segunda-feira, 13 de abril de 2015
Casa arrombada
Casa arrombada, casa arrumada e
trancas à porta. A sequência na Islândia foi mais ou menos esta. Quando foram
convidados pela liga de amigos dos donos do mundo a pagar a delinquência
banqueira que fez desmoronar o sistema
financeiro do país, os islandeses souberam dizer não, correr com o FMI,
cancelar o pedido de adesão à União Europeia, engavetar banqueiros ladrões e
colocar na prateleira a classe política que tudo lhes permitiu da única forma
possível, substituindo-a por gente de
confiança que conseguiu pôr o país a crescer e está agora empenhada em retirar
aos bancos a bomba que fez tudo ir pelos ares: o
poder de criar dinheiro. Leio a notícia no mesmo dia em que leio uma outra
sobre um dos maiores devedores do BPN, Aprígio Santos, a quem uns chineses “safaram”.
O nosso Aprígio vai conseguir vender património que não lhe foi confiscado como
devia, a dívida que lhe corresponde fomos todos nós que a pagámos, e os
chineses que lho comprarem ganham o direito a um visto douradíssimo como prémio
por terem investido na liberdade de vender deste nosso proeminente empreendedor.
Casa arrombada, caso arrumado, investidores à porta. Um dia destes acordamos todos ricos.
Vagamente relacionado:
de acordo com o barómetro Aximage relativo a Abril
de 2015, o arco da austeridade (PSD, PS e CDS) continua a reunir 73,4% das intenções
de voto, quase 3 em cada 4 votos, 6,8% acima dos 66.6% necessários para alterar
a Constituição da República Portuguesa.
sábado, 11 de abril de 2015
Gostei de ler: "Tempos excepcionais II"
«1. (...) Desde 2002 e o euro, os
decisores económicos que, no PS e na direita, têm sido recrutados nessa porta
giratória aberta entre aparelhos partidários e grupos empresariais, têm
concretizado o que os neoliberais definiram como a sua missão histórica
essencial: acabar com qualquer correcção (Estado de Bem-Estar Social,
redistribuição de riqueza através da educação, da saúde e da segurança social
públicas) da desigualdade em que se baseia o capitalismo e reinstaurar o
direito do mais forte (o patrão, o capital) à dominação económica.
As crises não são capítulos de
livros de História. Elas afectam a grande maioria de nós porque dependemos do
nosso trabalho e da dignidade com que o desempenhamos. Rouba-se-nos o emprego,
o salário, a reforma, a casa, a saúde, a educação. Ofende-se-nos porque se nos
atribui uma culpa que não é nossa; humilha-se-nos porque se nos ameaça com mais
pobreza se nos rebelamos, quer-se amedrontar-nos.
2. Num ano de eleições como este,
a grande maioria dos portugueses quer sair deste pesadelo, deseja a mudança.
Muitos deles estão tão descrentes da eficácia do voto e do funcionamento da
democracia que não votarão sequer. Mas não nos enganemos: a ruptura política em
Portugal não se fará por via da abstenção, ou do voto branco e nulo, como
aconteceu nos últimos actos eleitorais (em 2011, 6% nas presidenciais, 4% nas
legislativas). O sistema aguenta bem abstenções e votos brancos; eles não
alteram em nada o funcionamento do sistema político, nem reduzem a sua
legitimidade formal (ainda que o façam moral e politicamente). Sistemas
políticos como o norte-americano ou o suíço aguentam-se com muito menos
participação eleitoral que aquela que se pratica em Portugal.
Desde que a crise se instalou no
nosso país, os eleitores portugueses passaram a castigar mais duramente cada
governo na eleição seguinte do que o fizeram no passado. Até 2011 não deixaram
de usar os dois jogadores do rotativismo para o fazer: o PS contra o PSD, o PSD
contra o PS. Ao fim de quatro eleições desde 2002, verificam, mais rapidamente
que no passado, que não têm conseguido mudança alguma. Muda o condutor, mas o
trajecto é o mesmo.
A grande maioria de quem votar,
não se duvide, vai querer castigar a direita de Passos e Portas como já o fez,
por muito menos, em 2005. A grande diferença é que o velho instrumento que
usavam – o PS – parece-lhes ainda menos fiável do que antes. Já em 2011, ele
próprio foi castigado por ter começado a mesma austeridade que a direita logo
veio agravar. Só quem acredita que os portugueses escolherão simplesmente entre
o mau e o menos mau acredita que o PS de Costa ganhará o apoio deste oceano de
descontentes e vencerá confortavelmente as eleições. 2015 não é 2005, muito
menos os anos 80 ou 90.
3. A mudança social e política
ocorre quando se consegue não deixar secar a indignação e quando a revolta se
junta à disponibilidade para discutir soluções com quem coloca os mesmos
problemas que nós sentimos. É verdade que ela não se faz só (e muitos pensam
que nem sequer prioritariamente) pela via eleitoral. Mas as eleições são uma
componente importante da mudança. Nas próximas, não é o PS que fará a
diferença, justamente porque não quer inverter o caminho que empreendeu, pela
mão de Constâncio, Guterres ou Sócrates, há muitos anos. O PS, como a
social-democracia europeia, até se distingue da direita no debate sobre o
aborto ou o casamento homossexual (ainda que tenha discriminado mais ainda na
adopção) – mas não é de hoje que desistiu de defender o mínimo de democracia
social que tínhamos desde o 25 de Abril e se passou para o campo do liberalismo
económico, entendendo que a riqueza das nações é produzida pelos patrões e não
pelos trabalhadores.
É por isto mesmo que a mudança
também não virá daqueles que têm alimentado esta mentira de que o PS não dança
à esquerda porque não tem par disponível. Quem deixou voluntariamente de estar
à esquerda não quer dançar com ela. É por isso que os novos pretendentes a
dançar com o PS não são nenhuma versão portuguesa do Podemos espanhol ou do
Syriza.
4. A mudança que mude a sério o
curso da nossa vida colectiva, emancipe o Estado da tutela de Bruxelas, do FMI
e dos grupos económicos que já sequestraram uma parte importante dos nossos
recursos, e retome o caminho da democracia social, só chegará se a esquerda que
nunca deixou de ser de esquerda e que se compromete a romper com a austeridade
reunir força política suficiente para obrigar à viragem. A tal ponto que seja
alternativa viável ao PS e à direita. Aqui como em Espanha, como na Grécia,
como em toda a Europa. Essa esquerda – a CDU e o Bloco, fundamentalmente – pode
continuar a apresentar-se separada às eleições, apesar de ter saído junta à rua
nas grandes manifestações dos últimos anos, partilhar militância sindical,
votar da mesma forma no Parlamento. Mas acho que já deveria ter percebido que,
dessa forma, limita a sua capacidade de atracção de muitos daqueles que querem
forçar a mudança mas que não acreditam que ela se faça no mesmo quadro político
que até agora tivemos.
Este deveria ser o momento para
discutir, abertamente e sem sectarismos, a cooperação entre quem, ao longo
destes anos, assegurou o enorme esforço de resistência à devastação social, mas
que, oferecendo em separado propostas coerentes e sem ambiguidades contra a
austeridade, arrisca-se muito a não conseguir transformar em votos a maioria da
mobilização cidadã destes anos. A memória das tensões vividas na resistência e
na Revolução é muito da identidade de comunistas e bloquistas – mas não é uma
memória vivida na primeira pessoa pela grande maioria dos seus activistas e dos
seus eleitores.
O Bloco nasceu cheio de
preconceitos políticos e culturais contra o PCP; uma grande parte dos
comunistas responde(u)-lhe na mesma moeda. Ao fim de 16 anos, e das tensões
internas por que os dois partidos passaram (o PCP em 2000-02, o BE em 2011-13),
a verdade é que se têm encontrado no mesmo lado da barricada. Em tempos excepcionais,
parece-me evidente que deveriam dar passos excepcionais. E mostrar a quem não
se resigna a que tudo fique na mesma que eles partilham um espaço comum onde,
no respeito da diversidade, se não trai a confiança. E que pode ser decisivo.»
– Manuel Loff, no Público.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
A casta, o mérito e o mérito da casta
O mérito, essa coisa que a casta faz
circular de boca em boca na vez da palavra panelinha. Ana Pinho foi escolhida
para vogal de uma entidade que gere fundos comunitários apesar da comissão que
o Governo criou alegadamente para moralizar as nomeações de dirigentes da Administração
Pública ter considerado que lhe faltava
experiência. O ministério de Poiares Maduro, que tutela o organismo,
argumenta que não foi posta em causa a “idoneidade e a competência da
candidata”. Também podiam dizer que não foi posto em causa que a Ana cheira mal
dos pés. Ou que mastiga de boca aberta e faz imenso barulho a comer. Há imensas
coisas que a CRESAP não disse nem tinha nada que dizer. Mas disse que não tem
experiência, nem mesmo como comissária política de nomeação pelo cartão
partidário, que a CRESAP não deveria mas contabiliza como “experiência”. É o que a CRESAP disse que conta, não o que não disse. A CRESAP chumbou-a, a seguir o Governo chumbou a
CRESAP e a seguir ninguém da CRESAP se
demitiu. Eles também estão ali a ganhar experiência para um dia, quem sabe, o
mérito da obediência lhes ser reconhecido para fazer chegar a sua vez de serem
lançados em voos um pouco mais altos. Com salário a condizer. A "experiência" da casta tem o mérito de saber remunerar-se de acordo com as especificidades próprias blablabla de cada situação.
Gostei de ler: "A estupidez como vocação"
«Surgiu há alguns anos uma nova
figura nos jornais que é a do cronista desenvolto e com a presunção de ser
inconveniente, mas que em vez de suscitar polémica consegue ganhar a ampla
reputação pública – sem que ninguém assome em sua defesa – de estúpido e
cretino. Esta categoria – e é dela que aqui falarei e não de qualquer das suas manifestações
específicas – é um achado, um verdadeiro ovo de colombo: avançando de rosto
descoberto ou mascarada de ousadia intelectual, a estupidez atrai, exerce um
fascínio a que é difícil resistir. Por isso, tem um vasto público garantido,
faz subir o rating das audiências. Além disso, deixa-nos completamente
desarmados porque é difícil e sempre pretensioso denunciá-la, como nos ensinou
Musil, numa conferência que pronunciou em Viena, em 1937, sobre essa magna e
universal questão que se tornou um tópico da modernidade, desde o Bouvard et
Pécuchet, de Flaubert. A dificuldade em nomeá-la reside na armadilha inevitável
que nos lança: não podemos falar dela e analisá-la sem uma presunção de
inteligência. E a presunção de inteligência é, como sabemos, uma prova de
estupidez inelutável. Ainda assim, conscientes de que ainda só vamos no
primeiro parágrafo e já caímos na armadilha fatal, avancemos. Mas não sem antes
formular uma outra fatal contradição a que este texto sucumbe, mesmo sem nomear
ninguém e procurar deter-se numa categoria: a contestação e a risota de que é
alvo o cronista estúpido e cretino são a garantia do seu sucesso e
asseguram-lhe longa sobrevivência. Ele assumiu a missão de restaurar com grande
aparato a função-autor, até ao ponto de lhe dar a feição demagógica de um
estilo, já que a exibição de um estilo é sempre o triunfo de traços demagógicos
e de um sujeito insolente, vazio e muito vaidoso. Como é sabido, a estupidez
tem uma relação estreita com a vaidade. E o idiota, como evidencia claramente a
etimologia do termo, polariza-se de maneira obsessiva sobre o seu Eu e confere
um privilégio desmesurado ao seu ponto de vista. Estes “autores” não dizem nada
sem que se intrometa o Eu, indiferentes à regra que diz: quanto mais o sujeito
da enunciação atribui a si próprio uma enorme importância, mais os seus
enunciados são vazios. Muitas vezes pretendem ter a coragem do desafio
intelectual, mas o que são de facto é alarves, sem filtro e sem distância
crítica. Chegam a reivindicar a condição de resistentes, de nadarem contra a
maré, mas tudo neles é adesão mimética e acrítica a uma ideologia espontânea,
colagem à estupidez ambiental, incapacidade de saírem de si mesmos. A linguagem
da idiotia sustenta-se na ilusão de que equivale a um pensamento autónomo e
suficiente. E serve o empreendimento do marketing intelectual. Quando acha
conveniente defender-se, o idiota entra no jogo da martirologia. Esse é um dos
papéis que ele, clown de serviço, gosta de representar. Nessa função, ele repete
com frequência uma tirada que é o exemplo mais estúpido de contradição
performativa : “Vou ser politicamente incorrecto”. E o que se segue é
geralmente a mais correcta alarvidade. Traduzida numa categoria estética, a
estupidez destes cronistas é um grandioso empreendimento do Kitsch, triunfo da
imanência que nos dispensa a experiência da distância e suprime todo o
obstáculo à adequação imanentista. Esta forma de estupidez, que só quem se
subtraiu a este mundo não reconhece facilmente, é a manifestação estética e
moral de uma presença que nos é familiar e assume mesmo a missão de estabelecer
com os leitores uma relação de familiaridade, à maneira de uma conversa de
tagarelas.» – António Guerreiro, no Público.
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Ai aguentam, aguentam
Alegadamente para equilibrar
contas públicas impossíveis de equilibrar cortando rendimentos do trabalho que
originam quase 4 em cada 5 euros de toda a receita fiscal e são o motor da economia,
oficialmente para reduzir uma dívida que, também por essa razão, aumentou como
nunca antes havia aumentado e objectivamente para recapitalizar bancos falidos
pela delinquência das suas administrações, ao mesmo tempo que foram sendo objecto do maior assalto fiscal de todos os tempos, os salários e as pensões de reforma
dos portugueses foram sendo sucessivamente cortados nestes últimos quatro anos.
Os moralistas convenceram os portugueses que seria assim que salvaríamos o país
e, por sua vez, a economia teve quatro anos para demonstrar aos portugueses que
não quer saber de moralismos para nada. E hoje é a vez desse mesmo moralismo se
rir dos portugueses que enganou com exemplos carregadinhos dele próprio, moralismo – “vivemos acima das nossas possibilidades”,
e reaver o que investiu na trapaça que quase todos comeram: ficámos a saber que
o
BPI repôs os salários e devolveu integralmente os cortes salariais aos
administradores alvo de reduções de rendimentos no âmbito do empréstimo do
Estado que vigorou entre o segundo semestre de 2012 e o primeiro semestre
de 2014, como também e sobretudo que estas reposições estavam previstas desde o
início. O leitor ainda se lembra quanto ganhava em Abril de 2011? Consulte a sua
declaração de rendimentos desse ano e compare-a com a de 2014. Multiplique a diferença
que encontrar por 5, 10, 20 anos de austeridade que todos temos à nossa frente se
não soubermos correr com ela. A seguir deverá usar de todas as suas forças para
acreditar que nunca mais sofrerá cortes salariais e que o desemprego é monstro que
só bate à porta dos outros e, assim convocadas todas as "energias positivas" do universo, poderá escrever o valor a que chegar num papelinho,
colocá-lo numa mesa à sua frente, olhá-lo carinhosamente e dizer-lhe na sua voz
mais ternurenta: és um moralista de merda.
[editado]
[editado]
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Gostei de ler: "Esqueçam o Robinson Crusoé"
Às vezes metem-se comigo a seguir
a saberem que estudei economia. Quase sempre salta a acusação de a culpa disto
estar como está ser dos economistas. E eu acabo por concordar: de CERTOS
economistas, é verdade, porque a disciplina que estuda como funciona a economia
também retrocedeu. Hoje é Quarta-feira, é dia de Alexandre Abreu no Expresso. O
artigo de hoje explica o retrocesso a que aludi atrás, como os neoliberais se desembaraçaram
de variáveis incómodas como o desemprego involuntário, as desigualdades, o
rendimento das famílias que pode ser constantemente comido para engordar lucros
porque o consumo deixou de ser o motor de uma economia ficcionada onde,
imagine-se, a oferta gera a sua própria procura (é exactamente ao contrário, a procura comanda
a oferta). De simplificação em simplificação, de delírio em delírio, os
"economistas"vão dando cabo disto tudo em confronto permanente com
uma realidade que não casa com as suas
teorias ou porque ainda não casa, ou porque as "reformas estruturais"
foram demasiado brandas ou, sei lá eu, talvez até por mero e manifesto...
azarito. Mas azarito sempre dos mesmos, convém sublinhá-lo. A economia deles funciona às mil maravilhas do lado dos que têm sempre "sorte".

Existe uma abordagem muito comum,
aliás dominante, à análise e ensino dos fenómenos económicos que assenta na
modelização dos problemas à escala individual e posterior generalização para a
escala da sociedade. Por outras palavras, que assenta na redução dos fenómenos
económicos - que são intrinsecamente sociais - a fenómenos individuais em
condições simplificadas, a fim de deduzir conclusões que são depois
extrapoladas novamente para a escala da sociedade como um todo.
A chamada economia de Robinson
Crusoé constitui um exemplo
paradigmático deste tipo de abordagem. Nesta experiência conceptual, Robinson
está só na ilha deserta e tem de optar por dedicar o seu tempo ao lazer ou à recolha
dos cocos de que depende a sua sobrevivência - problema típico da teoria
neoclássica do consumidor, nomeadamente quando se assume adicionalmente que
Robinson é perfeitamente racional e que as suas preferências são dadas à
partida.
Através de pequenas alterações de
perspectiva ou modificações ao modelo, a mesma abordagem permite modelizar
também o comportamento de Robinson enquanto produtor de bens alternativos (de cocos
ou peixes, por exemplo) ou introduzir a possibilidade da troca (com um
Sexta-feira igualmente racional e auto-interessado). Em todos os casos, a ideia
subjacente é que as conclusões que retiramos por dedução a partir destes
modelos hiper-simplificados da realidade constituem uma forma adequada - a
forma mais adequada - de compreendermos como, na sociedade como um todo, se organizam
as questões da produção, do consumo e da troca.
É uma abordagem típica das
correntes clássica, neoclássica e austríaca da economia e, em termos mais
gerais, designa-se por "individualismo metodológico": o requisito de
que as explicações causais dos fenómenos sociais assentem nas acções,
motivações e preferências dos indivíduos. Não precisa de envolver cocos e ilhas
desertas. Noutros exemplos populares, temos o padeiro e o merceeiro como
produtores únicos de uma aldeia imaginária, ou o família e os seus membros como
representação da sociedade. Ou ainda, nas versões mais austeras utilizadas em
contexto académico, modelos povoados por "agentes representativos"
com as suas funções de utilidade ou produção.
Efectivamente, um dos
desenvolvimentos mais relevantes na macroeconomia nas últimas três ou quatro
décadas foi a generalização da exigência de que os modelos macroeconómicos
assentem em microfundações deste tipo. Não era esse o caso anteriormente: para
a economia dominante das décadas anteriores, a macroeconomia ocupava-se com
entidades (agregados, como o Consumo ou o Investimento totais) que obedeciam a
uma lógica própria e distinta do que se passava na esfera micro dos indivíduos.
Havia uma descontinuidade fundamental entre os níveis micro e macro da
economia, mas isso não era considerado preocupante. Da década de 1970 em
diante, porém, o individualismo metodológico estendeu o seu predomínio à
macroeconomia, impondo, como requisito para que as explicações macroeconómicas
(neoclássicas ou neo-keynesianas, tanto faz) sejam consideradas respeitáveis,
que estas assentem em microfundações - preferências e acções de agentes
representativos.
Esta evolução da macroeconomia é
muitas vezes apresentada como um passo no sentido do rigor, da consistência
lógica e da cientificidade. Na realidade, porém, constitui um retrocesso. E o
motivo é relativamente fácil de explicar. O problema não reside no recurso a
modelos: toda a ciência recorre a representações simplificadas da realidade,
todo o pensamento científico abstrai de circunstâncias particulares na
formulação de explicações gerais. O problema surge, porém, quando essas
simplificação e abstracção implicam descartar aspectos essenciais do fenómeno
que se pretende explicar. E é isso mesmo que sucede quando se salta para a
escala individual em busca de explicações para fenómenos intrinsecamente
sociais: descartam-se factores e propriedades que se manifestam à escala social
sem que sejam (facilmente) detectáveis ou teorizáveis à escala dos indivíduos.
Nas microeconomias de ilha
deserta compostas por um único náufrago plenamente racional, não existe
desemprego involuntário - mas nas economias reais este existe e é um problema
central. Nas aldeias imaginárias que contam com apenas um padeiro e um
merceeiro perfeitamente racionais e informados, o aumento da massa monetária
apenas aumenta o preço dos produtos e não o volume da produção - mas nas
economias reais a política monetária tem (em circunstâncias normais) efeitos
reais sobre o produto. Nas experiências conceptuais hiper-simplificadas, não
existe história ou relações de poder - mas nas economias reais estes são
fundamentais para a compreensão de tudo o que se passa.
E isto nada deveria ter de
espantoso. A existência de propriedades emergentes associadas à mudança de
escala é uma característica geral do mundo que nos rodeia. Todos os fenómenos
biológicos são, em última instância, fenómenos químicos e físicos, mas não faz
sentido explicar a reprodução ou o envelhecimento com base em teorias assentes
no comportamento de protões e electrões. Da mesma forma, todos os fenómenos
sociais e económicos assentam ontologicamente em indivíduos, mas procurar, no
plano metodológico, compreendê-los ou explicá-los enquanto tal é, mais do que
uma perda de tempo, uma contribuição para o obscurantismo.
É um obscurantismo típico das
ciências que estão ainda na sua infância. À medida que amadurecer, a Economia
não deixará de superar a sua fase Robinson Crusoé.» – Alexandre Abreu, no Expresso.
terça-feira, 7 de abril de 2015
Adeus
Eles vão caindo um a um. Agora demitiu-se
o
mandarete que Nuno Crato pôs a desmantelar a investigação científica que se fazia
em Portugal. Desta vez, lá calhou, a justificação não foi o erro informático
da ordem. Mas também voltou a não ser a parcela irreparável de destruição do país
que lhe coube administrar.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
O centrão está de parabéns
Apodrece o público, prospera o
privado. Os indicadores sobre Saúde publicados pelo Instituto Nacional de
Estatística (INE) nesta segunda-feira, véspera do Dia Mundial da Saúde, atestam
bem o excelente trabalho que os sucessivos Governos PSD e PS vêm desenvolvendo
desde 2002 a favor de um negócio que cresce ao ritmo que os fazedores de tão
notável prosperidade não conseguiram imprimir à restante economia. A título
de exemplo, em apenas onze anos, o número de atendimentos nas urgências
quase duplicou no sector privado, de 460 para 900 mil, e as consultas externas
mais do que triplicaram. No público, a tendência foi a inversa. Nos dez anos
entre 2002 a 2012, o universo dos centros de saúde ficou reduzido, passando de 391 para 387. Mais drástica ainda foi
a redução do número de centros de saúde com serviço de urgência básica (SUB) ou
serviço de atendimento permanente ou prolongado (SAP): dos 276 existentes em
2002 apenas existem 94 actualmente. Óptimo para o negócio. O peso relativo dos
privados no total de consultas externas cresceu em apenas onze anos de 16,5%
para 29%. O centrão está de parabéns. Já agora, obrigado, portugueses. Os políticos
não caem do céu.
domingo, 5 de abril de 2015
Gostei de ler: "A minha cara metade"
«Há uma pandemia mundial em curso
de narcisismo. Narcisismo não é vaidade. Um narcísico pode até ser discreto,
calado e vestido de cinzento. Mas é uma pandemia insuportável. É o tipo que
chega a uma reunião com mais 30 e pede para a próxima reunião ser mudada porque
“ele tem uma consulta médica” – o que era o mundo sem ele!; é a mãe que diz com
orgulho “o meu filho não faz nada sem mim” – um anormal portanto!; é o filho
que quando a mãe lhe coloca a comida na mesa diz com esgar “não gosto nada
disto” – tempos houve, os quais saúdo conservadoramente, que o tipo dizia
“obrigada por teres feito o jantar querida mãe (mesmo que não gostasse)”; é o
tipo que entra num sindicato e na primeira discordância, sem ter mexido uma
palha, sai, e é o sindicalista que acha que é dono das decisões da organização;
é o que entra numa associação e “esquece-se” mensalmente e sempre de pagar a
quota – o financiamento colectivo que se lixe!; é o que estaciona em cima do
passeio, o que atravessa um bairro a 50 km hora porque ele está atrasado para o
trabalho e a criança que está a jogar à
bola está a “atrapalhá-lo” – não é o seu filho porque ia ele preocupar-se!?; é
a professora que despacha o trabalho dela para os alunos e os pais destes
fazerem em casa; e são os pais que entram numa escola a gritar com a
professora, sem sequer lhe perguntar o
que se passou. Todos estes comportamentos têm em comum o desenvolvimento
incipiente do superego, do não saber estar na pele do outro, do não querer
estar na pele do outro – o outro, diria um humorista, “nunca ouvi falar desse”.
É um comportamento para-sociopata, de gente que não consegue sair de si e acha
que os outros são instrumentais ao seu bem-estar. É uma esmagadora ausência de resistência à
frustração, um imediatismo de prazer quase animal (não socializado, portanto).
Não sei, com sinceridade, a
origem destes comportamentos. Não é a era da selfie porque isto é sério e não é
vaidade ou gala – não falamos do vestido bonito da menina mas de um
comportamento social profundo que ignora a existência colectiva. Família protectora,
Estado social dominante que desmobilizou politicamente as pessoas, que as fez
precisar menos umas das outras, filhos únicos em sociedades urbanizadas. Não
sei… Mas sei que é impressionante.
Todos os dias recebo cartas com
assuntos importantes. Muitos dos quais agradeço que o façam, reencaminho para
onde sei, incluindo para resolução de conflitos laborais ou questões
científicas, de trabalho. Mas todos os dias me escrevem também pessoas que me
dizem o seguinte: «concordo com tudo o que escreveu até hoje (tudo…desconfio
logo…) menos com o que escreveu hoje. Estou muito desiludido». Muito? É quase
uma carta de fim de relação amorosa. Está tudo acabado entre nós! Não ocorreu a
estas pessoas perguntar se eu, que passo metade do meu tempo em regime de voluntariado
público, preciso de ajuda…Mas ocorreu-lhes escrever-me uma longa carta em que
me explicam porque eu deixei de ser a sua cara-metade. O fim do namoro, da
inaceitável traição, não é uma exclusividade minha. De vez em quando vejo na
Internet uma pessoa pública querida que comentou que não gosta de gatos e
milhares de pessoas escrevem-lhe, não raras vezes com ofensas, dizendo que
estão “profundamente decepcionadas”. Outro escritor adorado que escreve uma
piada de humor negro e é bombardeado com um “nunca mais compro os seus livros”.
Imagino que namorar estes seres é pior do entrar para as SS. Começa-se o dia a
marchar de manhã ao som das ideias inquebrantáveis destes bebés grandes.
Afinal, ou estamos com eles ou contra eles!
Fica aqui a minha opinião de leiga.
Não existe a cara-metade de ninguém. Nem no amor, nem política, nem na ciência,
na culinária, no estado do tempo. Eu, por exemplo, amo algumas pessoas que
votam no PS e acham que isto com o Costa vai lá…Vou continuar a amá-los e até
lhes vou dar um abraço apertado quando o Costa for para lá fazer o mesmo que o
Passos Coelho e eles ficarem deprimidos. Vou convidá-los para jantar e vamos
rir-nos, como sempre nos rimos quando estamos juntos.
Piadas sérias à parte, o tema é
grave. Os outros não são o preenchimento do nosso vazio, as relações são
relações, de discordância, de debate, de diferença. O mundo está difícil. É
aliás um barco a caminho do precipício, onde há uns tipos no convés e a maioria
no porão. Mas desengane-se quem acha que vai ficar à tona – olhem para
1939-1945! Todos nos vamos afundar se não reagirmos organizadamente. Mas para
reagir organizadamente temos que ser livres, e só há liberdade na diferença, na
discordância, temos que re-aprender a viver com os outros na sua complexidade,
na sua surpresa, e sobretudo com aquilo que é distinto de nós. Não precisamos
de caras metades. Precisamos de gente inteira.» – Raquel
Varela.
sábado, 4 de abril de 2015
Gostei de ler: "A consagração dos mortos pela hipocrisia dos vivos"
«Não há tão bom revelador do que
é a elite portuguesa como a maneira como trata os mortos que entende serem
“seus”. O festival de hipocrisia que avassala Portugal sempre que morre um
consagrado “consensual” revela as nossas enormes fragilidades no espaço público,
e uma mistura de reverência oca, de ignorância, de imenso provincianismo e de
uma ritualização pobre e subdesenvolvida. E aqui os media e o poder político
vivem em simbiose total. (...)
Herberto Helder é um completo
desconhecido, pelo povo e pela maioria das nossas elites, que agora aparecem
todas como íntimas de um poeta singular e difícil, que nunca leram e sobre o
qual disseram não só as maiores banalidades, como enormidades. Manoel de
Oliveira, que chegava ao povo mais por ter 106 anos do que pela sua obra, era
“conhecido” por ser autor de filmes intragáveis, que ninguém via até o fim, ou
sequer até ao principio, e gozado por filmar horas de filme em que nada
acontecia ou por fazer fotografia e não cinema. Fazia parte de um certo
anedotário que servia para mostrar desprezo pela cultura e pelos intelectuais,
ou então, no extremo oposto, como um génio intocável, que em tudo o que mexia
produzia arte intangível na sua grandeza absoluta. Estas duas atitudes são
aliás mais próximas do que se imagina, porque criam um ecrã sobre a obra que
dificulta um julgamento equilibrado e o exercício crítico. (...)
Tudo isto se passa num dos
momentos em que a nossa elite política no poder mais afastada está de qualquer
preocupação intelectual e, com algumas raras excepções, com elevados níveis de
ignorância sobre qualquer matéria desta natureza. Por isso é que se agarram ao
discurso pomposo da comemoração necrológica, que lhes dá uma espécie de álibi
cultural que, de outra maneira, não poderiam ter. Quanto mais ignorantes, mais
comemorativos, podia ser um axioma dos nossos dias.
O problema não está apenas na
parte do dinheiro que vai para a “cultura”, questão que nunca considerei ser
uma questão de cultura mas de “política de espírito”, ou seja, a propaganda
moderna que os Estados e os governos fazem usando a intangibilidade das artes e
da literatura para se promoverem ou aos seus chefes. (...) Temos muito
património a esboroar-se, muito património a vender-se mais ou menos às claras
no estrangeiro, muita educação para as artes, quando existe, no mesmo estado
degradado do Conservatório, e mesmo uma “indústria cultural” muito para além da
Joana Vasconcelos, que se “vende” bem.
Se se quer ajudar as pessoas a
compreender o valor de Oliveira ou Herberto Helder, ou melhor ainda, a serem
“tocados” pelas suas obras, naquilo em que a criação nos muda, troco dias de
mensagens, votos de pesar, funerais nacionais (e agora até a obrigação de
colocar os corpos no Panteão...) e luto oficial, por medidas minimalistas que
ajudem a que se conheça a poesia portuguesa ou o cinema nacional.
Seja fazer com que nas livrarias
e nas bibliotecas das escolas haja os clássicos portugueses em edições límpidas
e seguras, baratas e agradáveis (experimentem procurar o Crisfal ou a Menina e
Moça), que nas escolas os professores possam fazer clubes de recitação, haja
concursos nacionais de recitação (com o “serviço público de televisão” ao
lado); se forneça material de vídeo e se ensine a filmar, a montar um filme, a
ir para além dos vídeos do YouTube, depois de se saber fazer vídeos para o
YouTube; se forneçam os laboratórios das escolas para se poderem fazer
experiências de física e química; se ensine a “ler” um quadro ou uma escultura,
e, acima de tudo, que se ajude a curiosidade, mais do que as abstractas “metas”
das disciplinas escolares. Estas atiram alunos, que nunca leram um livro, para
os Maias do Eça, cujo vocabulário, metáforas, histórias mitológicas ou bíblicas
desconhecem de todo, ou a aprender nomenclaturas gramaticais que são decoradas
e esquecidas no dia seguinte, ou a atirar estudantes para Descartes e Kant
(imaginem!) sem qualquer cultura geral seja do que for.
Querem comemorar os nossos mortos
consagrados? Ajudem os vivos a percebê-los e não a colocá-los numa prateleira,
receando que o que haja de subversivo na sua criação saia de lá e chegue à rua.
O poder precisa de múmias e não de arte ou cultura, e, nestes dias, a indústria
de mumificação está em pleno.» – Pacheco Pereira, no Público.
Manuel de Oliveira e a hipocrisia perante a morte dos artistasA morte dos artistas é a maior parte das vezes um momento...
Posted by Carlos MatosGomes on Sexta-feira, 3 de Abril de 2015
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Gostei de ler: "Crise do euro, crise do social-liberalismo"
«António Costa renunciou à
presidência da Câmara Municipal de Lisboa para ocupar a tempo inteiro as
funções de secretário-geral do PS. Não falta quem diga que a afirmação do
partido nas sondagens foi prejudicada pelo atraso nesta decisão. Porém, há algo
de mais profundo que escapa ao folclore dos noticiários, algo que liga
episódios tão diversos como a pesada derrota do PS na Madeira, o descalabro do
PS francês, o declínio do PSOE em Espanha e a crise do Partido Democrático
italiano, para não falar do desaparecimento do PASOK na Grécia. Salta à vista
que a crise da zona euro é também a crise da social-democracia europeia, na sua
versão social-liberal, após Mitterrand ter substituído o socialismo democrático
pelo europeísmo ordoliberal.
Antes de mais, o confronto entre
o governo grego e a troika (agora “Grupo de Bruxelas”) clarificou os limites da
tolerância dos nossos credores relativamente à política orçamental e não deixou
dúvidas quanto ao que se deve entender por “reformas estruturais” a promover
nos países da zona euro, sobretudo na periferia endividada. É relativamente às
reformas no sistema de pensões e à legislação laboral que se trava um
braço-de-ferro nas negociações com o governo grego, ao mesmo tempo que este é
sufocado financeiramente pelo BCE. Qualquer que seja a escolha do governo
liderado por Alexis Tsipras, ruptura ou capitulação, uma coisa é certa: a
social-democracia europeia participou neste processo de chantagem sobre um
governo com programa social-democrata que foi legitimado pelo voto para
suspender as medidas de austeridade. Como há muito viu Dani Rodrik (“Greek
Elections, Democracy, Political Trilemma, and all that”), a integração
económico-financeira supranacional é incompatível com o exercício da
democracia. António Costa sabe que não pode prometer aos portugueses outra
política económica, ou sequer um modelo de desenvolvimento com alguma
fundamentação realista. Os portugueses vão percebendo que afinal não há luz ao
fundo do túnel, e isso vê-se nas sondagens.
Depois, mesmo que o impacto da
saída da Grécia seja contido pela intervenção enérgica do BCE nos mercados
financeiros, a sobrevivência da zona euro está longe de garantida. Com a
proibição da política orçamental, mesmo com o desemprego ao nível da Grande Depressão,
não há instrumentos de política económica que permitam enfrentar a gravíssima
crise de procura produzida pelo fim do endividamento externo fácil da
periferia. Antes de a crise de 2008 atingir a Europa, na ausência do risco de
desvalorização com a adopção do euro, os spreads das taxas de juro quase
desapareceram, pelo que o crédito dos países ricos se tornou muito acessível
aos bancos dos países menos desenvolvidos. Por conseguinte, a financeirização
das periferias foi obra conjunta de credores e devedores e, embora os bancos
credores tenham até agora sido poupados aos prejuízos decorrentes dos elevados
riscos que assumiram, isso não significa que os seus países consigam escapar
aos efeitos da bancarrota que ajudaram a criar. António Costa e a sua equipa de
economistas deviam meditar nestas palavras de Michael Pettis: “Depois de muitos
anos a negar a insolvência, e muitos anos de promessas de que as reformas
seriam implementadas e conduziriam a um crescimento suficiente para resolver o
endividamento, os decisores políticos de países como Espanha serão forçados a
mudar de posição ou serão demitidos pelo voto – simplesmente porque as
condições económicas se terão deteriorado tão drasticamente que uma
reestruturação não poderá ser adiada por mais tempo.” (“When do we decide that
Europe must restructure much of its debt?”)
Assim, os partidos do
social-liberalismo da periferia estão confrontados com um dilema vital: renegar
a moeda única para recuperar a política económica da esquerda, ou desaparecer
como corrente política relevante. Do meu ponto de vista, a ideologia
social--liberal, e os interesses que envolvem estes partidos, impedem o
reconhecimento do dilema tornando-os irreformáveis. Este é o drama da
social-democracia europeísta.» – Jorge Bateira, no
I.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
João Miguel Tavares: ainda chegas a deputado, meu
Coitadinho do João
Miguel Tavares. O rapaz inquietou-se tanto ao confrontar-se com a
constatação de que o desemprego real que existe actualmente em Portugal está
quatro pontos percentuais acima daquele que se verificava nos Estados Unidos na
maior depressão do século XX que, sem tema a que atirar-se nesta semana de Ramadão
noticioso, decidiu convencer quem o lê de que é tudo mentira. Mentira porque,
em primeiro lugar, quem dirige o Observatório que produziu o relatório que
inquietou o nosso cientista social são Carvalho da Silva e Boaventura Sousa
Santos. Toda a gente sabe que todo o cuidado é pouco com o que dizem
comunistas, sindicalistas e malta de esquerda em geral. Mentira porque,
segundo o nosso estudioso da obra de Karl Marx, nem mesmo a imaginação deste se
lembraria de contabilizar aqueles desempregados desencorajados que deixam de se
apresentar nos centros de emprego com a periodicidade necessária para serem
contabilizados como tal pelas estatísticas oficiais, os desempregados ocupados
pelos estágios que o nosso académico admite que falseiam as mesmas
estatísticas, os desempregados que aliviaram a taxa de desemprego ao emigrarem
e todos aqueles mais de 300 mil que contra a sua vontade não conseguem mais do
que um emprego em
part-time. Não nega que existem. E mentira porque, agora
segundo o João Miguel humorista, a criticável metodologia CGTP que foi
utilizada no estudo não contabiliza as categorias “activos infelizes”, “activos
que não saíram do armário” “activos descontentes” e “activos sonhadores”,
inexistências criadas e colocadas pelo nosso “analista” no mesmo patamar das
existências que não foi capaz de negar para, de mãos na cabeça, concluir a sua cruzada
contra a mentira vermelha a rogar que lhe assegurem, por amor de Deus, “que
não é este o género de “ciência” que se anda a praticar nas universidades
portuguesas. E, de caminho, jurem-me que nem um cêntimo dos meus impostos está
a servir para pagar o Observatório sobre Crises e os fetiches ideológicos do
senhor Boaventura.” Da minha parte, asseguro-lhe que não gasto nem um cêntimo
para ler parolices como esta. E, de caminho, ainda lhe agradeço a visibilidade que
deu aos temas desemprego real e colunistas colaboracionistas da casta que, a pretexto
de uma emergência que ela própria criou, aproveitou para enriquecer tanto quanto
empobreceu todos os demais. Eu hoje também estava um bocado sem tema para alimentar o meu burro.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
Gostei de ler: "Tratados, leituras e subterfúgios"
«Em 2012, presumivelmente na
ânsia de demonstrar responsabilidade orçamental perante a opinião pública - e
assim validando implicitamente a leitura errada das raízes da crise proposta
pela direita -, o
Partido Socialista votou favoravelmente o Tratado Orçamental quando este
foi levado à votação na Assembleia da República . É certo que o PS não acedeu
então a viabilizar a consagração constitucional que a maioria PSD/CDS pretendia
que a transposição do Tratado para o ordenamento jurídico português assumisse,
forçando antes a opção pela figura da lei de valor reforçado. Mas não deixou de
votar favoravelmente - e validar politicamente - o Tratado do qual já foi dito
que ilegaliza
o keynesianismo na Europa e que
constitui, no fundo, uma versão mais restritiva e punitiva do Pacto de
Estabilidade e Crescimento (para além de um acto de vassalagem relativamente à
Alemanha).
No essencial, o Tratado
Orçamental institui a obrigação da austeridade para os países deficitários, a
despeito da recessão em que estes possam encontrar-se e sem que sejam
estabelecidas obrigações expansionistas simétricas para os países
excedentários. É uma síntese perfeita de tudo o que está errado com a zona
Euro: viés recessivo, ajustamento assimétrico entre devedores e credores,
agenda de classe, restrição da margem de escolha política e tentativa vã de
ocultar a inviabilidade fundamental sob sucessivas camadas de
irreversibilidade. E é também um Tratado destinado a ser constantemente
quebrado, dado o irrealismo das obrigações que impõe aos países deficitários
(veja-se o
historial de incumprimento desde a sua entrada em vigor ) - ainda que isso
não o torne inofensivo, dada a forma como constrange os parâmetros do debate e
das decisões políticas.
Desde então, porém, não têm sido
poucas as ocasiões em que numerosos dirigentes socialistas têm procurado
distanciar-se deste mesmo Tratado, apelando à chamada "leitura
inteligente " do mesmo. Basicamente, o PS reconhece a iniquidade e
inaplicabilidade do Tratado, mas faltou-lhe a coragem política para o assumir
frontalmente no momento em que mais importava. Em alternativa, tem optado antes
por refugiar-se numa posição que, para todos os efeitos, consiste em apelar a
que se empreguem e institucionalizem excepções e subterfúgios diversos de modo
a escapar o mais possível a aplicar um tratado... que o próprio PS votou
favoravelmente.
A inconsistência e, diga-se com
franqueza, tibieza do PS em relação a esta matéria tem contrastado com a dos
partidos da maioria, cujo entusiasmo com o Tratado foi sempre consistente com
um posicionamento pró-austeritário segundo o qual os
défices são para cumprir custe o que custar
mas já as
vidas são para salvar, mas não custe o que custar . A posição dos partidos
da maioria - a insistência na imposição de uma política fiscal-orçamental
pro-cíclica em contexto de recessão - é caduca em termos de teoria económica e
nociva do ponto de vista social, mas ao menos é assumida de forma frontal e
consistente.
Ou pelo menos era-o até agora.
Pois qual não foi o meu espanto quando anteontem li que o governo português,
pela pena do Secretario de Estado para os Assuntos Europeus Bruno Maçães, submeteu
à Comissão Europeia um documento de
trabalho apelando a duas coisas que, no discurso da maioria, eram até agora anátema
: transferências orçamentais contra-cíclicas, que neste documento assumem a
forma da proposta de uma política comum de emprego que inclua um subsídio de
desemprego europeu; e o apelo a uma leitura flexível das restrições orçamentais
decorrentes dos tratados europeus. Em relação a esta última questão, na
versão do documento veiculada pelo Público , propõe Maçães que na análise
da situação orçamental de cada Estado-membro seja dado um "tratamento
adequado" do ponto de vista orçamental aos custos e investimentos
associados a reformas que esse Estado-membro tenha adoptado e que ajudem à
convergência com a UE. Ou seja, excepções e subterfúgios que permitam escapar à
aplicação de um tratado... que a maioria aprovou entusiasticamente.
Ninguém está impedido de mudar de
opinião - particularmente quando a mudança é em sentido positivo. Mas há
responsabilidades políticas que têm de ser assacadas a todos aqueles que,
contra o bom senso económico e contra o interesse dos cidadãos portugueses e
europeus, aprovaram e transpuseram para o ordenamento jurídico português um
tratado que é fundamentalmente iníquo, para além de em grande medida inaplicável.
Mais grave, um tratado que eles próprios sabem, como têm vindo a demonstrar,
que é fundamentalmente iníquo e inaplicável.
A maioria PSD-CDS e o PS
fizeram-no apesar de terem sido na altura abundantemente alertados para essa
mesma iniquidade quer pelos partidos que votaram contra, quer por um vasto
conjunto de analistas nacionais e europeus. E neste momento histórico em que a
frontalidade e a coragem são tão necessárias, continuam a persistir no caminho
do subterfúgio e da submissão.» – Alexandre Abreu, no Expresso.
terça-feira, 31 de março de 2015
A maioria absoluta madeirense foi/tinha ido ao ar
Quando, no Domingo passado, comentei os resultados das eleições regionais
madeirenses, referi-me à ausência de surpresas. Mal sabia eu que a surpresa
chegaria hoje. Após a recontagem dos votos e após se ter verificado que o que constava das actas das mesas de voto não era igual ao que foi comunicado ao Ministério da Administração Interna, a CDU elege mais um deputado, ou
seja, o PSD
perdeu a maioria absoluta que tinha conquistado com batota.
A mudança na atribuição de mandatos
aconteceu, explicava-se na altura, por um engano numa das mesas de votos em
Santa Cruz, onde se introduziu no domingo mais 100 votos ao PSD. Durante a
assembleia de apuramento desta terça-feira, as atas foram revistas e foram
contados votos de algumas mesas do Funchal, Santa Cruz e Ponta do Sol. A
verificação mudou o resultado provisório de domingo à noite - a CDU saía a
ganhar neste primeiro momento, o PSD nem por isso.
Actualização (mais surpresas): Pouco depois das 20h00, saía a primeira
notícia: o PSD perdeu a maioria absoluta na Madeira e a CDU conquistava mais um
deputado . Porquê? A assembleia de apuramento geral dos resultados eleitorais
das regionais de domingo recontou os votos e o PSD ficava nesta altura com 23 e
não os 24 deputados que garantiam a maioria absoluta celebrada no domingo. Em
contrapartida, a CDU passava de dois para três deputados.
A mudança na atribuição de mandatos
aconteceu, explicava-se na altura, por um engano numa das mesas de votos em
Santa Cruz, onde se introduziu no domingo mais 100 votos ao PSD. Durante a
assembleia de apuramento desta terça-feira, as atas foram revistas e foram
contados votos de algumas mesas do Funchal, Santa Cruz e Ponta do Sol. A
verificação mudou o resultado provisório de domingo à noite - a CDU saía a
ganhar neste primeiro momento, o PSD nem por isso.
Depois, novo volte-face: pouco minutos antes
das 22h00, o Expresso explicava que haveria recontagem dos votos . O juiz que
preside à assembleia de apuramento dos resultados das eleições regionais da
Madeira reconheceu que um erro no programa informático baralhou a atribuição de
mandatos. O programa não contabilizou a votação do Porto Santo, fazendo as
contas apenas com os resultados da Madeira.
Refeitas as contas, tudo igual a domingo: a
maioria absoluta regressava ao PSD - é a 11ª consecutiva que o partido obtém na
Madeira. Por sua vez, a CDU ficava com apenas dois deputados na Assembleia
Regional.
O
erro da primeira recontagem foi detetado já depois de o edital que anunciava a
perda de maioria do PSD ter sido afixado e das declarações de vitória da CDU,
que falava de um dia inesquecível para a Madeira e para os madeirenses. Os sociais-democratas
detetaram o erro relativo à votação no Porto Santos e alertaram o juiz da
assembleia de apuramento, que reconheceu que os números não batiam certo.
Foi nessa altura que se percebeu que, ao
fazer a distribuição de mandatos através do método de Hondt, o programa
informático apenas assumia a votação da Madeira e deixava de fora o Porto
Santo. A reviravolta voltou a dar a maioria absoluta ao PSD, que chegou a
admitir recorrer para o Constitucional quando saiu a primeira notícia. Agora é
a CDU que se prepara para recorrer - e pede a recontagem total dos votos. [Expresso]
Os bem intencionados
É sempre para o nosso bem. Quando
há um atentado terrorista, são os big brothers adormecidos que despertam com a
oportunidade de nos transformarem a todos em terroristas em potência para poderem
angariar apoios para a concretização do sonho adiado de nos vigiarem cada
movimento. Quando é um piloto de aviação com problemas psiquiátricos por si ocultados da
entidade patronal a levar consigo para a morte 150 passageiros, tornam-nos pilotos kamikaze em potência, com toda a certeza
tão cedo não aparecerá melhor
oportunidade para finalmente conceder às entidades patronais a informação que
contem o poder de contratar os mais saudáveis e suspender ou despedir os menos
produtivos. O bastonário da Ordem dos Médicos admitiu
ontem a criação de um mecanismo para as baixas serem comunicadas
directamente à entidade patronal, sem que seja violado o segredo médico, nos
casos que impliquem riscos para terceiros. Mas afinal que interesse teria essa
informação nestas condições? Nenhum. O segredo médico é que lhe confere todo o
interesse. E o que será lá isso de "riscos para terceiros"?
Se incluir o risco de contágio de doenças infecciosas, em vez de avançarem também
sobre o direito à privacidade, podiam começar por conceder o direito a estar
doente aos portugueses que obrigam a levar os vírus e as bactérias aos colegas
no local de trabalho se não quiserem perder o direito ao salário dos dias em
que necessitarem de ficar em casa. O risco desaparece. Da mesma forma, o direito à estabilidade
no emprego, que inclui o direito a não ter medo de ser despedido por se estar
com problemas psiquiátricos, se não fizesse desaparecer, pelo menos minimizaria
o risco de um piloto com tendências suicidas se apresentar ao serviço para a
seguir matar 150 pessoas. Se o objectivo fosse realmente minimizar o perigo e fazer
a nossa civilização avançar no sentido correcto, era isto que estaria a ser
debatido, mais direitos e não menos. Já nos restam tão poucos.segunda-feira, 30 de março de 2015
Uma raridade mesmo rara
A notícia é da semana passada
mas, por ser uma raridade mesmo rara – e neste caso a expressão não é pleonasmo,
merece toda a atenção. Uma empresa, a Lisnave, decidiu por iniciativa dos seus
accionistas distribuir pelos seus trabalhadores efectivos 18,5%
dos lucros líquidos do exercício de 2014, isto é, 1,2 de 6,47 milhões de
euros a título de gratificação. É assim, e não com pancadinhas nas costas que
não pagam as despesas lá de casa, que um trabalhador sente que o seu trabalho é
valorizado. A gestão da Lisnave tem consciência que a motivação dos seus
trabalhadores e a forma como estes valorizam trabalhar na empresa são factores
decisivos para aumentar a produtividade e repetir os resultados em 2015.
Note-se, porém, como a decisão é estritamente privada e como entre nós, apesar
da palavra produtividade andar nas bocas de governantes e respectiva corte de repetidores
dos seus miserabilismos serôdios, a distribuição de lucros por aqueles que os trabalham
não beneficia de qualquer tipo de incentivo em sede fiscal. E deveria beneficiar. Não
apenas por razões de justiça social nem apenas por questões relacionadas com
produtividade, o que já não seria pouco. Por uma questão de racionalidade
económica que se identifica imediatamente ao perceber que nos bolsos de quem trabalha
o rendimento gera o consumo que garante empregos e produz receitas fiscais que não
gera nos bolsos de quem consome marginalmente cada vez menos à medida que o seu rendimento aumenta e está isento de imposto sobre
grandes fortunas, já para não referir a gratuitidade da possibilidade que tem de
transferir capitais para paraísos fiscais sem retribuir um único cêntimo à economia
e à sociedade onde fez a fortuna. A economia – não confundir com a casta dona disto
tudo – teria tudo a ganhar com políticas que a pusessem a servir as pessoas em vez
de servir-se das pessoas. Talvez um dia as pessoas saibam exigi-lo.
Vagamente relacionado: “(…) Mesmo com prejuízos de 63 milhões, em 2011
a Sonae SGPS pagou 66,2 milhões de dividendos. Usou as suas reservas para
satisfazer os accionistas. A Zon, em 2012, com modestos ganhos de 22 milhões,
pagou o triplo em dividendos, 61,8 milhões. O mesmo já tinha acontecido no ano
anterior. A administração foi às reservas. Havia portanto dinheiro. E
generosamente: as duas empresas mais endividadas, a EDP e a PT, foram as
recordistas do pagamento de dividendos (4,4 mil milhões na EDP e mais de 3 mil
milhões na PT). No total, os pagamentos de dividendos em 2014 foram 1,7 mil
milhões, ou seja, 57% do lucro foi entregue aos accionistas no caso das
empresas não financeiras do PSI20. Se considerarmos o peso dos dividendos
comparado com os resultados líquidos, então temos o número esmagador de 154% em
todo o PSI20 (em 2013 e por causa dos prejuízos da banca). Os dividendos foram
ao pote. Note bem. Durante estes anos vivemos primeiro uma crise financeira e
depois uma recessão prolongada. O endividamento destas empresas aumentou e o
seu investimento caiu a pique. Ficaram mais pobres. Mas usaram mais de metade
dos seus rendimentos para pagar dividendos aos seus accionistas – mesmo quando
tinham prejuízos ou quando gastavam mais do que o que tinham ganho. Não foi nem
para abater a dívida nem para fazer investimento para terem melhores resultados
no futuro (já para não dizer criar emprego ou aumentar a capacidade produtiva).
Foi para pagar dividendos. Chama-se a isto viver acima das suas possibilidades.
E é a história da burguesia portuguesa . Pois é. O caso Salgado não é só uma
maçã podre que perturbava o cesto. O cesto é que é o problema pior.” [Francisco
Louçã]
domingo, 29 de março de 2015
Madeira: eles por lá tudo bem (também)
Albuquerque ou Jardim? Tanto faz,
foi
a resposta dos madeirenses. Estão satisfeitos com o que a vida lhes oferece
por lá. Não houve surpresa na renovação da maioria absoluta conseguida nas
eleições regionais de hoje pela máquina do PSD-Madeira. O CDS obteve um
resultado em linha com o esperado. O recorde da abstenção, que ultrapassou pela
primeira vez os 50%, impressiona mas também não surpreende. Já a implosão do
PASOK-Madeira, que coligado obteve o pior resultado de sempre, teve o condão de
proporcionar a tirada de humor da noite, com Porfírio Silva, secretário
nacional do PS, a atirar as culpas da hecatombe à multiplicação
de candidaturas: realmente, dava imenso jeito que as surpresas movimento
Juntos Pelo Povo (5 mandatos, não tinha nenhum), PCP (2, mais 1 mandato) e
Bloco de Esquerda (2, não tinha nenhum) tivessem abdicado de se apresentarem a
eleições, oferecendo os seus 9 mandatos ao PS, que reparte 6 mandatos com os
restantes parceiros de coligação. As três surpresas têm todas elas motivos para
festejarem as apostas ganhas, sobretudo a maior delas, o movimento Juntos Pelo
Povo. E amanhã será um bom dia para Bloco e PCP começarem a reflectir sobre como
foi possível um movimento de cidadãos que apareceu do nada ter conseguido mais
um deputado do que a soma obtida por dois partidos com uma estrutura e com meios
que o primeiro não dispõe. Se calhar, há formas mais eficazes de fazer passar a
mensagem. Digo eu.
O pleno emprego ao virar da esquina
O Observatório sobre Crises e
Alternativas estima em 24,7% o desemprego real para 2014, dado que compara com os
13,5% oficiais avançados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Se for
tido em conta o sub-emprego, a percentagem sobe para 29,1%. Sobre a estratégia
utilizada para que o desemprego real não estrague a propaganda da recuperação
que apenas se encontra na comunicação social que se limita a divulgar os dados
oficiais, o Observatório escreve no seu último Barómetro: “se no
primeiro trimestre de 2011 este diferencial se situava em cerca de quatro
pontos percentuais, em 2013 passa para oito pontos percentuais e atinge os onze
pontos percentuais no final de 2014. E se às estimativas de Desemprego 'Real'
juntarmos ainda o subemprego, essa diferença passa de sete pontos percentuais
em 2011 para treze pontos percentuais em 2013, atingindo um valor de dezasseis
pontos percentuais no final de 2014”, isto é, neste momento por cada ponto
percentual da taxa de desemprego considerada oficialmente já são
desconsiderados mais de 1,18 pontos percentuais de desemprego real. O pleno
emprego está mesmo aí ao virar da esquina.Gostei de ler: "Eis o político predestinado: muda de ideias e fica onde está"
«Ouviu-se na raia do Magrebe, tão
formidável foi o grito. Estava Carlos Abreu Amorim em gostosa flutuação nas
águas mortas e espessas do oportunismo, quando lhe assomou uma ideia à cabeça e
um berro ao gorgomilo: "Eureka! Já não sou liberal! O Estado faz aqui
muita falta!"
Repórteres do Público recolheram
a magna declaração e procuraram acompanhar, com a dificuldade que se adivinha,
o itinerário do pensamento lapidar do eminente político e professor de
universidade, conquanto particular. Que dedicara a sua vida adulta a estudar os
Hayeks, os Friedmans, os de Chicago e os liberais políticos clássicos e, como
tal, esconjurava o papel do Estado na economia. Porém, a crise internacional e
o crucial papel desempenhado por sua excelência na comissão de inquérito trouxe-lhe
uma iluminação de Espírito Santo - o etéreo, o lá de cima... - e lhe mostrou a
função salvífica do Estado forte.
Desta pasta se fazem intelectuais
e tonitruantes professores da nossa Academia (nossa, vírgula: se fosse nossa
rifava a minha parte). Diz sua excelência que estudou muito aqueles autores.
Não estudou: empinou. Marrou muito. E ficou tudo colado com cuspo. Não
conseguiu perceber que para esses pensadores, o papel do Estado nunca
desapareceu. Aliás, se tirasse as palas e visse mais alargadamente, se
observasse a história, perceberia que é imperativo e essencial para uma
sociedade de economia liberal existir um Estado forte e interventivo. O
capitalismo dos Estados Unidos, por muito "desregulado" que se
afirme, nunca dispensou os instrumentos de repressão, como Bernard Madoff se
vai inteirando nos próximos 145 anos. Lá não é preciso propagandear qualquer
Simplex: num dia consegue-se abrir um estabelecimento. Só que o investidor
recebe um regulamento muito especificado do que precisa de cumprir para manter
a casa aberta, quando não, fecham-lhe a loja. E se o incumprimento afectar a
saúde pública dá direito a cadeia. O Estado, mais do que respeitado, é mesmo
temido no capitalismo mais liberal.
Foi esse o erro trágico da União
Soviética, quando implodiu. Extinguindo-se o Partido Comunista, desapareceu o
Estado - e nasceu a leste uma nova Chicago dos anos 30, ainda não completamente
domesticada. Os russos agradecem a Putin os seus esforços, não por estar no
horizonte a restauração do ideal socialista, mas por se reconstituir o Estado
forte.
Mais avisados foram os chineses,
que mudaram de rumo mantendo o Partido no poder. Com certeza que houve
dirigentes que se locupletaram à grande, mas a verdade é que os capitalistas
chineses andam com pezinhos de lã, não vão despertar a fúria do Estado. E de
vez em quando, na Rússia e na China, tal como nos Estados Unidos, lá vai um
criminoso passar uma eternidade à prisão quando não, como na China, é directamente
transferido para a eternidade, pagando a família as balas.
A querela sempre presente é a de
saber qual o papel do Estado na economia, se activo ou supletivo. Deve ou não
haver empresas nacionalizadas? Quem olha para os Estados Unidos diz que lá não
há, mas é um engano: recordam-se de que, nos anos 80, às zero horas de
determinado dia, Ronald Reagan despediu instantaneamente cinco mil
controladores aéreos? Tanto quanto parece, as companhias aéreas são privadas,
não são necessárias companhias de bandeira, dada a dimensão do país e do
mercado aéreo - mas o controlo aéreo é assegurado pelo Estado. E assim o é,
sempre que necessário, a nível municipal, estadual ou federal, sempre que as
necessidades públicas o justifiquem. O problema é saber se em sociedades de
pequena dimensão como a maioria dos países europeus, pode ser aplicado de chapa
o modelo norte-americano - ou se o Estado tem de estar mais presente, não já
por razões ideológicas, mas por imperativos da economia.
Carlos Abreu Amorim, professor de
universidade, conquanto particular, insisto, diz que deixou de ser liberal. Mas
não deixou de ser ignorante e não perdeu a oportunidade de demonstrar a
inanição cultural que em pouco tempo o alcandorou ao pódio como o político mais
crasso, trauliteiro e agora cata-vento oportunista.
Os jornalistas do Público que o
entrevistaram (alguma coisa devem ter feito de grave, para terem tal
castigo...) deixaram escapar a pergunta óbvia: Mudou de ideias? E continua na
mesma função de deputado? Não tem um compromisso com os seus eleitores?
Embora, segundo o desavergonhado
retrato que Carlos Abreu Amorim faz do seu partido, como um albergue espanhol,
como um carro eléctrico onde cabe sempre mais um, por muito avantajado que
seja, existe uma questão de honra que se radica no compromisso que o eleito tem
com os seus eleitores. Admito que a base de apoio de Carlos Abreu Amorim esteja
nos trauliteiros lúmpen-portistas, que verão nele um sólido saco de trincheira
para a batalha contra imaginários magrebinos - mas sempre é um compromisso, não
é uma predestinação. E um homem de honra, quando muda de ideias, demite-se do
cargo para que foi eleito com aquele compromisso, faz a sua travessia no
deserto e vai, querendo, procurar refrescar a sua legitimidade electiva com um
novo compromisso.» – Óscar Mascarenhas, no DN.
sábado, 28 de março de 2015
Sobre um regime claramente acima das nossas possibilidades
«(...) Carlos Costa é o mesmo
regulador que, há exactamente quatro anos, no dia 4 de Abril de 2011, chamou os
principais banqueiros portugueses (Salgado incluído) para lhes transmitir uma
preocupação e um elogio: “Vocês não podem continuar a financiar [as emissões de
dívida pública portuguesa]. O risco é afundarem-se os bancos, a parte sã, e a
República, que é a parte que criou o problema.” Como hoje é notório, os bancos
não são (e já não eram em 2011) a “parte sã”. (...) Carlos Costa, que fez
carreira na banca privada, como director do BCP, chefia um órgão de supervisão
que partilha a mesma cultura, os mesmos valores e a mesma noção de eficácia dos
banqueiros que regula. Essa é a conclusão do economista Joseph Stiglitz, que
qualificou esta “captura do regulador” entre as causas da crise de 2008. Neste
universo, aquilo que parece errado ao comum dos mortais pode ser uma “inovação
financeira” digna de elogio. )...)» – vale a pena ler na íntegra este "As
“bavas”, os álibis e as dívidas ou o que fica do inquérito ao BES",
mais um excelente artigo de Paulo Pena no Público.
«(...) Entre os milhões de assalariados cujo
bem-estar depende exclusivamente do seu trabalho e do acesso à educação, à
saúde e à segurança social públicas, muitos procuram o apoio dos comunistas e
dos bloquistas, e de muitos dos novos activistas católicos de base que se têm
mantido fora do sistema de partidos. Contudo, quando chega a hora de votar,
tendem a achar que o instrumento eleitoral só funciona se se votar em quem tem
ganho (os socialistas ou a direita) – acabando, desta forma por, eles próprios,
ajudar a confirmar essa mesma regra. Em muitos casos, vota-se nuns para, logo a
seguir, pedir ajuda aos outros. É por isto que muita da história da democracia
eleitoral em Portugal é a história de sucessivas desilusões: desilusão com
Durão, e depois com Santana, ilusão e desilusão com Sócrates, ilusão e
(quanta...) desilusão com Passos e Portas. (...)» (Manuel
Loff)
Vagamente relacionado: "Linha da
frente: as vítimas do BES (RTP)"
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