sexta-feira, 27 de março de 2015
Da série "fortunas à moda da casa"
E cá estamos nós outra vez a falar
do mesmo. Manuel Salgado, vereador do Urbanismo da Câmara de Lisboa, informou
em 2011 o proprietário de quatro edifícios situados na Av. Fontes Pereira de
Melo, destinados a serem demolidos, de que lá poderia construir uma área total
de 12.377 m2, para comércio e serviços, em sete pisos acima do solo. Em 2012, o
terreno mudou de mãos e foi adquirido por uma empresa então criada por um
antigo governador do Banco de Portugal e antigo presidente da Caixa Geral de
Depósitos, António de Sousa, e pelo Banco Espírito Santo. Em Janeiro deste ano,
o mesmo vereador Manuel Salgado propôs, e a câmara aprovou, apenas com os votos
do PS e de um vereador dos Cidadãos por Lisboa, a viabilização, para o mesmo
local, de um total de 23.386 m2 de comércio e serviços em 17 pisos. Milagre.
São mais 11.009 m2, mais 88,9%, e mais 10 andares. É dinheiro. Muito dinheiro.
Um simples acto administrativo, a alteração do PDM, deu aos novos proprietários
a fortuna que negou aos antigos donos. Apesar desta estar longe de ser a
primeira grande negociata a contar com a assinatura de António Costa, deixarei
à claque laranja todas as suspeições que queiram levantar sobre a sua
honestidade juntamente com a certeza de que se a CML estivesse hoje nas mãos do
PSD tais considerações caberiam à claque rosa. Estou demasiado farto de ver gente
a enriquecer sem nada fazer para alimentar o jogo de acusações recíprocas que vai
perpetuando o rotativismo deste centrão que usa o poder que lhe é confiado pelos
eleitores para distribuir fortunas pelos/com os que lhes são mais próximos, com
ou sem contrapartidas pessoais que invariavelmente ficam sempre por provar. Prefiro
sublinhar o consenso que sustenta esta aparente rivalidade entre claques na recusa
da criação de um imposto a 100% sobre as mais valias urbanísticas que decorrem de
actos administrativos, como a alteração do PDM que fez a fortuna dos amigos acima
citados, que o Bloco de Esquerda propôs no Parlamento - vídeo aqui - tantas vezes quantas PSD,
PS e CDS chegaram ao consenso que a recusou. Já vai sendo tempo de tornar este
paraíso do enriquecimento de uma casta de bem relacionados um lugar decente onde
todos possamos prosperar com o nosso esforço e o nosso trabalho. Já vai sendo tempo de deixarmos de tropeçar sempre nas mesmas pedras.
quinta-feira, 26 de março de 2015
Histórias da nossa terra (continuação)
Era uma vez uma lista VIP. Demitiram-se
um Director-geral e um Subdirector-geral da Autoridade Tributária para tentar
evitar que o caso se agigantasse, mas ficaram lá a lista VIP, que o relatório
da auditoria hoje
divulgado confirma que afinal até se chamava mesmo assim, o passado de
trafulhices tecnofórmicas de Passos Coelho que a inspirou, o Secretário de
Estado que contornou a demissão negando saber o que sabia e a Ministra que se safou abandonando em pleno voo o cockpit de um caso que era sua função conduzir e que hoje acabou por estatelar-se com
grande estrondo nas páginas da revista Visão para mostrar ao mundo o estado
lastimável em que esta quadrilha tem a nossa democracia. Não será por falta de
informação que ela continuará a degradar-se. O povo é sereno.
Vagamente relacionado: O novo presidente do Sindicato dosMagistrados do Ministério Público acusa o antigo procurador-geral da República,Pinto Monteiro, de impedir investigações a pessoas poderosas. "Suscitava-seuma grande polémica à volta daqueles colegas que estavam a investigar processossensíveis e, muitas das vezes, os colegas acabavam com processos deaveriguações ou processos disciplinares. É claro que, com este tipo de atitude,não havia grande incentivo para investigar pessoas poderosas, porquedeterminadas actuações podiam acabar em prejuízo para a carreira".
Ainda mais vagamente: Um oficial de informações pode obter notícias através da “intercepção das telecomunicações” (escutas ambientais ou intercepção de dados através de meios electrónicos), vigiar pessoas que não são suspeitas em qualquer processo-crime e pagar a fontes por informações que, em muitos casos, deveriam estar cobertas por sigilo. Tudo isto está descrito nas 222 páginas do Manual de Procedimentos do Serviço de Informações de Segurança (SIS), a que o i teve acesso.
E nada a ver com: Mário Centeno será um dos economistas que irá ajudar a preparar o programa do PS de António Costa. Recentemente escreveu um ensaio para a Fundação Francisco Manuel dos Santos (dos donos do Pingo Doce) intitulado “O Trabalho, uma visão de mercado”. Nesse livro o economista lança a sua tese: o mercado de trabalho em Portugal está segmentado entre os mais velhos, que estão super protegidos, e os mais novos, que sofrem todos os problemas de um mercado de trabalho pouco flexível. Por isso, Mário Centeno apresenta a sua Quimera: o contrato único. Simples e flexível, substituindo os contratos com termo incerto ou indeterminado, os contratos a prazo e os contratos temporários. Um contrato único, o mais precário de todos e para todos.
Ainda mais vagamente: Um oficial de informações pode obter notícias através da “intercepção das telecomunicações” (escutas ambientais ou intercepção de dados através de meios electrónicos), vigiar pessoas que não são suspeitas em qualquer processo-crime e pagar a fontes por informações que, em muitos casos, deveriam estar cobertas por sigilo. Tudo isto está descrito nas 222 páginas do Manual de Procedimentos do Serviço de Informações de Segurança (SIS), a que o i teve acesso.
E nada a ver com: Mário Centeno será um dos economistas que irá ajudar a preparar o programa do PS de António Costa. Recentemente escreveu um ensaio para a Fundação Francisco Manuel dos Santos (dos donos do Pingo Doce) intitulado “O Trabalho, uma visão de mercado”. Nesse livro o economista lança a sua tese: o mercado de trabalho em Portugal está segmentado entre os mais velhos, que estão super protegidos, e os mais novos, que sofrem todos os problemas de um mercado de trabalho pouco flexível. Por isso, Mário Centeno apresenta a sua Quimera: o contrato único. Simples e flexível, substituindo os contratos com termo incerto ou indeterminado, os contratos a prazo e os contratos temporários. Um contrato único, o mais precário de todos e para todos.
terça-feira, 24 de março de 2015
Da série "era uma vez um país"
«O negócio bancário foi a grande
renda do final do século passado e do início deste século. O crédito à
habitação foi um dos mais poderosos mecanismos desta transferência de riqueza
assegurada pelo Estado, do bolso dos contribuintes para os accionistas dos
bancos. Com a imposição dos juros baixos na adesão à moeda única, o crédito
fácil sustentou a procura interna num longo ciclo de compressão dos salários. E
a loucura do betão instalou-se.
O Estado financiou directamente o
negócio. Acaba de ser conhecido o primeiro estudo sobre a aplicação dos fundos
públicos em habitação ao longo de 25 anos (1987-2011), realizado pelo Instituto
da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU). Em síntese: três quartas partes
destes fundos, nada menos que 7 mil milhões de euros, foram entregues aos
bancos sob a forma de bonificação dos juros cobrados no crédito à habitação.
Enquanto as despesas de realojamento não passaram de 14%, os incentivos ao
arrendamento consumiram apenas 8%. O número de famílias a viver em casas
arrendadas caiu para metade em duas décadas. Segundo o estudo do IHRU, houve
vários anos em que parte das verbas orçamentadas para realojamento e apoio ao
arrendamento ficaram por gastar, tal era a obsessão em construir.
Na confortável posição de
intermediária, a banca nacional pedia emprestado aos grandes bancos do centro
da Europa, que dispunham dos excedentes de capital daquelas economias, e
emprestava em Portugal a um amplo segmento popular de baixos rendimentos,
sobrecarregado pelo arrendamento caro e aberto ao crédito para a compra de
casa. A média dos anos 1990-2010 é de oitenta mil novos fogos, o equivalente a
uma cidade de Coimbra construída em cada ano. O parque habitacional aumenta 40%
nesse período e a dívida hipotecária cresce 2000%.
Até à crise financeira, o crédito
à construção e à habitação foi sempre dez vezes superior ao concedido à
indústria, pescas e agricultura (DN, 20.02.2012). Ultrapassou o valor do PIB em
2008, ao atingir os 180 mil milhões de euros. A bolha crescia, mas o volume de
depósitos não a acompanhava. Cada vez mais alavancados, os bancos continuavam a
distribuir copiosos dividendos aos accionistas. Como regista Pedro Santos
Guerreiro, só entre 2006 e 2010, os três maiores bancos privados (BCP, BPI,
BES) entregaram cerca de 2 mil milhões de euros de dividendos, capital que
poderia ter reduzido a alavancagem e protegido os bancos.
Ao mesmo tempo que a supervisão
fechava os olhos à gestão arriscada, o Estado permitia taxas efectivas de IRC
da ordem dos 15%, fruto do “planeamento fiscal”, e financiava indirectamente
despedimentos na banca, permitindo que os custos de indemnizações fossem
diluídos nos resultados apresentados. O resto da história é conhecida: em 2011,
o valor bolsista dos três maiores bancos privados era um sexto do de 2007. BCP,
BPI e Banif batiam à porta do Estado a pedir uma injecção de capital. O BES era
um queijo suíço.
O próprio presidente do IHRU, Vítor
Reis, ex-deputado do PSD, diz que os números do crédito bonificado são
"assustadores". Na verdade, são apenas uma boa ilustração do modelo
económico que nos trouxe até aqui, do bloco central que mandou e dos rentistas
que acumularam. O número de famílias a viver em casas arrendadas caiu para metade
enquanto se construiu o equivalente a uma cidade de Coimbra por ano. Foi um
quarto de século de realojamento em guetos, rendas proibitivas, degradação dos
centros históricos e dos bairros sociais, famílias endividadas e hoje
penhoradas ou desalojadas. A política de habitação é o retrato do poder dos
rentistas.» – Jorge Costa, no esquerda.net.
segunda-feira, 23 de março de 2015
"Metrologias"
Creio que era assim. “Homens sem
qualidades e sem responsabilidades”. Vi-o algures durante o fim-de-semana.
Fazia o título de um artigo de opinião que acabei por não chegar a ler. E esta
manhã, ao ouvir na rádio ser hoje o dia internacional da meteorologia,
lembrei-me dele ao recordar um dos muitos homens sem qualidades que guardo sem
saudades na memória o qual, há uns anos largos, dava a internet os seus
primeiros passos, encontrei diante do computador do seu gabinete enfurecido por
“aquela porcaria não ter sequer a previsão do tempo”. Primeiro estranhei,
depois percebi. O homem procurava pelo instituto de “metrologia”. Há vinte anos
não era como agora, os motores de busca ainda não tinham aquele “será que quis
dizer” que compatibiliza as “metrologias” com o mundo do, digamos, comum dos
mortais, coisa que ele não era apesar de “metrologia” apenas ser uma entre
muitas criações de uma ignorância tão burgessa quanto pródiga em produções do
género: o meu homem sem qualidades era o director de um organismo público
ligado à Cultura. Antes tinha sido assessor de um ministro qualquer, e ser
assessor de um ministro qualquer já na altura dava curriculum para poder ser
pelo menos director de um organismo público. E antes tinha sido jota, e ser
jota já então era uma das formas para se obter curriculum de assessor de um
ministro qualquer, ou para ser recrutado e ganhar curriculum na administração
de uma dessas empresas privadas que vivem do que é público, ou para ser
convidado para leccionar numa dessas universidades cheias de docentes com
apelidos repetidos e com lugares cativos que passam de geração em geração, onde
quem tem realmente valor é tantas vezes escravo sem direito a curriculum de uma
casta de bem nascidos que se perpetua à sombra da ciência que os seus precários produzem sem
direito a reclamar autoria e onde quem aparece como autor ganha curriculum para
poder servir a lista VIP de rendeiros do país como deputado ou como ministro,
que por sua vez dá curriculum para pertencer à lista VIP da aristocracia republicana dos administradores com salário de príncipe e com futuro garantido
para toda a linhagem. "Homens sem qualidades e sem responsabilidades". Uma sociedade em que uma minoria coesa de homens sem
qualidades consegue organizar-se e subjugar completamente a maioria atomizada
que sucessivamente vai esbanjando a responsabilidade de usar a democracia para se
livrar da lógica corrupta deste país só para alguns que torna impossível
enriquecer a trabalhar. Já vai sendo tempo de tocar a reunir para nos livrarmos
das “metrologias”, das imunidades, das impunidades, das irresponsabilidades,
dos compadrios, das rendas garantidas, dos abusos desta casta de homens sem qualidades e
sem as responsabilidades que a esmagadora maioria não tem sabido exigir-lhes em
sede própria. Os gregos e os espanhóis já começaram as suas travessias deste presente
que também os renega para o futuro que querem melhor. Para nós é mais fácil. É só seguir-lhes os passos.
sexta-feira, 20 de março de 2015
Gostei de ler: "Estamos amarrados a uma galé, como a Grécia"
«No Financial Times de há dois
dias, Dragasakis (vice primeiro-ministro), Varoufakis (ministro das finanças) e
Tsakalotos (adjunto do ministro das finanças) alertavam para que o tempo se
está a esgotar. Alexis Tsipras tentou um compromisso de última hora para
conseguir o financiamento prometido desde há um mês, mas não cumprido, e
reuniu-se ontem de noite com as autoridades europeias: as instituições e
Merkel, ladeada do inefável Hollande. O encontro deu em nada.
Ou em menos do que nada. Os
líderes europeus reafirmaram que a Grécia deve entrar em falência ou apresentar
novas medidas de austeridade que, se forem aprovadas, e logo se verá se são,
permitirão aceder a algum alívio financeiro. Como tudo se joga em poucos dias,
porque a Grécia está já a ficar sem reservas, esta pressão é uma roleta russa.
E será sempre a roleta russa, porque cada semana se vai repetir a mesma
aflição, mesmo que se passe esta emergência. A Grécia não tem forma de chegar a
Junho tomando decisões independentes, se estiver submetida a esta chantagem:
nem lhe pagam a tranche prometida, nem lhe devolvem o seu dinheiro retido pelo
BCE, nem lhe permitem emitir dívida de curto prazo. Só lhe permitem receber
instruções de Merkel e de Dijsselbloem.
O que prefere Merkel? Para já,
parece óbvio que prefere ganhar em todos os tabuleiros, tentando obrigar
Tsipras a ceder e a promover as medidas de austeridade que foi eleito para
abolir. A irritação da Comissão e do Eurogrupo a propósito da primeira lei votada
esta semana no parlamento grego, determinando medidas de alívio social para os
mais desprotegidos, ou a raiva com que foi recebida a suspensão das
privatizações, é reveladora do que isto quer dizer. Melhor do que vencer é
subjugar, essa é uma velha lei do poder imperial. Merkel quer ter o gosto de
obrigar a Grécia a vergar-se e a levar o governo que a confrontou a ser ele
próprio a propor a austeridade nefasta.
O que pode Tsipras? Para já,
muito pouco. O governo grego acreditou que tinha uma força negocial única ao
criar uma situação inédita na Europa e ao fazer frente à Alemanha. Ora,
encontrou pela frente um muro. Nem conseguiu aliados entre outros governos, nem
conseguiu flexibilidade dos adversários que perceberam que não havia Plano B
para executar a curto prazo. Por isso, teve que improvisar e isso mostra
fragilidade. Mesmo com índices de apoio popular crescentes no seu próprio país,
é facto que no imediato tem poucas alternativas por onde escolher.
Na verdade, só tem mesmo uma
alternativa e ainda tem que se preparar para ela: sair do euro, emitir moeda,
controlar os movimentos de capitais, reconstituir a sua economia, proteger os
mais pobres e criar emprego aproveitando a vantagem da desvalorização da moeda,
reestruturar assim a dívida junto das instituições europeias. Só desse modo
poderá negociar e qualquer negociação é melhor do que a guerra de terra
queimada a que a Grécia vai ser submetida durante estes meses.
Veremos dentro de dias que
escolhas faz ou pode fazer e que medidas toma para impedir a ameaça da
austeridade e do caminho de destruição. Foi um sinal significativo ter exigido
o pagamento da dívida nazi (que não obterá) e ter iniciado uma auditoria à
dívida (que conseguirá realizar), mas também necessitará de medidas mais
urgentes e realizáveis.
Para todos os que vivem na
Europa, impõe-se em todo o caso uma conclusão: isto é uma galé e estamos
acorrentados aos remos. Enquanto o permitirmos, nada muda neste navio fantasma
e continuaremos a ser o que somos, prisioneiros de uma ameaça. A União Europeia
não aceita a reestruturação das dívidas nem conhece nem reconhece outra coisa
que não seja austeridade e a engenharia social do desemprego e do
empobrecimento para os países periféricos. Isto é com Portugal, não tenham
dúvidas, caros leitores.» – Francisco Louçã, no TME.
quinta-feira, 19 de março de 2015
Da série "o lado mais magrinho do Estado"
Para todos nós que vimos salários e pensões confiscados
e fomos sobrecarregados com os impostos que foram poupados às grandes fortunas,
rendas e lucros não foi novidade nenhuma o que ouvimos ontem à Ministra das Finanças:
“temos” os cofres cheios. Têm os cofres cheios, dizia a senhora. Obrigadinho, pagámo-lo
nós. O que porventura a maioria não sabe é que esse excedente de liquidez, pelo
qual Portugal já paga um juro aos especuladores que compraram a dívida correspondente,
ainda rende ao BCE o juro negativo que actualmente o remuneram pelo maior stock
de liquidez de sempre que lá temos depositado. Repararam que dispensei as aspas
neste último temos. É que somos
nós a pagar outra vez. O produto do saque de salários, pensões e impostos
dá e sobra para sustentar este lado mais magrinho do Estado. Para Saúde, Educação,
subsídios de desemprego e RSI é que não há:
são “gorduras”. Somos.
Vagamente relacionado: A dívida pública na óptica de Maastricht
subiu mais de 6.600 milhões de euros em Janeiro face a Dezembro do ano passado.
Totaliza agora 231.083 milhões de euros, divulgou hoje o Banco de Portugal
(BdP).
Gostei de ler: "Agradeço o convite mas declino"
«De acordo com a Constituição,
"são elegíveis para a Presidência da República os cidadãos eleitores,
portugueses de origem, maiores de 35 anos". No entanto, de acordo com
Cavaco Silva, o próximo Presidente deve ser uma pessoa com experiência em política
externa. Esta revisão constitucional feita informalmente por Cavaco reduz
bastante o leque de possíveis candidatos, e acaba por cingir a corrida a apenas
três nomes: Durão Barroso, António Guterres e eu. O currículo dos candidatos
impressiona: Barroso foi presidente da comissão europeia entre 2004 e 2014;
Guterres é, desde 2005, alto comissário das Nações Unidas para os refugiados; e
eu negociei, em Badajoz, na primavera de 2009, o preço de um saco de caramelos
que, embora tivesse uma etiqueta indicando o preço de 90 cêntimos, assinalava
na caixa o valor de um euro e meio. As negociações foram duras, mas eu soube
defender os interesses de Portugal no quadro das regras definidas pelo direito
internacional: mantendo presente que a carta das Nações Unidas proíbe a
agressão armada excepto em caso de legítima defesa, usei de meios pacíficos
para obter o acordo que melhor servisse o nosso país, e orgulho-me de poder
hoje dizer que acabei por trazer o saco por apenas um euro e 20. Quem conhece a
fundo o trabalho de Barroso e Guterres, só por má vontade deixará de reconhecer
que nenhum deles trouxe para o nosso país, no âmbito da actividade
internacional que desenvolveram, lucros que possam sequer aproximar-se do valor
de um saco de caramelos. (...)» – Ricardo Araújo Pereira, na Visão.quarta-feira, 18 de março de 2015
Da longa série "ministros à prova de tudo"
Afinal, o fisco respeita ou viola
o princípio da igualdade que vem consagrado na Constituição da República
Portuguesa no tratamento que dispensa aos cidadãos? A Justiça, como vimos aqui,
não o faz ao facilitar a aquisição de imunidades várias aos delinquentes VIP
com fortuna para tanto. E a demissão do Director-geral da Autoridade Tributária,
noticiada hoje como
prontamente aceite por Maria Luís Albuquerque, não apenas aponta no mesmo
sentido, a lista de contribuintes VIP com tratamento mais favorável existirá mesmo, como replica episódio em tudo semelhante protagonizado pela
irresponsável política pelo colapso do CITIUS. Em vez da demissão da Ministra,
demite-se o Director-geral que dela recebe orientações. Venha agora o senhor
Presidente da República dar cobertura a mais esta vergonha com uma daquelas
tiradas tristes sobre consensos necessários e querelas político-partidárias que
costuma utilizar para fazer da democracia que é de todos refém de um gang de
malfeitores inimputáveis liderado pelo tal pajem da senhora Merkel que só paga
a Segurança Social se for mesmo obrigado. É realmente animador saber que isto ainda está para durar até Outubro. Os especialistas chamam-lhe "estabilidade governativa", ou lá o que é.
Vagamente relacionado: O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, rejeita qualquer responsabilidade do Governo na alegada "lista VIP" de contribuintes, mas admite que o documento possa existir. (18/03)
Ainda mais vagamente: No debate quinzenal desta tarde, Passos Coelho negou (a exemplo do que já tinha feito a Autoridade Tributária) a existência dessa lista. "Já é público que a Autoridade Tributária desmentiu essas notícias", e "não há nenhuma bolsa VIP". "É esta a informação que foi prestada pela AT", acrescentou Passos Coelho. "Quanto à existência de processos disciplinares, sei aquilo que já expliquei: no que respeita a mim próprio, nunca agi pedindo à AT a instauração de qualquer processo disciplinar ou de averiguação", assinalou. (11/03)
Vagamente relacionado: O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, rejeita qualquer responsabilidade do Governo na alegada "lista VIP" de contribuintes, mas admite que o documento possa existir. (18/03)
Ainda mais vagamente: No debate quinzenal desta tarde, Passos Coelho negou (a exemplo do que já tinha feito a Autoridade Tributária) a existência dessa lista. "Já é público que a Autoridade Tributária desmentiu essas notícias", e "não há nenhuma bolsa VIP". "É esta a informação que foi prestada pela AT", acrescentou Passos Coelho. "Quanto à existência de processos disciplinares, sei aquilo que já expliquei: no que respeita a mim próprio, nunca agi pedindo à AT a instauração de qualquer processo disciplinar ou de averiguação", assinalou. (11/03)
Gostei de ler: "Roubos nas estradas"
«A história não parece ser
diferente de outras que já ouvi. Ao consultar a minha página no portal das
Finanças fui surpreendido pela existência das tais dívidas. Achei-as muito
estranhas, pois sempre cumpri escrupulosamente as minhas obrigações fiscais e não
tinha recebido qualquer notificação. Mas lá consegui desenterrar das
profundezas do ciberespaço das Finanças (dizia, num português macarrónico, que
o sítio “abria a AT à colaboração com os contribuintes”) uma série de
formulários electrónicos que consubstanciavam vários processos de
contra-ordenação. Eram “instaurações automáticas” todos elas por alegadas
violações da Lei n.º 25/06 ocorridas há três anos. A entidade autuante era uma
tal Ascendi, que eu não conhecia de lado nenhum. Mas a entidade que fixava as
coimas, portanto ao serviço da Ascendi, era o chefe do Serviço de Finanças. Só
para dar um exemplo, o chefe tinha decidido aplicar uma coima estapafúrdia de
55 euros por alegada falta de pagamento de uma portagem de 5,50 euros,
acrescida de custas obscenas de 38,25 euros. O “grau de culpa”, fiquei a saber,
era “negligência.” Ora, se ali havia “culpa” e “negligência” era da Ascendi e
da AT, pois eu possuo um aparelho de Via Verde e todos os meses o meu banco
transfere sem discussão a totalidade do que me pedem. Por descarga de
consciência, ainda fui consultar os meus registos de Via Verde de há três anos.
E tudo tinha sido rigorosamente pago. Portanto era um engano. Alertaram-me,
porém, que a AT nunca se engana e raramente tem dúvidas, pelo que achei melhor
colocar o assunto nas mãos de um bom advogado. Este, depois de mais escavações
na Net e de visitas às Finanças, conseguiu saber que as infracções não tinham,
como eu supunha, sido feitas pelo meu carro, mas sim por um outro veículo, que
tinha, aliás, passado em sítios onde eu nunca fui.
De repente, a olhar para a
matrícula, fez-se-me um clique. Há três anos tinha comprado um carro novo,
dando um velho à troca num stand de Coimbra. Deduzi que o carro antigo teria
andado, depois de vendido (quando obviamente já não era meu), a passar por baixo
de pórticos da Ascendi. O meu advogado entregou reclamação, informando-me que
um tribunal de Braga já tinha anulado vários processos semelhantes e que o
assunto estava até em discussão na Assembleia da República. Ainda procurei o
stand que me tinha vendido o carro, ficando a saber que estava em processo de
insolvência. O responsável pela empresa falida é dirigente do clube de futebol
local que me fez promessas de que ia ver o que se teria passado. Não foi nem
vai, pois pertence ao grupo de gente cujo “grau de culpa” é a negligência
permanente.
Ainda acredito na justiça e o
processo seguirá os seus lentos trâmites. Estou a procurar desatar o processo
tremendamente injusto que a AT me moveu. Eu não fui identificado, como manda a
lei. E também não fui notificado, como também manda a lei – isto é, a entidade
autuante, a Ascendi, porta-se, em estreito conluio com a AT, à margem da lei,
para não falar da evidente exorbitância que consiste em cobrar “quantias
exequendas” e “acrescidos” (a terminologia faz parte da tortura!) que, podendo
ser legais, são manifestamente imorais. Ilegal devia também ser o levantamento
pela Ascendi e pela AT de processos distintos por cada passagem de um pórtico,
num festim processual que é um insulto à inteligência.
O Estado português, actuando em
nome de uma empresa privada, está a querer cobrar-me dívidas por infracções que
não cometi. Embora inocente, já me vi obrigado a pagar parte das falsas
dívidas, para evitar mal maior. Tem de haver responsáveis. O Ministério das
Finanças tutela a AT. E as leis são feitas ou alteradas pela Assembleia da
República que, neste momento, tem uma maioria PSD-CDS. Vou ser claro: a
Ascendi, com a complacência do Governo e da Assembleia da República, está a
portar-se como um vulgar ladrão de estrada. E o Estado, despido de qualquer
dignidade, está a defender interesses que não são públicos. O problema não é
apenas do actual Governo, é também da actual oposição, que consumou desastrosas
parcerias público-privadas e aprovou a referida lei. Fui ver quem é o
responsável pela Ascendi e descobri que era o sucessor de Jorge Coelho à frente
da construtora Mota Engil.
O Estado é uma entidade
abstracta, mas os políticos são pessoas concretas. São os políticos que
ocuparam e que ocupam a máquina do Estado os responsáveis pela violência
inaudita que está a ser exercida sobre cidadãos desprotegidos. Vejo muita gente
conformada com o estado a que isto chegou, mas eu não me conformo. Nas nossas
estradas os roubos não deviam ser permitidos.» – Carlos Fiolhais, no Público.
terça-feira, 17 de março de 2015
Café para a preguiça
Quer porque mais de 90% de nós
vive de rendimentos do trabalho, quer porque quase 4 em cada 5 euros das
receitas que pagam os nossos serviços públicos e as nossas pensões de reforma
são gerados por rendimentos do trabalho, quer porque são os salários que comandam
o consumo em função do qual o emprego cresce ou se retrai, quer porque a nossa
felicidade individual e colectiva são deles indissociáveis, qualquer cidadão
deveria dominar os temas trabalho, condições laborais e redistribuição da
riqueza pelo menos tão bem como as esterilidades que predominam nas conversas
de café desta Primavera do culto do efémero. Se fosse assim, teríamos
imensamente mais condições para construirmos uma sociedade melhor.
Infelizmente, não é isto que se
verifica. E às vezes fico de boca aberta com certas reacções de pessoas que nem
com as suas vidas a passarem-lhes diante dos olhos num gráfico conseguem dizer
mais do que um daqueles disparates que jorram com abundância dos televisores que
todos nós temos em casa. Tornei
a constatá-lo um dia destes ao partilhar esse aí em cima, onde se vê como
Grécia, Espanha e Portugal, os campeões do desemprego europeu, são também os
países da Europa onde se trabalha mais tempo.
Não é por acaso. E adoptar a receita de sucesso dos americanos no combate à
crise de 1929 e reduzir o horário de trabalho de forma a distribuir os poucos
empregos que existem por mais gente seria não apenas a medida socialmente mais
justa, seria também aquela economicamente mais racional. Pois houve gente que o que
descobriu no gráfico foram cafezinhos a mais e gente que comentou que estar no
trabalho não significa estar a trabalhar, um argumento que na lógica de gente
normalzinha justificaria a supressão das horas em que nada se produz mas que na
ilógica de certas anormalidades moralistas legitimaria até um aumento das horas
de permanência no local de trabalho a título de punição do pecado da preguiça.
Lembrei-me desta ignorância
esclarecida ao ler o que o seu
querido FMI hoje nos diz sobre as
baixas qualificações dos gestores portugueses e sobre o que o Governo também
não fez para aumentá-las. Não é que seja novidade que as qualificações médias
dos patrões portugueses são inferiores às qualificações médias dos seus trabalhadores,
tão-pouco que devamos levar a sério o que diz uma instituição tão especializada
em receitas de ruína como o FMI, mas
apeteceu-me oferecer-lhes este “cafezinho”. Bem sei que o café pouco efeito tem sobre a ignorância, mas pode ser que lhes desperte a
preguiça que os impede de perceber que a baixa produtividade que é apontada a
Portugal se deve não ao pouco que trabalhamos, trabalhamos muito mais do que a média, mas sim ao mal que trabalhamos e que quem organiza o trabalho nunca sentirá necessidade de melhorar competências enquanto
a sua incompetência puder ser compensada com horas suplementares de trabalho cada
vez mais gratuitas à medida que os direitos laborais vão sendo pulverizados.
Vagamente relacionado: A primeira frase do documento dedicado a
Portugal resume assim o “severo” impacto da crise no país: “O desemprego mais
do que duplicou desde 2008, a emigração atingiu números recorde (mais de 300
mil pessoas saíram do país nos últimos três anos) e o PIB encolheu para níveis
de 2000.” Pelo caminho, vários direitos fundamentais “foram afectados”,
sobretudo o direito ao trabalho. Estas são conclusões de um relatório publicado
nesta terça-feira pelo Parlamento Europeu (PE) sobre “o impacto da crise nos
direitos fundamentais” em sete países: Portugal, Espanha, Grécia, Chipre,
Irlanda, Itália e Bélgica.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Ai aguentam, aguentam
Segundo um estudo da Organização
Mundial da Saúde (OMS) e do Observatório Europeu sobre Sistemas de Saúde hoje
divulgado, A despesa em cuidados de saúde por habitante em Portugal está
20% abaixo da média europeia. Segundo o Governo, os
4625 óbitos a mais que fizeram o recorde de mortalidade registado neste Inverno
devem-se à gripe e ao frio. Segundo o senhor Presidente da República, as reformas
estruturais que produziram os números anteriores são
para continuar. Garantidamente irão continuar, qualquer que seja a combinação
de partidos do arco da austeridade que componha a maioria parlamentar que suporte
o próximo Governo. E bastará que em 2016 a austeridade mate “apenas” 4624 acima
da média, menos um de nós do que este ano, para que o próximo Governo possa falar-nos ao coração
sobre o tanto que o país melhorou com a sua austeridade fofinha.
Gostei de ler: "Predadores"
«O caso dos 2500 clientes do BES
burlados pelo "papel comercial" vendido na vertiginosa fase final da
ruinosa gestão de Ricardo Salgado é apenas um capítulo do longo calvário que
nos aguarda. Na Áustria, o Hypo Alpe-Adria-Bank, da Caríntia, foi nacionalizado
em 2008. Viena injetou 5,5 mil milhões de euros dos contribuintes. Sete anos
depois, o "buraco" continua a alastrar, atingindo 7,8 mil milhões de
euros que, muito provavelmente, acabarão por ser pagos pelos 550 mil cidadãos
da Caríntia. As regras da zona euro foram gizadas por políticos iliteratos,
coadjuvados por economistas de terceira categoria, deixando o caminho aberto
para os banksters, de que tão exuberantemente fala Marc Roche no seu recente
ensaio. A crise financeira, iniciada nos EUA, propagou-se de forma letal na
Europa porque a zona euro foi o paraíso da desmesura bancária (que destrói o
valor da confiança, essa alma do negócio da banca). O caso BES é exemplar, pois
demonstra que, depois de sucessivos testes de stress, de três anos de escrutínio
da troika, dos alicerces lançados da união bancária, é ainda possível um país
ser engolido pelo buraco negro de crimes que ludibriam todos os níveis de
regulação, nacional e europeia. Com exceção da minúscula Islândia, os
responsáveis pelo empobrecimento de tantos milhões de europeus continuam a sua
confortável existência. Mais, conseguiram transferir a culpa dos desequilíbrios
por si provocados para os Estados periféricos (esta é a "crise da dívida
soberana", lembram-se?) e para a gente humilde (os jardineiros e
paralíticos gregos, das fábulas que os néscios repetem). A Europa terá de
escolher entre controlar o seu sistema financeiro e continuar a deixar-se
devorar por ele.» – Viriato Soromenho Marques, no DN.
domingo, 15 de março de 2015
Da série "gosto muito de os ouvir falar"
O mundo nunca mais foi o mesmo depois
de Cavaco Silva ter incluído
no perfil do Presidente da República ideal um domínio dos assuntos de política
externa pelo menos igual ao seu. Depois do bailado
dos últimos dias interpretado em bicos de pés por Marcelo Rebelo de Sousa e
Pedro Santana Lopes, temos hoje mais um recital de alguém que, embora não sendo
candidato, demonstra ter tais atributos. Trata-se do jovem Comissário Europeu Carlos
moedas que, em entrevista à TSF, diz que os gregos
têm de aprender que, nos processos negociais na Europa, «é melhor fazer do que
falar, e quanto mais se fala, menos se consegue, e quanto menos falamos e mais
trabalhamos, melhor nos portamos»; aquilo que conta na Europa, prossegue
Moedas, «é o que fazemos, e não aquilo que falamos, ou as entrevistas que
damos, ou o quanto nos queixamos». Temos homem. Não vale a pena comentar o
que Portugal tem conseguido ao fazer como diz, não há palavras que consigam
contrariar a destruição do país em todos os aspectos que vem retratado nas estatísticas,
mas confesso que gostei particularmente daquela parte em que o entrevistado se
refere à inutilidade das "entrevistas que damos", um gesto cheio de
humildade e de humor. É que parece que os especialistas do serviço científico do
Parlamento alemão acabam de pronunciar-se sobre o direito da Grécia vir a ser ressarcida
pela destruição do país durante a ocupação nazi na segunda guerra mundial. E deram
razão à coragem do novo Governo grego, não à subserviência premiada que vai
proporcionando carreiras fulgurantes aos Moedas desta vida. E não, eles não são
mais alemães que os próprios alemães. Os videirinhos têm em ambição o que lhes
falta em escrúpulos e em vergonha.
Vagamente
relacionado: «(…) Cinquenta anos depois do mísero acordo de 1960, subjugada a
Grécia por uma dívida contraída nas condições duvidosas que conhecemos, que a
transformou numa colónia de Bruxelas sob regras económicas impostas por Berlim,
é perfeitamente razoável que os gregos, insultados todos os dias de laxistas e
corruptos, queiram reabrir um problema que o Estado alemão sabe bem que tão
cedo não se fechará. Aliás: é acima de tudo a atitude de Berlim que mais
contribui para que se não feche! A iniciativa do Governo grego é até
perfeitamente subsidiária: é verdade que Atenas quer voltar a discutir um
“empréstimo” que o ocupante alemão subtraiu dos cofres gregos durante a guerra,
em 1942, e que nunca foi devolvido, mas é sobretudo uma sentença do Tribunal
Supremo grego, de 2000, que irrita os alemães. A justiça reconheceu, então, o
direito dos descendentes de vítimas do massacre perpetrado pelas Waffen SS na
aldeia de Distomo, em 1944, matando 218 pessoas, a receberem uma indemnização,
fixada em 28,6 milhões de euros, a cargo do Estado alemão. Perante a recusa
alemã em pagar, o Supremo exigiu ao Governo que expropriasse bens alemães na
Grécia. Querendo evitar enfrentar Berlim, o Governo não o fez. Quando um
tribunal italiano deu razão aos gregos, a Alemanha levou o processo ao Tribunal
Internacional da Haia e, para escândalo das organizações internacionais de
direitos humanos, ganhou. Já em 2013, uma comissão de especialistas nomeada
pelo anterior Governo calculara entre 269 e 332 mil milhões de euros o montante
de todas as reparações devidas pela Alemanha e que não foram pagas em 1960. Uma
quantia que supera toda a dívida grega. Chantageado como se vê por Schäuble e
Dijsselbloem, porque haveria Tsipras hesitar em reabrir a questão? Porque a sua
atitude não contribui para a construção europeia? Porquê: a dos alemães e dos
seus aliados austeritários, contribui?» (Manuel
Loff, vale a pena ler na íntegra)
sexta-feira, 13 de março de 2015
Gostei de ler: "Aldrabões à nossa volta"
![]() |
| Sócrates e Passos, passado e presente. |
«A origem do dinheiro é variada,
e relativamente indiferente para o argumento em questão. Vejamos o caso de
Ricardo Salgado: um 'presente' de 14 milhões, generosamente enviado de Angola
por um construtor, de seu nome José Guilherme; ou o seu quinhão na comissão
paga à ESCOM pelo consórcio alemão GSC no negócio dos submarinos. Mas nem só de
liberalidades vive um homem, e nem só de Salgado vive um paraíso fiscal.
Só na filial suíça do HSBC são
969 milhões de dólares, separados por 778 contas bancárias, pertencentes a 611
clientes, individuais ou coletivos, todos eles relacionados com Portugal. Mas
há outros bancos na Suíça, e há muitas suíças no mundo.
A viagem não é fácil mas, pelos
vistos, vale bem a pena. Há duas formas de lá chegar: a boa e velha mala, sem
perguntas nem registos, ou, em alternativa, uma complexa rede de offshores
(veja-se o caso dos submarinos), com o objetivo de branquear a origem e rasto
do dinheiro. Mas porquê tanto trabalho? O que há no fim da jornada?
Nas palavras do especialista
Michel Canals: "Quando o possuidor de uma conta especial numerada chega ao
banco, é recebido pelo gestor, que é o único a saber a sua identidade.
Atendemos essa pessoa em salas especiais e atendemos os seus desejos".
Desejos, que desejos?!
Para começar, total
confidencialidade, acrescida da palavra de honra que nunca, mas nunca, haverá
lugar a colaborações com entidades fiscais e judiciais. Para continuar, a possibilidade
de não declarar o capital no país de origem, evitando assim a maçada de lá
deixar uma percentagem em impostos. Para acabar, uma luxuosa lavandaria de
dinheiro sujo do tráfico, da corrupção ou de crimes económicos.
Mas não há bela sem senão. Uma vez
colocado no estrangeiro, o dinheiro poderá lá ser esbanjado, especulado ou
investido sem problemas de maior. O problema reaparece quando é preciso que as
notas, limpas e tax free, regressem a Portugal. É preciso fazer o caminho de
volta, mas desta vez os trilhos são diferentes. A hipótese dos offshore é menos
provável, afinal, esse foi o problema inicial. Sobram três alternativas. A
primeira, ainda menos provável que a anterior, é declarar o dinheiro, pagar
impostos, e arriscar acusações de fuga ao fisco. A segunda? Adivinharam, a
sempre disponível e rudimentar mala.
Apesar das dificuldades, o
negócio tinha (e tem) tal sucesso que vários empreendedores resolveram investir
no transporte de malas e serviços conexos. Dois deles - Michel Canals e Nicolas
Figueiredo - oriundos da UBS (também suíça), uniram-se, numa joint venture, ao
self made man 'Zé das Medalhas', para montar um 'pequeno' negócio de transporte
e lavagem de capitais. O caso ficou conhecido por Monte Branco, e não é nada
mais nada menos que a maior teia do género alguma vez detetada em Portugal. Sem
entrar em pormenores, basta dizer que parece um daqueles jogos de ligar os
pontos entre o BPN e a Operação furacão, a família Espírito Santo e a Akoya
Asset Management de Álvaro Sobrinho e Helder Bataglia, dono da ESCOM. O caso
ainda está em investigação mas, na comunicação social, são vários os nomes de
proeminentes personalidades portuguesas que têm surgido como potenciais
clientes desta rede.
Resta, por fim, referir a
terceira possibilidade. Uma que resolve todos os problemas: uma taxa de imposto
reduzida (5% ou 7,5%), proteção contra processos judiciais e completa
confidencialidade. Mas quem é o responsável por mais este paraíso na terra?
Bom, a taxa de imposto reduzida é garantida pelas finanças, a proteção pelo
Estado português, e a confidencialidade pelo Banco de Portugal, que guarda os
processos, qual HSBC, sem fugas ou distrações. O paraíso chama-se Regime
Extraordinário de Regularização Tributária (RERT), e é, de facto,
extraordinário pelas condições que oferece, mas não por aquilo que
(supostamente) diz ser.
Desde 2005, este país já viu três
RERT. Dois pelas mãos de Sócrates e um no mandato de Passos Coelho. O último já
foi depois da lista negra do HSBC ter sido entregue à então ministra das
finanças francesa Lagarde, e acontece exatamente no momento em que se começava
a desvendar a teia do caso Monte Branco. Talvez por isso tenha sido tão bem
sucedido.
No total, nestes últimos 10 anos,
foram declarados 4600 milhões de euros que pagaram uma taxa média de imposto
6,43%. No mesmo país em que o levantamento do sigilo bancário é exigido a quem
ganha o RSI ou quer aceder a um passe social de transporte. Em que metade dos
desempregados não tem acesso ao subsídio de desemprego. Em que as finanças abusam
de quem passa numa portagem sem pagar. Em que se esmaga quem trabalha com
impostos de todas as formas e feitios. É caso para dizer, parafraseando Ricardo
Salgado numa reunião do Conselho Superior do clã Espírito Santo, 'só vejo
aldrabões à nossa volta'.» – Mariana Mortágua, no Expresso.
![]() |
| Costa e Rio, o futuro deste passado. |
quinta-feira, 12 de março de 2015
Um conto para crianças, mas "socialista"
As histórias para crianças estão
na moda. O centrão diverte-se imenso a disputar cada centímetro dos terrenos
deste nosso imaginário colectivo mais infantil. Há um par de semanas, Pedro
Passos Coelho teve oportunidade de contar a sua, sobre uns meninos gregos muito
maus que ousaram desobedecer à madrinha. A coisa até nem lhe saiu nada bem, o
certo é que já havia muita gente a reclamar uma história para crianças
socialista: ó Costa, tu não te fiques, os socialistas não vão ficar nada
contentes se não lhes contares uma também. E a história lá chegou, ontem, António
Costa contou-a em entrevista à RTP. Quanta imaginação. Na versão de António Costa,
um Primeiro-ministro não paga à Segurança Social, dá umas desculpas
esfarrapadas, que não sabia, que só soube três anos depois de um jornalista o
ter lembrado, que não é um cidadão
perfeito mas que para Primeiro-ministro serve perfeitamente, patati, patatá, e,
apesar do esquecido se ter lembrado de andar quatro anos a fio a perseguir com cobranças do que deviam e do que não deviam cidadãos que empobreceu o mais que pôde, o narrador diz
que entende que as explicações são mais do que suficientes porque ele, que também
é o criador do conto, não gosta de "política
de casos". Está no seu direito. Não passa pela cabeça de ninguém obrigar,
por exemplo a Margarida Rebelo Pinto, a incluir nos seus livros os casos das centenas
de milhar de portugueses que perderam o direito a subsídio de desemprego,
Rendimento Social de Inserção, Complemento Solidário para Idosos e abono de família, todos eles pagos pela
mesma Segurança Social que o senhor Primeiro-ministro que lhos retirou tentou ludibriar: a
autora não gosta de casos de pobreza. Para além do mais, António Costa,
tal como Pedro Passos Coelho, pertence àquela corrente de contadores de histórias
descrita sucintamente na crónica da semana passada de Ricardo Araújo Pereira naquela
passagem onde se lê "um aluno falha a
entrega dos trabalhos de casa mas justifica-se dizendo que não procedeu tão mal
como um aluno que, no ano anterior, tinha roubado a lancheira a outro menino"."
António Costa já tem lancheira para ser melhor do que Pedro Passos Coelho, chega-lhepara fazer este conto para crianças terminar consigo, daqui a meia dúzia de meses, a fazer de Primeiro-ministro
apanhado a dar umas borlas fiscais, sei lá, por exemplo 4,8 milhões ao Benfica,
com a austeridade como personagem secundária de mais quatro anos de contos para
crianças. Sim, que ele não está para levar com a porta na cara em Bruxelas por causa
da dívida. Questão de gosto outra vez. Portugal está hoje muito melhor do que estava em 2011... Até 2025 teremos austeridade de sobra para nos fartarmos destas histórias contadas à moda do centrão.
quarta-feira, 11 de março de 2015
Lições gregas, continuação
A casta vem repetindo à exaustão que contas são contas, que quem deve paga, que os credores são quem manda.
Pois está a chegar a hora da Alemanha mostrar que é tão boa a pagar como o é a cobrar
dívidas. Finalmente os gregos têm um Governo com a coragem que o Executivo socialista
no poder em 2000 não teve para aplicar a decisão do Supremo Tribunal de Atenas:
exigir
à Alemanha o pagamento das compensações
fixadas na Conferência Internacional de Paris de 1946 pelos crimes e destruição
do país pelos nazis durante a II Guerra Mundial (108 mil milhões de euros) e pelo
empréstimo que o Banco da Grécia foi obrigado a fazer à Alemanha de Hitler (54 mil
milhões). A soma, 162 mil milhões de euros, ainda não inclui qualquer indemnização
pela destruição do país imposta pela troika CE/BCE/FMI nos últimos 6 anos. Essas são contas
a fazer a seu tempo, nas quais Portugal também poderá entrar como credor na eventualidade de, como os gregos, os portugueses alguma vez chegarem a aprender a usar a democracia para elegerem quem os represente sem os dissociar de um interesse nacional que os europeísmos mais servis insistem em manter à prova de gente.
Vagamente relacionado: o ministro dos Negócios Estrangeiros, Gunnar Bragi Sveinsson, anunciou,
em nota distribuída à imprensa, ter comunicado a decisão à Letónia, que
preside à União Europeia, e informado a Comissão Europeia de que a Islândia retira
a sua candidatura de adesão à União Europeia.
Sobre aquele lado mais magrinho do Estado - Raquel Varela
«Directa e indirectamente, a
salvação dos activos da Banca (e a nacionalização dos prejuízos) faz sair do
Estado qualquer coisa como o equivalente a 28% do PIB, 47 mil milhões de euros
(12 mil milhões de recapitalização e 35 mil de garantias). A PT não é um
restaurante familiar que foi à falência porque está afogado em impostos e não
tem clientes. É um monopólio de facto que, quando foi entregue aos gestores
privados – os que são agraciados com cruzes de mérito – valia 10 vezes mais.
Dez vezes mais.
A verdadeira comissão de inquérito era os
trabalhadores obrigarem a PT e o BES a abrir os livros de contas, e estes serem
entregues no Ministério Público, e a polícia judiciária – que tem um Gabinete
de Recuperação de Activos – começar a recuperar os activos e devolver uma
parte, apenas uma parte, deste esquema, a que assistimos na forma de sketchs
humorísticos, só que agora é diariamente no parlamento, com uma comissão que
não tem qualquer poder de decisão judicial/criminal. Too Big to Fail, Too Big
To Jail? Veja-se: o que se pede é o mínimo - cumprimento da lei e respeito pela
população. Abertura das contas, escrutínio público, investigação judicial,
consequências criminais.
Não é possível levar duas das maiores empresas
do país à falência e ao desmantelamento e o resultado ser sessões diárias para
a TV, no Parlamento, a explicar "não sei", "não me lembro"
e..., bom, a vida continua, com o salário e as reformas e o Estado Social a
carregarem estas cruzes. Se no fim disto tudo ainda alguém acha as altas taxas
de abstenção incompreensíveis é porque não tem assistido aos filmes destas
comissões com atenção. Cá em casa já optámos por considerar estes filmes um
momento de relax ao final do dia, e os Monty Python um debate político elevado.»
– Raquel
Varela.
Vagamente
relacionado: Em resposta às 21 questões enviadas pelos deputados da Comissão
Parlamentar de Inquérito à Gestão do BES e do GES , Vítor
Gaspar diz desconhecer qualquer tipo de problema tanto no Banco Espírito
Santo (BES) como no Grupo Espírito Santo (GES) no período em que foi ministro
das Finanças
Ainda
mais vagamente: A construção do duplex da Avenida da Liberdade no qual António
Costa viveu, entre Julho de 2012 e o final do ano passado, foi autorizada pela
Câmara de Lisboa, no início de 2010, contra a opinião dos técnicos do Núcleo
Residente da Estrutura Consultiva do Plano Director Municipal. O apartamento,
que não se encontra em propriedade horizontal, e faz parte de um prédio
pertencente a uma imobiliária da família Violas (casinos Solverde e BPI, entre
outros investimentos), tinha acabado de ser construído quando o autarca passou
a habitá-lo pagando uma renda
mensal de 1100 euros.
E nada a ver com: o ex-dirigente
social-democrata José Luís Arnault colaborou na decisão da Goldman Sachs, da
qual é um dos vice-presidentes, de financiar em 680 milhões de euros o BES. A
operação de securitização foi acordada semanas antes de o banco ser
intervencionado, diz a edição digital desta segunda-feira do Wall Street
Journal.
terça-feira, 10 de março de 2015
Da longa série "tudo o que um PR não deve ser"
Nem cumprir, nem fazer cumprir a
Constituição que não cumpriu nem fez cumprir, nem ser o Presidente de todos os
portugueses que nunca foi, nem intervir quando preferiu fazer-se de morto. Dom
Cavaco acaba de cavalgar sobre o Presidente da República que não foi para, na
boa tradição monárquica, dizer que o seu sucessor deverá ter uma experiência
pelo menos igual à sua no domínio
da política externa. Lástima que a tradição republicana tenha abolido os
cognomes. Dom Cavaco, o da fraca memória, esqueceu-se do que defendia em 1991 Dom
Cavaco, PM especialista em assuntos internos: precisamente que o Presidente da
República nãodeve intrometer-se em questões de política externa. Dom Cavaco, sempre em grande. Mas afinal, em
que ficamos? Dom Cavaco, o especialista em assuntos externos, leu a notícia do Ministro
da Justiça holandês que acaba de demitir-se por ter mentido ao Parlamento. E
Dom Cavaco, o especialista em assuntos internos, nada fez nas várias vezes que D.
Maria Luís, a dos swaps, mentiu ao Parlamento e, na semana passada, para não fazer
nada outra vez, reduziu a politiquice de campanha os calotes à Segurança Social
de D. Pedro Piegas, o recordista dos cortes nas prestações sociais e do confisco
de pensões de reforma. Ficamos angustiados com o ano de mandato que resta a Dom
Cavaco, a nódoa que continua a exemplificar tudo o que um Presidente da República
não deve ser. A característica principal do perfil do seu sucessor é ter a capacidade
de reabilitar a figura institucional do Presidente da República que Dom Cavaco continua
a enterrar na lama. Não vai ser mesmo nada fácil. Dom Cavaco, o cavaco, passou dois mandatos a especializar-se em fazer do Palácio de Belém um lugar de má fama. Superou-se.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Alerta IMI
Se diferenciasse imóveis
habitados de imóveis devolutos, seria um instrumento importante no combate à
desertificação dos centros das nossas cidades. Não diferencia. Resultado: cidades
cada vez mais desertas e degradadas e custos económicos sociais e ambientais acrescidos
por trajectos casa-trabalho-casa mais longos. Se sobrecarregasse os que mais têm
para aliviar os que menos podem, seria socialmente mais justo. Diferencia ao
contrário. Sobrecarrega os que menos têm para poder isentar fundos imobiliários
da banca a 50% e a 100% o maior proprietário do país, a Igreja Católica Portuguesa,
sem fazer depender a isenção da utilização do imóvel para fins sociais. Resultado:
os fundos imobiliários podem continuar a desenvolver a sua actividade
especulativa e a Igreja Católica pode continuar a manter imóveis vazios
ignorando a multidão de sem abrigo que aumenta por todo o país. Nos próximos tempos
e à medida que vão chegando as notificações para pagar a primeira prestação de 2015,
o IMI estará na ordem do dia. Este ano já não haverá tecto de 75 euros para os aumentos
que decorrem das sobreavaliações feitas pelas
finanças nos últimos anos e o agravamento fiscal em sede de IMI, alerta
o DN, pode ultrapassar os 500%, isto é, para as famílias, e 250% para os
bancos, e 0% para a ICAR. A austeridade selectiva em ano de eleições será como se vê. Para o ano, será como os portugueses decidirem.
domingo, 8 de março de 2015
Gostei de ler: "Uma economia que mata"
«Vários órgãos de Comunicação
Social noticiaram que a EDP vai distribuir 1,040 mil milhões de euros de
lucros. Se esta ainda fosse uma empresa pública, esses lucros constituiriam
receita no Orçamento do Estado. Tomando como base comparativa os gastos do Estado
em rubricas importantes no ano de 2015, conclui-se que é um montante
equivalente a mais de metade da despesa da Segurança Social em subsídio de
desemprego, a cinco vezes mais que o rendimento social de inserção ou, noutra
ótica, a mais de um quarto do investimento público. Se a EDP ainda fosse uma
empresa pública, Portugal poderia não ser um dos países da Europa com o preço
da energia mais caro. Se a EDP fosse uma empresa pública não existiriam as tais
rendas excessivas de que todos falam. Para onde vão os mil e quarenta milhões? Quanto desaguará em investimento produtivo? Quantos empregos irá
criar?
Segundo o jornal "i",
desde 2010 até 2014 os gestores e acionistas da PT levaram para casa 3,5 mil
milhões de euros. Nesse mesmo período as remunerações dos trabalhadores da
empresa diminuíram 5,3%, a remuneração fixa e variável dos administradores
aumentou 19%. Se ainda fosse uma empresa pública, grande parte destes 3,5 mil
milhões de euros poderia ter sido reinvestida na empresa, desenvolvendo-a e criando
emprego e também podia ter ajudado a reforçar os orçamentos da saúde, da
educação, ou da proteção social. Em vez disso, para onde foram os 3,5 mil
milhões de euros? Esse valor é pouco menos de metade do valor pelo qual foi
vendida a PT.
Face a estes números astronómicos
ocorre a pergunta: como é possível? Como é possível remunerar capitais de forma
tão choruda, num país onde centenas de milhares de pessoas estão a enfrentar
carências violentas? Acontece porque a "legalidade" instituída para
que tudo isto seja possível deixa bem longe a moral e a ética, porque nos
conselhos de administração e assembleias-gerais destas empresas o que conta,
como critério de todas as decisões, é a valorização, o mais elevada e rápida
possível, dos detentores do capital. As decisões que conduzem a estas
imoralidades são privadas, mas os seus efeitos atingem a vida de cada cidadão e
comprometem o nosso destino coletivo.
Este é o inevitável resultado de
opções estratégicas do capitalismo neoliberal que nos sufoca e que, ao quebrarem
todas as barreiras e limites, se transformou num sistema económico, não de
produção, mas de predação. Entretanto, a entrega de milhões e milhões aos
grandes detentores do capital não se fica por aqui. As práticas predatórias
estão nos esquemas das PPP, nos negócios das swaps que no último ano terão
acrescentado mais de 430 milhões de euros de prejuízos, nos saques
"legais" que o sistema bancário, especialista na fuga ao Fisco,
consegue fazer.
Num Mundo em que o capital é
totalmente livre de se deslocar, os detentores do poder, para o seduzirem,
estão sempre prontos a oferecer-lhe uma remuneração maior do que a
concorrência. Sempre maior, nem que para isso seja preciso comprimir
injustamente outras remunerações e restringir liberdades e direitos.
Neste Mundo implacável, sem
ética, ocorre perguntar: o que fazer? Talvez pensar em limitar a liberdade
desses capitais sem terra, antes de limitar as liberdades e os direitos das
pessoas. Talvez efetivar o direito a salários e pensões dignas. Talvez trazer
de novo à agenda a taxação sobre as transações financeiras. Talvez fazer os
capitais pagar portagem nas suas viagens, em vez de as cobrar tão excessivas
nas scut, nos impostos de trabalhadores e pensionistas, nas faturas de energia,
nas contas do telemóvel e do telefone. Talvez pensar em acabar com
privatizações sem sentido como a da TAP, e, considerar mesmo a sério, a
possibilidade de devolver à esfera pública posições determinantes na banca e
algumas grandes empresas que hoje são privadas.
Uma economia onde o especulativo
aniquila o produtivo, onde o dinheiro dos poderosos vale mais do que os bens e
serviços necessários a uma vida digna para o conjunto dos cidadãos e em que a
ética definha é uma economia capaz de matar por mais um ponto percentual de taxa
de lucro.» – Manuel Carvalho da Silva, no
JN.
(corrigido)
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