sexta-feira, 17 de abril de 2015

Gostei de ler: "Uma Sexta-feira, à hora do telejornal da noite"


«Com a saída da Grécia da zona euro à vista, o debate sobre quem será o seguinte é inevitável. Mais tarde ou mais cedo, a nossa saída acabará por ocorrer. Para que tal aconteça, o povo português e algumas elites políticas da esquerda ainda têm de fazer a aprendizagem que a liderança do Syriza fez nos últimos dois meses: perder a ilusão de que a UE pode ser resgatada ao ordoliberalismo germânico.

Só com um governo apoiado maioritariamente no parlamento, e eleito com um programa que explicitamente considere a saída do euro como o caminho para a saída da crise, Portugal tem condições para tomar em mãos o seu destino. Sendo impraticável um referendo – criaria o caos no sistema financeiro através da fuga dos depósitos, como está à vista na Grécia –, uma das primeiras medidas do novo governo seria a introdução de um forte controlo dos movimentos de capitais, com supervisão apertada de um BdP com nova direcção. Para tanto, deverá obter previamente algum apoio técnico na Islândia, Chipre ou outro país com experiência prática nesse domínio. Quanto à execução das novas notas e moedas, a capacidade técnica para fazer a reconversão do fabrico de euros para novos escudos está disponível e deverá iniciar-se de imediato.

Assim, após algumas semanas de negociação dos detalhes em Bruxelas, numa sexta-feira, à hora do telejornal da noite, invocando o estado de emergência em que o país se encontra, o primeiro-ministro falará à nação para dizer aos portugueses que chegou a hora de recuperarmos a dignidade e a soberania. Avisará que a saída do euro implica custos transitórios, suportáveis, que terão de ser pagos sobretudo pelos que mais têm. A saída deve ser apresentada como condição necessária, mas não suficiente, para que o país tenha futuro. Nesse discurso, o primeiro-ministro mobilizará os cidadãos para uma estratégia de desenvolvimento, acompanhada de transformações institucionais que revitalizem a democracia portuguesa e concretizem os valores do preâmbulo da Constituição da República.

Mais ainda, informará o país de que nessa noite será aprovada e promulgada a legislação que institui o "novo escudo". Por isso, os contratos realizados sob legislação nacional passam automaticamente à nova moeda, o que inclui salários e pensões, depósitos, créditos bancários e a dívida pública e privada detida por não residentes que cumpra essa condição. A dívida pública às entidades da troika, contraída ao abrigo de legislação estrangeira, manter-se-á em euros e será renegociada criteriosamente. O país será informado de que estão garantidos empréstimos externos que cobrem as necessidades imediatas de divisas, mas será prevenido para a necessidade de um racionamento na importação de bens e serviços supérfluos. Anunciar-se-ão também dois dias de encerramento dos bancos para que procedam aos acertos informáticos exigidos pela mudança de moeda. Os que, neste processo, ficarem insolventes serão nacionalizados, pelo menos até que se proceda a uma grande reestruturação do sistema financeiro para o colocar ao serviço da economia.

O principal custo a suportar nos primeiros dois anos será a inflação. Para um conteúdo médio de 25% de importações no consumo das famílias, uma desvalorização de cerca de 30% da nova moeda poderá gerar uma inflação à volta dos 10%, numa estimativa grosseira. O governo anunciará a reposição nos salários públicos e pensões dos níveis anteriores à crise, a financiar pelo Banco de Portugal (BdP), e promoverá acordos de concertação social sobre rendimentos e preços no sector privado.

Finalmente, o primeiro-ministro anunciará um plano de criação de empregos socialmente úteis, com salários previamente fixados, a financiar por crédito do BdP e pela redução de despesas com subsídios de desemprego. As autarquias, em cooperação com instituições privadas, serão envolvidas no levantamento das necessidades a satisfazer. O governo assumirá um compromisso com o objectivo do pleno emprego para o país.

Caro leitor, se não gosta deste cenário, pode começar a imaginar um outro em que Portugal aceita tornar-se uma província pobre de uma Europa que a Alemanha, após duas derrotas trágicas, acabou por conquistar sem disparar um tiro.» – Jorge Bateira, no I.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O programa SUGA



Um engenheiro mecânico que aceite a oferta para a zona de Anadia publicada no site do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) no âmbito do programa Estímulo Emprego, que financia empresas para contratar desempregados, irá ganhar 515 euros mensais ilíquidos. Mas se esta oferta para um licenciado em engenharia ainda está dez euros acima do salário mínimo, as ofertas para professores do ensino básico, secundário e profissional não vão além dos 505 euros, que é o máximo que as sanguessugas que querem receber este apoio do estado estão dispostos a pagar. Os nossos impostos andam a servir para subsidiar a exploração do trabalho. Andamos a trabalhar para enriquecer parasitas.




Vagamente relacionado: «De que forma é que uma economia semi-periférica, inserida num espaço cambial e monetário em que a generalidade dos restantes membros têm estruturas produtivas mais sofisticadas, poderá evitar acumular desequilíbrios externos cada vez maiores e, desejavelmente, tornar a sua própria estrutura produtiva mais complexa e sofisticada ao longo do tempo?
Acrescento três notas para melhor ilustrar o problema assim formulado. Primeiro, a evidência empírica do carácter semi-periférico da economia portuguesa, particularmente quando comparado com os restantes membros da zona Euro. De entre os vários exercícios comparativos de caracterização da sofisticação e complexidade das estruturas produtivas disponíveis, olhemos, por exemplo, para o ranking elaborado pelo Observatório da Complexidade Económica do MIT , que em 2012 (último ano disponível) colocava Portugal na 37ª posição - ao mesmo tempo que colocava todos os restantes membros da zona Euro, com excepção da Grécia (44º), em posições mais elevadas, no sentido de que as suas exportações são constituídas por produtos mais complexos, mais diferenciados e mais capazes de enfrentarem com sucesso a concorrência internacional.
Em segundo lugar, porque é que isto importa. Importa, obviamente, porque este é um indicador fundamental da robustez e profundidade do desenvolvimento económico. Mas importa também, no contexto específico da zona Euro, porque, como mostraram Felipe e Kumar num artigo de leitura obrigatória , a forma como a crise da zona Euro afectou de formas diferenciadas - na verdade, simétricas - os diferentes membros da zona Euro remonta, em última instância, às estruturas produtivas desses mesmos Estados membros na situação de partida. Portugal, Espanha, Grécia, Chipre têm os mais graves problemas de dívida pública porque têm os mais graves problemas de dívida externa - e acumularam os mais graves problemas de dívida externa porque aderiram a um espaço monetário e cambial comum tendo as estruturas produtivas mais frágeis de entre todos os participantes no grupo. Neste contexto, "centro" e "periferia" não são conceitos meramente geográficos - referem-se à sofisticação e robustez das estruturas produtivas.
E a terceira nota é de preocupação relativamente à forma como, a este nível, continuamos a cavar o buraco do nosso próprio subdesenvolvimento. Ignorando, ou fingindo ignorar, tudo o que se sabe sobre como promover a sofisticação incremental das estruturas produtivas - por outras palavras, o desenvolvimento económico -, o governo português (e não só) continua insistentemente a apostar na redução dos custos, particularmente do trabalho, como o alfa e o ómega da sua estratégia de promoção da competitividade. Não por acaso, esta é (do seu ponto de vista) uma estratégia funcional ao nível da partilha do bolo, da luta de classes interna, pois permite desequilibrar a distribuição funcional do rendimento em favor do capital e em detrimento do trabalho. Mas como estratégia de desenvolvimento é, mais do que insuficiente, disfuncional - e nesse sentido é a prazo um tiro no pé das próprias elites nacionais. Veja-se por onde anda o investimento, que nem chega a ser suficiente para repor a capacidade produtiva que vai obsolescendo. Veja-se como nos últimos anos o nível de intensidade tecnológica das exportações portuguesas se tem reduzido a olhos vistos . O desenvolvimento económico é um processo dinâmico e incremental, assente na aprendizagem colectiva e na diversificação dos processos produtivos no sentido da complexidade e da sofisticação crescentes - não é um processo de embaratecimento do trabalho e de esvaziamento da coordenação pública.
Decididamente, perdoe-se a arrogância, mas percebem muito pouco de economia .» – Alexandre Abreu.




quarta-feira, 15 de abril de 2015

Os cães ladram e a caravana passa


As ligações entre os cargos políticos e a banca são um dos problemas de Portugal apontados pela ONG Transparency Internacional no seu mais recente estudo Lobbying in Europe. Desde o 25 de Abril, mais de metade – 54% – de todos os membros do Governo trabalharam no sector financeiro. E dos últimos 19 ministros das Finanças, quase três quartos – 14 – fizeram carreira neste sector ou em instituições financeiras. Este último dado tem o seu quê de curioso: 14 em 19 são 73,68%. E 73,68% está numa vizinhança muito próxima dos 73,4% de intenções de voto nos três partidos que já integraram Governos da última sondagem da Aximage. Temos, portanto, as organizações internacionais a alertarem os portugueses para a captura dos seus três partidos preferidos por interesses económicos opacos e os portugueses a responderem às organizações internacionais que isto é mesmo assim. E que ai de nós se não fosse.


Vagamente relacionado: Dos 230 deputados à Assembleia da República, 117 estão em regime de part-time, acumulando as funções parlamentares com outras actividades profissionais no sector privado. Todos eles pertencem ou ao PSD, ou ao PS ou ao CDS. Advogados, juristas, médicos, engenheiros, consultores, empresários, etc. Em diversos casos, prestando serviços remunerados a empresas que operam em sectores de actividade fiscalizados por comissões parlamentares que os mesmos deputados integram. Ao que se acrescem as ligações a empresas (cargos de administração, participações accionistas, serviços de consultoria, etc.) que beneficiam de iniciativas legislativas, subsídios públicos ou contratos adjudicados por entidades públicas visando a execução de obras, o fornecimento de produtos ou a prestação de serviços. Conflitos de interesses? Dezenas de exemplos concretos são apresentados nas páginas deste livro, “Os privilegiados”, de Gustavo Sampaio. Dos corredores do poder político para as salas de reunião dos conselhos de administração, e demais órgãos sociais, das maiores empresas portuguesas, com ou sem período de nojo. Um fluxo recorrente entre cargos públicos e privados. Das 20 empresas cotadas no índice PSI 20, por exemplo, 16 contam com ex-políticos em cargos de administração. Por vezes são ex-governantes que decidiram sobre matérias que implicam as empresas para as quais vão depois trabalhar, ou até administrar.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Fizemos os dias assim





O país estremeceu de terror com uma reportagem que a TVI exibiu na noite de ontem. O trabalho da equipa de Ana Leal mostrou que depois do caos nas urgências durante o pico da gripe, os principais problemas que levaram ao congestionamento dos hospitais mantêm-se: há falta de médicos e enfermeiros que chegam a acumular 300 horas a mais de trabalho. As imagens recolhidas às escondidas durante um mês em 15 hospitais fazem lembrar um cenário de quase terceiro mundo, com macas amontoadas pelos corredores porque há enfermarias fechadas, doentes que esperam horas para serem observados por um médico. Há hospitais onde chega a faltar papel, roupa, fraldas e detergente para as mãos. Mas o Secretário de Estado Adjunto da Saúde, Fernando Leal da Cunha, é da opinião que a reportagem demonstra que «os Serviços de Urgência em Portugal funcionam muito bem». É capaz de ter a sua razão. Ele sabe que na completa ausência de reacção popular o Governo a que pertence pode, não apenas dizer, sobretudo ir fazendo as barbaridades que lhe apetecer. A reportagem que mostra o que deixámos que fizessem ao nosso Serviço Nacional de Saúde está disponível aqui.

Vagamente relacionado: "O Ministério da Saúde apropriou-se da ADSE, que se tornou um verdadeiro saco azul, em cuja gestão tem óbvios conflitos de interesse. Em 2014, a ADSE deu um lucro de 200 milhões de euros, que são dos seus beneficiários, não do Ministério da Saúde! Mas o lucro para o MS é ainda maior, pois os beneficiários, quando recorrem ao setor privado, estão a poupar ao Serviço Nacional de Saúde os atos que aí não consomem. Além disso, os beneficiários da ADSE pagam a saúde duas vezes, pois pagam as suas elevadas contribuições para a ADSE, que dá lucro, e pagam os seus impostos para o SNS, que pouco utilizam. Por isso, estão a sair da ADSE, que é opcional, a um ritmo contínuo, o que pode pôr em causa a sustentabilidade da própria ADSE. A ADSE tem de ser gerida pelos seus contribuintes, para poderem beneficiar dos respetivos lucros e conseguirem muitos mais benefícios pelo mesmo valor da enorme taxa que pagam. A Ordem dos Médicos considera que os beneficiários da ADSE devem organizar-se e geri-la autonomamente." - José Manuel Silva.

Lições gregas (continuação)


Poderá ser hoje, poderá ser amanhã, o jogo do gato e do rato a que temos assistido entre a Europa das austeridades e o Governo grego terminará a qualquer momento. O desfecho será aquele que ficou escrito quando o jogo começou, em finais de Fevereiro. Na altura escrevi que ambas as partes procurariam fazer a corda partir, e a corda partiria sempre, no momento mais apropriado para os propósitos de cada um. Alemães e alemãezinhos apostariam tudo em humilhar a Grécia com exigências e caprichos cada vez maiores. Aconteceu. Conseguiram mostrar aos europeus que esta Europa, longe de ser uma negociação permanente, é uma imposição constante. O Governo grego seria obrigado a ceder em muitos aspectos que comprometeriam os compromissos eleitorais assumidos e fariam erodir a sua base eleitoral. As cedências aconteceram para demonstrar que nem mesmo a austeridade “fofinha” que delas resultou pôs os Hollandes e os Costas da Europa “socialista” a expressar o mais mínimo apoio ao Governo grego. Mas a erosão da base eleitoral do Syriza não aconteceu. Pelo contrário, as sondagens dão-lhe a maioria absoluta que antes não tinha. Se o que a Europa do directório pretendia era uma vacina que evitasse contágios do efeito Syriza a países como Espanha e Portugal, com eleições marcadas para o final deste ano, fracassou. Se o que o Governo grego pretendia ao tentar de todas as formas possíveis e imaginárias honrar o compromisso eleitoral de tudo fazer para manter a Grécia no euro era cimentar a sua credibilidade para poder antecipar eleições e, agora sim, obter o mandato que não tinha para conduzir a saída do euro, pelo menos a avaliar pelas sondagens, triunfou. E a confirmar-se este triunfo, será um triunfo também para nós, portugueses. É o mesmo euro e é a mesma Europa que nos condenam enegrecendo-nos o presente e roubando-nos o futuro. Saibamos libertar-nos também.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Casa arrombada


Casa arrombada, casa arrumada e trancas à porta. A sequência na Islândia foi mais ou menos esta. Quando foram convidados pela liga de amigos dos donos do mundo a pagar a delinquência banqueira que  fez desmoronar o sistema financeiro do país, os islandeses souberam dizer não, correr com o FMI, cancelar o pedido de adesão à União Europeia, engavetar banqueiros ladrões e colocar na prateleira a classe política que tudo lhes permitiu da única forma possível, substituindo-a  por gente de confiança que conseguiu pôr o país a crescer e está agora empenhada em retirar aos bancos a bomba que fez tudo ir pelos ares: o poder de criar dinheiro. Leio a notícia no mesmo dia em que leio uma outra sobre um dos maiores devedores do BPN, Aprígio Santos, a quem uns chineses “safaram”. O nosso Aprígio vai conseguir vender património que não lhe foi confiscado como devia, a dívida que lhe corresponde fomos todos nós que a pagámos, e os chineses que lho comprarem ganham o direito a um visto douradíssimo como prémio por terem investido na liberdade de vender deste nosso proeminente empreendedor. Casa arrombada, caso arrumado, investidores à porta. Um dia destes acordamos todos ricos.


Vagamente relacionado: de acordo com o barómetro Aximage relativo a Abril de 2015, o arco da austeridade (PSD, PS e CDS) continua a reunir 73,4% das intenções de voto, quase 3 em cada 4 votos, 6,8% acima dos 66.6% necessários para alterar a Constituição da República Portuguesa.

sábado, 11 de abril de 2015

Gostei de ler: "Tempos excepcionais II"


«1. (...) Desde 2002 e o euro, os decisores económicos que, no PS e na direita, têm sido recrutados nessa porta giratória aberta entre aparelhos partidários e grupos empresariais, têm concretizado o que os neoliberais definiram como a sua missão histórica essencial: acabar com qualquer correcção (Estado de Bem-Estar Social, redistribuição de riqueza através da educação, da saúde e da segurança social públicas) da desigualdade em que se baseia o capitalismo e reinstaurar o direito do mais forte (o patrão, o capital) à dominação económica.

As crises não são capítulos de livros de História. Elas afectam a grande maioria de nós porque dependemos do nosso trabalho e da dignidade com que o desempenhamos. Rouba-se-nos o emprego, o salário, a reforma, a casa, a saúde, a educação. Ofende-se-nos porque se nos atribui uma culpa que não é nossa; humilha-se-nos porque se nos ameaça com mais pobreza se nos rebelamos, quer-se amedrontar-nos.


2. Num ano de eleições como este, a grande maioria dos portugueses quer sair deste pesadelo, deseja a mudança. Muitos deles estão tão descrentes da eficácia do voto e do funcionamento da democracia que não votarão sequer. Mas não nos enganemos: a ruptura política em Portugal não se fará por via da abstenção, ou do voto branco e nulo, como aconteceu nos últimos actos eleitorais (em 2011, 6% nas presidenciais, 4% nas legislativas). O sistema aguenta bem abstenções e votos brancos; eles não alteram em nada o funcionamento do sistema político, nem reduzem a sua legitimidade formal (ainda que o façam moral e politicamente). Sistemas políticos como o norte-americano ou o suíço aguentam-se com muito menos participação eleitoral que aquela que se pratica em Portugal.



Desde que a crise se instalou no nosso país, os eleitores portugueses passaram a castigar mais duramente cada governo na eleição seguinte do que o fizeram no passado. Até 2011 não deixaram de usar os dois jogadores do rotativismo para o fazer: o PS contra o PSD, o PSD contra o PS. Ao fim de quatro eleições desde 2002, verificam, mais rapidamente que no passado, que não têm conseguido mudança alguma. Muda o condutor, mas o trajecto é o mesmo.

A grande maioria de quem votar, não se duvide, vai querer castigar a direita de Passos e Portas como já o fez, por muito menos, em 2005. A grande diferença é que o velho instrumento que usavam – o PS – parece-lhes ainda menos fiável do que antes. Já em 2011, ele próprio foi castigado por ter começado a mesma austeridade que a direita logo veio agravar. Só quem acredita que os portugueses escolherão simplesmente entre o mau e o menos mau acredita que o PS de Costa ganhará o apoio deste oceano de descontentes e vencerá confortavelmente as eleições. 2015 não é 2005, muito menos os anos 80 ou 90.


3. A mudança social e política ocorre quando se consegue não deixar secar a indignação e quando a revolta se junta à disponibilidade para discutir soluções com quem coloca os mesmos problemas que nós sentimos. É verdade que ela não se faz só (e muitos pensam que nem sequer prioritariamente) pela via eleitoral. Mas as eleições são uma componente importante da mudança. Nas próximas, não é o PS que fará a diferença, justamente porque não quer inverter o caminho que empreendeu, pela mão de Constâncio, Guterres ou Sócrates, há muitos anos. O PS, como a social-democracia europeia, até se distingue da direita no debate sobre o aborto ou o casamento homossexual (ainda que tenha discriminado mais ainda na adopção) – mas não é de hoje que desistiu de defender o mínimo de democracia social que tínhamos desde o 25 de Abril e se passou para o campo do liberalismo económico, entendendo que a riqueza das nações é produzida pelos patrões e não pelos trabalhadores.

É por isto mesmo que a mudança também não virá daqueles que têm alimentado esta mentira de que o PS não dança à esquerda porque não tem par disponível. Quem deixou voluntariamente de estar à esquerda não quer dançar com ela. É por isso que os novos pretendentes a dançar com o PS não são nenhuma versão portuguesa do Podemos espanhol ou do Syriza.


4. A mudança que mude a sério o curso da nossa vida colectiva, emancipe o Estado da tutela de Bruxelas, do FMI e dos grupos económicos que já sequestraram uma parte importante dos nossos recursos, e retome o caminho da democracia social, só chegará se a esquerda que nunca deixou de ser de esquerda e que se compromete a romper com a austeridade reunir força política suficiente para obrigar à viragem. A tal ponto que seja alternativa viável ao PS e à direita. Aqui como em Espanha, como na Grécia, como em toda a Europa. Essa esquerda – a CDU e o Bloco, fundamentalmente – pode continuar a apresentar-se separada às eleições, apesar de ter saído junta à rua nas grandes manifestações dos últimos anos, partilhar militância sindical, votar da mesma forma no Parlamento. Mas acho que já deveria ter percebido que, dessa forma, limita a sua capacidade de atracção de muitos daqueles que querem forçar a mudança mas que não acreditam que ela se faça no mesmo quadro político que até agora tivemos.

Este deveria ser o momento para discutir, abertamente e sem sectarismos, a cooperação entre quem, ao longo destes anos, assegurou o enorme esforço de resistência à devastação social, mas que, oferecendo em separado propostas coerentes e sem ambiguidades contra a austeridade, arrisca-se muito a não conseguir transformar em votos a maioria da mobilização cidadã destes anos. A memória das tensões vividas na resistência e na Revolução é muito da identidade de comunistas e bloquistas – mas não é uma memória vivida na primeira pessoa pela grande maioria dos seus activistas e dos seus eleitores.

O Bloco nasceu cheio de preconceitos políticos e culturais contra o PCP; uma grande parte dos comunistas responde(u)-lhe na mesma moeda. Ao fim de 16 anos, e das tensões internas por que os dois partidos passaram (o PCP em 2000-02, o BE em 2011-13), a verdade é que se têm encontrado no mesmo lado da barricada. Em tempos excepcionais, parece-me evidente que deveriam dar passos excepcionais. E mostrar a quem não se resigna a que tudo fique na mesma que eles partilham um espaço comum onde, no respeito da diversidade, se não trai a confiança. E que pode ser decisivo.» – Manuel Loff, no Público.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A casta, o mérito e o mérito da casta


O mérito, essa coisa que a casta faz circular de boca em boca na vez da palavra panelinha. Ana Pinho foi escolhida para vogal de uma entidade que gere fundos comunitários apesar da comissão que o Governo criou alegadamente para moralizar as nomeações de dirigentes da Administração Pública ter considerado que lhe faltava experiência. O ministério de Poiares Maduro, que tutela o organismo, argumenta que não foi posta em causa a “idoneidade e a competência da candidata”. Também podiam dizer que não foi posto em causa que a Ana cheira mal dos pés. Ou que mastiga de boca aberta e faz imenso barulho a comer. Há imensas coisas que a CRESAP não disse nem tinha nada que dizer. Mas disse que não tem experiência, nem mesmo como comissária política de nomeação pelo cartão partidário, que a CRESAP não deveria mas contabiliza como “experiência”. É o que a CRESAP disse que conta, não o que não disse. A CRESAP chumbou-a, a seguir o Governo chumbou a CRESAP e a seguir  ninguém da CRESAP se demitiu. Eles também estão ali a ganhar experiência para um dia, quem sabe, o mérito da obediência lhes ser reconhecido para fazer chegar a sua vez de serem lançados em voos um pouco mais altos. Com salário a condizer. A "experiência" da casta tem o mérito de saber remunerar-se de acordo com as especificidades próprias blablabla de cada situação.

«(...) A circulação pelo poder como assessores, membros de gabinetes governamentais, nomeações para cargos à revelia de qualquer currículo e controlo da Cresap, a utilização como extensão de poder de fundações como a luso-americana, consultorias, o patrocínio de encomendas, estudos e pareceres vai de vento em popa, de novo, numa forma muito parecida com o que aconteceu nos tempos de Sócrates. (...) Os trabalhadores nunca são nomeados, quando se fala de economia. A economia é os empresários, mais, aliás, do que as próprias empresas, isto numa semana em que um estudo internacional revelava o papel da incompetência dos empresários portugueses na má qualidade da gestão e na falta de competitividade. Sim, os empresários e não os trabalhadores, nem os sindicatos, nem as greves, nem o “alto custo do factor trabalho” que o primeiro-ministro promete disciplinar na próxima legislatura, mas que duvido apareça no programa eleitoral.(...)»

Gostei de ler: "A estupidez como vocação"


«Surgiu há alguns anos uma nova figura nos jornais que é a do cronista desenvolto e com a presunção de ser inconveniente, mas que em vez de suscitar polémica consegue ganhar a ampla reputação pública – sem que ninguém assome em sua defesa – de estúpido e cretino. Esta categoria – e é dela que aqui falarei e não de qualquer das suas manifestações específicas – é um achado, um verdadeiro ovo de colombo: avançando de rosto descoberto ou mascarada de ousadia intelectual, a estupidez atrai, exerce um fascínio a que é difícil resistir. Por isso, tem um vasto público garantido, faz subir o rating das audiências. Além disso, deixa-nos completamente desarmados porque é difícil e sempre pretensioso denunciá-la, como nos ensinou Musil, numa conferência que pronunciou em Viena, em 1937, sobre essa magna e universal questão que se tornou um tópico da modernidade, desde o Bouvard et Pécuchet, de Flaubert. A dificuldade em nomeá-la reside na armadilha inevitável que nos lança: não podemos falar dela e analisá-la sem uma presunção de inteligência. E a presunção de inteligência é, como sabemos, uma prova de estupidez inelutável. Ainda assim, conscientes de que ainda só vamos no primeiro parágrafo e já caímos na armadilha fatal, avancemos. Mas não sem antes formular uma outra fatal contradição a que este texto sucumbe, mesmo sem nomear ninguém e procurar deter-se numa categoria: a contestação e a risota de que é alvo o cronista estúpido e cretino são a garantia do seu sucesso e asseguram-lhe longa sobrevivência. Ele assumiu a missão de restaurar com grande aparato a função-autor, até ao ponto de lhe dar a feição demagógica de um estilo, já que a exibição de um estilo é sempre o triunfo de traços demagógicos e de um sujeito insolente, vazio e muito vaidoso. Como é sabido, a estupidez tem uma relação estreita com a vaidade. E o idiota, como evidencia claramente a etimologia do termo, polariza-se de maneira obsessiva sobre o seu Eu e confere um privilégio desmesurado ao seu ponto de vista. Estes “autores” não dizem nada sem que se intrometa o Eu, indiferentes à regra que diz: quanto mais o sujeito da enunciação atribui a si próprio uma enorme importância, mais os seus enunciados são vazios. Muitas vezes pretendem ter a coragem do desafio intelectual, mas o que são de facto é alarves, sem filtro e sem distância crítica. Chegam a reivindicar a condição de resistentes, de nadarem contra a maré, mas tudo neles é adesão mimética e acrítica a uma ideologia espontânea, colagem à estupidez ambiental, incapacidade de saírem de si mesmos. A linguagem da idiotia sustenta-se na ilusão de que equivale a um pensamento autónomo e suficiente. E serve o empreendimento do marketing intelectual. Quando acha conveniente defender-se, o idiota entra no jogo da martirologia. Esse é um dos papéis que ele, clown de serviço, gosta de representar. Nessa função, ele repete com frequência uma tirada que é o exemplo mais estúpido de contradição performativa : “Vou ser politicamente incorrecto”. E o que se segue é geralmente a mais correcta alarvidade. Traduzida numa categoria estética, a estupidez destes cronistas é um grandioso empreendimento do Kitsch, triunfo da imanência que nos dispensa a experiência da distância e suprime todo o obstáculo à adequação imanentista. Esta forma de estupidez, que só quem se subtraiu a este mundo não reconhece facilmente, é a manifestação estética e moral de uma presença que nos é familiar e assume mesmo a missão de estabelecer com os leitores uma relação de familiaridade, à maneira de uma conversa de tagarelas.» – António Guerreiro, no Público.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Ai aguentam, aguentam


Alegadamente para equilibrar contas públicas impossíveis de equilibrar cortando rendimentos do trabalho que originam quase 4 em cada 5 euros de toda a receita fiscal e são o motor da economia, oficialmente para reduzir uma dívida que, também por essa razão, aumentou como nunca antes havia aumentado e objectivamente para recapitalizar bancos falidos pela delinquência das suas administrações, ao mesmo tempo que foram sendo objecto do maior assalto fiscal de todos os tempos, os salários e as pensões de reforma dos portugueses foram sendo sucessivamente cortados nestes últimos quatro anos. Os moralistas convenceram os portugueses que seria assim que salvaríamos o país e, por sua vez, a economia teve quatro anos para demonstrar aos portugueses que não quer saber de moralismos para nada. E hoje é a vez desse mesmo moralismo se rir dos portugueses que enganou com exemplos carregadinhos dele próprio, moralismo – “vivemos acima das nossas possibilidades”, e reaver o que investiu na trapaça que quase todos comeram: ficámos a saber que o BPI repôs os salários e devolveu integralmente os cortes salariais aos administradores alvo de reduções de rendimentos no âmbito do empréstimo do Estado que vigorou entre o segundo semestre de 2012 e o primeiro semestre de 2014, como também e sobretudo que estas reposições estavam previstas desde o início. O leitor ainda se lembra quanto ganhava em Abril de 2011? Consulte a sua declaração de rendimentos desse ano e compare-a com a de 2014. Multiplique a diferença que encontrar por 5, 10, 20 anos de austeridade que todos temos à nossa frente se não soubermos correr com ela. A seguir deverá usar de todas as suas forças para acreditar que nunca mais sofrerá cortes salariais e que o desemprego é monstro que só bate à porta dos outros e, assim convocadas todas as "energias positivas" do universo,  poderá escrever o valor a que chegar num papelinho, colocá-lo numa mesa à sua frente, olhá-lo carinhosamente e dizer-lhe na sua voz mais ternurenta: és um moralista de merda.
[editado]

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Gostei de ler: "Esqueçam o Robinson Crusoé"

Às vezes metem-se comigo a seguir a saberem que estudei economia. Quase sempre salta a acusação de a culpa disto estar como está ser dos economistas. E eu acabo por concordar: de CERTOS economistas, é verdade, porque a disciplina que estuda como funciona a economia também retrocedeu. Hoje é Quarta-feira, é dia de Alexandre Abreu no Expresso. O artigo de hoje explica o retrocesso a que aludi atrás, como os neoliberais se desembaraçaram de variáveis incómodas como o desemprego involuntário, as desigualdades, o rendimento das famílias que pode ser constantemente comido para engordar lucros porque o consumo deixou de ser o motor de uma economia ficcionada onde, imagine-se, a oferta gera a sua própria procura (é exactamente ao contrário, a procura comanda a oferta). De simplificação em simplificação, de delírio em delírio, os "economistas"vão dando cabo disto tudo em confronto permanente com uma realidade que não casa com  as suas teorias ou porque ainda não casa, ou porque as "reformas estruturais" foram demasiado brandas ou, sei lá eu, talvez até por mero e manifesto... azarito. Mas azarito sempre dos mesmos, convém sublinhá-lo. A economia deles funciona às mil maravilhas do lado dos que têm sempre "sorte".


Existe uma abordagem muito comum, aliás dominante, à análise e ensino dos fenómenos económicos que assenta na modelização dos problemas à escala individual e posterior generalização para a escala da sociedade. Por outras palavras, que assenta na redução dos fenómenos económicos - que são intrinsecamente sociais - a fenómenos individuais em condições simplificadas, a fim de deduzir conclusões que são depois extrapoladas novamente para a escala da sociedade como um todo.

A chamada economia de Robinson Crusoé  constitui um exemplo paradigmático deste tipo de abordagem. Nesta experiência conceptual, Robinson está só na ilha deserta e tem de optar por dedicar o seu tempo ao lazer ou à recolha dos cocos de que depende a sua sobrevivência - problema típico da teoria neoclássica do consumidor, nomeadamente quando se assume adicionalmente que Robinson é perfeitamente racional e que as suas preferências são dadas à partida.

Através de pequenas alterações de perspectiva ou modificações ao modelo, a mesma abordagem permite modelizar também o comportamento de Robinson enquanto produtor de bens alternativos (de cocos ou peixes, por exemplo) ou introduzir a possibilidade da troca (com um Sexta-feira igualmente racional e auto-interessado). Em todos os casos, a ideia subjacente é que as conclusões que retiramos por dedução a partir destes modelos hiper-simplificados da realidade constituem uma forma adequada - a forma mais adequada - de compreendermos como, na sociedade como um todo, se organizam as questões da produção, do consumo e da troca.

É uma abordagem típica das correntes clássica, neoclássica e austríaca da economia e, em termos mais gerais, designa-se por "individualismo metodológico": o requisito de que as explicações causais dos fenómenos sociais assentem nas acções, motivações e preferências dos indivíduos. Não precisa de envolver cocos e ilhas desertas. Noutros exemplos populares, temos o padeiro e o merceeiro como produtores únicos de uma aldeia imaginária, ou o família e os seus membros como representação da sociedade. Ou ainda, nas versões mais austeras utilizadas em contexto académico, modelos povoados por "agentes representativos" com as suas funções de utilidade ou produção.

Efectivamente, um dos desenvolvimentos mais relevantes na macroeconomia nas últimas três ou quatro décadas foi a generalização da exigência de que os modelos macroeconómicos assentem em microfundações deste tipo. Não era esse o caso anteriormente: para a economia dominante das décadas anteriores, a macroeconomia ocupava-se com entidades (agregados, como o Consumo ou o Investimento totais) que obedeciam a uma lógica própria e distinta do que se passava na esfera micro dos indivíduos. Havia uma descontinuidade fundamental entre os níveis micro e macro da economia, mas isso não era considerado preocupante. Da década de 1970 em diante, porém, o individualismo metodológico estendeu o seu predomínio à macroeconomia, impondo, como requisito para que as explicações macroeconómicas (neoclássicas ou neo-keynesianas, tanto faz) sejam consideradas respeitáveis, que estas assentem em microfundações - preferências e acções de agentes representativos.

Esta evolução da macroeconomia é muitas vezes apresentada como um passo no sentido do rigor, da consistência lógica e da cientificidade. Na realidade, porém, constitui um retrocesso. E o motivo é relativamente fácil de explicar. O problema não reside no recurso a modelos: toda a ciência recorre a representações simplificadas da realidade, todo o pensamento científico abstrai de circunstâncias particulares na formulação de explicações gerais. O problema surge, porém, quando essas simplificação e abstracção implicam descartar aspectos essenciais do fenómeno que se pretende explicar. E é isso mesmo que sucede quando se salta para a escala individual em busca de explicações para fenómenos intrinsecamente sociais: descartam-se factores e propriedades que se manifestam à escala social sem que sejam (facilmente) detectáveis ou teorizáveis à escala dos indivíduos.

Nas microeconomias de ilha deserta compostas por um único náufrago plenamente racional, não existe desemprego involuntário - mas nas economias reais este existe e é um problema central. Nas aldeias imaginárias que contam com apenas um padeiro e um merceeiro perfeitamente racionais e informados, o aumento da massa monetária apenas aumenta o preço dos produtos e não o volume da produção - mas nas economias reais a política monetária tem (em circunstâncias normais) efeitos reais sobre o produto. Nas experiências conceptuais hiper-simplificadas, não existe história ou relações de poder - mas nas economias reais estes são fundamentais para a compreensão de tudo o que se passa.

E isto nada deveria ter de espantoso. A existência de propriedades emergentes associadas à mudança de escala é uma característica geral do mundo que nos rodeia. Todos os fenómenos biológicos são, em última instância, fenómenos químicos e físicos, mas não faz sentido explicar a reprodução ou o envelhecimento com base em teorias assentes no comportamento de protões e electrões. Da mesma forma, todos os fenómenos sociais e económicos assentam ontologicamente em indivíduos, mas procurar, no plano metodológico, compreendê-los ou explicá-los enquanto tal é, mais do que uma perda de tempo, uma contribuição para o obscurantismo.

É um obscurantismo típico das ciências que estão ainda na sua infância. À medida que amadurecer, a Economia não deixará de superar a sua fase Robinson Crusoé.» – Alexandre Abreu, no Expresso.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Adeus


Eles vão caindo um a um. Agora demitiu-se o mandarete que Nuno Crato pôs a desmantelar a investigação científica que se fazia em Portugal. Desta vez, lá calhou, a justificação não foi o erro informático da ordem. Mas também voltou a não ser a parcela irreparável de destruição do país que lhe coube administrar.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O centrão está de parabéns



Apodrece o público, prospera o privado. Os indicadores sobre Saúde publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) nesta segunda-feira, véspera do Dia Mundial da Saúde, atestam bem o excelente trabalho que os sucessivos Governos PSD e PS vêm desenvolvendo desde 2002 a favor de um negócio que cresce ao ritmo que os fazedores de tão notável prosperidade não conseguiram imprimir à restante economia. A título de exemplo, em apenas onze anos, o número de atendimentos nas urgências quase duplicou no sector privado, de 460 para 900 mil, e as consultas externas mais do que triplicaram. No público, a tendência foi a inversa. Nos dez anos entre 2002 a 2012, o universo dos centros de saúde ficou reduzido,  passando de 391 para 387. Mais drástica ainda foi a redução do número de centros de saúde com serviço de urgência básica (SUB) ou serviço de atendimento permanente ou prolongado (SAP): dos 276 existentes em 2002 apenas existem 94 actualmente. Óptimo para o negócio. O peso relativo dos privados no total de consultas externas cresceu em apenas onze anos de 16,5% para 29%. O centrão está de parabéns. Já agora, obrigado, portugueses. Os políticos não caem do céu.

domingo, 5 de abril de 2015

Gostei de ler: "A minha cara metade"


«Há uma pandemia mundial em curso de narcisismo. Narcisismo não é vaidade. Um narcísico pode até ser discreto, calado e vestido de cinzento. Mas é uma pandemia insuportável. É o tipo que chega a uma reunião com mais 30 e pede para a próxima reunião ser mudada porque “ele tem uma consulta médica” – o que era o mundo sem ele!; é a mãe que diz com orgulho “o meu filho não faz nada sem mim” – um anormal portanto!; é o filho que quando a mãe lhe coloca a comida na mesa diz com esgar “não gosto nada disto” – tempos houve, os quais saúdo conservadoramente, que o tipo dizia “obrigada por teres feito o jantar querida mãe (mesmo que não gostasse)”; é o tipo que entra num sindicato e na primeira discordância, sem ter mexido uma palha, sai, e é o sindicalista que acha que é dono das decisões da organização; é o que entra numa associação e “esquece-se” mensalmente e sempre de pagar a quota – o financiamento colectivo que se lixe!; é o que estaciona em cima do passeio, o que atravessa um bairro a 50 km hora porque ele está atrasado para o trabalho e  a criança que está a jogar à bola está a “atrapalhá-lo” – não é o seu filho porque ia ele preocupar-se!?; é a professora que despacha o trabalho dela para os alunos e os pais destes fazerem em casa; e são os pais que entram numa escola a gritar com a professora, sem sequer lhe perguntar  o que se passou. Todos estes comportamentos têm em comum o desenvolvimento incipiente do superego, do não saber estar na pele do outro, do não querer estar na pele do outro – o outro, diria um humorista, “nunca ouvi falar desse”. É um comportamento para-sociopata, de gente que não consegue sair de si e acha que os outros são instrumentais ao seu bem-estar.  É uma esmagadora ausência de resistência à frustração, um imediatismo de prazer quase animal (não socializado, portanto).

Não sei, com sinceridade, a origem destes comportamentos. Não é a era da selfie porque isto é sério e não é vaidade ou gala – não falamos do vestido bonito da menina mas de um comportamento social profundo que ignora a existência colectiva. Família protectora, Estado social dominante que desmobilizou politicamente as pessoas, que as fez precisar menos umas das outras, filhos únicos em sociedades urbanizadas. Não sei… Mas sei que é impressionante.

Todos os dias recebo cartas com assuntos importantes. Muitos dos quais agradeço que o façam, reencaminho para onde sei, incluindo para resolução de conflitos laborais ou questões científicas, de trabalho. Mas todos os dias me escrevem também pessoas que me dizem o seguinte: «concordo com tudo o que escreveu até hoje (tudo…desconfio logo…) menos com o que escreveu hoje. Estou muito desiludido». Muito? É quase uma carta de fim de relação amorosa. Está tudo acabado entre nós! Não ocorreu a estas pessoas perguntar se eu, que passo metade do meu tempo em regime de voluntariado público, preciso de ajuda…Mas ocorreu-lhes escrever-me uma longa carta em que me explicam porque eu deixei de ser a sua cara-metade. O fim do namoro, da inaceitável traição, não é uma exclusividade minha. De vez em quando vejo na Internet uma pessoa pública querida que comentou que não gosta de gatos e milhares de pessoas escrevem-lhe, não raras vezes com ofensas, dizendo que estão “profundamente decepcionadas”. Outro escritor adorado que escreve uma piada de humor negro e é bombardeado com um “nunca mais compro os seus livros”. Imagino que namorar estes seres é pior do entrar para as SS. Começa-se o dia a marchar de manhã ao som das ideias inquebrantáveis destes bebés grandes. Afinal, ou estamos com eles ou contra eles!

Fica aqui a minha opinião de leiga. Não existe a cara-metade de ninguém. Nem no amor, nem política, nem na ciência, na culinária, no estado do tempo. Eu, por exemplo, amo algumas pessoas que votam no PS e acham que isto com o Costa vai lá…Vou continuar a amá-los e até lhes vou dar um abraço apertado quando o Costa for para lá fazer o mesmo que o Passos Coelho e eles ficarem deprimidos. Vou convidá-los para jantar e vamos rir-nos, como sempre nos rimos quando estamos juntos.

Piadas sérias à parte, o tema é grave. Os outros não são o preenchimento do nosso vazio, as relações são relações, de discordância, de debate, de diferença. O mundo está difícil. É aliás um barco a caminho do precipício, onde há uns tipos no convés e a maioria no porão. Mas desengane-se quem acha que vai ficar à tona – olhem para 1939-1945! Todos nos vamos afundar se não reagirmos organizadamente. Mas para reagir organizadamente temos que ser livres, e só há liberdade na diferença, na discordância, temos que re-aprender a viver com os outros na sua complexidade, na sua surpresa, e sobretudo com aquilo que é distinto de nós. Não precisamos de caras metades. Precisamos de gente inteira.» – Raquel Varela.

sábado, 4 de abril de 2015

Gostei de ler: "A consagração dos mortos pela hipocrisia dos vivos"


«Não há tão bom revelador do que é a elite portuguesa como a maneira como trata os mortos que entende serem “seus”. O festival de hipocrisia que avassala Portugal sempre que morre um consagrado “consensual” revela as nossas enormes fragilidades no espaço público, e uma mistura de reverência oca, de ignorância, de imenso provincianismo e de uma ritualização pobre e subdesenvolvida. E aqui os media e o poder político vivem em simbiose total. (...)

Herberto Helder é um completo desconhecido, pelo povo e pela maioria das nossas elites, que agora aparecem todas como íntimas de um poeta singular e difícil, que nunca leram e sobre o qual disseram não só as maiores banalidades, como enormidades. Manoel de Oliveira, que chegava ao povo mais por ter 106 anos do que pela sua obra, era “conhecido” por ser autor de filmes intragáveis, que ninguém via até o fim, ou sequer até ao principio, e gozado por filmar horas de filme em que nada acontecia ou por fazer fotografia e não cinema. Fazia parte de um certo anedotário que servia para mostrar desprezo pela cultura e pelos intelectuais, ou então, no extremo oposto, como um génio intocável, que em tudo o que mexia produzia arte intangível na sua grandeza absoluta. Estas duas atitudes são aliás mais próximas do que se imagina, porque criam um ecrã sobre a obra que dificulta um julgamento equilibrado e o exercício crítico. (...)

Tudo isto se passa num dos momentos em que a nossa elite política no poder mais afastada está de qualquer preocupação intelectual e, com algumas raras excepções, com elevados níveis de ignorância sobre qualquer matéria desta natureza. Por isso é que se agarram ao discurso pomposo da comemoração necrológica, que lhes dá uma espécie de álibi cultural que, de outra maneira, não poderiam ter. Quanto mais ignorantes, mais comemorativos, podia ser um axioma dos nossos dias.

O problema não está apenas na parte do dinheiro que vai para a “cultura”, questão que nunca considerei ser uma questão de cultura mas de “política de espírito”, ou seja, a propaganda moderna que os Estados e os governos fazem usando a intangibilidade das artes e da literatura para se promoverem ou aos seus chefes. (...) Temos muito património a esboroar-se, muito património a vender-se mais ou menos às claras no estrangeiro, muita educação para as artes, quando existe, no mesmo estado degradado do Conservatório, e mesmo uma “indústria cultural” muito para além da Joana Vasconcelos, que se “vende” bem.

Se se quer ajudar as pessoas a compreender o valor de Oliveira ou Herberto Helder, ou melhor ainda, a serem “tocados” pelas suas obras, naquilo em que a criação nos muda, troco dias de mensagens, votos de pesar, funerais nacionais (e agora até a obrigação de colocar os corpos no Panteão...) e luto oficial, por medidas minimalistas que ajudem a que se conheça a poesia portuguesa ou o cinema nacional.

Seja fazer com que nas livrarias e nas bibliotecas das escolas haja os clássicos portugueses em edições límpidas e seguras, baratas e agradáveis (experimentem procurar o Crisfal ou a Menina e Moça), que nas escolas os professores possam fazer clubes de recitação, haja concursos nacionais de recitação (com o “serviço público de televisão” ao lado); se forneça material de vídeo e se ensine a filmar, a montar um filme, a ir para além dos vídeos do YouTube, depois de se saber fazer vídeos para o YouTube; se forneçam os laboratórios das escolas para se poderem fazer experiências de física e química; se ensine a “ler” um quadro ou uma escultura, e, acima de tudo, que se ajude a curiosidade, mais do que as abstractas “metas” das disciplinas escolares. Estas atiram alunos, que nunca leram um livro, para os Maias do Eça, cujo vocabulário, metáforas, histórias mitológicas ou bíblicas desconhecem de todo, ou a aprender nomenclaturas gramaticais que são decoradas e esquecidas no dia seguinte, ou a atirar estudantes para Descartes e Kant (imaginem!) sem qualquer cultura geral seja do que for.

Querem comemorar os nossos mortos consagrados? Ajudem os vivos a percebê-los e não a colocá-los numa prateleira, receando que o que haja de subversivo na sua criação saia de lá e chegue à rua. O poder precisa de múmias e não de arte ou cultura, e, nestes dias, a indústria de mumificação está em pleno.» – Pacheco Pereira, no Público.

Manuel de Oliveira e a hipocrisia perante a morte dos artistasA morte dos artistas é a maior parte das vezes um momento...

Posted by Carlos MatosGomes on Sexta-feira, 3 de Abril de 2015

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Gostei de ler: "Crise do euro, crise do social-liberalismo"


«António Costa renunciou à presidência da Câmara Municipal de Lisboa para ocupar a tempo inteiro as funções de secretário-geral do PS. Não falta quem diga que a afirmação do partido nas sondagens foi prejudicada pelo atraso nesta decisão. Porém, há algo de mais profundo que escapa ao folclore dos noticiários, algo que liga episódios tão diversos como a pesada derrota do PS na Madeira, o descalabro do PS francês, o declínio do PSOE em Espanha e a crise do Partido Democrático italiano, para não falar do desaparecimento do PASOK na Grécia. Salta à vista que a crise da zona euro é também a crise da social-democracia europeia, na sua versão social-liberal, após Mitterrand ter substituído o socialismo democrático pelo europeísmo ordoliberal.

Antes de mais, o confronto entre o governo grego e a troika (agora “Grupo de Bruxelas”) clarificou os limites da tolerância dos nossos credores relativamente à política orçamental e não deixou dúvidas quanto ao que se deve entender por “reformas estruturais” a promover nos países da zona euro, sobretudo na periferia endividada. É relativamente às reformas no sistema de pensões e à legislação laboral que se trava um braço-de-ferro nas negociações com o governo grego, ao mesmo tempo que este é sufocado financeiramente pelo BCE. Qualquer que seja a escolha do governo liderado por Alexis Tsipras, ruptura ou capitulação, uma coisa é certa: a social-democracia europeia participou neste processo de chantagem sobre um governo com programa social-democrata que foi legitimado pelo voto para suspender as medidas de austeridade. Como há muito viu Dani Rodrik (“Greek Elections, Democracy, Political Trilemma, and all that”), a integração económico-financeira supranacional é incompatível com o exercício da democracia. António Costa sabe que não pode prometer aos portugueses outra política económica, ou sequer um modelo de desenvolvimento com alguma fundamentação realista. Os portugueses vão percebendo que afinal não há luz ao fundo do túnel, e isso vê-se nas sondagens.

Depois, mesmo que o impacto da saída da Grécia seja contido pela intervenção enérgica do BCE nos mercados financeiros, a sobrevivência da zona euro está longe de garantida. Com a proibição da política orçamental, mesmo com o desemprego ao nível da Grande Depressão, não há instrumentos de política económica que permitam enfrentar a gravíssima crise de procura produzida pelo fim do endividamento externo fácil da periferia. Antes de a crise de 2008 atingir a Europa, na ausência do risco de desvalorização com a adopção do euro, os spreads das taxas de juro quase desapareceram, pelo que o crédito dos países ricos se tornou muito acessível aos bancos dos países menos desenvolvidos. Por conseguinte, a financeirização das periferias foi obra conjunta de credores e devedores e, embora os bancos credores tenham até agora sido poupados aos prejuízos decorrentes dos elevados riscos que assumiram, isso não significa que os seus países consigam escapar aos efeitos da bancarrota que ajudaram a criar. António Costa e a sua equipa de economistas deviam meditar nestas palavras de Michael Pettis: “Depois de muitos anos a negar a insolvência, e muitos anos de promessas de que as reformas seriam implementadas e conduziriam a um crescimento suficiente para resolver o endividamento, os decisores políticos de países como Espanha serão forçados a mudar de posição ou serão demitidos pelo voto – simplesmente porque as condições económicas se terão deteriorado tão drasticamente que uma reestruturação não poderá ser adiada por mais tempo.” (“When do we decide that Europe must restructure much of its debt?”)

Assim, os partidos do social-liberalismo da periferia estão confrontados com um dilema vital: renegar a moeda única para recuperar a política económica da esquerda, ou desaparecer como corrente política relevante. Do meu ponto de vista, a ideologia social--liberal, e os interesses que envolvem estes partidos, impedem o reconhecimento do dilema tornando-os irreformáveis. Este é o drama da social-democracia europeísta.» – Jorge Bateira, no I.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

João Miguel Tavares: ainda chegas a deputado, meu




Coitadinho do João Miguel Tavares. O rapaz inquietou-se tanto ao confrontar-se com a constatação de que o desemprego real que existe actualmente em Portugal está quatro pontos percentuais acima daquele que se verificava nos Estados Unidos na maior depressão do século XX que, sem tema a que atirar-se nesta semana de Ramadão noticioso, decidiu convencer quem o lê de que é tudo mentira. Mentira porque, em primeiro lugar, quem dirige o Observatório que produziu o relatório que inquietou o nosso cientista social são Carvalho da Silva e Boaventura Sousa Santos. Toda a gente sabe que todo o cuidado é pouco com o que dizem comunistas, sindicalistas e malta de esquerda em geral. Mentira porque, segundo o nosso estudioso da obra de Karl Marx, nem mesmo a imaginação deste se lembraria de contabilizar aqueles desempregados desencorajados que deixam de se apresentar nos centros de emprego com a periodicidade necessária para serem contabilizados como tal pelas estatísticas oficiais, os desempregados ocupados pelos estágios que o nosso académico admite que falseiam as mesmas estatísticas, os desempregados que aliviaram a taxa de desemprego ao emigrarem e todos aqueles mais de 300 mil que contra a sua vontade não conseguem mais do que um emprego em part-time. Não nega que existem. E mentira porque, agora segundo o João Miguel humorista, a criticável metodologia CGTP que foi utilizada no estudo não contabiliza as categorias “activos infelizes”, “activos que não saíram do armário” “activos descontentes” e “activos sonhadores”, inexistências criadas e colocadas pelo nosso “analista” no mesmo patamar das existências que não foi capaz de negar para, de mãos na cabeça, concluir a sua cruzada contra a mentira vermelha a rogar que lhe assegurem, por amor de Deus, “que não é este o género de “ciência” que se anda a praticar nas universidades portuguesas. E, de caminho, jurem-me que nem um cêntimo dos meus impostos está a servir para pagar o Observatório sobre Crises e os fetiches ideológicos do senhor Boaventura.” Da minha parte, asseguro-lhe que não gasto nem um cêntimo para ler parolices como esta. E, de caminho, ainda lhe agradeço a visibilidade que deu aos temas desemprego real e colunistas colaboracionistas da casta que, a pretexto de uma emergência que ela própria criou, aproveitou para enriquecer tanto quanto empobreceu todos os demais. Eu hoje também estava um bocado sem tema para alimentar o meu burro.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Gostei de ler: "Tratados, leituras e subterfúgios"


«Em 2012, presumivelmente na ânsia de demonstrar responsabilidade orçamental perante a opinião pública - e assim validando implicitamente a leitura errada das raízes da crise proposta pela direita -, o Partido Socialista votou favoravelmente o Tratado Orçamental quando este foi levado à votação na Assembleia da República . É certo que o PS não acedeu então a viabilizar a consagração constitucional que a maioria PSD/CDS pretendia que a transposição do Tratado para o ordenamento jurídico português assumisse, forçando antes a opção pela figura da lei de valor reforçado. Mas não deixou de votar favoravelmente - e validar politicamente - o Tratado do qual já foi dito que ilegaliza o keynesianismo na Europa  e que constitui, no fundo, uma versão mais restritiva e punitiva do Pacto de Estabilidade e Crescimento (para além de um acto de vassalagem relativamente à Alemanha).

No essencial, o Tratado Orçamental institui a obrigação da austeridade para os países deficitários, a despeito da recessão em que estes possam encontrar-se e sem que sejam estabelecidas obrigações expansionistas simétricas para os países excedentários. É uma síntese perfeita de tudo o que está errado com a zona Euro: viés recessivo, ajustamento assimétrico entre devedores e credores, agenda de classe, restrição da margem de escolha política e tentativa vã de ocultar a inviabilidade fundamental sob sucessivas camadas de irreversibilidade. E é também um Tratado destinado a ser constantemente quebrado, dado o irrealismo das obrigações que impõe aos países deficitários (veja-se o historial de incumprimento desde a sua entrada em vigor ) - ainda que isso não o torne inofensivo, dada a forma como constrange os parâmetros do debate e das decisões políticas.

Desde então, porém, não têm sido poucas as ocasiões em que numerosos dirigentes socialistas têm procurado distanciar-se deste mesmo Tratado, apelando à chamada "leitura inteligente " do mesmo. Basicamente, o PS reconhece a iniquidade e inaplicabilidade do Tratado, mas faltou-lhe a coragem política para o assumir frontalmente no momento em que mais importava. Em alternativa, tem optado antes por refugiar-se numa posição que, para todos os efeitos, consiste em apelar a que se empreguem e institucionalizem excepções e subterfúgios diversos de modo a escapar o mais possível a aplicar um tratado... que o próprio PS votou favoravelmente.

A inconsistência e, diga-se com franqueza, tibieza do PS em relação a esta matéria tem contrastado com a dos partidos da maioria, cujo entusiasmo com o Tratado foi sempre consistente com um posicionamento pró-austeritário segundo o qual os défices são para cumprir custe o que custar  mas já as vidas são para salvar, mas não custe o que custar . A posição dos partidos da maioria - a insistência na imposição de uma política fiscal-orçamental pro-cíclica em contexto de recessão - é caduca em termos de teoria económica e nociva do ponto de vista social, mas ao menos é assumida de forma frontal e consistente.

Ou pelo menos era-o até agora. Pois qual não foi o meu espanto quando anteontem li que o governo português, pela pena do Secretario de Estado para os Assuntos Europeus Bruno Maçães, submeteu à Comissão Europeia  um documento de trabalho apelando a duas coisas que, no discurso da maioria, eram até agora anátema : transferências orçamentais contra-cíclicas, que neste documento assumem a forma da proposta de uma política comum de emprego que inclua um subsídio de desemprego europeu; e o apelo a uma leitura flexível das restrições orçamentais decorrentes dos tratados europeus. Em relação a esta última questão, na versão do documento veiculada pelo Público , propõe Maçães que na análise da situação orçamental de cada Estado-membro seja dado um "tratamento adequado" do ponto de vista orçamental aos custos e investimentos associados a reformas que esse Estado-membro tenha adoptado e que ajudem à convergência com a UE. Ou seja, excepções e subterfúgios que permitam escapar à aplicação de um tratado... que a maioria aprovou entusiasticamente.

Ninguém está impedido de mudar de opinião - particularmente quando a mudança é em sentido positivo. Mas há responsabilidades políticas que têm de ser assacadas a todos aqueles que, contra o bom senso económico e contra o interesse dos cidadãos portugueses e europeus, aprovaram e transpuseram para o ordenamento jurídico português um tratado que é fundamentalmente iníquo, para além de em grande medida inaplicável. Mais grave, um tratado que eles próprios sabem, como têm vindo a demonstrar, que é fundamentalmente iníquo e inaplicável. 

A maioria PSD-CDS e o PS fizeram-no apesar de terem sido na altura abundantemente alertados para essa mesma iniquidade quer pelos partidos que votaram contra, quer por um vasto conjunto de analistas nacionais e europeus. E neste momento histórico em que a frontalidade e a coragem são tão necessárias, continuam a persistir no caminho do subterfúgio e da submissão.» – Alexandre Abreu, no Expresso.

terça-feira, 31 de março de 2015

A maioria absoluta madeirense foi/tinha ido ao ar


Quando, no Domingo passado,  comentei os resultados das eleições regionais madeirenses, referi-me à ausência de surpresas. Mal sabia eu que a surpresa chegaria hoje. Após a recontagem dos votos e após se ter verificado que o que constava das actas das mesas de voto não era igual ao que foi comunicado ao Ministério da Administração Interna, a CDU elege mais um deputado, ou seja, o PSD perdeu a maioria absoluta que tinha conquistado com batota.





Actualização (mais surpresas): Pouco depois das 20h00, saía a primeira notícia: o PSD perdeu a maioria absoluta na Madeira e a CDU conquistava mais um deputado . Porquê? A assembleia de apuramento geral dos resultados eleitorais das regionais de domingo recontou os votos e o PSD ficava nesta altura com 23 e não os 24 deputados que garantiam a maioria absoluta celebrada no domingo. Em contrapartida, a CDU passava de dois para três deputados.

A mudança na atribuição de mandatos aconteceu, explicava-se na altura, por um engano numa das mesas de votos em Santa Cruz, onde se introduziu no domingo mais 100 votos ao PSD. Durante a assembleia de apuramento desta terça-feira, as atas foram revistas e foram contados votos de algumas mesas do Funchal, Santa Cruz e Ponta do Sol. A verificação mudou o resultado provisório de domingo à noite - a CDU saía a ganhar neste primeiro momento, o PSD nem por isso.

Depois, novo volte-face: pouco minutos antes das 22h00, o Expresso explicava que haveria recontagem dos votos . O juiz que preside à assembleia de apuramento dos resultados das eleições regionais da Madeira reconheceu que um erro no programa informático baralhou a atribuição de mandatos. O programa não contabilizou a votação do Porto Santo, fazendo as contas apenas com os resultados da Madeira.

Refeitas as contas, tudo igual a domingo: a maioria absoluta regressava ao PSD - é a 11ª consecutiva que o partido obtém na Madeira. Por sua vez, a CDU ficava com apenas dois deputados na Assembleia Regional. 

 O erro da primeira recontagem foi detetado já depois de o edital que anunciava a perda de maioria do PSD ter sido afixado e das declarações de vitória da CDU, que falava de um dia inesquecível para a Madeira  e para os madeirenses. Os sociais-democratas detetaram o erro relativo à votação no Porto Santos e alertaram o juiz da assembleia de apuramento, que reconheceu que os números não batiam certo.

Foi nessa altura que se percebeu que, ao fazer a distribuição de mandatos através do método de Hondt, o programa informático apenas assumia a votação da Madeira e deixava de fora o Porto Santo. A reviravolta voltou a dar a maioria absoluta ao PSD, que chegou a admitir recorrer para o Constitucional quando saiu a primeira notícia. Agora é a CDU que se prepara para recorrer - e pede a recontagem total dos votos. [Expresso]


Os bem intencionados


É sempre para o nosso bem. Quando há um atentado terrorista, são os big brothers adormecidos que despertam com a oportunidade de nos transformarem a todos em terroristas em potência para poderem angariar apoios para a concretização do sonho adiado de nos vigiarem cada movimento. Quando é um piloto de aviação com problemas psiquiátricos por si ocultados da entidade patronal a levar consigo para a morte 150 passageiros, tornam-nos pilotos kamikaze em potência, com toda a certeza tão cedo não aparecerá melhor oportunidade para finalmente conceder às entidades patronais a informação que contem o poder de contratar os mais saudáveis e suspender ou despedir os menos produtivos. O bastonário da Ordem dos Médicos admitiu ontem a criação de um mecanismo para as baixas serem comunicadas directamente à entidade patronal, sem que seja violado o segredo médico, nos casos que impliquem riscos para terceiros. Mas afinal que interesse teria essa informação nestas condições? Nenhum. O segredo médico é que lhe confere todo o interesse. E o que será lá isso de "riscos para terceiros"? Se incluir o risco de contágio de doenças infecciosas, em vez de avançarem também sobre o direito à privacidade, podiam começar por conceder o direito a estar doente aos portugueses que obrigam a levar os vírus e as bactérias aos colegas no local de trabalho se não quiserem perder o direito ao salário dos dias em que necessitarem de ficar em casa. O risco desaparece. Da mesma forma, o  direito à estabilidade no emprego, que inclui o direito a não ter medo de ser despedido por se estar com problemas psiquiátricos, se não fizesse desaparecer, pelo menos minimizaria o risco de um piloto com tendências suicidas se apresentar ao serviço para a seguir matar 150 pessoas. Se o objectivo fosse realmente minimizar o perigo e fazer a nossa civilização avançar no sentido correcto, era isto que estaria a ser debatido, mais direitos e não menos. Já nos restam tão poucos.