de excedentes a distribuir pelos sócios.
A análise poderia concentrar-se
em números, mas entrar nessa lógica é empobrecer um debate que deve ser de “ideias”
e “princípios” como os defensores de certa “liberdade de escolha” gostam de
afirmar. Poderia comparar-se a redução dos custos com a rede pública, sob a
justificação da redução do número de alunos, com a manutenção dos subsídios às
parcerias público-privadas que se perpetuam, com ligeiros retoques de
cosmética. Poderia mesmo comparar-se o número de escolas públicas que são
obrigadas a revelar, em nome da transparência, todos os dados sobre o contexto
socioeconómico dos seus e as escolas privadas ou público-privadas que o fazem.
Até se poderia fazer a contabilidade dos alunos com necessidades educativas
especiais nas escolas públicas e os que têm autorização para “escolher” as
escolas privadas que se orgulham de dominar os rankings.
Mas, como referi, prefiro ir ao
plano das ideias mais “sistémicas” sobre a lógica da organização, em liberdade,
de uma rede pública, ou serviço público que é uma designação que alguns
preferem, de ensino universal ao serviço de um desenvolvimento equilibrado do
país.
E nesse plano, concedo que a
ideia da “liberdade de escolha” me atrai sobremaneira e que a gostaria imenso
de ver concretizada no terreno, assim os titulares governativos tivessem a
coragem para a implementar na rede escolar pública existente, não lhes impondo soluções
únicas e espartilhos que a impedem de fazer diferente, fazer melhor e “fazer”
em liberdade tudo o que poderiam para concorrer em plano de igualdade com
outras redes de estabelecimentos que funcionam de acordo com a sua própria
lógica e sem se ralar com todas as portarias, despachos ou circulares emanadas
deste ou daquele director geral ou de serviços.
Gostaria de ver uma verdadeira
“liberdade de escolha” das populações e famílias a quem os decisores políticos,
em conluio central e local em torno de envelopes financeiros, retiraram a
presença de escolas do 1º ciclo de proximidade, de uma forma que levou a que as
suas comunidades ficassem cada vez mais repulsivas e incapazes de combater um
país tão ou mais assimétrico que no século XIX.
Gostaria de ver uma verdadeira
“liberdade de escolha” no modo como a rede escolar se organiza, sem a imposição
de mega-agrupamentos baseados em cálculos de “economias de escala”, que se
traduziram na poupança de alguns horários de docentes e levaram outros a
desempenhar funções em diversas escolas, prejudicando as suas condições de
trabalho e o serviço prestado aos alunos.
Gostaria de ver uma verdadeira
“liberdade de escolha” na forma de funcionamento interno das escolas, não as
obrigando a adoptar um figurino único que reduz qualquer pretensão de autonomia
que não seja conquistada através dos interstícios da lei e vulnerável a uma
qualquer inspecção enviada em dia de mau humor burocrático-administrativo.
Gostaria de ver uma verdadeira
“liberdade de escolha” ao nível dos métodos pedagógicos e de trabalho, sem
autoritarismos que chegam ao ponto de obrigar as famílias a adquirir montanhas
de manuais escolares e materiais auxiliares ou os professores a seguir sebentas
de modo a atingir “metas” que não são mínimas a partir das quais há liberdade,
mas sim grelhas de indicadores específicos. Sem autoritarismos que impõem o
mesmo tipo de refeições a todos os alunos, com base no cêntimo mais baixo.
Depois de ver implementadas todas
estas “liberdades” numa rede pública de ensino universal e justa, sem escolas
públicas de primeira, segunda e terceira ordem, em que a “liberdade” de a
recusar e recorrer a outra lógica deve ir a par da rejeição de subsídios
públicos para pagar humores privados, estou perfeitamente disponível para discutir
outros mecanismos de “liberdade de escolha”, mesmo os que sabemos irem gerar
situação de privilégio. Infelizmente, não me parece que isso seja possível num
horizonte próximo.» – Paulo Guinote, no Público.
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
O Nobel do comentário 2015
Foi um alívio o Nobel
da Paz 2015 não ter ido, como chegou a ser ventilado, nem para Angela
Merkel, nem para António Guterres. Teria sido um insulto para milhões de
depauperados e refugiados económicos vítimas da primeira e um prémio para as
cumplicidades silenciosas do segundo, por exemplo, com regimes como a
cleptocracia assassina angolana. Para além do alívio, a decisão desta manhã também
tornou este dia particularmente rico do ponto de vista lúdico. Foi imensamente
enriquecedor assistir ao desfile de comentários sobre uma organização
completamente desconhecida, o "Quarteto para a paz na Tunísia". Às
vezes nota-se menos, outras nota-se mais. Desta vez notou-se imenso. Foi divertidíssimo
assistir ao cortejo de comentários de gente que também não conhecia a organização
mas comentou como se tomasse café com ela todos os dias. Eles sabem tudo e
sobre tudo.
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
Deixem lá isso da soberania popular
O monarca não falou na República,
deixem lá isso, mas falou no
dia logo a seguir. Cavaco Silva não esperou pelo resultado eleitoral dos círculos da
Europa e de fora da Europa, deixem lá isso, dos quais depende o apuramento do
partido com mais mandatos no Parlamento. Mas falou em directo pelas televisões
com o líder do PSD, deixem lá isso, o seu partido, para lhe pedir que faça de
Presidente da República que não é, deixem lá isso, e se entenda com António
Costa para que este ignore os convites de Bloco e CDU e de uma vez por todas se
deixe lá disso de acenar ao seu eleitorado com o Governo de esquerda que
poderia mas não quer formar, as eleições já lá vão, e transforme os votos que
lhe foram confiados para “tirá-los de lá” em votos, deixem lá isso, que “os
mandam para lá”. A seguir falaram, pelo PSD, deixem lá isso das traficâncias
que estão a ser investigadas, o seu porta-voz Marco
António Costa e, pelo PS, deixem lá isso do que disse na noite das eleições
sobre não haver conversas à esquerda, António Costa. O Primeiro para dizer que
o seu PSD irá falar com o PS do segundo. O segundo para dizer que a sua
comissão política o mandatou para tentar convencer Bloco e PCP a deixarem-se lá
disso de se oporem ao assalto à Segurança Social, ao congelamento das pensões
dos velhotes e à liberdade total para despedir que o PS quer conceder aos
patrões e que só depois da resposta destes de que se mantêm fieis aos
compromissos eleitorais assumidos e de que rejeitam as imposições é que, depois
de dramatizar convenientemente o “com aqueles dois é impossível negociar, eles
não querem ser Governo” é que tem autorização para anunciar que o PS aceita a encomenda
e se rege pelas mesmas regras
enunciadas pelo monarca. Resumindo: deixem lá aquela coisa da democracia, deixem
lá isso das eleições e deixem lá aquilo do voto “útil”. Mesmo com a menor
soma de votos das últimas três décadas, Os três do memorando voltarão a
fazer tudo o que Berlim lhes ordenar.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
Foi você que votou no arco da austeridade para todo o sempre?
Bruxelas quer projecto de
Orçamento do Estado para 2016 até
dia 15. Bruxelas sabe que as eleições foram há dois dias e, como tal, Portugal
ainda não tem Governo. Mas Bruxelas também sabe o que PSD, PS e CDS andaram a esconder
durante toda a campanha. Bruxelas sabe que nas mãos dos três do memorando Portugal
é um protectorado. Que o documento há-de aparecer, seja ele qual for. E que depois
Bruxelas há-de mandar outro de volta. Aquele que os três capatazes, incluindo aquele
que andou a dizer que o chumbaria, farão o favor de aprovar por unanimidade e aclamação.
O Conselho das Finanças Públicas guardou para hoje a boa notícia: “Meta
do défice implica correcção mais acentuada das contas públicas”. Isto há dois
dias significava que Portugal estava no bom caminho, que finalmente os salários
poderiam ser repostos, os impostos reduzidos e a sobretaxa devolvida pelo menos
parcialmente. Mas isso foi há dois dias. E Bruxelas sabe que a campanha
eleitoral já acabou. Ai aguentam, aguentam.
Vagamente relacionado:
«A partir de um relatório da União Europeia que coloca Portugal no grupo de
países com “margem para subir impostos” – “desta vez não foi a Maria Luís
Albuquerque que se descoseu, foi a Comissão Europeia” -, a porta-voz nacional
do Bloco de Esquerda dirigiu uma pergunta a PSD e CDS. Uma questão a que
aqueles dois partidos “têm de responder antes das eleições”, exigiu Catarina
Martins: “Quais são os impostos que andaram a negociar com Bruxelas?
Mostrem-nos a conta”.» (29.09.2015)
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Para melhor, sempre
As eleições voltaram a
mostrar-nos um país bastante diferente daquele que gostaríamos que fosse e
porventura ainda mais distante daquele que imaginamos.
Naturalizámos um sistema de
ensino que permitimos seja omisso na Educação para a cidadania que continua
completamente ausente na Escola pública, aceitamos que as programações da
televisão e da rádio pública em nada se distingam das congéneres comerciais e
ouvimos falar numa juventude que emigra às centenas de milhar mas
surpreendemo-nos que os jovens não votem e envergonhamo-nos com uma abstenção
que permitimos seja legitimada com explicações que afastam a reprovação social
que lhe vamos ficando a dever.
Vemos o empobrecimento
generalizado mas não vemos as sopas dos pobres que passaram a fazer parte do
quotidiano de tantos, dadas por mãos que as cobram quando chega a hora de
votar. Os partidos da pobreza que tem que ser, que apenas quem tem o mínimo dos
mínimos como direito e não como caridade pode recusar sem medo e sem deixar
dívidas de gratidão por saldar, ganharam nos distritos mais pobres do país.
Habituámo-nos a conviver com
naturalidade com meios de comunicação social que vendem uma narrativa tem que
ser da austeridade que não pode ser combinada com uma versão futeboleira da
política, muito distante das escolhas colectivas que seria sua função
aprofundar, mas não vemos os milhões de portugueses que é através dessa janela distorcida
que, entre papões, percepcionam o mundo que lhes é oferecido quase sem
contraditório. Grande avaria, os três do rotativismo, os três do memorando, os
três dessa austeridade que faz ricos espremendo pobres e remediados renovaram a
maioria qualificada que continua a permitir-lhes fazer com a nossa Constituição
o que lhes ordenarem Berlim e Bruxelas.
Ainda assim, temos excelentes
motivos para sorrir e não podemos desvalorizar o que conseguimos ontem, pelo
contrário. Foi neste país condicionado e foi este povo, o “melhor povo do
mundo”, que reagiu aos quatro anos e meio de malfeitorias de uma quadrilha
feita coligação retirando-lhe mais de meio milhão de votos e a maioria absoluta
para o espezinhar. Foi este povo e não outro que soube enguiçar a engrenagem do
rotativismo e negou o poder ao alter-ego da coligação, que subiu a votação mas
poucochinho, e o obriga agora a mostrar o que andou a esconder. Foi este, e não
outro, o povo que soube simultaneamente responder a sondagens feitas à medida
de utilidades estranhas às suas vidas e agradecer aos seus, à esquerda de
confiança que por si resiste e dá voz a quem não a tem, com o melhor resultado
de sempre de Bloco de Esquerda e com mais um deputado à CDU, recusando poder a uma
série de oportunistas que se perfilaram para conquistar o seu lugar ao sol do regime.
Ainda não foi desta que o poder
ficou em mãos capazes de darem decência ao país que o rotativismo tornou
indecente, é verdade, mas foi este povo, e não outro, que soube usar a sua
democracia para assinalar o seu descontentamento dando uma expressão eleitoral
à esquerda que o é como há muito não se via. Com os resultados de ontem ficou
garantido que pelo menos durante a próxima legislatura na lei eleitoral PS e
PSD não vão poder tocar. Os 10% de deputados necessários para requerer a
fiscalização sucessiva de legislação ao Tribunal Constitucional foram
largamente excedidos. O país das pessoas sai das eleições de ontem mais fortalecido para
enfrentar as estocadas dos próximos quatro, se calhar nem dois anos. Temos boas
razões para voltar a acreditar em nós próprios. Podemos dar a volta a isto. Falta
querê-lo com a força necessária: a nossa. Todos juntos podemos fazer coisas bonitas.
Entendimentos, que a campanha eleitoral já lá vai
A campanha eleitoral já lá vai. A
maioria absoluta não aconteceu. Os portugueses obrigaram PSD, CDS e PS a
entenderem-se. Esqueçam lá aquela coisa de chumbar o Orçamento. Minutos antes António Costa tinha acenado com
"entendimentos", minutos depois Paulo Portas e Pedro Passos Coelho retribuíram
com "entendimentos. Dois dias depois das semanas de comícios e
bandeirinhas que nos encheram de diferenças, as semelhanças que a grande
maioria ou preferiu ignorar ou foi incapaz de vislumbrar entraram-lhes hoje
pela casa adentro. Pedro Passos Coelho usou a sua declaração
de vitória para sublinhar a harmonia dos mais de 70% de Parlamento filiados na opção
europeia e nas regras do euro. Paulo Portas despediu-se apelando ao trabalho que
nos espera no dia de amanhã - hoje -, o feriado que deixou de ser, o 5 de Outubro das
vivas à República com que António Costa se despediu na sua declaração de
derrota sem uma palavra sobre irmos todos trabalhar à borla outra vez. Entendimentos,
começam a ver-se com nitidez. E quando eles se entendem é sempre bom para o país mas não necessariamente para os portugueses.
domingo, 4 de outubro de 2015
Aulas práticas sobre voto "útil": "maiorias negativas" e essas coisas
A declaração
de derrota de António Costa durou seguramente bem mais de quinze minutos. Todo este tempo para enviar três recados. O
primeiro dirigiu-o à concorrência interna: não se demite. O segundo a Catarina Martins e a Jerónimo de Sousa, com recurso a uma expressão a repetir pelos
repetidores oficiais do regime, "maioria negativa": convosco não há
conversas. O terceiro foi para Pedro Passos Coelho: "sou todo vosso,
arranjem lá maneira de me convencerem sem me deixarem ficar demasiado mal na
fotografia". A "governabilidade" está outra vez a passar por
aqui.
Afinal não, tótó
Escrevo estas linhas num momento
em que ainda não há resultados definitivos mas já é possível retirar uma
conclusão importante que valerá a pena salientar em tempo útil e separadamente
de todas as que venham a seguir: ao contrário do que diziam os boatos postos a
circular nas redes sociais e não só, as sondagens não estavam manipuladas.
Colaborou quem colaborou a espalhar esta ideia, uns inconscientemente, está na
moda repetir chavões sobre a comunicação social que temos, outros
conscientemente, que tentaram retirar partido dessa moda e do boato para apelarem
ao voto útil num partido que, sim ou sim, iria sempre governar aplicando as
ordens que chegassem de Berlim. Não quero com isto dizer que a comunicação
social que temos é isenta, está muito longe de o ser. O que quero aqui
constatar é a existência de muita gente que brada contra essa comunicação
social mesmo nada isenta que ainda é mais manipulável do que o alvo das suas críticas.
As conclusões sobre as consequências dos votos que ajudaram a polarizar ficam
para quando se souber se a PAF consegue ou não maioria absoluta e, no caso de não
a conseguir, quando soubermos o que é que o PS fará com os votos que ganhou com esta
brincadeira.sábado, 3 de outubro de 2015
Matinée infantil
Hoje é dia de reflexão, não
podemos publicar nada sobre eleições. É um dia que, pela natureza da vontade de quem detém o
poder legislativo, nos manda, por exemplo, discutir futebóis, debater as tendências
da moda Outono/Inverno, partilhar vídeos de gatinhos. Aceito. Partilho convosco
um clássico, Mouseland, um filme cheio de gatinhos e ratinos, que já havia aqui
partilhado na reflexão de há quatro
anos. É um conto mais ou menos infantil, dependendo da leitura que dele se
faça, sobre ratos que votavam em gatos. Quando ganhavam os gatos brancos, nas
eleições seguintes festejavam a estrondosa "vitória da democracia"
dos gatos pretos, aliviados por terem corrido com os brancos. Quando ganhavam
os gatos pretos, nas eleições seguintes festejavam a estrondosa "vitória
da democracia" dos gatos brancos, aliviados por terem corrido com os gatos
pretos. Acho que é qualquer coisa assim. Vi o filme pela última vez faz tempo,
já não me lembro se também havia gatos alaranjados e cor-de-rosa, nem sequer se
o filme explicava por que diabo os ratos que diziam que os gatos eram todos
iguais não tentavam contrariar a inconsciência imbecil dos ratos que votavam
sempre em gatos, ora brancos, ora pretos, ao sabor das memórias traumáticas mais
recentes. Tenho uma vaga ideia que nunca lhes
ocorreu que poderiam aumentar a sua esperança de vida votando em ratos
como eles. Enfim, a natureza é muito sábia, quando fez os ratos sabia bem que os
queria carne para os seus predadores. Coitadinhos, os ratos nunca têm a culpa. Mas é por causa deles que vou ter que gramar com a porcaria do filme dos gatos todo outra vez.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Vamos a isto: nem PAF, nem PUF
Pedro Passos Coelho, Paulo Portas
e António Costa bem podem fazer o pino, cantar o “não sejas mau p'ra mim”,
encher os bolsos de crucifixos ou
ameaçar com o caos da ingovernabilidade. Já todos percebemos, eles também, que
não haverá maioria absoluta nem para a PAF dos dois primeiros, nem para o
PUF do segundo, que se foi esvaziando de
intenções de voto à medida que as inconsistências e contradições do seu
programa lhe foram revelando a agenda
marcadamente de direita que, com o passar dos dias, foram deixando o que resta
de esquerda no PS reduzido a umas quantas, pouquinhas e desajeitadas,
desesperadas habilidades retóricas.
Já nem a lengalenga do voto útil
lhes vale. Os votos úteis vão fugindo para as duas alternativas às “reformas
estruturais” e ao Tratado Orçamental da austeridade para todo o sempre até
haver renegociação da dívida, com o Bloco de Esquerda a subir nas sondagens
para mais do dobro das projecções iniciais, de cerca de 4 para mais de 9%, e a
CDU a registar aumentos acima dos 50%, de 6 para mais de 9%.
É, pois, livres da chantagem
dessa “utilidade”, argumento estafado do rotativismo que dela se tem conseguido
servir para fazer o somatório de todas as benfeitorias e malfeitorias que
aconteceram em Portugal nas últimas décadas, com eleitores aos milhares a
maximizarem a utilidade de cada voto aplicando-a na sua e não naquela
“estabilidade” que lhes desestabilizou as vidas e com a perspectiva do melhor
resultado de sempre da esquerda que o é, esquerda, que partimos para um dos
fins-de-semana mais importantes dos últimos anos no que toca a decisões sobre o
nosso futuro colectivo.
A pergunta que muitos farão, sobretudo
depois dos diálogos entre Passos e Costa e dos sinais de fumo que o inquilino
do Palácio de Belém foi soltando para fomentar a confusão que é sua função
dissipar, é quem governará e com quem. A Constituição da República Portuguesa
fornece algumas pistas no artigo 187º, que não fala nem em partido mais votado,
nem em partido com mais mandatos. Diz textualmente o seguinte sobre os poderes
do Presidente da República nesta matéria: “1. O Primeiro-Ministro é nomeado
pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia
da República e tendo em conta os resultados eleitorais". Isto em termos
práticos equivale a um ouvidos os partidos, que por sua vez conversarão
previamente entre si tendo em conta os resultados eleitorais de forma a que,
quando o PR os ouça, possa viabilizar o acordo que reúna o maior número de
apoios no Parlamento.
E não vale a pena fantasiar demasiado
sobre o assunto. Se as sondagens não errarem por muito, e não costumam errar
assim tanto, com a PAF nos 38% e o PS nos 32%, afastando a hipótese mais do que
improvável de o PS aceitar não flexibilizar despedimentos, não congelar pensões
de reforma e não desfalcar a Segurança Social, condições mínimas necessárias
para um consenso à esquerda, as combinações possíveis para somar uma maioria
absoluta não são muitas: a maioria que suportará o próximo Governo resultará ou
da soma dos deputados do PS com os do CDS, ou da soma dos primeiros com os do
PSD, ou até mesmo da soma dos três. Pior castigo pelo que têm feito ao país seria difícil.
Reparem bem na série de
crueldades que o resultado do crescimento da esquerda poderá provocar. Primeira
crueldade, ao falhar o objectivo maioria
absoluta que lhe dava a sua razão de existir, a coligação irá desfazer-se.
Segunda crueldade, se o PS obtiver um resultado melhor e o número de deputados
do CDS chegar para somar os 116 que são necessários, poderão vir a ser os votos
"úteis" no PS que assegurarão a sétima vida a Paulo Portas. Terceira
crueldade, se o resultado eleitoral do PS for tão mau que torne necessário
somar os seus aos deputados do PSD, António Costa sai de cena: tinha sido em
António Costa que os socialistas votaram, não tinha? Quarta crueldade, talvez a
pior, um Governo PSD-PS irá dar visibilidade às semelhanças que ambos tanto
fazem para vender aos seus eleitorados como diferenças. Ainda dentro desta, será
a repetição da experiência grega da coligação PASOK-Nova Democracia da qual o
PASOK saiu pulverizado. Finalmente, quinta e última crueldade possível, pode
acontecer que Pedro Passos Coelho, Paulo
Portas e António Costa, os três, dois deles ou apenas um, sejam obrigados
a demitir-se para que se produza um acordo que viabilize um Governo com suporte maioritário no Parlamento. Uma delícia.
Estas eleições têm tudo para que seja desta que de uma vez por todas fique claro que em eleições legislativas elegemos deputados e não Primeiros-ministros ou Governos. Já será uma enorme lição de democracia, mas podemos dar-lhes uma ainda maior se ninguém faltar ao seu dever no dia que a democracia nos deu para ajustarmos contas com quem nos faz mal e para agradecer a quem tudo dá pelo nosso bem colectivo. Vamos. Será como nós o fizermos.
Estas eleições têm tudo para que seja desta que de uma vez por todas fique claro que em eleições legislativas elegemos deputados e não Primeiros-ministros ou Governos. Já será uma enorme lição de democracia, mas podemos dar-lhes uma ainda maior se ninguém faltar ao seu dever no dia que a democracia nos deu para ajustarmos contas com quem nos faz mal e para agradecer a quem tudo dá pelo nosso bem colectivo. Vamos. Será como nós o fizermos.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Da longa série "como não deve ser um Presidente da República" (continuação da continuação)
Não há nada que seja
suficientemente mau que não possa piorar um pouco mais ainda. O lema de vida de
Cavaco Silva acaba de nos dar a conhecer um novo patamar de absurdo. Diz o senhor Presidente da República que não vai poder
presidir às comemorações do tal dia em que deixámos de ter Rei para termos
Presidente da República. Isso mesmo, o cargo que sua majestade ocupa. E que não
vai poder fazê-lo porque é Presidente da República, isto é, porque é ele que
marca as eleições legislativas, porque as marcou para a véspera e porque sua
majestade não está para se aborrecer a falar dos resultados. Já vi desculpas
menos esfarrapadas para uma balda do que um evento marcado pelo próprio baldas
para o dia anterior à mesma. Dom Baldas já cometeu tantas faltas injustificadas
que esta poderia bem ser a gota de água para o despedimento por justa causa que
há tanto tempo anda a fazer por merecer. Este gajo já devia estar no olho da rua há séculos. Mas aguardemos serenamente a comunicação
ao país da véspera do dia das eleições. A série "como não deve ser um Presidente da República" tem tudo para conhecer mais um superlativo. Não há nada que seja suficientemente
mau que não possa piorar um pouco mais ainda.quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Da longa série "Pedro Passos Coelho, mais uma herança de milhares de mentiras e de milhões"
Um documento técnico divulgado
pela Direcção-Geral de Economia e Finanças da Comissão Europeia adverte para a
possibilidade de os
contribuintes portugueses virem a suportar eventuais perdas do Novo Banco,
cenário que o Governo tem rejeitado. Confirma-se o que escrevi, por exemplo, aqui: vamos pagar mais um banco. Falta confirmar que o Governo já tem acordado o aumento de impostos para depois
das eleições que Catarina Martins denunciou no comício
de anteontem em Coimbra. A PAF vai à frente nas sondagens, Passos Coelho é o preferido dos portugueses para sucessor de si próprio. Raio de povo este que mais facilmente confia o poder
a mentirosos compulsivos do que dá a força do seu voto a quem sempre o defende
incondicionalmente com tudo o que tem.
Não gostei de ler: sobre 25 segredos de Passos e de Costa
Os jornalistas do
Público José António Cerejo e Paulo Pena inspiraram-se nos testes
obrigatórios feitos pelos partidos Democrático e Republicano norte-americanos
aos seus candidatos e enviaram às duas figuras que, apesar de em Portugal
elegermos deputados e não Governos, se assumem “candidatos a Primeiro-ministro”
um conjunto de perguntas bastante
precisas que estes poderiam ter respondido nem que fosse por respeito aos
eleitorados respectivos. Segundo contam, a resposta da coligação chegou um dia
depois do envio, a 9 de Setembro: “Encarrega-me o Director de Campanha de
agradecer o seu convite, mas o Primeiro-Ministro tem uma agenda preenchida até
às eleições e não vai poder encaixar o vosso amável convite.” Do lado do PS, os
contactos foram quase diários, com uma vaga promessa de resposta, que acabaria
por não chegar. Abaixo republico uma selecção das perguntas mais importantes que
Pedro Passos Coelho e António Costa não quiseram responder, um gesto que eleitores que não passam cheques em branco
jamais deixariam sem resposta no dia de todas as escolhas sobre o nosso futuro
colectivo. Como facilmente perceberá quem as analisar, são perguntas demasiado
importantes e Passos e Costa seriam os mais interessados em respondê-las publicamente.
Por que é que não o fizeram? Apesar de nada simpática, uma bebedeira de governabilidade
será, entre o amplo leque de possibilidades, uma das explicações mais fofinhas.
1. Tem, ou alguém da sua família próxima
(mulher e filhos) tem, contas bancárias no estrangeiro?
2. Alguma vez foi titular de contas em
refúgios fiscais (off-shores)?
3. Tem dívidas superiores a dez mil euros? A
que entidades? E qual o montante (se superior a dez mil euros)?
9. Por favor detalhe o seu património
imobiliário, do qual é proprietário ou locatário, e o da sua mulher.
10. Tem a sua situação fiscal regularizada?
E as contribuições para a Segurança Social?
11. Alguma vez foi alvo de processos de
execução, ou de penhoras motivados por dívidas a entidades públicas ou
privadas?
12. Considera-se um contribuinte exemplar,
no sentido em que sempre cumpriu todas as suas obrigações com o fisco e com a
segurança social dentro dos prazos e sem coimas, ou juros de mora, desde que
exerce funções públicas? Quer especificar a natureza das falhas em que
eventualmente tenha incorrido nas suas relações com esses serviços?
13. Alguma vez participou na discussão e
votação em órgãos como a Assembleia da República, assembleias e executivos
autárquicos, em que estivessem em causa assuntos em que tivesse interesses
particulares?
14. Alguma vez invocou nesses órgãos,
ficando registado em acta, algum dos impedimentos previstos na lei para não
participar na discussão e votação de assuntos em que possa ser sujeito de conflito
de interesses?
15. Alguma vez foi advertido, por escrito e
pelos órgãos competentes, para qualquer omissão ou declaração incorrecta
verificada nas declarações de rendimento e registos de interesse que entregou
ao longo dos anos, no Tribunal Constitucional e na Assembleia da República?
16. Alguma vez violou algumas das normas do
Estatuto dos Deputados (Lei nº 7/93), em particular aquelas sobre os
impedimentos a que os deputados estão sujeitos?
17. Por favor, detalhe as empresas e
entidades às quais prestou serviços remunerados, a título de profissão liberal
ou de trabalho dependente?
18. As empresas para as quais trabalhou
receberam apoios estatais ou comunitários?
19. Já foi accionista ou dono de alguma
quota em alguma empresa? Se sim quais as empresas em cujo capital participou e
qual é o estado actual dessas participações societárias? Vendeu-as? A quem?
23. A quantos cargos de eleição se
candidatou?
24. E quantos cargos de nomeação aceitou?
25. Quantas vezes contribuiu financeiramente
para campanhas eleitorais no passado. E com que montantes?
O pleno emprego e a utopia dos empatas
Quando existem poucos empregos e
muitos desempregados, o mais racional é reduzir o número diário de horas de
trabalho sem qualquer redução salarial. É a melhor forma de garantir o direito
ao emprego a mais gente, distribuir melhor a riqueza e aumentar uma
produtividade que, é sabido, vai decrescendo ao longo do dia. Esta foi uma das
medidas tomadas com êxito nos Estados Unidos para fazer face à crise de 1929. É
também uma medida que, passados tantos anos de avanços tecnológicos que em
princípio libertariam as sociedades de cargas horárias de trabalho que tornaram
desnecessárias, mais resistências desperta apesar da riqueza estar concentrada
como nunca esteve e embora o desemprego seja o flagelo social destes anos. Que
exploradores do factor trabalho se oponham à ideia entende-se, estão no seu
papel de exploradores. Que Governos como os que temos tido se oponham e até
adoptem medidas de sinal contrário também se entende, estão ao serviço dos
primeiros e fomentam o desemprego para fazer cair os salários e concentrar a
riqueza. Mas que sejam os próprios trabalhadores a fazê-lo, e a fazê-lo de uma
forma que lhes salta imediatamente essa palavra que décadas de domesticação carregaram
de carga negativa, utopia, e que se ponham a defender empregadores que os
exploram e Governos que lhes enegrecem o presente e lhes roubam o futuro, aí já
se estranha. Dedico-lhes estas linhas que escrevo para destacar a excelente notícia
que nos chega da Suécia, país onde em alguns sectores e empresas experimentaram
reduzir a jornada de trabalho das 8 para as 6 horas sem qualquer redução
salarial e onde, por exemplo, o responsável da fábrica da
Toyota em Gotemburgo, com jornada de trabalho de 6 horas há 3 anos, fala em
ganhos importantes de eficiência, em funcionários mais felizes e, vejam lá a
utopia, num aumento de 25%
nos lucros. Os "realistas" de serviço são sempre os maiores travões
do desenvolvimento social que é dever de todos, deles também, saber exigir. Quando deixamos de exigi-lo, em
vez de avanços civilizacionais, o resultado é a decadência que vivemos há
décadas: a utopia dos empatas.
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