domingo, 3 de maio de 2015
Gostei de ler: "Vencer o medo"
«Em 1890, quando o Dia
Internacional do Trabalhador foi, pela primeira vez, comemorado com sentido
universal, era grande a miséria, chocantes as expressões de exploração no
trabalho e as injustiças e ausências de liberdade marcavam profundamente as
sociedades. Os trabalhadores e os povos, com grande determinação, construíram
novos e fortes instrumentos de luta social e política e, com eles, procuraram
vencer as imensas dificuldades em que viviam, as contradições e os medos que
tolhiam as suas vidas. Toda essa determinação e as imensas lutas travadas não
impediram que as injustiças e a ganância desmedida estivessem na origem de duas
guerras mundiais, mas foram a génese de um extraordinário percurso de
conquistas laborais, sociais, culturais, económicas e políticas. As liberdades
e a vida em democracia foram paulatinamente alcançadas em inúmeros países.
Hoje, em Portugal, na Europa e em
outras regiões do Mundo vivemos expressões dolorosas de um tempo de vingança
histórica e uma escabrosa experimentação de retrocesso civilizacional.
Os poderes dominantes propiciam a
uma ínfima minoria de indivíduos a apropriação desmedida de riqueza, colocando
cada vez mais povos e países a viverem na miséria ou sob programas sociais e
económicos de emergência. É preciso uma denúncia certeira da idolatria do
dinheiro, da financeirização, muitas vezes estruturada e manipulada por uma
tirania virtual, da frieza e violência da mão invisível dos mercados, da
corrupção tentacular e da evasão fiscal egoísta, que estão por detrás dos
grandes sofrimentos humanos. Neste Maio que se quer bem primaveril, impõe-se a
todos os que amam a liberdade e não abdicam da democracia que contraponham os
valores da solidariedade, da tolerância, da valorização e responsabilização da
política, do preenchimento útil e criativo das nossas vidas, da dignificação do
trabalho, da Democracia e da Paz. É necessário recusar a possibilidade de
planos de assistência em emergência se instalarem como programas políticos
definitivos. É imperioso rechaçar inevitabilidades e afirmar alternativas.
Há que trilhar caminhos de
combate às situações de exclusão e de marginalização e à sua profunda relação
com a ausência de trabalho (nomeadamente, a "inactividade" e o
desemprego que atingem brutalmente milhões de indivíduos) e as más condições de
prestação e de retribuição do trabalho, relembrando que "o trabalho é uma
realidade essencial para a sociedade, para as famílias e para os
indivíduos" e bem indispensável da pessoa humana. Temos de valorizar, não
as actividades humanas de enriquecimento fácil ou de subjugação de outros, mas
sim o trabalho solidário que produz bens e serviços indispensáveis ao
desenvolvimento humano, e que sustenta sistemas avançados de segurança social.
Como diz o Papa Francisco, o trabalho "estável e dignificado" não é
uma miragem, mas sim um direito universal e deve ser "disponível para
todos". Isso obriga-nos a questionar este sistema económico em que vivemos
que, para acelerar a acumulação capitalista e subjugar grande parte das
populações, destrói emprego e procura não criar trabalho, num mundo em que,
utilizando-se mais racionalmente apenas uma parte da riqueza produzida, se
podia criar milhões e milhões de novos postos de trabalho de grande utilidade e
valor.
Quando, como acontece actualmente,
a centralidade das políticas abandona o ser humano e se instala a
inevitabilidade da pobreza e das desigualdades, a concepção de que há
indivíduos que por esta ou aquela razão têm de se submeter, de serem
sacrificados ou excluídos, não mais pára o retrocesso.
Temos de nos sentir incomodados
por nos pensarmos pessoas com medo. Digamos não às instabilidades, às
precariedades e inseguranças, ao brutal desemprego e à miséria. Lutemos de
forma determinada pelos direitos fundamentais à saúde, a um sistema digno de
segurança social, pelo emprego, pelo direito a salários dignos e a horários de
trabalho que nos permitam realizar as nossas vidas. Se não o fizermos,
inevitavelmente a democracia morrerá. Nestes meses próximos de preparação de
eleições legislativas, há que participar e agir vencendo medos.» – Manuel
Carvalho da Silva, no JN.
Vagamente relacionado: "(...) antes de se fazer eleger
primeiro-ministro Sílvio Berlusconi (que só serve de modelo para isto que vou
escrever, Deus nos livre!) fez um estudo em que quis saber quais eram os
principais problemas que os italianos queriam ver resolvidos. De todos os que o
estudo revelou escolheu os três principais e repetiu-os até à exaustão sempre
sem se desviar. O resultado final é esse que todos sabemos. Três vezes
primeiro-ministro. Para mal dos pecados dos italianos a estratégia de
comunicação de Berlusconi estava certa. (...)" [José
Manuel Diogo]
sábado, 2 de maio de 2015
Gostei de ler: "Os estragos na cabeça"
«1. Estes últimos anos de
“ajustamento” moeram o corpo de muitos milhões de europeus, mas fizeram ainda
mais estragos à cabeça de muitos, não tantos, mas muitos. Está a
interiorizar-se um conjunto de falácias muito perigosas, a tornar-se habitual
pensar fora da democracia, de uma forma mais ou menos soft mas, de facto, fora
do quadro democrático, estão-se a aceitar como normal ou habitual procedimentos
e práticas que subordinam toda a política “possível” a uma versão ideológica da
política, que é o que é o “economês”. Aceita-se como normal uma espécie de
marxismo dos imbecis que é a determinação da política (superestrutura) pela
infraestrutura (economia) em termos tão grosseiros que deixariam Marx coberto
de vergonha e Adam Smith furioso com tanta ignorância. Vamos pagar caro por
estes estragos na cabeça. Estamos já a pagar caro.
2. Criou-se uma nova
classificação de “radicalismo”. Um bom cristão, ainda melhor burguês, fiel a
Deus, protector da sua família, conservador nos costumes, firme partidário da
propriedade privada, moderado nas suas opiniões, que nunca sonhou ser
revolucionário na vida, se contestar esta hegemonia do pensamento “economês” e
da “Europa”, passa imediatamente a ser um “radical” e é atirado para as trevas
exteriores da “boa política”, onde não há direito a vida cívica a não ser em
obscuros e convenientes grupúsculos. Ao demonizarem a moderação, o que estão é
a atearem as chamas do verdadeiro radicalismo. Esta “Europa” vai acabar mal.
3. Hoje em nome de um “realismo”
autoritário, que é tudo menos “realismo” como a história se encarregará de
mostrar breve, soçobraram os liberais genuínos, que aceitam novas formas de
autoridade imperial sem pestanejarem, que abandonam o amor pela liberdade, a
favor de uma vulgata que lhes é imposta em nome da “inevitabilidade”; ficam
calados e indiferentes os democratas que vêem os parlamentos para que votam
serem desprovidos dos poderes fundamentais do orçamento (ou seja “taxation
without representation”), os patriotas que vêem a sua comunidade nacional
desprovida da possibilidade de se governar a si própria, a quem se retiram
todas as dimensões da soberania, a começar pela possibilidade de definirem as
suas leis, terem as suas forças armadas e defesa própria, e a sua política
externa.
4. As nações passaram a secções
da União Europeia numa nova dimensão internacionalista e imperial, governada
por alguns países mais poderosos, a favor estritamente dos seus interesses. É
um império muito instável, acantonado em muitas posições defensivas, sem
dinamismo, força e vontade, mas é um império. Vive cada vez mais de censuras,
diktats e do medo.
5. A “Europa” é hoje o argumento
definitivo e ad terrorem que se usa para bloquear qualquer debate sobre
políticas. A “Europa não deixa”, isso “coloca-nos fora do euro”, os custos
dessa atitude são “enormes”. É sempre o tudo ou o nada, o que é o retrato, esse
sim, de um radicalismo real em que se tornou o debate europeu. O medo tornou-se
o principal argumento, como se vê na Grécia: “portem-se mal e vão ver o que vos
cai em cima”.
6. Este tipo de argumentos é
usado por todos os que se querem no “arco da governação”, que na verdade
significa estarem dentro desta “Europa” e deste euro. Fora não há governação
possível como se “viu na Grécia”. Isso significa que socialistas,
social-democratas, democratas cristãos ou não cristãos, direitistas liberais,
partidos do centro-direita e do centro-esquerda, partidos de esquerda
“europeísta”, todos dizem isto. O mesmo.
7. Mas acaso a “Europa” é uma
entidade supra-política? Não é de “direita” ou de “esquerda”? Não é o resultado
de uma hegemonia política de alguns partidos e alguns países e alguns
governantes, em particular alemães? Não tem cor política? É neutra? Claro que
não é: é até bastante à direita. O que torna particularmente irónico se não
fosse trágico, ouvir um socialista dizer que quer estar com a “Europa”, ou seja
com as políticas de direita da actual maioria europeia. O Tratado Orçamental
selou esta aliança dando à “Europa” um modelo político de direita, a que todos
devem obediência.
8. A “direita” hoje chama-se
“realidade”, e não há arrogância maior, nem maior prosápia do que essa. Não só
são donos da “realidade”, que só a eles cabe definir, como, mais do que isso,
eles são a própria “realidade” incarnada. Isto significa que as suas políticas
são as únicas possíveis e não há alternativas. O seu quadro impositivo, a que
todas as políticas se tem que conformar, é uma variante pouco complexa de uma
folha de Excel, um “modelo macroeconómico” cujas variantes são apenas as
permitidas pelo pensamento único do “economês”. Não é neutro, significa
interesses. Na prática, significa para Portugal (ou a Grécia) apenas “pagar aos
credores”, atitude benévola se a dívida pudesse ser paga sem ser pela tísica do
pagador ou a morte a prazo do devedor. Resta, no limite, a prisão por dívidas.
Tudo isto é um absurdo e, como de costume, uma história bem mais complicada do
que aquela que nos contam.
9. Este “modelo” implica um
regime objectivamente autoritário, em qua as eleições são uma perturbação
perigosa e, no limite, desnecessária. Traduz-se em termos populares por
perguntas que se tornaram uma espécie de cianeto para o pensamento,
aparentemente sensatas, mas cujo lugar na argumentação não é para os homens
livres, aquele em que eles as colocam os mandantes e os seus colaboradores:
“quanto custa?” “onde está o dinheiro?”, “quem paga?”. E nem sequer podemos
questionar que sabemos onde está o dinheiro, só que não é nos bolsos onde o
querem ir buscar.
10. Estamos reduzidos a isto. E
se aceitamos este quadro de partida chegamos sempre à chegada que convém a quem
acha que isto é que é a “realidade” do “possível” em política. Foi nesta
armadilha em que o PS se meteu ao aceitar o quadro do pensamento dominante (em
nome seja lá do que for, da “Europa”, por exemplo) e assim colocar-se
inteiramente no terreno de uma discussão pública cujos termos são os do governo
e da maioria e que ela domina sempre melhor. Ao começarem a apresentação de um
projecto político por aquilo que deve ser um complemento ancilar e não um ponto
de partida, aceitaram o “economês” e todas as ideias simplistas sobre a
sociedade, a política e a economia que lhes estão associadas. Parece quererem obter
o beneplácito dos adversários, fishing for compliments e atestados de
responsabilidade dados pelos mentores e apoiantes da actual maioria, que nunca
deixarão de pensar que os “outros” fazem melhor. O PS “confiável” é conveniente
para eles passarem o intermezzo que acham que os eleitores vão dar à maioria,
para diminuir as tensões, mas depois tudo voltará ao normal, um “ajustamento”
eterno, que aumenta as desigualdades sociais, fragiliza o poder do trabalho,
reduz Portugal a uma versão pobre e medíocre de uma Singapura falhada.
11. Os programas políticos agora
são auditados e auditáveis. Por quem? Por técnicos que lhes vão dar notas pelo
“trabalho de casa”. Mas esses técnicos não têm opiniões, não são parte quando
se trata, no fundo, de analisar políticas? Mas não, não é política é uma folha
de Excel. Vão dar notas? Alguém espera que o PS tenha mais do que um sofrível
dez e o PSD-CDS um melhor treze? Com que modelos, com que concepção da
sociedade, com que ideias, com que “economia”? Não. Com a “realidade”, aquela
mesmo de que falei atrás. Mas está tudo doido em democracia? É natural que
universidades, think tanks, economistas, comentadores, outros partidos façam um
trabalho de análise, com mais ou menos independência, mas querer a validação de
um programa político por técnicos oficiais do Estado, por instâncias do Estado,
é pretender um aval de outra natureza. E como é se chumbarem a avaliação, vão
mudar o programa, melhorar a folha de Excel, apelar a um tribunal superior?
Mais valia mandar directamente ao senhor Schäuble e à senhora Merkel. E a
prazo? Quem chumba não pode ir a exame? Vai haver exclusões eleitorais porque
os programas estão fora do “consenso europeu”? Já esteve mais longe.
12. Pobre país o nosso, entregue
a estas cabeças e a este desastre ambulante que é hoje a Europa. Esta é das
previsões mais fáceis de fazer: vai haver surpresas e todas elas fora do
“consenso europeu”. É que a história não é feita de modelos, mais ou menos
neo-malthusianos, que não incluem a complexidade da realidade, agora sem aspas.
E essa realidade é o ruído de que falava Max Weber: a regra desses programas é
falhar. A regra, não a excepção.» – José Pacheco Pereira, no Público.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
1º de Maio
Este ano optei por não escrever mais
do que esta linha para assinalar este 1º de Maio. Limitar-me-ei a recuperar o
que escrevi neste
post de há 5 anos, dava o socratismo os últimos suspiros, e a
acrescentar-lhe que passado este tempo em que o chicote mudou de mãos, está
prestes a regressar àquelas que em 2010 nos acariciavam os lombos. Foram mais
cinco anos sempre a perder, voltarão a ser mais cinco se estes cinco também não
nos ensinaram nada. Tenham um bom 1º de Maio.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
A minha austeridade é melhor do que a tua
Porque a minha é "de esquerda" e a tua é de direita. António Costa tinha toda a razão quando decidiu andar todos estes meses a escomder-se atrás de discursos vazios. Cavaco Silva tem toda a razão quando insiste que o consenso é possível. Vídeo: esquerda.net.
Vagamente relacionado:
A democracia na mão de malfeitores. Ele é visto prévio a cobertura de campanhas, ele é lista de pedófilos, ele é aprecia...
Posted by Filipe Tourais on Quinta-feira, 30 de Abril de 2015
O caçador de talentos
Ontem, a pretexto do Dia
Europeu da Solidariedade e Cooperação entre Gerações, foi dia de promover aos
olhos dos portugueses a alegada vantagem de desmantelar um Estado-pecado que ainda
assegura direitos e da sua substituição por instituições-virtude escolhidas pelos
benfeitores do regime para a nobre missão de transformar esses direitos em caridade. Com esse propósito,
a Obra Diocesana de Promoção Social, do Porto, foi agraciada pelo Presidente da
República que nunca se engana e raramente tem dúvidas com o título de membro
honorário da Ordem do Mérito. Nem 24 horas depois, hoje, nova homenagem, desta vez
oferecida pela PJ e inspectores da Segurança Social, que fizeram buscas nas instalações
do mais recente membro honorário da
Ordem do Mérito na sequência de suspeitas de fraude
à Segurança Social, mais concretamente uma denúncia de recebimento de dinheiros
públicos por serviços prestados a utentes-fantasma. Sem dúvida alguma, Cavaco Silva
é um caça talentos. Acertou em cheio na condecoração ao Zeinal que fez voar 900
milhões da PT para o universo Espírito Santo. Arrisca-se a acertar na mouche outra
vez. Quem serão os medalhados do próximo 10 de Junho? A PJ que esteja atenta.
quarta-feira, 29 de abril de 2015
É o progresso, estúpidos (estúpido e estúpida)
Quando o tema é concertação
social, já sabemos que a UGT assina por baixo qualquer proposta que venha de
qualquer Governo do tal arco que nos tem a pão e água. Arrumo, portanto, o
entusiasmo de Carlos Silva no cantinho que a História tem reservado para os colaboracionistazinhos
da sua estirpe. Mas o tema é concertação social. E é igualdade de género. E é
discriminação salarial. É Constituição da República Portuguesa, portanto. É que
o Governo levou
para a concertação social uma proposta de subsidiação do cumprimento do
direito à igualdade entre homens e mulheres dirigido a empresas que estejam dispostas
a não discriminarem mulheres pagando-lhes menos e oferecendo-lhes piores
carreiras do que aquelas que oferecem aos homens e para isso, vá lá que desta
feita não
será a Segurança Social que pagará a festa, está disposto a ir buscar
dinheiro àquela Europa que nos diz que vivemos acima das nossas possibilidades.
Chama-lhe "medida de promoção da igualdade de género". Sê-lo-ia,
realmente, se a ideia fosse penalizar, com multas ou pela forma que fosse, qualquer
– e não apenas a de género – das discriminações que a nossa Lei fundamental proíbe.
Subsidiando quem o faz, o nº
2 do art. 13º da CRP começa a ficar com a seguinte redacção: "Quem
privilegiar, beneficiar, prejudicar, privar de qualquer direito ou isentar de
qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de
origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação
económica , condição social ou orientação sexual tem direito a prémio". Incentivo à discriminação de género. Curiosa forma de combater uma discriminação. Se
incentivar ainda for o contrário de punir, estamos prestes a presenciar mais um
enorme retrocesso. Claro, se retrocesso ainda for o oposto de progresso. Calar continua
a ser um contrário de reagir.
terça-feira, 28 de abril de 2015
Uma ciência exacta
Há sempre um oportunista à
espreita a tentar colar-se ao êxito alheio mesmo quando o que defende o autor
do sucesso é completamente diferente daquilo que defende o oportunista que se
põe à boleia. Na política também é assim. E António Costa, já o sabíamos pelo
menos desde o dia em que os gregos disseram não àquela Europa cuja porta lhe põe
o nariz a pingar de medo de levar com um ralhete, é um destes artistas. Como
estes números mediáticos só produzem o efeito desejado se forem meticulosamente
preparados, ontem foi um dos que teve o cuidado de anunciar
previamente que iria encontrar-se com Thomas Piketty. A seguir apareceu ao
seu lado a
criticar a aposta na austeridade do modelo europeu que notoriamente excede
largamente o capital de coragem e de vontade política de que dispõe para lhe
responder em sede
própria. E a seguir Thomas Piketty deu uma entrevista onde, entre outras
ideias, voltou a defender a necessidade de combater o aumento dramático das
desigualdades que resulta de lucros que por esse mundo fora vêm crescendo a um
ritmo mais de três vezes superior ao da massa salarial, uma reforma fiscal que
inverta a sobrecarga crescente de impostos sobre rendimentos do trabalho que
vêm aliviando os que mais têm ao invés de sobrecarregá-los e, falando
especificamente sobre o caso português, que a dívida portuguesa terá que ser reestruturada
mais
cedo ou mais tarde. Ora, como sabemos, o PS não quer ouvir falar em reestruturar
a dívida, aprovou conjuntamente com o PSD e o CDS uma redução de impostos sobre
lucros que beneficia sobretudo as grandes empresas e obriga a sobrecarregar ainda
mais os rendimentos do trabalho, sempre esteve contra a tributação de grandes fortunas
e o máximo que está disposto a fazer pela
reposição do poder de compra do salário mínimo de miséria que congelou em 2010 é
a sua subsidiação com dinheiros que se propõe ir buscar às reformas futuras dos
portugueses e a impostos que fazem falta para inverter o desmantelamento de serviços
públicos e para financiar o investimento necessário para criar emprego. Embaraço? Nenhum. As contradições dissipam-se invariavelmente com uma acusação qualquer disparada para
o ar de dedo apontado ao PSD e ao CDS, que responderão com a sua. Há truques que resultam sempre. Até prova em contrário,
a alternância é uma ciência exacta.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Gostei de ler: "O amigo dos nossos chefes é um terrorista"
«Abdelhadim Belhadj foi
identificado pela Interpol como um dos líderes do exército
do Estado Islâmico, que tem semeado
o terror na Síria e no norte de África. Não se surpreenda: como eu até há
dias, não sabe quem é este cavalheiro. Pois ei-lo na foto ao lado de McCain, o
senador republicano que foi candidato à islamic
statepresidência dos Estados Unidos (e de dois outros senadores), a
trocarem prendas. Ou poderíamos vê-lo a ser recebido por Laurent Fabius,
ministro dos negócios estrangeiros de Hollande, em maio de 2014. Claro que isso
foi no tempo do reconhecimento. Agora, é um dos chefes do Estado Islâmico.
Abdelhakim Belhadj foi treinado
pelos homens de Saddam e chefiou o Grupo Islâmico Combatente da Líbia, opositor
de Kadafi, entre 1995 e 1998, tendo colaborado com os serviços secretos
britânicos durante esse período. Mas depois foi para o Afeganistão, apoiando
Bin Laden. Diz-se que foi um dos responsáveis do atentado de Madrid em 11 de
Março de 2004. Seria preso na Malásia, onde foi interrogado
pela CIA e pelos seus antigos patrões. Mas foi libertado em 2010,
instalando-se no Qatar, até à queda de Kadafi.
As forças da Nato, que foram
decisivas nos meses de guerra e de desagregação do regime líbio, nomearam então
Abdelkhadim Belhadj governador
militar da capital, Tripoli, apresentando-lhe
desculpas pelo interrogatório e prisão pela CIA e pelo MI6. Não demorou muito
nesta função (mas veja a entrevista
na Euronews), porque criou um partido e deslocou-se para a Síria, fundando o
Exército Sírio da Liberdade, que recebeu o apoio militar e político dos países
ocidentais, na guerra contra o regime dos Assad.
A Interpol identifica-o agora
como o chefe do grupo que mais teme: Belhadj terá criado campos de treino do
Estado Islâmico em Derna, Sirte e Sebrata, na Líbia, e criado um grupo na
Tunísia, em Djerba.
Quando se perguntar o que faz a
Europa perante o genocídio do Mediterrâneo e as mortes de quem foge da guerra,
lembre-se desta história e da sua moral: um dos amigos dos mais respeitáveis
líderes mundiais é um dos chefes do terror. É dele e dessa cultura de morte que
os emigrantes fogem. Vão encontrar, do lado de cá, muitos dos amigos e
ex-patrões desse chefe do terror e de outros como ele. E são estes amigos e
ex-patrões que vão colocar navios de guerra no Mediterrâneo para não deixarem
passar as balsas de emigrantes.» – Francisco Louçã, no TME.
Vagamente
relacionado: «(...) O que Edward Snowden revelou ao mundo foi apenas a ponta de
um icebergue cujos volume e profundidade crescem sem parar. Sabia-se que a
National Security Agency (Agência Nacional de Segurança) dos Estados Unidos da
América é unha com carne com a sua gémea britânica GCHQ. A imprensa e o
Parlamento alemão vêm agora demonstrar que a intimidade é extensiva aos
serviços de espionagem da Alemanha, o BND, Gabinete de Defesa da Constituição
(curioso nome este), que a seu belo prazer acode às encomendas de devassa feitas
pela NSA, ao que parece sem o conhecimento sequer dos órgãos de soberania do
país. A torrente de confidências escorre pelo menos desde 2002, tudo à sombra
de um manhoso “Memorando de Entendimento” antiterrorista, e só em Março passado
a Chancelaria da senhora Merkel teve conhecimento da trapaça (continuar a ler). – José Goulão.
sábado, 25 de abril de 2015
Eles andam aí
Não passam de uma tropa de cobardes. Cobardes perigosos, atenção. Agora não
foi ninguém. António Costa rejeita proposta para cobertura das campanhas
que PS apoiou. Luís Montenegro responsabiliza socialistas pelas ideias de
criação da comissão mista e do plano de cobertura da campanha. Paulo Portas diz
"prezar muito" a liberdade de imprensa. Não, não se tratou de nenhummal entendido. Estão prestes a conseguir despachar o Serviço Nacional de Saúde
e a Escola Pública que soubemos construir em democracia e já conseguiram pulverizar
quase completamente os direitos laborais e sociais conquistados em 1974.
Liberdade de imprensa, liberdade de expressão, liberdade de associação,
Constituição da República Portuguesa, lei eleitoral, se os deixarmos à vontade,
ao mínimo deslize, o ajuste de contas com o 25 de Abril que PSD, PS e CDS vêm
consumando nada poupará. Desta vez correu-lhes mal. E o alerta que esta
tentativa fracassada deixa atrás de si é o contributo que estes três partidos
estariam menos interessados em dar para encher de sentido as comemorações do 25
de Abril deste ano: a democracia é um edifício inacabado que tanto pode crescer
como pode sumir-se nas mãos de uns quantos, dependendo da qualidade e da
vontade dos cidadãos que a cuidem ou que a desbaratem. O 25 de Abril custou
demasiadas vidas e quase meio século de obscurantismo para que agora o deixemos
desaparecer nas mãos de uma tropa de anões. Eles vão continuar a tentar.
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Arco da austeridade: o consenso do 24 de Abril
O Eurogrupo, a teia da dívida, a
democracia por ela aprisionada e a corte dos aranhiços. Por estes
dias, vamos assistindo a uma Europa das austeridades que faz como a aranha
sem pressa que sabe que tem o tempo a jogar a seu favor e, sim ou sim, acabará
por comer a borboleta grega que, imposição após imposição, cedência após
cedência, se vai debatendo na sua teia de exigências com o tempo a dizer-lhe
que a aranha irá abocanhá-la exemplarmente para que mais nenhuma borboleta
tenha o arrojo democrático de querer voar. Por cá, vamos observando como a nossa corte de
aranhiços trabalha para o mesmo objectivo. As páginas do El Pais de hoje
contam-nos como PSD, PS e CDS chegaram facilmente a um consenso sobre o que
fazer às asas da borboleta portuguesa. Por hora, a censura prévia é o acordo
possível. Os círculos uninominais e a redução do número de deputados é consenso
a alcançar depois das eleições.
[El Pais] «Portugal
celebra os 40 anos de liberdade de expressão mas parece que não comemorará os
41. Pela calada da noite, à traição, com uma rapidez desconhecida neste país, os
três partidos maioritários, os governantes PSD e CDS, e o principal partido da
oposição, o Partido Socialista, puseram-se de acordo num projecto de lei que
pretende estabelecer o controlo prévio dos meios de comunicação na próxima
campanha eleitoral.
O texto
da proposta legislativa, que foi enviado aos restantes partidos com
representação parlamentar Partido Comunista e Bloco de Esquerda, obriga a que
cada órgão de comunicação, público ou privado, apresente um plano de cobertura
das eleições antes do período eleitoral,
plano esse que será controlado por uma comissão mista formada por personalidades
designadas pelos partidos políticos. O seu incumprimento acarretará multas
e sanções de até 50.000 euros, entre outras ameaças.
O
oficialmente designado "visto prévio”, ou seja, a censura prévia, abrange
qualquer conteúdo, sejam noticias, reportagens, entrevistas ou debates, e abarca
todos os tipos de órgãos de comunicação social: escritos, radiofónicos,
televisivos, analógicos e digitais; pela primeira vez, as páginas de internet vão
ter que enviar os seus planos de cobertura eleitoral ao poder político.
Estas regras não abrangem apenas os 15 dias de campanha eleitoral, entrarão em vigor após a
oficialização das candidaturas; Ou seja, haverá mais de um mês de controlo
prévio de opiniões, entrevistas e debates ou reportagens que se queiram realizar.
O actual texto chega ao extremo de detalhar que as opiniões não podem "exceder
o espaço que é dedicado à notícia ou reportagem". Também diz que o órgão
ou jornalista não poderá criticar sempre o mesmo partido.» (texto original na
íntegra está disponível aqui)
quarta-feira, 22 de abril de 2015
O Costa porta-se "bem"
Mau demais para ser de esquerda é
o mínimo que se pode dizer daquela espécie de cenário
macroeconómico que o PS ontem apresentou. E mau demais para ser digno de
confiança é o mínimo que se pode dizer de um líder partidário que apresenta
publicamente um documento para, acto contínuo, dele se distanciar. Quem sabe se
não foi vergonha. António Costa sabe que imediatamente se percebe de onde é que
vem o sustento da sua aposta no consumo, estamos de acordo, necessário para
impulsionar o crescimento económico e a criação de emprego. Vem das reformas
futuras dos portugueses e de aumentos ainda mais rápidos da idade mínima para a
aposentação, não de qualquer coisita que se aventurasse a retirar aos que
enriqueceram como nunca nestes últimos anos e que quisesse devolver aos que empobreceram
para os enriquecer. Pelo contrário, na amálgama ontem apresentada encontramos,
entre outras, a mesma redução da TSU proposta pelo actual Governo, a
subsidiação da manutenção do salário mínimo de miséria que o PS congelou em
2010 e ainda mais flexibilização laboral, não tivesse a coisa sido encomendada
a uma equipa liderada por alguém como o ultraliberal Mário Centeno, autor de
propostas como o “contrato único” da precariedade
máxima para todos. Mas António Costa sente-se acossado por sondagens que
colocam o PS no mesmo desconforto que gerou o descontentamento que depôs
António José Seguro e vê-se obrigado a, sem nunca dizer que vai fazê-lo, acenar
com a possibilidade de a sobretaxa de IRS e os cortes salariais na função
pública poderem vir a ser suprimidos em metade do tempo proposto por PSD e CDS.
Uma das poucas certezas deixadas ontem é a de que acabar com o roubo que o
Tribunal Constitucional deixará de tolerar a partir de 2016 é uma ideia
demasiado radical para este PS de Costa. A senhora Merkel pode ficar descansada.
A reposição de salários e da sobretaxa que trata ricos e pobres em pé de
igualdade também não serão motivos para lhe dar com a porta no nariz em Bruxelas. O Costa
porta-se "bem".
Vagamente relacionado: “(…)Será que podemos fazer o que ainda não foi
feito? Certamente, mas não do modo que o Governo e o PS prometem. Não num país
com uma das maiores dívidas externas do mundo e com uma dívida pública que
consome ao orçamento 9 mil milhões de euros anuais. Uma reestruturação, essa
sim inteligente, da dívida permitiria aliviar a restrição orçamental não só
para repor salários e pensões, mas para recuperar a administração pública da
sangria de trabalhadores a que tem sido sujeita, estimular o investimento público
e privado e criar emprego. A reestruturação permitiria respirar e crescer e até
garantir um orçamento suficiente (isto é, não dependente do financiamento
externo). Mas para isso era preciso um governo que não se limitasse a ir a
Bruxelas, como o Governo tem feito e como o PS agora parece querer fazer, de
braços caídos, conformado com o que parece ser uma armadilha de betão.” (José
M. Castro Caldas)
Ainda mais vagamente: "(...) Em linha com a especialidade do
PS desde a paradigmática reforma de 2007 - o corte de pensões futuras,
promovendo os mercados financeiros -, a descida da TSU para os trabalhadores é
paga pelos próprios, já que o PS propõe um alívio temporário compensado por
cortes nas pensões futuras. De forma reveladora, o PS embrulha este aumento
míope do rendimento na retórica da "liberdade de escolha", com impactos
mais do que duvidosos na dinamização do mercado interno. A redução da TSU paga
pelas empresas, por sua vez, é a grande vitória de Passos, já que o PS
reconhece implicitamente as virtudes do incentivo da desvalorização interna.
Entretanto, o PS diz estar preocupado com a "sustentabilidade" da
segurança social. Reduzir as contribuições nunca ajuda. Ao mesmo tempo, dá para
o sempre revelador peditório demográfico, acenando no fundo com formas ditas
complementares, de mercado, para pensões cada vez mais inseguras. A "visão
de mercado" das relações laborais manifesta-se também na aposta numa
concreta liberalização furtiva dos despedimentos individuais, do género despeça
já e espere que o trabalhador proteste em tribunal muito depois, que hipocritamente
garante não aumentar o poder patronal. Em troca, oferece vagos acenos com a
limitação dos contratos a prazo rumo à distopia do contrato único. Sobre a
negociação colectiva pouco ou nada, ou seja, o mesmo dos últimos anos. O
diagnóstico para esta prescrição é retintamente neoliberal, colocando
trabalhadores contra trabalhadores em nome de uma suposta segmentação que é o
alfa e ómega da desigualdade neste campo para Mário Centeno e para o PS (e não
a real e cada vez mais profunda assimetria entre trabalhadores e patrões).
(...)" (João
Rodrigues)
Um pouco mais ainda: “(…)Os funcionários públicos esperavam as 35 horas? Nada. Esperavam a devolução dos dias de férias? Nada. Esperavam a restituição do valor do salário? As decisões do Tribunal Constitucional não são cumpridas, o PS limita-se a propor uma restituição em dois anos, ao contrário dos quatro do PSD e CDS. Os desempregados esperavam a reconstituição das indemnizações por despedimento ou dos valores dos subsídios de desemprego? Não pense nisso. Os trabalhadores esperavam os feriados de volta? Nada. Os reformados esperavam o seu nível de pensão reposto? A decisão do Tribunal Constitucional não é cumprida, esperem dois anos. Os cidadãos esperavam a rejeição da privatização da TAP? Nada, até são prometidas mais privatizações, embora o PS se tenha dispensado de nos dizer quais. )…)” (Francisco Louçã)
E nada a ver com: "(...) Em suma, governo e PS estão a alimentar uma fantasia: ou a austeridade terá de ser reforçada para que se cumpram as metas orçamentais, o que implica que o crescimento será inferior ao que nos prometem ou o próximo governo procurará evitar que a política orçamental constitua um entrave à recuperação da economia e do emprego, mas para isso terá de abdicar de cumprir o Tratado Orçamental. Assim, seria bom que PSD, CDS e PS respondessem com clareza a uma questão: se após as eleições tiverem de escolher entre a criação de emprego e o cumprimento do Tratado Orçamental, como tudo indica que acontecerá, qual será a vossa escolha?" (Ricardo Paes Mamede)
Um pouco mais ainda: “(…)Os funcionários públicos esperavam as 35 horas? Nada. Esperavam a devolução dos dias de férias? Nada. Esperavam a restituição do valor do salário? As decisões do Tribunal Constitucional não são cumpridas, o PS limita-se a propor uma restituição em dois anos, ao contrário dos quatro do PSD e CDS. Os desempregados esperavam a reconstituição das indemnizações por despedimento ou dos valores dos subsídios de desemprego? Não pense nisso. Os trabalhadores esperavam os feriados de volta? Nada. Os reformados esperavam o seu nível de pensão reposto? A decisão do Tribunal Constitucional não é cumprida, esperem dois anos. Os cidadãos esperavam a rejeição da privatização da TAP? Nada, até são prometidas mais privatizações, embora o PS se tenha dispensado de nos dizer quais. )…)” (Francisco Louçã)
E nada a ver com: "(...) Em suma, governo e PS estão a alimentar uma fantasia: ou a austeridade terá de ser reforçada para que se cumpram as metas orçamentais, o que implica que o crescimento será inferior ao que nos prometem ou o próximo governo procurará evitar que a política orçamental constitua um entrave à recuperação da economia e do emprego, mas para isso terá de abdicar de cumprir o Tratado Orçamental. Assim, seria bom que PSD, CDS e PS respondessem com clareza a uma questão: se após as eleições tiverem de escolher entre a criação de emprego e o cumprimento do Tratado Orçamental, como tudo indica que acontecerá, qual será a vossa escolha?" (Ricardo Paes Mamede)
terça-feira, 21 de abril de 2015
Mediterrâneo: A inconsciência segue dentro de momentos
Nós e as nossas escolhas
colectivas. Mais ou menos esclarecidamente, mais ou menos instintivamente, umas
vezes escolhemos por acção, outras fazemo-lo por omissão. A forma como
reagimos, e não reagir traduz também uma escolha, tem sempre consequências. O nosso
quotidiano é função destas escolhas. E, de tempos a tempos, somos confrontados
com o que delas resulta. Por estes dias, confrontamo-nos com o resultado da
divisão internacional da riqueza, com a qual nós, europeus, convivemos como se
fizesse parte da paisagem, e com o resultado das guerras semeadas por essa
organização de benfeitores do mundo que dá pelo nome de NATO, à qual a grande
maioria dos ocidentais faz todo o gosto em pertencer. Fizemos
do Mediterrâneo um imenso cemitério, há muito que sabemos que o Mediterrâneo é
um imenso cemitério, mas calhou que, de uma só vez, nos últimos dias o número
de mortos excedesse
largamente aquele que a nossa indiferença colectiva consegue acomodar. E a
reacção que o número gerou obrigou o directório europeu a tomar medidas. O
directório conhece-nos o suficiente para saber que o que chocou os europeus não
foram as causas da tragédia, entre elas aquelas que atrás referi, foi a
dimensão de dois naufrágios e foram as imagens de horror que nos invadiram a
sala lá de casa. Por isso, as medidas que anunciaram prontamente, dez, nem
nove, nem onze, eles sabem que dez tem outro impacto, apenas servirão para nos
ajudarem a esquecer as tragédias destes últimos dias e para nos devolverem à inconsciência que na semana passada ignorava que o Mediterrâneo há muito que é um
cemitério gigante. Um par de semanas será suficiente para voltarmos a ser o que
temos sido, com os do Norte a exigirem mão de ferro para com os preguiçosos do
Sul, os trabalhadores do privado a apontarem os privilégios dos do público, os jovens
a cobiçarem as pensões de reforma dos velhos, o roto a disputar a migalha do descosido.
De tempos a tempos, somos confrontados com o resultado das nossas escolhas colectivas.
Quando o inferno do lado de cá for em tudo igual ao do lado de lá, ninguém arriscará
a vida numa travessia para ficar na mesma. Decidimos enterrar a solidariedade que
nos fazia fortes. Seremos nós, cidadãos europeus, a encerrar o cemitério do Mediterrâneo.
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Marcelo, o favorito
Há muita gente que segue religiosamente os
comentários semanais de Marcelo Rebelo de Sousa aos Domingos à noite na TVI. Há
muita gente que, por não conhecer outras opiniões que não têm o mesmo direito a
tempo de antena, colocam Marcelo nos píncaros da honestidade, isenção, até
mesmo verdade, critério estranho tratando-se de opinião. E há muita gente que
está disposta a ajudar a transformar a eleição do próximo Presidente da
República na consagração do seu comentador de eleição. Na eucaristia de ontem,
Marcelo comentou a greve convocada por dez dias pelos pilotos da TAP. Está
contra. Sou dos muitos que já sabiam que estaria contra mesmo antes de o ouvir
dizê-lo. Marcelo pertence àquela casta de ideologicamente “neutros” que, embora
– dizem eles – respeitem o direito à greve, por ser à Sexta, por ser à Segunda,
por haver muitos desempregados que dariam tudo para ter um emprego ou por haver
muitos mortos que dariam o seu caixão e mais um par de lápides para voltarem à
vida, para eles as greves nunca têm razão de ser. A ordem natural do mundo
destes “neutros” é os grandes enriquecerem oprimindo e os pequenos empobrecerem
a deixar-se oprimir. Não admira, pois, que as razões que apontou para estar
contra esta greve o retratem tão bem. Alguém que respeita o direito à greve,
qualquer comentador de trazer por casa, um putativo candidato à Presidência da
República tem a obrigação de saber que se convocam greves para reclamar
aumentos salariais, melhores condições de trabalho, para se defender a empresa onde
se trabalha ou até o interesse nacional. Nunca, como esta greve absurda, e
absurda precisamente por isto, como arma usada ilegitimamente por uma classe que
exige a sua parte dos despojos de mais um assalto ao património público e dizer ao país que pode ser mais um negócio ruinoso para todos desde que para eles o não seja e os
faça patrões. Marcelo podia tê-lo dito. Não disse. Contornou o uso abusivo do
direito à greve resumindo a questão aos
prejuízos causados a um negócio que será sempre péssimo e às eventuais
retaliações que os pilotos possam sofrer no caso da TAP vir a ser reestruturada.
O comentador isento vendeu como inevitável um negócio a evitar. O candidato a PR
que fará esquecer Cavaco não vê prejuízos para o interesse nacional para além daqueles
que venham a ser causados pela greve. Mas Marcelo há só um. No monopólio da opinião
não há lugar para mais nenhum. As pessoas gostam. E no Domingo há mais.
sábado, 18 de abril de 2015
Homenagem aos vivos
Há pouco, chegou até mim uma das
muitas histórias do género que se vivem por estes dias por esse país fora. Uma
mãe contava-me a sua boa e a sua má notícia da semana. A boa, que a filha tinha
conseguido entrar em mestrado. A má, que a mesma filha, bolseira de
licenciatura, não tinha dinheiro para a
primeira propina, a qual pelos vistos, apesar dos protestos, lhe foi exigida
imediatamente juntamente com a garantia de lhe ser devolvida na eventualidade da
bolsa lhe ser atribuída. São 200 e tal euros mensais, mais do que sobra do ordenado
da mãe depois de pagas a renda de casa, água, luz e outros luxos do mesmo
género, também mais do que a miúda recebe pelas quatro horas diárias que faz na
caixa de um supermercado para ter dinheiro para as deslocações, alimentação, fotocópias
,– e livros são extravagância que está acima de qualquer possibilidade, e restante
material escolar que a mãe não pode comparticipar. Veio à conversa Bolonha, que antes as
licenciaturas eram de cinco anos, que as encurtaram para três, que passaram a
chamar "mestrado" aos restantes dois e que quem quer obter formação
equivalente às antigas licenciaturas de cinco anos passou a ter que pagar estes
dois últimos a preço de "mestrado", muito superior ao da propina
dos três primeiros anos, e com apoio social escolar ainda mais racionado e ainda
mais miserável do que aquele a que têm direito os alunos de licenciatura. E
vieram à conversa os agradecimentos dos ultra da claque rosa ao prisioneiro 44,
Primeiro-ministro do Governo que implementou o Processo de Bolonha, e as
homenagens que mereceu o grande homem da Ciência – digo-o sem qualquer ironia –
que o primeiro escolheu para executar Bolonha na qualidade de titular da pasta
da Ciência e Ensino Superior. Estas linhas são a minha homenagem àquela mãe, àquela
filha e a todos os meus compatriotas que, sem se fazerem notar, lutam diariamente contra as
dificuldades do inferno que todos vamos herdando daqueles que sempre têm lugar cativo
no paraíso dos grandes homens disto e daquilo. Alguns
conseguem vencê-las. Muitos, cada vez mais, ficam pelo caminho. Todos eles são os meus grandes
homens e as minhas grandes mulheres.
sexta-feira, 17 de abril de 2015
Da longa série "não há-de ser nada"
Foram mais de dois anos a
alimentar guerras entre trabalhadores do privado e trabalhadores do público, a
espicaçar invejas entre quem recebe salários de miséria e prestações sociais de
miséria, a diabolizar quem luta pelos seus direitos e a elogiar quem deles
abdica de cara alegre. O Governo sente que conseguiu dividir um povo hoje incapaz
de se reorganizar para repetir o protesto
que o obrigou a recuar no seu objectivo de transferir para quem trabalha os
descontos para a Segurança Social que quis aliviar a quem emprega e volta à
carga com a redução da TSU. Em ano de eleições, agora diz que irá reduzi-la aos
patrões sem aumentá-la aos trabalhadores e, magia, sem comprometer a
sustentabilidade da Segurança Social, o argumento que utilizou constantemente
ao longo dos últimos quatro anos para confiscar pensões de reforma, reduzir
subsídios de desemprego, abonos de família e rendimento social de inserção e, num
contexto de desemprego jovem na casa dos 40%, obrigar velhos a prolongarem a
sua vida activa aumentando a idade mínima para se ter o direito a poder ceder o
posto de trabalho a um jovem sem sofrer qualquer penalização. Ao mesmo tempo, o
Governo reanuncia, como se fosse a primeira vez que o faz, para vigorarem num
tempo que já não será o seu, uma redução gradual da sobretaxa de IRS e a reversão,
também gradual, dos cortes salariais na função pública. O rebuçadinho há-de apaziguar
os poucos que reparem que a redução da TSU não será gradual e os ainda menos que
antecipem que tal redução implicará que a idade mínima para a aposentação a partir
de agora aumentará ainda mais rapidamente. Vamos todos trabalhar até aos 80, alguns
de nós conhecerão o desemprego aos 70, mas não faz mal. O número de milionários
também vai continuar a aumentar. E nós somos o melhor povo do mundo,
compreendemos tudo menos como é que o sacana do vizinho consegue comer carne todos
os dias e ainda ter a lata de meter toda a família no carro novo para irem tirar
uns dias de férias ao sol. Isso é que não.
Gostei de ler: "Uma Sexta-feira, à hora do telejornal da noite"
«Com a saída da Grécia da zona
euro à vista, o debate sobre quem será o seguinte é inevitável. Mais tarde ou
mais cedo, a nossa saída acabará por ocorrer. Para que tal aconteça, o povo
português e algumas elites políticas da esquerda ainda têm de fazer a aprendizagem
que a liderança do Syriza fez nos últimos dois meses: perder a ilusão de que a
UE pode ser resgatada ao ordoliberalismo germânico.
Só com um governo apoiado
maioritariamente no parlamento, e eleito com um programa que explicitamente
considere a saída do euro como o caminho para a saída da crise, Portugal tem
condições para tomar em mãos o seu destino. Sendo impraticável um referendo –
criaria o caos no sistema financeiro através da fuga dos depósitos, como está à
vista na Grécia –, uma das primeiras medidas do novo governo seria a introdução
de um forte controlo dos movimentos de capitais, com supervisão apertada de um
BdP com nova direcção. Para tanto, deverá obter previamente algum apoio técnico
na Islândia, Chipre ou outro país com experiência prática nesse domínio. Quanto
à execução das novas notas e moedas, a capacidade técnica para fazer a
reconversão do fabrico de euros para novos escudos está disponível e deverá
iniciar-se de imediato.
Assim, após algumas semanas de
negociação dos detalhes em Bruxelas, numa sexta-feira, à hora do telejornal da
noite, invocando o estado de emergência em que o país se encontra, o
primeiro-ministro falará à nação para dizer aos portugueses que chegou a hora
de recuperarmos a dignidade e a soberania. Avisará que a saída do euro implica
custos transitórios, suportáveis, que terão de ser pagos sobretudo pelos que
mais têm. A saída deve ser apresentada como condição necessária, mas não
suficiente, para que o país tenha futuro. Nesse discurso, o primeiro-ministro
mobilizará os cidadãos para uma estratégia de desenvolvimento, acompanhada de
transformações institucionais que revitalizem a democracia portuguesa e
concretizem os valores do preâmbulo da Constituição da República.
Mais ainda, informará o país de
que nessa noite será aprovada e promulgada a legislação que institui o
"novo escudo". Por isso, os contratos realizados sob legislação
nacional passam automaticamente à nova moeda, o que inclui salários e pensões,
depósitos, créditos bancários e a dívida pública e privada detida por não
residentes que cumpra essa condição. A dívida pública às entidades da troika,
contraída ao abrigo de legislação estrangeira, manter-se-á em euros e será
renegociada criteriosamente. O país será informado de que estão garantidos empréstimos
externos que cobrem as necessidades imediatas de divisas, mas será prevenido
para a necessidade de um racionamento na importação de bens e serviços
supérfluos. Anunciar-se-ão também dois dias de encerramento dos bancos para que
procedam aos acertos informáticos exigidos pela mudança de moeda. Os que, neste
processo, ficarem insolventes serão nacionalizados, pelo menos até que se
proceda a uma grande reestruturação do sistema financeiro para o colocar ao
serviço da economia.
O principal custo a suportar nos
primeiros dois anos será a inflação. Para um conteúdo médio de 25% de
importações no consumo das famílias, uma desvalorização de cerca de 30% da nova
moeda poderá gerar uma inflação à volta dos 10%, numa estimativa grosseira. O
governo anunciará a reposição nos salários públicos e pensões dos níveis
anteriores à crise, a financiar pelo Banco de Portugal (BdP), e promoverá
acordos de concertação social sobre rendimentos e preços no sector privado.
Finalmente, o primeiro-ministro
anunciará um plano de criação de empregos socialmente úteis, com salários
previamente fixados, a financiar por crédito do BdP e pela redução de despesas
com subsídios de desemprego. As autarquias, em cooperação com instituições
privadas, serão envolvidas no levantamento das necessidades a satisfazer. O
governo assumirá um compromisso com o objectivo do pleno emprego para o país.
Caro leitor, se não gosta deste
cenário, pode começar a imaginar um outro em que Portugal aceita
tornar-se uma província pobre de uma Europa que a Alemanha, após duas derrotas
trágicas, acabou por conquistar sem disparar um tiro.» – Jorge Bateira, no
I.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
O programa SUGA
Um engenheiro mecânico que aceite
a oferta para a zona de Anadia publicada no site do Instituto de Emprego e
Formação Profissional (IEFP) no âmbito do programa Estímulo Emprego, que
financia empresas para contratar desempregados, irá
ganhar 515 euros mensais ilíquidos. Mas se esta oferta para um licenciado
em engenharia ainda está dez euros acima do salário mínimo, as ofertas para
professores do ensino básico, secundário e profissional não vão além dos 505
euros, que é o máximo que as sanguessugas que querem receber este apoio do estado
estão dispostos a pagar. Os nossos impostos andam a servir para subsidiar a
exploração do trabalho. Andamos a trabalhar para enriquecer parasitas.
Vagamente relacionado: «De que forma é que uma economia
semi-periférica, inserida num espaço cambial e monetário em que a generalidade
dos restantes membros têm estruturas produtivas mais sofisticadas, poderá
evitar acumular desequilíbrios externos cada vez maiores e, desejavelmente,
tornar a sua própria estrutura produtiva mais complexa e sofisticada ao longo
do tempo?
Acrescento três notas para melhor ilustrar o problema assim formulado. Primeiro, a evidência empírica do carácter semi-periférico da economia portuguesa, particularmente quando comparado com os restantes membros da zona Euro. De entre os vários exercícios comparativos de caracterização da sofisticação e complexidade das estruturas produtivas disponíveis, olhemos, por exemplo, para o ranking elaborado pelo Observatório da Complexidade Económica do MIT , que em 2012 (último ano disponível) colocava Portugal na 37ª posição - ao mesmo tempo que colocava todos os restantes membros da zona Euro, com excepção da Grécia (44º), em posições mais elevadas, no sentido de que as suas exportações são constituídas por produtos mais complexos, mais diferenciados e mais capazes de enfrentarem com sucesso a concorrência internacional.
Em segundo lugar, porque é que isto importa. Importa, obviamente, porque este é um indicador fundamental da robustez e profundidade do desenvolvimento económico. Mas importa também, no contexto específico da zona Euro, porque, como mostraram Felipe e Kumar num artigo de leitura obrigatória , a forma como a crise da zona Euro afectou de formas diferenciadas - na verdade, simétricas - os diferentes membros da zona Euro remonta, em última instância, às estruturas produtivas desses mesmos Estados membros na situação de partida. Portugal, Espanha, Grécia, Chipre têm os mais graves problemas de dívida pública porque têm os mais graves problemas de dívida externa - e acumularam os mais graves problemas de dívida externa porque aderiram a um espaço monetário e cambial comum tendo as estruturas produtivas mais frágeis de entre todos os participantes no grupo. Neste contexto, "centro" e "periferia" não são conceitos meramente geográficos - referem-se à sofisticação e robustez das estruturas produtivas.
E a terceira nota é de preocupação relativamente à forma como, a este nível, continuamos a cavar o buraco do nosso próprio subdesenvolvimento. Ignorando, ou fingindo ignorar, tudo o que se sabe sobre como promover a sofisticação incremental das estruturas produtivas - por outras palavras, o desenvolvimento económico -, o governo português (e não só) continua insistentemente a apostar na redução dos custos, particularmente do trabalho, como o alfa e o ómega da sua estratégia de promoção da competitividade. Não por acaso, esta é (do seu ponto de vista) uma estratégia funcional ao nível da partilha do bolo, da luta de classes interna, pois permite desequilibrar a distribuição funcional do rendimento em favor do capital e em detrimento do trabalho. Mas como estratégia de desenvolvimento é, mais do que insuficiente, disfuncional - e nesse sentido é a prazo um tiro no pé das próprias elites nacionais. Veja-se por onde anda o investimento, que nem chega a ser suficiente para repor a capacidade produtiva que vai obsolescendo. Veja-se como nos últimos anos o nível de intensidade tecnológica das exportações portuguesas se tem reduzido a olhos vistos . O desenvolvimento económico é um processo dinâmico e incremental, assente na aprendizagem colectiva e na diversificação dos processos produtivos no sentido da complexidade e da sofisticação crescentes - não é um processo de embaratecimento do trabalho e de esvaziamento da coordenação pública.
Decididamente, perdoe-se a arrogância, mas percebem muito pouco de economia .» – Alexandre Abreu.
Acrescento três notas para melhor ilustrar o problema assim formulado. Primeiro, a evidência empírica do carácter semi-periférico da economia portuguesa, particularmente quando comparado com os restantes membros da zona Euro. De entre os vários exercícios comparativos de caracterização da sofisticação e complexidade das estruturas produtivas disponíveis, olhemos, por exemplo, para o ranking elaborado pelo Observatório da Complexidade Económica do MIT , que em 2012 (último ano disponível) colocava Portugal na 37ª posição - ao mesmo tempo que colocava todos os restantes membros da zona Euro, com excepção da Grécia (44º), em posições mais elevadas, no sentido de que as suas exportações são constituídas por produtos mais complexos, mais diferenciados e mais capazes de enfrentarem com sucesso a concorrência internacional.
Em segundo lugar, porque é que isto importa. Importa, obviamente, porque este é um indicador fundamental da robustez e profundidade do desenvolvimento económico. Mas importa também, no contexto específico da zona Euro, porque, como mostraram Felipe e Kumar num artigo de leitura obrigatória , a forma como a crise da zona Euro afectou de formas diferenciadas - na verdade, simétricas - os diferentes membros da zona Euro remonta, em última instância, às estruturas produtivas desses mesmos Estados membros na situação de partida. Portugal, Espanha, Grécia, Chipre têm os mais graves problemas de dívida pública porque têm os mais graves problemas de dívida externa - e acumularam os mais graves problemas de dívida externa porque aderiram a um espaço monetário e cambial comum tendo as estruturas produtivas mais frágeis de entre todos os participantes no grupo. Neste contexto, "centro" e "periferia" não são conceitos meramente geográficos - referem-se à sofisticação e robustez das estruturas produtivas.
E a terceira nota é de preocupação relativamente à forma como, a este nível, continuamos a cavar o buraco do nosso próprio subdesenvolvimento. Ignorando, ou fingindo ignorar, tudo o que se sabe sobre como promover a sofisticação incremental das estruturas produtivas - por outras palavras, o desenvolvimento económico -, o governo português (e não só) continua insistentemente a apostar na redução dos custos, particularmente do trabalho, como o alfa e o ómega da sua estratégia de promoção da competitividade. Não por acaso, esta é (do seu ponto de vista) uma estratégia funcional ao nível da partilha do bolo, da luta de classes interna, pois permite desequilibrar a distribuição funcional do rendimento em favor do capital e em detrimento do trabalho. Mas como estratégia de desenvolvimento é, mais do que insuficiente, disfuncional - e nesse sentido é a prazo um tiro no pé das próprias elites nacionais. Veja-se por onde anda o investimento, que nem chega a ser suficiente para repor a capacidade produtiva que vai obsolescendo. Veja-se como nos últimos anos o nível de intensidade tecnológica das exportações portuguesas se tem reduzido a olhos vistos . O desenvolvimento económico é um processo dinâmico e incremental, assente na aprendizagem colectiva e na diversificação dos processos produtivos no sentido da complexidade e da sofisticação crescentes - não é um processo de embaratecimento do trabalho e de esvaziamento da coordenação pública.
Decididamente, perdoe-se a arrogância, mas percebem muito pouco de economia .» – Alexandre Abreu.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Os cães ladram e a caravana passa
As ligações entre os cargos
políticos e a banca são um dos problemas de Portugal apontados pela ONG
Transparency Internacional no seu mais recente estudo Lobbying
in Europe. Desde o 25 de Abril, mais de metade – 54% – de todos os membros
do Governo trabalharam no sector financeiro. E dos últimos 19 ministros das
Finanças, quase três quartos – 14 – fizeram carreira neste sector ou em
instituições financeiras. Este último dado tem o seu quê de curioso: 14 em 19 são
73,68%. E 73,68% está numa vizinhança muito próxima dos 73,4% de intenções de voto
nos três partidos que já integraram Governos da última sondagem da Aximage.
Temos, portanto, as organizações internacionais a alertarem os portugueses para
a captura dos seus três partidos preferidos por interesses económicos opacos e os
portugueses a responderem às organizações internacionais que isto é mesmo assim.
E que ai de nós se não fosse.
Vagamente relacionado: Dos 230
deputados à Assembleia da República, 117 estão em regime de part-time,
acumulando as funções parlamentares com outras actividades profissionais no sector
privado. Todos eles pertencem ou ao PSD, ou ao PS ou ao CDS. Advogados,
juristas, médicos, engenheiros, consultores, empresários, etc. Em diversos casos,
prestando serviços remunerados a empresas que operam em sectores de actividade
fiscalizados por comissões parlamentares que os mesmos deputados integram. Ao
que se acrescem as ligações a empresas (cargos de administração, participações
accionistas, serviços de consultoria, etc.) que beneficiam de iniciativas
legislativas, subsídios públicos ou contratos adjudicados por entidades
públicas visando a execução de obras, o fornecimento de produtos ou a prestação
de serviços. Conflitos de interesses? Dezenas de exemplos concretos são
apresentados nas páginas deste livro, “Os
privilegiados”, de Gustavo Sampaio. Dos corredores do poder político para
as salas de reunião dos conselhos de administração, e demais órgãos sociais,
das maiores empresas portuguesas, com ou sem período de nojo. Um fluxo recorrente
entre cargos públicos e privados. Das 20 empresas cotadas no índice PSI 20, por
exemplo, 16 contam com ex-políticos em cargos de administração. Por vezes são
ex-governantes que decidiram sobre matérias que implicam as empresas para as
quais vão depois trabalhar, ou até administrar.
terça-feira, 14 de abril de 2015
Fizemos os dias assim
O país estremeceu de terror com uma
reportagem que a TVI exibiu na noite de ontem. O trabalho da equipa de Ana Leal
mostrou que depois do caos nas urgências durante o pico da gripe, os principais
problemas que levaram ao congestionamento dos hospitais mantêm-se: há falta de
médicos e enfermeiros que chegam a acumular 300 horas a mais de trabalho. As
imagens recolhidas às escondidas durante um mês em 15 hospitais fazem lembrar
um cenário de quase terceiro mundo, com macas amontoadas pelos corredores
porque há enfermarias fechadas, doentes que esperam horas para serem observados
por um médico. Há hospitais onde chega a faltar papel, roupa, fraldas e
detergente para as mãos. Mas o Secretário de Estado Adjunto da Saúde, Fernando
Leal da Cunha, é da opinião que a reportagem demonstra que «os Serviços de
Urgência em Portugal funcionam muito
bem». É capaz de ter a sua razão. Ele sabe que na completa ausência de
reacção popular o Governo a que pertence pode, não apenas dizer, sobretudo ir fazendo
as barbaridades que lhe apetecer. A reportagem que mostra o que deixámos que
fizessem ao nosso Serviço Nacional de Saúde está disponível aqui.
Vagamente relacionado: "O Ministério da Saúde apropriou-se da ADSE,
que se tornou um verdadeiro saco azul, em cuja gestão tem óbvios conflitos de
interesse. Em 2014, a ADSE deu um lucro de 200 milhões de euros, que são dos
seus beneficiários, não do Ministério da Saúde! Mas o lucro para o MS é ainda
maior, pois os beneficiários, quando recorrem ao setor privado, estão a poupar
ao Serviço Nacional de Saúde os atos que aí não consomem. Além disso, os
beneficiários da ADSE pagam a saúde duas vezes, pois pagam as suas elevadas
contribuições para a ADSE, que dá lucro, e pagam os seus impostos para o SNS,
que pouco utilizam. Por isso, estão a sair da ADSE, que é opcional, a um ritmo contínuo,
o que pode pôr em causa a sustentabilidade da própria ADSE. A ADSE tem de ser
gerida pelos seus contribuintes, para poderem beneficiar dos respetivos lucros
e conseguirem muitos mais benefícios pelo mesmo valor da enorme taxa que pagam.
A Ordem dos Médicos considera que os beneficiários da ADSE devem organizar-se e
geri-la autonomamente." - José
Manuel Silva.
Lições gregas (continuação)
Poderá ser hoje, poderá ser
amanhã, o jogo do gato e do rato a que temos assistido entre a Europa das
austeridades e o Governo grego terminará a qualquer momento. O desfecho será
aquele que ficou escrito quando o jogo começou, em finais
de Fevereiro. Na altura escrevi que ambas as partes procurariam fazer a
corda partir, e a corda partiria sempre, no momento mais apropriado para os
propósitos de cada um. Alemães e alemãezinhos apostariam tudo em humilhar a
Grécia com exigências e caprichos cada vez maiores. Aconteceu. Conseguiram
mostrar aos europeus que esta Europa, longe de ser uma negociação permanente, é
uma imposição constante. O Governo grego seria obrigado a ceder em muitos
aspectos que comprometeriam os compromissos eleitorais assumidos e fariam
erodir a sua base eleitoral. As cedências aconteceram para demonstrar que nem
mesmo a austeridade “fofinha” que delas resultou pôs os Hollandes e os Costas
da Europa “socialista” a expressar o mais mínimo apoio ao Governo grego. Mas a
erosão da base eleitoral do Syriza não aconteceu. Pelo contrário, as sondagens dão-lhe
a maioria absoluta que antes não tinha. Se o que a Europa do directório pretendia era uma vacina que evitasse
contágios do efeito Syriza a países como Espanha e Portugal, com eleições marcadas
para o final deste ano, fracassou. Se o que o Governo grego pretendia ao tentar
de todas as formas possíveis e imaginárias honrar o compromisso eleitoral de tudo
fazer para manter a Grécia no euro era cimentar a sua credibilidade para poder antecipar
eleições e, agora sim, obter o mandato que não tinha para conduzir a saída do euro,
pelo menos a avaliar pelas sondagens, triunfou. E a confirmar-se este triunfo, será
um triunfo também para nós, portugueses. É o mesmo euro e é a mesma Europa que nos
condenam enegrecendo-nos o presente e roubando-nos
o futuro. Saibamos libertar-nos também.
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