segunda-feira, 11 de maio de 2015
Hora do recreio
O princípio é sempre o mesmo,
“aquilo que em mim é um direito, em ti é um privilégio”. O truque é tão velho
como eficaz, colocar trabalhadores contra trabalhadores, há sempre uma multidão
que se deixa tentar. Quem queira aliviar a pressão política sobre um Governo
que, apesar de ser liderado por um especialista em evasão contributiva, não tem
pejo algum em deixar famílias sem tecto para recuperar uma dívida fiscal de um
par de milhares de euros vai com toda a
certeza deliciar-se com este título: “Em
dez anos, cobrança coerciva rendeu 635 milhões ao fundo que premeia
funcionários do fisco”. Se é o seu caso, caro leitor, tem a caixa de
comentários deste post à sua disposição para dar largas à sua criatividade.
Faça uma pausa relaxante e escreva não menos do que dez insultos dirigidos aos
funcionários do fisco. Tem toda a razão, eles deviam ser maus funcionários, ler
o jornal em vez de cumprir com as instruções de trabalho que recebem, fazer por
desmerecer o prémio de desempenho a que têm direito e, de caminho, evitar-lhe a
chatice de se confrontar com as consequências das últimas quatro ou cinco vezes
que ou votou em quem invariavelmente o assalta, ou não votou em quem sempre o
defende. Reparou na foto que ilustra este post? Aquele é o pai das
cobranças automáticas. Há quem diga que é o melhor ministro deste Governo. Também
poderá confirmá-lo na próxima vez que necessite de recorrer ao SNS e tenha que esperar
horas na sala de espera ou o deixem a uivar de dor numa das muitas macas que se
amontoam nos corredores dos hospitais. Volte a fazer como fez hoje, insulte os médicos,
os enfermeiros, o pessoal auxiliar e quem esteja mais à mão. A culpa também é toda
deles, não de quem reduziu pessoal, concentrou urgências, deu ordens para encerrar
enfermarias e desviou o produto das cobranças coercivas e não coercivas do financiamento da sua
Saúde para o pagamento de uma dívida impagável. Saiba agradecer com solidariedade
a quem lhe dirija elogios como “melhor povo do mundo”.
domingo, 10 de maio de 2015
Gostei de ler: "Pela democracia"
«Na sexta-feira passada,
anteontem, o Fórum da TSF convocava para debate a qualidade da democracia. O
Manuel Acácio perguntava aos ouvintes se os partidos estão sintonizados com as
preocupações dos cidadãos ou, pelo contrário, se estão fechados sobre si próprios.
Como era de esperar, não faltaram
as indignações inflamadas do costume contra os políticos, "esses malandros
todos iguais", e os apelos ao "boicote" eleitoral, leia-se
abstenção. Só faltou o discurso taxista habitual "o que isto precisava era
de um novo Salazar". Confesso que este é o tipo de sermão que me irrita,
sobretudo porque quem o profere não faz ideia, na maioria das vezes, do que foi
viver em ditadura.
Por norma, e mesmo considerando o
exercício pleno da liberdade que comporta o direito de não votar, não gosto de
abstencionistas. Sobretudo porque são estes, maioritariamente, que,
demitindo-se de participar e fazer escolhas, passam a vida a queixar-se e a
dizer mal de tudo.
É evidente que os partidos têm
culpas no cartório. Quando sistematicamente, legislatura atrás de legislatura,
rasgam as promessas que fazem em nome do voto logo no dia seguinte às eleições,
ficam com a parte de leão da responsabilidade pelo facto de mais de 80% dos
portugueses estarem descontentes com a política. Mas essa desconfiança, aliada
à profunda crise económica e financeira com as consequências que se conhecem,
não deve, não pode, ser confundida com a natureza democrática do regime. E esse
é o perigo maior que enfrentamos, 41 anos depois do 25 de Abril. Pela enésima
vez, socorro-me da frase de Churchill: "A democracia é o pior dos
sistemas, à exceção de todos os outros." Como é evidente, esta não se
esgota no momento do voto. E hoje, mais do que nunca, temos à disposição
instrumentos de participação e intervenção cívica que não podemos deixar de
usar. E aquilo que não se pode permitir é que se instale a ideia de que a culpa
é apenas "deles". Na verdade, a responsabilidade é nossa, de todos
nós.
Veja-se o que aconteceu a 15 de
setembro de 2012. Um milhão de pessoas saiu à rua em protesto contra a intenção
do governo de transferir para os trabalhadores o pagamento da redução da TSU
das empresas. Perante o poder da indignação, Passos Coelho recuou e nunca mais
se ouviu falar do assunto. Tivemos naquele momento a prova de que, em
democracia, é possível obrigar uma maioria parlamentar a mudar de ideias e a
encontrar alternativas. O pior é que, depois dessa data, o país caiu no sono
profundo da resignação e, em nome da inevitabilidade impingida, sujeitou-se a
tudo.
O que faz falta é acordar. Não
há, pelo menos eu não acredito, democracia sem partidos. E se eles se fecham
sobre si próprios, se se empenham sobretudo nas lógicas de sobrevivência dos
seus aparelhos, cabe-nos a todos nós ser motores da sua mudança. E não vale a pena
fazer o discurso calimero de que não adianta ou de que ninguém nos ouve. É
falso, como a história já o demonstrou. De uma vez por todas, é bom que nos
entendamos: a liberdade, que muito prezo, permite fazer o apelo da abstenção e
passar a vida a disparar contra os políticos e os partidos. Mas esse discurso,
demissionário das responsabilidades, é, não tenhamos ilusões, a antecâmara das
ditaduras.» – Nuno Saraiva, no DN.
sábado, 9 de maio de 2015
De pequeninos se separam os destinos
"Aos seis anos já se aprende
nas escolas como ser um empresário de sucesso". O título indignou-me, li-o
no Público.
As escolas deviam ensinar cidadania, a ser gente, e não o fazem. Identifico
nesta falha uma das principais causas do fracasso de uma revolução sem paralelo
nas mentalidades que não produziu a ruptura com o padrão de cidadão-modelo
obediente e acéfalo que a Escola da ditadura modelava, uma falha que foi uma escolha
consciente do tal arco que se queria completamente à vontade para, uma a uma, engolir
como vem engolindo as conquistas de Abril. Lendo o artigo percebe-se que já estão
na fase seguinte. Quem, "à esquerda", comandava os destinos do país no ano lectivo de
2005/2006 escancarou as portas da Escola pública que pagamos com os nossos
impostos a um exército de pregadores pago por uma organização internacional da
qual em Portugal fazem parte, entre outros benfeitores da nossa sociedade, os grupos
Mello e Jerónimo Martins, as Fundações EDP, Sonae e PT. Todos eles se puseram
de acordo quanto à rentabilidade no longo prazo de um investimento presente na domesticação
das gerações que, na quase ausência de resistência dos paizinhos, a doutrina do
lucro se vai encarregando de moldar à imagem do individualista socialmente neutro
porque completamente desprovido de valores colectivos orientado para a busca de
uma felicidade medida pelo valor supremo do dinheiro. É bem visto. Respeito ao dinheiro. O lucro é o lucro e o resto é o resto. Competição
em vez de cooperação. Disputa em vez de solidariedade. A união faz a força. E de pequeninos se separam os destinos. Serão eles capazes de nos rentabilizar as velhices?
Vagamente relacionado: "(...) Um
estudo da OCDE de 2009 fazia um levantamento comparativo sobre os países onde
havia mais empreendedorismo. Na Noruega, 7% da população era empreendedora, nos
EUA 8% e em França 9%. Já no Gana, 66,9% da população está auto-empregada, no
Bangladesh 75,4% são empreendedores individuais. Ou seja, é nos países mais
pobres, onde o Estado é débil e onde o tecido económico tem pouca capacidade de
concentração de recursos e de massa crítica, que se batem recordes de
“empreendedorismo”. Desse ponto de vista, Portugal está no bom caminho. É só
acreditar." [ler
aqui]
Gostei de ler: "Evasão ou o refúgio que nos resta"
«Numa tarde ensolarada dos finais
de Março, a caminho de Puebla
de Sanabria, município espanhol raiano, província de Zamora, a estrada
serpenteava por urzes e giestas tendo como pano de fundo a cordilheira que
envolve o Parque Natural de Sanábria, que deve o nome ao enorme lago que ali se
abriga. Nos picos mais altos, pedaços de neve a reluzir, estendidos que nem
lençóis brancos a corar ao sol. Bonito!
Uma vez em Puebla de Sanabria,
vila medieval que ainda conserva um bom pedaço da cintura muralhada que se
acompanha descendo uma ruela em escadaria de cujo cimo o olhar se estende sobre
a ponte do rio Tera e dá largas à vista sobre o extenso vale. A vila, toda
ajaezada de sacadas e varandas floridas, arrima-se à roda do majestoso castelo,
lá no alto, aonde convergem as “empinadas calles” do centro histórico. A reter.
O mesmo não se dirá da “apagada e
vil tristeza” que vem ensombrando a política caseira. A Europa não anda muito
melhor, com o folhetim da Grécia a fazer render os noticiários – acima de tudo,
para relatar que ainda não há acordo, ufa… – e o Reino Unido às voltas com os
resultados eleitorais num país desigual onde vivem muitos dos ricos mais ricos,
numa União Europeia cada vez mais escavada pelas desigualdades. E aqui, em
Portugal, onde a pobreza se arrasta pela calada, os velhos estão cada vez mais
sós e desamparados e as crianças sofrem, na proporção de um para três, a míngua
dos pais, mesmo quando se pode dizer que os têm. Porque a miséria esburaca
tudo, as pessoas, as famílias, a vida social. A miséria moral, pior que a
material, derruba valores, acicata raivas, alimenta vícios, destrói os
indivíduos. E deste cortejo sobram a violência, os maus-tratos, a indignidade
humana. Temos visto disto tudo e o mais que se verá. Só a classe – nem toda,
registe-se – política não se dá conta, de tão ensarilhada que anda com os
números e as estatísticas. O governo e a maioria que o apoia enchem a boca com os
indicadores macroeconómicos que atestam um país que o comum dos mortais não
enxerga. A oposição desunha-se a contraditar – tantas vezes com imerecido
insucesso… O povo já nem os ouve, cansado e acabrunhado, a ruminar abstenções –
“é lá com eles” –, perigosamente.
E como se não bastasse, sai-se o
primeiro-ministro a dar à estampa uma biografia! Biografia?!! Que feitos tem
este recente ex-jota para nos dar a conhecer? Pois então, que é racional, que
não é frio, que canta a morna e o fado, que mete a louça na máquina, …, chega!
Só pode ser brincadeira.E, pelo visto, de mau gosto, que a história do SMS da
demissão “irrevogável” do Portas, o actual vice-primeiro--ministro e líder do
partido da recentemente renovada coligação, caiu mal, pudera!, nas hostes centristas.
É o que se pode chamar ter sentido de oportunidade e de conveniência! E o país
à espera. (...)
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Eleições britânicas: avisos à navegação
À hora a que escrevo estas linhas
ainda não há resultados definitivos das eleições de ontem no Reino Unido mas já
maioria absoluta dos Conservadores. E vários avisos. O primeiro deles tem como
destinatários os senhores de Bruxelas: os britânicos identificam vantagens na
saída da actual União Europeia. Será questão de tempo. O segundo é uma réplica
perfeita do primeiro e vem da Escócia: os escoceses não querem permanecer no
Reino Unido. Terceiro aviso, este dirigido a todas as réplicas neoliberais com
ou sem aroma de “esquerda” que abundam por essa Europa fora: entre a cópia e o
original, os britânicos também rejeitaram a falsificação. Finalmente, o quarto
e último aviso desta pequena compilação, talvez o mais importante no que aos portugueses
diz respeito, dirige-se quer aos eleitorados da cópia e do original que temos por
cá para consumo doméstico, quer à maioria de abstencionistas que lhes oferece o
monopólio das escolhas colectivas em bandeja de prata. Tem que ver com o
sistema eleitoral de círculos uninominais que PSD e PS planeiam importar do
Reino Unido para acentuarem ainda mais e irremediavelmente o bipartidarismo que
mais lhes convém. Os resultados de ontem voltam a demonstrar como um sistema eleitoral
pode subverter completamente a representatividade que deve caracterizar qualquer
democracia. É olhar para o resultado do partido nacionalista que defende a independência
que os escoceses rejeitaram há tão pouco tempo em referendo: ontem conseguiu 56
em 59 mandatos, isto é, 95% dos lugares em disputa. Há um par de meses, num sufrágio com um círculo único,
mais de 50% dos escoceses expressaram pelo voto a sua vontade de permanecer no Reino
Unido. O sistema de círculos uninominais ontem pariu quase duas independências.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Gostei de ler: "Dentro ou fora do consenso?"
«Vítor Bento, já totalmente
recuperado das últimas aventuras bancárias, declarou
ontem ter recebido “com agrado a componente liberal que é trazida a esta
discussão” pelo relatório do PS. Compreendo bem o seu agrado, já que nosso é o
desagrado. Este bloco central no campo intelectual abre caminho ao político,
como também defendeu Bento num debate no ISEG sobre o tal relatório. Confirmando
que isto está tudo ligado, o sempre subestimado Cavaco Silva, que ainda sabe
uma ou duas coisas sobre hegemonia, convidou esta semana Mário Centeno para os
últimos roteiros do futuro.
Assim, o futuro parece ser mais
uma década perdida para a maioria. Já serão duas: um sucesso este euro, não
percam a esperança e, entretanto, tratem mas é de fazer força, enquanto as
nossas elites gemem com ficções: será que a UE alguma vez poderá ser como os
EUA? Sim, parece que também para amplos sectores da esquerda os EUA são o
futuro normativo que justifica os presentes sacrifícios. Com o tal “consenso
europeu”, a regressão também é ideológica.
Todos estes desenvolvimentos
tornam ainda mais necessária a formação de um pólo político popular e nacional,
o tal povo unido, mas, ao contrário do que aqui
já defendi, não deverá substantivamente tratar-se de um terceiro pólo, mas
antes de um segundo, ou seja, da construção de uma verdadeira alternativa
soberanista e democrática ao tal consenso intelectual e político do bloco
central. Ancorada em valores de esquerda, terá de ser capaz de atrair todos os
que, na direita democrática ou subjectivamente fora da divisão
esquerda/direita, acham que isto ainda pode e deve ser um país, recusando
aventuras federalistas, outros tantos caminhos
hayekianos, em nome da recuperação nacional de instrumentos de política,
sem os quais só haverá esta impotência pós-democrática.
E por todos estou a pensar, só
para dar um exemplo num campo intelectual atrofiado, em Pacheco
Pereira, caso este tire as ilações políticas positivas do que tem vindo a
escrever nestes dias que são realmente do lixo: “Pobre país o nosso, entregue a
estas cabeças e a este desastre ambulante que é hoje a Europa. Esta é das
previsões mais fáceis de fazer: vai haver surpresas e todas elas fora do
‘consenso europeu’. É que a história não é feita de modelos”. As franjas,
sempre as franjas, reparem.» – João Rodrigues, no Ladrões
de Bicicletas.
Era uma vez... O INVESTIMENTO (série "felizes para sempre")
A propaganda oficial da
austeridade costuma referir-se a uma família muito gastadora que tem que
acostumar-se a novos hábitos de virtude. Foi a galope nesta ideia, debaixo dos
aplausos dos que a comeram, que chegaram os cortes salariais e de pensões de
reforma cuja ausência se notou nas caixas registadoras de milhares de negócios
de pequena e média dimensão que foram obrigados a fechar portas e a empurrar
para o desemprego uma multidão que nunca mais recuperará a vida que tinha
antes.
Foi também à boleia deste
discurso de virtude que o investimento privado foi respondendo à ausência de
consumo com novos mínimos todos os anos. A propaganda oficial da austeridade
vai dando o seu melhor para ignorar que vai ser cada vez mais difícil recuperar
deste recuo do investimento que há muito deixou de cobrir sequer as
amortizações, isto é, vai fazendo para que a opinião pública não se dê conta que
a grande família Virtude foi deixando avariar os electrodomésticos lá de casa e
deixou de renovar o guarda-roupa e que cada ano que passe maior será o
investimento necessário para repor o que o tempo vai transformando em lixo.
Na vez desta constatação, ouvimo-los
insistir na ideia de reduzir impostos sobre lucros, que isto impostos que os
pague quem trabalha, e na mesma receita aplicada às contribuições para a
Segurança Social suportadas pelas entidades patronais. Se os portugueses não se
importam de ser progressivamente obrigados a trabalhar até mais tarde e de terem
direito a receber pensões de reforma cada vez mais mínimas, eles também não. PSD, PS e CDS reduziram o IRC e preparam-se para assaltar a Segurança
Social. Argumento: empresas que pagam menos impostos têm mais dinheiro, logo, –
mesmo sem consumidores para os seus produtos – não hesitarão em investir mais,
logo, a economia cresce, logo, gera mais emprego, logo, num instantinho ficamos
todos ricos e somos felizes para sempre.
Era uma vez o investimento. Valeu
bem a pena aumentar impostos sobre rendimentos do trabalho para aliviar
impostos sobre lucros, como podemos verificar nas notícias do dia. Reduzir a
TSU suportada pelas entidades patronais resultará exactamente no mesmo. E o
resultado não é nenhum aumento do investimento. As cotadas na Bolsa nacional
entregarão mais de dois terços dos lucros aos seus accionistas. O total a distribuir este ano regista um aumento de 9,4% face ao ano anterior. São mais
160 milhões que serão entregues aos investidores. Isto apesar dos lucros das
doze empresas que vão entregar dividendos terem diminuído 1,5%relativamente a
2013. Há 20
magníficos que ficarão com metade do total de 1,86 mil milhões a distribuir, com a chinesa dona da fornecedora da electricidade mais cara de
toda a Europa à cabeça. Na lista dos maiores beneficiários aparecem também Pedro
Queiroz Pereira, Alexandre Soares dos Santos, Isabel dos Santos, Américo
Amorim, Paulo Azevedo e o presidente da EDP António Mexia. O “investimento” são
eles. Quanto menor o imposto, quanto menor a contribuição para a Segurança
Social, tanto maior o dividendo. Andamos a fazer milionários.
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Não saímos disto
Eles pensam em tudo. Nada melhor do que
uma biografia autorizada com pedido de demissão irrevogável por SMS para, atrás
de uma cortina de tiradas de assinalável recorte técnico para consumo de massas,
alertar as tropas para a necessidade de cerrar fileiras em torno da necessidade
de fazer aquela coligação desaguar em nova diarreia de poder. Nada melhor do
que um desvio de 0,1% nas previsões
de um patrão da Europa que ameaça com a necessidade de medidas adicionais
para, aceitando implicitamente aquela linha que conseguiram implantar no
imaginário colectivo, acima da qual mora
o pecado e abaixo da qual está a virtude, pôr PS, PSD e CDS a convencerem-nos
que são
a melhor opção para lhe obedecer. Nada melhor do que uma notícia sobre os jeitinhos
que foram dados ao PDM de Lisboa para render mais uns milhões aos donos
disto tudo para demonstrar que o PSD é incomparavelmente mais sério do que o
PS. E nada melhor do que o elogio
público de Passos Coelho a Dias Loureiro para demonstrar como o PS é
incomparavelmente melhor do que o PSD. E o que nos/lhes dizem as sondagens? Que
façam o que fizerem, que aconteça o que acontecer, que por maiores que sejam as
atrocidades que cometam e que por mais vergonhosos que sejam os episódios que protagonizem, o poder não lhes vai fugir das mãos. Que
nenhuma informação tem qualquer utilidade se quem a consumir não souber usá-la e
agir em conformidade. E que o amanhã será sempre pior do que o hoje enquantouma massa amorfa de abstencionistas mais ou menos vociferantes continuar a permitir que três claques de outros tantos partidos garantam vida mansa a uma casta que se sente perfeitamente à vontade para pôr e dispor de tudo e de todos. Não me canso de repeti-lo: os políticos não caem do céu.
O mundo ficou mais pobre
“Não entendo o jornalismo como um poder
mas como um serviço. Daí ele ser aristocrata: saber que podemos muito
mais do que nos permitimos, por respeito pelo público”. Assim era o Oscar
Mascarenhas que aprendi a admirar. Um ataque cardíaco encarregou-se de fazer
acontecer a perda irreparável do dia. Que descanse em paz.
Gostei de ler: "PS sem ideias para a Educação"
«(...) No início de Março,
António Costa apresentou 55 propostas, a que ele próprio chamou "o
primeiro capítulo do programa de governo". A Educação não mereceu atenção,
muito menos epígrafe própria. Foi aludida a propósito da “cooperação
transfronteiriça”, para se propor duas irrelevâncias que, por mal redigidas,
nem permitiram perceber o que pretendiam: “… acesso integrado das populações
…”, sem dizer a quê, e “… programas de estudos conjuntos, duplos graus …”,
fosse lá alguém saber o que quereria dizer tal enigma. E voltou a ser referida
quando o documento abordou o tema da descentralização e reforço das
competências das autarquias locais. Depois de enunciadas várias iniciativas,
estabelecia-se aí:
“Seguindo estes
princípios, e no quadro de um amplo processo de auscultação das autarquias e
avaliação das experiências-piloto em curso, passarão a ser exercidas pelos
municípios competências nos seguintes domínios: Educação, ao nível da gestão
dos equipamentos, acção social escolar, transportes escolares, pessoal não
docente e articulação com agrupamentos de escolas de todo o ensino básico e
secundário, garantindo a igualdade de oportunidades entre diferentes
territórios.”
Em contexto altamente turbulento,
provocado pela denominada "municipalização da Educação", é isto que o
PS tem para nos dizer? Se vai “auscultar” e “avaliar” as experiências em curso,
como ousa afirmar, desde logo, que “passarão” a ser exercidas competências,
deixando implícito que a auscultação e avaliação não passam de falácias
artificiosas? Reparou o PS que já estão instituídas coisas que diz ir
instituir?
Na mesma linha de desconhecimento
e insensibilidade surge a incursão nos problemas da Educação por parte dos
economistas a quem António Costa pediu Uma Década para Portugal:
— Propõem
“parcerias com o tecido empresarial de cada região no desenho de percursos de
ensino virados para o mercado de trabalho, contemplando o desenho de currículos
claramente virados para a empregabilidade”. Dizer isto, sem mais clarificação,
é imprudente. Está o PS a defender, como única, a perspectiva utilitarista e
imediatista da actual coligação? É o PS conivente com o denominado "ensino
vocacional" para crianças de 11 anos? Rejeita o PS, definitivamente, uma
filosofia personalista para o ensino obrigatório?
— Falam de
incentivos à fixação de professores em zonas menos atractivas, “penalizando
os que se apresentem a sucessivos
concursos”. O que é isso de penalizar quem concorre a múltiplos concursos? Castigar
quem, depois de décadas com a casa às costas, tenta aproximar-se da residência
e dar estabilidade à família? Incentivos à fixação em zonas menos atractivas,
quando em ponto algum do país fica por preencher um só horário, por falta de
professores? Só neste último concurso apresentaram-se 26.573 candidatos para
1954 vagas. O que falta são postos de trabalho. Teríamos apreciado, antes, se
os senhores economistas nos dissessem se o PS, finalmente, se propõe dar aos
quadros a dimensão adequada às necessidades. Se cumprirá a directiva
comunitária, por ora hipocritamente iludida com a norma-travão, no que toca aos
contratados. Se tem programa para reparar a selva legislativa em que se vive em
matéria de concursos, em que o próprio PS tem larga responsabilidade. Se mantém
ou revoga o anacronismo das actuais metas de aprendizagem e se mantém ou altera
a doentia inflação de exames, designadamente o do quarto ano da escolaridade
obrigatória.
Relevada a irrelevância, o país
aguarda a substância do pensamento do PS para a Educação. Se tiver algum. Se
ela existir. Antes da próxima década, o PS tem de gerir os próximos cinco meses.»
– Samtama Castilho, no Público.
Vagamente relacionado: «O programa do PS é uma tragédia social,
indefensável. Factualmente é destruir salários, pensões, substituir direitos
por assistencialismo, não há investimento público e a culpa da falência
bancária é a ausência de poupança dos portugueses e não a corrupção e regime de
produção caótico. Historicamente significa o que já se avizinhava, a crise
histórica da social-democracia, que já nem o pleno emprego e o Estado Social
defende. De esquerda sobra no programa a indignidade e as esmolas do Rendimento
mínimo e dos subsídios para trabalhadores que nem sequer ganham o suficiente
para comer e viver, porque o direito ao trabalho, a dignidade de trabalhar e
pagar as suas contas, desapareceu. É uma narrativa distópica, que se nos
oferece como possível, sublinho, se o cenário económico optimista se se
concretizar. Em suma, o programa diz, " isto vai ser muito mau, e é se as
taxas de lucro se mantiverem". Imaginem o que é o cenário do "se não
se mantiverem", que é claro o mais provável num quadro de deflação na
Europa. O muro caiu dos dois lados: do da URSS e do lado keynesianismo do pôs
guerra, isso tem como ocaso histórico o fim das ditaduras a leste, e também o
fim dos projectos reformadores, e como acaso um programa que associa a
mortalidade infantil ter baixado ao "problema demográfico"...problema
é continuarmos a ser governados por quem já não acredita naquilo em que
acredita. As taxas de abstenção não são mais do que o sintoma evidente da
ausência de alternativa, que é apresentada como única, natural. De forma clara,
como deve ser o debate político, isto não é o mal menor, é o péssimo, uma
narrativa presa em si, que mantém nas relações laborais – o que de mais
importante existe numa sociedade – todo o programa do PSD/CDS, o corte nas
férias, nos feriados, o aumento do horário de trabalho, o fim da negociação
colectiva, a mobilidade, os despedimentos, e aplaude, reitero, aplaude, o corte
nos salários... O programa é público, espero que todos tenham a seriedade e
paciência de o ler de uma ponta à outra em vez de transformarem a política na
defesa da camisola do clube, porque isso não é política, o nosso futuro não se
veste e tira, nem se lava e deita fora.» – Raquel Varela.
terça-feira, 5 de maio de 2015
A "solidariedade" é...
Depois da licença que obtiveram
em 2012 para colocar quatro camas onde antes apenas podiam deitar duas
pessoas sem serem obrigados a cobrar menos pelo serviço prestado, a União das
Misericórdias Portuguesas, a Confederação Nacional das Instituições de
Solidariedade (CNIS) e a União das Mutualidades Portuguesas obtiveram agora do
mesmo Governo licença para aumentarem o valor cobrado aos idosos que recorram aos
lares da chamada “rede solidária”. A partir de hoje podem exigir-lhes uma percentagem
maior da pensão de reforma que recebam e essa percentagem passa a incidir também
sobre outros rendimentos, tais como rendas e dividendos. O Governo que confisca
pensões de reforma diz que não pode aumentar o valor da comparticipação estatal
por utente. Os “solidários” alegam que o utente de hoje é muito menos autónomo do
que o utente de há 20 anos, o que faz aumentar custos com pessoal – que maioritariamente
não aufere mais do que um salário mínimo de miséria que em termos reais se vem reduzindo
ano após ano – e faz aumentar custos com infra-estruturas – que se reduziram mercê
do acordo anterior. A “solidariedade” é um negócio mesmo bonito.
Vagamente relacionado: Suspeitas de burla contra a Segurança Social
(SS), por parte da Obra Diocesana de Promoção Social, do Porto, estão a ser
investigadas pelo Ministério Público». Ontem, a Direcção do Norte da Polícia
Judiciária (PJ) efectuou buscas nas instalações daquela instituição de
solidariedade e no Paço Episcopal da diocese do Porto, onde a obra teve a sua
sede. Em causa está a denúncia que a instituição terá enganado o Estado e
logrou receber subsídios relativamente a utentes já falecidos ou que, simplesmente,
passaram a ser servidos por outras entidades. O valor da dívida tributária sob
investigação atingirá mais de 200 mil euros, incidindo sobre 2011 e 2012. (Jornal de Notícias
1/5/2015)
domingo, 3 de maio de 2015
Gostei de ler: "Vencer o medo"
«Em 1890, quando o Dia
Internacional do Trabalhador foi, pela primeira vez, comemorado com sentido
universal, era grande a miséria, chocantes as expressões de exploração no
trabalho e as injustiças e ausências de liberdade marcavam profundamente as
sociedades. Os trabalhadores e os povos, com grande determinação, construíram
novos e fortes instrumentos de luta social e política e, com eles, procuraram
vencer as imensas dificuldades em que viviam, as contradições e os medos que
tolhiam as suas vidas. Toda essa determinação e as imensas lutas travadas não
impediram que as injustiças e a ganância desmedida estivessem na origem de duas
guerras mundiais, mas foram a génese de um extraordinário percurso de
conquistas laborais, sociais, culturais, económicas e políticas. As liberdades
e a vida em democracia foram paulatinamente alcançadas em inúmeros países.
Hoje, em Portugal, na Europa e em
outras regiões do Mundo vivemos expressões dolorosas de um tempo de vingança
histórica e uma escabrosa experimentação de retrocesso civilizacional.
Os poderes dominantes propiciam a
uma ínfima minoria de indivíduos a apropriação desmedida de riqueza, colocando
cada vez mais povos e países a viverem na miséria ou sob programas sociais e
económicos de emergência. É preciso uma denúncia certeira da idolatria do
dinheiro, da financeirização, muitas vezes estruturada e manipulada por uma
tirania virtual, da frieza e violência da mão invisível dos mercados, da
corrupção tentacular e da evasão fiscal egoísta, que estão por detrás dos
grandes sofrimentos humanos. Neste Maio que se quer bem primaveril, impõe-se a
todos os que amam a liberdade e não abdicam da democracia que contraponham os
valores da solidariedade, da tolerância, da valorização e responsabilização da
política, do preenchimento útil e criativo das nossas vidas, da dignificação do
trabalho, da Democracia e da Paz. É necessário recusar a possibilidade de
planos de assistência em emergência se instalarem como programas políticos
definitivos. É imperioso rechaçar inevitabilidades e afirmar alternativas.
Há que trilhar caminhos de
combate às situações de exclusão e de marginalização e à sua profunda relação
com a ausência de trabalho (nomeadamente, a "inactividade" e o
desemprego que atingem brutalmente milhões de indivíduos) e as más condições de
prestação e de retribuição do trabalho, relembrando que "o trabalho é uma
realidade essencial para a sociedade, para as famílias e para os
indivíduos" e bem indispensável da pessoa humana. Temos de valorizar, não
as actividades humanas de enriquecimento fácil ou de subjugação de outros, mas
sim o trabalho solidário que produz bens e serviços indispensáveis ao
desenvolvimento humano, e que sustenta sistemas avançados de segurança social.
Como diz o Papa Francisco, o trabalho "estável e dignificado" não é
uma miragem, mas sim um direito universal e deve ser "disponível para
todos". Isso obriga-nos a questionar este sistema económico em que vivemos
que, para acelerar a acumulação capitalista e subjugar grande parte das
populações, destrói emprego e procura não criar trabalho, num mundo em que,
utilizando-se mais racionalmente apenas uma parte da riqueza produzida, se
podia criar milhões e milhões de novos postos de trabalho de grande utilidade e
valor.
Quando, como acontece actualmente,
a centralidade das políticas abandona o ser humano e se instala a
inevitabilidade da pobreza e das desigualdades, a concepção de que há
indivíduos que por esta ou aquela razão têm de se submeter, de serem
sacrificados ou excluídos, não mais pára o retrocesso.
Temos de nos sentir incomodados
por nos pensarmos pessoas com medo. Digamos não às instabilidades, às
precariedades e inseguranças, ao brutal desemprego e à miséria. Lutemos de
forma determinada pelos direitos fundamentais à saúde, a um sistema digno de
segurança social, pelo emprego, pelo direito a salários dignos e a horários de
trabalho que nos permitam realizar as nossas vidas. Se não o fizermos,
inevitavelmente a democracia morrerá. Nestes meses próximos de preparação de
eleições legislativas, há que participar e agir vencendo medos.» – Manuel
Carvalho da Silva, no JN.
Vagamente relacionado: "(...) antes de se fazer eleger
primeiro-ministro Sílvio Berlusconi (que só serve de modelo para isto que vou
escrever, Deus nos livre!) fez um estudo em que quis saber quais eram os
principais problemas que os italianos queriam ver resolvidos. De todos os que o
estudo revelou escolheu os três principais e repetiu-os até à exaustão sempre
sem se desviar. O resultado final é esse que todos sabemos. Três vezes
primeiro-ministro. Para mal dos pecados dos italianos a estratégia de
comunicação de Berlusconi estava certa. (...)" [José
Manuel Diogo]
sábado, 2 de maio de 2015
Gostei de ler: "Os estragos na cabeça"
«1. Estes últimos anos de
“ajustamento” moeram o corpo de muitos milhões de europeus, mas fizeram ainda
mais estragos à cabeça de muitos, não tantos, mas muitos. Está a
interiorizar-se um conjunto de falácias muito perigosas, a tornar-se habitual
pensar fora da democracia, de uma forma mais ou menos soft mas, de facto, fora
do quadro democrático, estão-se a aceitar como normal ou habitual procedimentos
e práticas que subordinam toda a política “possível” a uma versão ideológica da
política, que é o que é o “economês”. Aceita-se como normal uma espécie de
marxismo dos imbecis que é a determinação da política (superestrutura) pela
infraestrutura (economia) em termos tão grosseiros que deixariam Marx coberto
de vergonha e Adam Smith furioso com tanta ignorância. Vamos pagar caro por
estes estragos na cabeça. Estamos já a pagar caro.
2. Criou-se uma nova
classificação de “radicalismo”. Um bom cristão, ainda melhor burguês, fiel a
Deus, protector da sua família, conservador nos costumes, firme partidário da
propriedade privada, moderado nas suas opiniões, que nunca sonhou ser
revolucionário na vida, se contestar esta hegemonia do pensamento “economês” e
da “Europa”, passa imediatamente a ser um “radical” e é atirado para as trevas
exteriores da “boa política”, onde não há direito a vida cívica a não ser em
obscuros e convenientes grupúsculos. Ao demonizarem a moderação, o que estão é
a atearem as chamas do verdadeiro radicalismo. Esta “Europa” vai acabar mal.
3. Hoje em nome de um “realismo”
autoritário, que é tudo menos “realismo” como a história se encarregará de
mostrar breve, soçobraram os liberais genuínos, que aceitam novas formas de
autoridade imperial sem pestanejarem, que abandonam o amor pela liberdade, a
favor de uma vulgata que lhes é imposta em nome da “inevitabilidade”; ficam
calados e indiferentes os democratas que vêem os parlamentos para que votam
serem desprovidos dos poderes fundamentais do orçamento (ou seja “taxation
without representation”), os patriotas que vêem a sua comunidade nacional
desprovida da possibilidade de se governar a si própria, a quem se retiram
todas as dimensões da soberania, a começar pela possibilidade de definirem as
suas leis, terem as suas forças armadas e defesa própria, e a sua política
externa.
4. As nações passaram a secções
da União Europeia numa nova dimensão internacionalista e imperial, governada
por alguns países mais poderosos, a favor estritamente dos seus interesses. É
um império muito instável, acantonado em muitas posições defensivas, sem
dinamismo, força e vontade, mas é um império. Vive cada vez mais de censuras,
diktats e do medo.
5. A “Europa” é hoje o argumento
definitivo e ad terrorem que se usa para bloquear qualquer debate sobre
políticas. A “Europa não deixa”, isso “coloca-nos fora do euro”, os custos
dessa atitude são “enormes”. É sempre o tudo ou o nada, o que é o retrato, esse
sim, de um radicalismo real em que se tornou o debate europeu. O medo tornou-se
o principal argumento, como se vê na Grécia: “portem-se mal e vão ver o que vos
cai em cima”.
6. Este tipo de argumentos é
usado por todos os que se querem no “arco da governação”, que na verdade
significa estarem dentro desta “Europa” e deste euro. Fora não há governação
possível como se “viu na Grécia”. Isso significa que socialistas,
social-democratas, democratas cristãos ou não cristãos, direitistas liberais,
partidos do centro-direita e do centro-esquerda, partidos de esquerda
“europeísta”, todos dizem isto. O mesmo.
7. Mas acaso a “Europa” é uma
entidade supra-política? Não é de “direita” ou de “esquerda”? Não é o resultado
de uma hegemonia política de alguns partidos e alguns países e alguns
governantes, em particular alemães? Não tem cor política? É neutra? Claro que
não é: é até bastante à direita. O que torna particularmente irónico se não
fosse trágico, ouvir um socialista dizer que quer estar com a “Europa”, ou seja
com as políticas de direita da actual maioria europeia. O Tratado Orçamental
selou esta aliança dando à “Europa” um modelo político de direita, a que todos
devem obediência.
8. A “direita” hoje chama-se
“realidade”, e não há arrogância maior, nem maior prosápia do que essa. Não só
são donos da “realidade”, que só a eles cabe definir, como, mais do que isso,
eles são a própria “realidade” incarnada. Isto significa que as suas políticas
são as únicas possíveis e não há alternativas. O seu quadro impositivo, a que
todas as políticas se tem que conformar, é uma variante pouco complexa de uma
folha de Excel, um “modelo macroeconómico” cujas variantes são apenas as
permitidas pelo pensamento único do “economês”. Não é neutro, significa
interesses. Na prática, significa para Portugal (ou a Grécia) apenas “pagar aos
credores”, atitude benévola se a dívida pudesse ser paga sem ser pela tísica do
pagador ou a morte a prazo do devedor. Resta, no limite, a prisão por dívidas.
Tudo isto é um absurdo e, como de costume, uma história bem mais complicada do
que aquela que nos contam.
9. Este “modelo” implica um
regime objectivamente autoritário, em qua as eleições são uma perturbação
perigosa e, no limite, desnecessária. Traduz-se em termos populares por
perguntas que se tornaram uma espécie de cianeto para o pensamento,
aparentemente sensatas, mas cujo lugar na argumentação não é para os homens
livres, aquele em que eles as colocam os mandantes e os seus colaboradores:
“quanto custa?” “onde está o dinheiro?”, “quem paga?”. E nem sequer podemos
questionar que sabemos onde está o dinheiro, só que não é nos bolsos onde o
querem ir buscar.
10. Estamos reduzidos a isto. E
se aceitamos este quadro de partida chegamos sempre à chegada que convém a quem
acha que isto é que é a “realidade” do “possível” em política. Foi nesta
armadilha em que o PS se meteu ao aceitar o quadro do pensamento dominante (em
nome seja lá do que for, da “Europa”, por exemplo) e assim colocar-se
inteiramente no terreno de uma discussão pública cujos termos são os do governo
e da maioria e que ela domina sempre melhor. Ao começarem a apresentação de um
projecto político por aquilo que deve ser um complemento ancilar e não um ponto
de partida, aceitaram o “economês” e todas as ideias simplistas sobre a
sociedade, a política e a economia que lhes estão associadas. Parece quererem obter
o beneplácito dos adversários, fishing for compliments e atestados de
responsabilidade dados pelos mentores e apoiantes da actual maioria, que nunca
deixarão de pensar que os “outros” fazem melhor. O PS “confiável” é conveniente
para eles passarem o intermezzo que acham que os eleitores vão dar à maioria,
para diminuir as tensões, mas depois tudo voltará ao normal, um “ajustamento”
eterno, que aumenta as desigualdades sociais, fragiliza o poder do trabalho,
reduz Portugal a uma versão pobre e medíocre de uma Singapura falhada.
11. Os programas políticos agora
são auditados e auditáveis. Por quem? Por técnicos que lhes vão dar notas pelo
“trabalho de casa”. Mas esses técnicos não têm opiniões, não são parte quando
se trata, no fundo, de analisar políticas? Mas não, não é política é uma folha
de Excel. Vão dar notas? Alguém espera que o PS tenha mais do que um sofrível
dez e o PSD-CDS um melhor treze? Com que modelos, com que concepção da
sociedade, com que ideias, com que “economia”? Não. Com a “realidade”, aquela
mesmo de que falei atrás. Mas está tudo doido em democracia? É natural que
universidades, think tanks, economistas, comentadores, outros partidos façam um
trabalho de análise, com mais ou menos independência, mas querer a validação de
um programa político por técnicos oficiais do Estado, por instâncias do Estado,
é pretender um aval de outra natureza. E como é se chumbarem a avaliação, vão
mudar o programa, melhorar a folha de Excel, apelar a um tribunal superior?
Mais valia mandar directamente ao senhor Schäuble e à senhora Merkel. E a
prazo? Quem chumba não pode ir a exame? Vai haver exclusões eleitorais porque
os programas estão fora do “consenso europeu”? Já esteve mais longe.
12. Pobre país o nosso, entregue
a estas cabeças e a este desastre ambulante que é hoje a Europa. Esta é das
previsões mais fáceis de fazer: vai haver surpresas e todas elas fora do
“consenso europeu”. É que a história não é feita de modelos, mais ou menos
neo-malthusianos, que não incluem a complexidade da realidade, agora sem aspas.
E essa realidade é o ruído de que falava Max Weber: a regra desses programas é
falhar. A regra, não a excepção.» – José Pacheco Pereira, no Público.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
1º de Maio
Este ano optei por não escrever mais
do que esta linha para assinalar este 1º de Maio. Limitar-me-ei a recuperar o
que escrevi neste
post de há 5 anos, dava o socratismo os últimos suspiros, e a
acrescentar-lhe que passado este tempo em que o chicote mudou de mãos, está
prestes a regressar àquelas que em 2010 nos acariciavam os lombos. Foram mais
cinco anos sempre a perder, voltarão a ser mais cinco se estes cinco também não
nos ensinaram nada. Tenham um bom 1º de Maio.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
A minha austeridade é melhor do que a tua
Porque a minha é "de esquerda" e a tua é de direita. António Costa tinha toda a razão quando decidiu andar todos estes meses a escomder-se atrás de discursos vazios. Cavaco Silva tem toda a razão quando insiste que o consenso é possível. Vídeo: esquerda.net.
Vagamente relacionado:
A democracia na mão de malfeitores. Ele é visto prévio a cobertura de campanhas, ele é lista de pedófilos, ele é aprecia...
Posted by Filipe Tourais on Quinta-feira, 30 de Abril de 2015
O caçador de talentos
Ontem, a pretexto do Dia
Europeu da Solidariedade e Cooperação entre Gerações, foi dia de promover aos
olhos dos portugueses a alegada vantagem de desmantelar um Estado-pecado que ainda
assegura direitos e da sua substituição por instituições-virtude escolhidas pelos
benfeitores do regime para a nobre missão de transformar esses direitos em caridade. Com esse propósito,
a Obra Diocesana de Promoção Social, do Porto, foi agraciada pelo Presidente da
República que nunca se engana e raramente tem dúvidas com o título de membro
honorário da Ordem do Mérito. Nem 24 horas depois, hoje, nova homenagem, desta vez
oferecida pela PJ e inspectores da Segurança Social, que fizeram buscas nas instalações
do mais recente membro honorário da
Ordem do Mérito na sequência de suspeitas de fraude
à Segurança Social, mais concretamente uma denúncia de recebimento de dinheiros
públicos por serviços prestados a utentes-fantasma. Sem dúvida alguma, Cavaco Silva
é um caça talentos. Acertou em cheio na condecoração ao Zeinal que fez voar 900
milhões da PT para o universo Espírito Santo. Arrisca-se a acertar na mouche outra
vez. Quem serão os medalhados do próximo 10 de Junho? A PJ que esteja atenta.
quarta-feira, 29 de abril de 2015
É o progresso, estúpidos (estúpido e estúpida)
Quando o tema é concertação
social, já sabemos que a UGT assina por baixo qualquer proposta que venha de
qualquer Governo do tal arco que nos tem a pão e água. Arrumo, portanto, o
entusiasmo de Carlos Silva no cantinho que a História tem reservado para os colaboracionistazinhos
da sua estirpe. Mas o tema é concertação social. E é igualdade de género. E é
discriminação salarial. É Constituição da República Portuguesa, portanto. É que
o Governo levou
para a concertação social uma proposta de subsidiação do cumprimento do
direito à igualdade entre homens e mulheres dirigido a empresas que estejam dispostas
a não discriminarem mulheres pagando-lhes menos e oferecendo-lhes piores
carreiras do que aquelas que oferecem aos homens e para isso, vá lá que desta
feita não
será a Segurança Social que pagará a festa, está disposto a ir buscar
dinheiro àquela Europa que nos diz que vivemos acima das nossas possibilidades.
Chama-lhe "medida de promoção da igualdade de género". Sê-lo-ia,
realmente, se a ideia fosse penalizar, com multas ou pela forma que fosse, qualquer
– e não apenas a de género – das discriminações que a nossa Lei fundamental proíbe.
Subsidiando quem o faz, o nº
2 do art. 13º da CRP começa a ficar com a seguinte redacção: "Quem
privilegiar, beneficiar, prejudicar, privar de qualquer direito ou isentar de
qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de
origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação
económica , condição social ou orientação sexual tem direito a prémio". Incentivo à discriminação de género. Curiosa forma de combater uma discriminação. Se
incentivar ainda for o contrário de punir, estamos prestes a presenciar mais um
enorme retrocesso. Claro, se retrocesso ainda for o oposto de progresso. Calar continua
a ser um contrário de reagir.
terça-feira, 28 de abril de 2015
Uma ciência exacta
Há sempre um oportunista à
espreita a tentar colar-se ao êxito alheio mesmo quando o que defende o autor
do sucesso é completamente diferente daquilo que defende o oportunista que se
põe à boleia. Na política também é assim. E António Costa, já o sabíamos pelo
menos desde o dia em que os gregos disseram não àquela Europa cuja porta lhe põe
o nariz a pingar de medo de levar com um ralhete, é um destes artistas. Como
estes números mediáticos só produzem o efeito desejado se forem meticulosamente
preparados, ontem foi um dos que teve o cuidado de anunciar
previamente que iria encontrar-se com Thomas Piketty. A seguir apareceu ao
seu lado a
criticar a aposta na austeridade do modelo europeu que notoriamente excede
largamente o capital de coragem e de vontade política de que dispõe para lhe
responder em sede
própria. E a seguir Thomas Piketty deu uma entrevista onde, entre outras
ideias, voltou a defender a necessidade de combater o aumento dramático das
desigualdades que resulta de lucros que por esse mundo fora vêm crescendo a um
ritmo mais de três vezes superior ao da massa salarial, uma reforma fiscal que
inverta a sobrecarga crescente de impostos sobre rendimentos do trabalho que
vêm aliviando os que mais têm ao invés de sobrecarregá-los e, falando
especificamente sobre o caso português, que a dívida portuguesa terá que ser reestruturada
mais
cedo ou mais tarde. Ora, como sabemos, o PS não quer ouvir falar em reestruturar
a dívida, aprovou conjuntamente com o PSD e o CDS uma redução de impostos sobre
lucros que beneficia sobretudo as grandes empresas e obriga a sobrecarregar ainda
mais os rendimentos do trabalho, sempre esteve contra a tributação de grandes fortunas
e o máximo que está disposto a fazer pela
reposição do poder de compra do salário mínimo de miséria que congelou em 2010 é
a sua subsidiação com dinheiros que se propõe ir buscar às reformas futuras dos
portugueses e a impostos que fazem falta para inverter o desmantelamento de serviços
públicos e para financiar o investimento necessário para criar emprego. Embaraço? Nenhum. As contradições dissipam-se invariavelmente com uma acusação qualquer disparada para
o ar de dedo apontado ao PSD e ao CDS, que responderão com a sua. Há truques que resultam sempre. Até prova em contrário,
a alternância é uma ciência exacta.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Gostei de ler: "O amigo dos nossos chefes é um terrorista"
«Abdelhadim Belhadj foi
identificado pela Interpol como um dos líderes do exército
do Estado Islâmico, que tem semeado
o terror na Síria e no norte de África. Não se surpreenda: como eu até há
dias, não sabe quem é este cavalheiro. Pois ei-lo na foto ao lado de McCain, o
senador republicano que foi candidato à islamic
statepresidência dos Estados Unidos (e de dois outros senadores), a
trocarem prendas. Ou poderíamos vê-lo a ser recebido por Laurent Fabius,
ministro dos negócios estrangeiros de Hollande, em maio de 2014. Claro que isso
foi no tempo do reconhecimento. Agora, é um dos chefes do Estado Islâmico.
Abdelhakim Belhadj foi treinado
pelos homens de Saddam e chefiou o Grupo Islâmico Combatente da Líbia, opositor
de Kadafi, entre 1995 e 1998, tendo colaborado com os serviços secretos
britânicos durante esse período. Mas depois foi para o Afeganistão, apoiando
Bin Laden. Diz-se que foi um dos responsáveis do atentado de Madrid em 11 de
Março de 2004. Seria preso na Malásia, onde foi interrogado
pela CIA e pelos seus antigos patrões. Mas foi libertado em 2010,
instalando-se no Qatar, até à queda de Kadafi.
As forças da Nato, que foram
decisivas nos meses de guerra e de desagregação do regime líbio, nomearam então
Abdelkhadim Belhadj governador
militar da capital, Tripoli, apresentando-lhe
desculpas pelo interrogatório e prisão pela CIA e pelo MI6. Não demorou muito
nesta função (mas veja a entrevista
na Euronews), porque criou um partido e deslocou-se para a Síria, fundando o
Exército Sírio da Liberdade, que recebeu o apoio militar e político dos países
ocidentais, na guerra contra o regime dos Assad.
A Interpol identifica-o agora
como o chefe do grupo que mais teme: Belhadj terá criado campos de treino do
Estado Islâmico em Derna, Sirte e Sebrata, na Líbia, e criado um grupo na
Tunísia, em Djerba.
Quando se perguntar o que faz a
Europa perante o genocídio do Mediterrâneo e as mortes de quem foge da guerra,
lembre-se desta história e da sua moral: um dos amigos dos mais respeitáveis
líderes mundiais é um dos chefes do terror. É dele e dessa cultura de morte que
os emigrantes fogem. Vão encontrar, do lado de cá, muitos dos amigos e
ex-patrões desse chefe do terror e de outros como ele. E são estes amigos e
ex-patrões que vão colocar navios de guerra no Mediterrâneo para não deixarem
passar as balsas de emigrantes.» – Francisco Louçã, no TME.
Vagamente
relacionado: «(...) O que Edward Snowden revelou ao mundo foi apenas a ponta de
um icebergue cujos volume e profundidade crescem sem parar. Sabia-se que a
National Security Agency (Agência Nacional de Segurança) dos Estados Unidos da
América é unha com carne com a sua gémea britânica GCHQ. A imprensa e o
Parlamento alemão vêm agora demonstrar que a intimidade é extensiva aos
serviços de espionagem da Alemanha, o BND, Gabinete de Defesa da Constituição
(curioso nome este), que a seu belo prazer acode às encomendas de devassa feitas
pela NSA, ao que parece sem o conhecimento sequer dos órgãos de soberania do
país. A torrente de confidências escorre pelo menos desde 2002, tudo à sombra
de um manhoso “Memorando de Entendimento” antiterrorista, e só em Março passado
a Chancelaria da senhora Merkel teve conhecimento da trapaça (continuar a ler). – José Goulão.
sábado, 25 de abril de 2015
Eles andam aí
Não passam de uma tropa de cobardes. Cobardes perigosos, atenção. Agora não
foi ninguém. António Costa rejeita proposta para cobertura das campanhas
que PS apoiou. Luís Montenegro responsabiliza socialistas pelas ideias de
criação da comissão mista e do plano de cobertura da campanha. Paulo Portas diz
"prezar muito" a liberdade de imprensa. Não, não se tratou de nenhummal entendido. Estão prestes a conseguir despachar o Serviço Nacional de Saúde
e a Escola Pública que soubemos construir em democracia e já conseguiram pulverizar
quase completamente os direitos laborais e sociais conquistados em 1974.
Liberdade de imprensa, liberdade de expressão, liberdade de associação,
Constituição da República Portuguesa, lei eleitoral, se os deixarmos à vontade,
ao mínimo deslize, o ajuste de contas com o 25 de Abril que PSD, PS e CDS vêm
consumando nada poupará. Desta vez correu-lhes mal. E o alerta que esta
tentativa fracassada deixa atrás de si é o contributo que estes três partidos
estariam menos interessados em dar para encher de sentido as comemorações do 25
de Abril deste ano: a democracia é um edifício inacabado que tanto pode crescer
como pode sumir-se nas mãos de uns quantos, dependendo da qualidade e da
vontade dos cidadãos que a cuidem ou que a desbaratem. O 25 de Abril custou
demasiadas vidas e quase meio século de obscurantismo para que agora o deixemos
desaparecer nas mãos de uma tropa de anões. Eles vão continuar a tentar.
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