«1. (...) Desde 2002 e o euro, os
decisores económicos que, no PS e na direita, têm sido recrutados nessa porta
giratória aberta entre aparelhos partidários e grupos empresariais, têm
concretizado o que os neoliberais definiram como a sua missão histórica
essencial: acabar com qualquer correcção (Estado de Bem-Estar Social,
redistribuição de riqueza através da educação, da saúde e da segurança social
públicas) da desigualdade em que se baseia o capitalismo e reinstaurar o
direito do mais forte (o patrão, o capital) à dominação económica.
As crises não são capítulos de
livros de História. Elas afectam a grande maioria de nós porque dependemos do
nosso trabalho e da dignidade com que o desempenhamos. Rouba-se-nos o emprego,
o salário, a reforma, a casa, a saúde, a educação. Ofende-se-nos porque se nos
atribui uma culpa que não é nossa; humilha-se-nos porque se nos ameaça com mais
pobreza se nos rebelamos, quer-se amedrontar-nos.
2. Num ano de eleições como este,
a grande maioria dos portugueses quer sair deste pesadelo, deseja a mudança.
Muitos deles estão tão descrentes da eficácia do voto e do funcionamento da
democracia que não votarão sequer. Mas não nos enganemos: a ruptura política em
Portugal não se fará por via da abstenção, ou do voto branco e nulo, como
aconteceu nos últimos actos eleitorais (em 2011, 6% nas presidenciais, 4% nas
legislativas). O sistema aguenta bem abstenções e votos brancos; eles não
alteram em nada o funcionamento do sistema político, nem reduzem a sua
legitimidade formal (ainda que o façam moral e politicamente). Sistemas
políticos como o norte-americano ou o suíço aguentam-se com muito menos
participação eleitoral que aquela que se pratica em Portugal.
Desde que a crise se instalou no
nosso país, os eleitores portugueses passaram a castigar mais duramente cada
governo na eleição seguinte do que o fizeram no passado. Até 2011 não deixaram
de usar os dois jogadores do rotativismo para o fazer: o PS contra o PSD, o PSD
contra o PS. Ao fim de quatro eleições desde 2002, verificam, mais rapidamente
que no passado, que não têm conseguido mudança alguma. Muda o condutor, mas o
trajecto é o mesmo.
A grande maioria de quem votar,
não se duvide, vai querer castigar a direita de Passos e Portas como já o fez,
por muito menos, em 2005. A grande diferença é que o velho instrumento que
usavam – o PS – parece-lhes ainda menos fiável do que antes. Já em 2011, ele
próprio foi castigado por ter começado a mesma austeridade que a direita logo
veio agravar. Só quem acredita que os portugueses escolherão simplesmente entre
o mau e o menos mau acredita que o PS de Costa ganhará o apoio deste oceano de
descontentes e vencerá confortavelmente as eleições. 2015 não é 2005, muito
menos os anos 80 ou 90.
3. A mudança social e política
ocorre quando se consegue não deixar secar a indignação e quando a revolta se
junta à disponibilidade para discutir soluções com quem coloca os mesmos
problemas que nós sentimos. É verdade que ela não se faz só (e muitos pensam
que nem sequer prioritariamente) pela via eleitoral. Mas as eleições são uma
componente importante da mudança. Nas próximas, não é o PS que fará a
diferença, justamente porque não quer inverter o caminho que empreendeu, pela
mão de Constâncio, Guterres ou Sócrates, há muitos anos. O PS, como a
social-democracia europeia, até se distingue da direita no debate sobre o
aborto ou o casamento homossexual (ainda que tenha discriminado mais ainda na
adopção) – mas não é de hoje que desistiu de defender o mínimo de democracia
social que tínhamos desde o 25 de Abril e se passou para o campo do liberalismo
económico, entendendo que a riqueza das nações é produzida pelos patrões e não
pelos trabalhadores.
É por isto mesmo que a mudança
também não virá daqueles que têm alimentado esta mentira de que o PS não dança
à esquerda porque não tem par disponível. Quem deixou voluntariamente de estar
à esquerda não quer dançar com ela. É por isso que os novos pretendentes a
dançar com o PS não são nenhuma versão portuguesa do Podemos espanhol ou do
Syriza.
4. A mudança que mude a sério o
curso da nossa vida colectiva, emancipe o Estado da tutela de Bruxelas, do FMI
e dos grupos económicos que já sequestraram uma parte importante dos nossos
recursos, e retome o caminho da democracia social, só chegará se a esquerda que
nunca deixou de ser de esquerda e que se compromete a romper com a austeridade
reunir força política suficiente para obrigar à viragem. A tal ponto que seja
alternativa viável ao PS e à direita. Aqui como em Espanha, como na Grécia,
como em toda a Europa. Essa esquerda – a CDU e o Bloco, fundamentalmente – pode
continuar a apresentar-se separada às eleições, apesar de ter saído junta à rua
nas grandes manifestações dos últimos anos, partilhar militância sindical,
votar da mesma forma no Parlamento. Mas acho que já deveria ter percebido que,
dessa forma, limita a sua capacidade de atracção de muitos daqueles que querem
forçar a mudança mas que não acreditam que ela se faça no mesmo quadro político
que até agora tivemos.
Este deveria ser o momento para
discutir, abertamente e sem sectarismos, a cooperação entre quem, ao longo
destes anos, assegurou o enorme esforço de resistência à devastação social, mas
que, oferecendo em separado propostas coerentes e sem ambiguidades contra a
austeridade, arrisca-se muito a não conseguir transformar em votos a maioria da
mobilização cidadã destes anos. A memória das tensões vividas na resistência e
na Revolução é muito da identidade de comunistas e bloquistas – mas não é uma
memória vivida na primeira pessoa pela grande maioria dos seus activistas e dos
seus eleitores.
O Bloco nasceu cheio de
preconceitos políticos e culturais contra o PCP; uma grande parte dos
comunistas responde(u)-lhe na mesma moeda. Ao fim de 16 anos, e das tensões
internas por que os dois partidos passaram (o PCP em 2000-02, o BE em 2011-13),
a verdade é que se têm encontrado no mesmo lado da barricada. Em tempos excepcionais,
parece-me evidente que deveriam dar passos excepcionais. E mostrar a quem não
se resigna a que tudo fique na mesma que eles partilham um espaço comum onde,
no respeito da diversidade, se não trai a confiança. E que pode ser decisivo.»
– Manuel Loff, no Público.