segunda-feira, 16 de março de 2015
Ai aguentam, aguentam
Segundo um estudo da Organização
Mundial da Saúde (OMS) e do Observatório Europeu sobre Sistemas de Saúde hoje
divulgado, A despesa em cuidados de saúde por habitante em Portugal está
20% abaixo da média europeia. Segundo o Governo, os
4625 óbitos a mais que fizeram o recorde de mortalidade registado neste Inverno
devem-se à gripe e ao frio. Segundo o senhor Presidente da República, as reformas
estruturais que produziram os números anteriores são
para continuar. Garantidamente irão continuar, qualquer que seja a combinação
de partidos do arco da austeridade que componha a maioria parlamentar que suporte
o próximo Governo. E bastará que em 2016 a austeridade mate “apenas” 4624 acima
da média, menos um de nós do que este ano, para que o próximo Governo possa falar-nos ao coração
sobre o tanto que o país melhorou com a sua austeridade fofinha.
Gostei de ler: "Predadores"
«O caso dos 2500 clientes do BES
burlados pelo "papel comercial" vendido na vertiginosa fase final da
ruinosa gestão de Ricardo Salgado é apenas um capítulo do longo calvário que
nos aguarda. Na Áustria, o Hypo Alpe-Adria-Bank, da Caríntia, foi nacionalizado
em 2008. Viena injetou 5,5 mil milhões de euros dos contribuintes. Sete anos
depois, o "buraco" continua a alastrar, atingindo 7,8 mil milhões de
euros que, muito provavelmente, acabarão por ser pagos pelos 550 mil cidadãos
da Caríntia. As regras da zona euro foram gizadas por políticos iliteratos,
coadjuvados por economistas de terceira categoria, deixando o caminho aberto
para os banksters, de que tão exuberantemente fala Marc Roche no seu recente
ensaio. A crise financeira, iniciada nos EUA, propagou-se de forma letal na
Europa porque a zona euro foi o paraíso da desmesura bancária (que destrói o
valor da confiança, essa alma do negócio da banca). O caso BES é exemplar, pois
demonstra que, depois de sucessivos testes de stress, de três anos de escrutínio
da troika, dos alicerces lançados da união bancária, é ainda possível um país
ser engolido pelo buraco negro de crimes que ludibriam todos os níveis de
regulação, nacional e europeia. Com exceção da minúscula Islândia, os
responsáveis pelo empobrecimento de tantos milhões de europeus continuam a sua
confortável existência. Mais, conseguiram transferir a culpa dos desequilíbrios
por si provocados para os Estados periféricos (esta é a "crise da dívida
soberana", lembram-se?) e para a gente humilde (os jardineiros e
paralíticos gregos, das fábulas que os néscios repetem). A Europa terá de
escolher entre controlar o seu sistema financeiro e continuar a deixar-se
devorar por ele.» – Viriato Soromenho Marques, no DN.
domingo, 15 de março de 2015
Da série "gosto muito de os ouvir falar"
O mundo nunca mais foi o mesmo depois
de Cavaco Silva ter incluído
no perfil do Presidente da República ideal um domínio dos assuntos de política
externa pelo menos igual ao seu. Depois do bailado
dos últimos dias interpretado em bicos de pés por Marcelo Rebelo de Sousa e
Pedro Santana Lopes, temos hoje mais um recital de alguém que, embora não sendo
candidato, demonstra ter tais atributos. Trata-se do jovem Comissário Europeu Carlos
moedas que, em entrevista à TSF, diz que os gregos
têm de aprender que, nos processos negociais na Europa, «é melhor fazer do que
falar, e quanto mais se fala, menos se consegue, e quanto menos falamos e mais
trabalhamos, melhor nos portamos»; aquilo que conta na Europa, prossegue
Moedas, «é o que fazemos, e não aquilo que falamos, ou as entrevistas que
damos, ou o quanto nos queixamos». Temos homem. Não vale a pena comentar o
que Portugal tem conseguido ao fazer como diz, não há palavras que consigam
contrariar a destruição do país em todos os aspectos que vem retratado nas estatísticas,
mas confesso que gostei particularmente daquela parte em que o entrevistado se
refere à inutilidade das "entrevistas que damos", um gesto cheio de
humildade e de humor. É que parece que os especialistas do serviço científico do
Parlamento alemão acabam de pronunciar-se sobre o direito da Grécia vir a ser ressarcida
pela destruição do país durante a ocupação nazi na segunda guerra mundial. E deram
razão à coragem do novo Governo grego, não à subserviência premiada que vai
proporcionando carreiras fulgurantes aos Moedas desta vida. E não, eles não são
mais alemães que os próprios alemães. Os videirinhos têm em ambição o que lhes
falta em escrúpulos e em vergonha.
Vagamente
relacionado: «(…) Cinquenta anos depois do mísero acordo de 1960, subjugada a
Grécia por uma dívida contraída nas condições duvidosas que conhecemos, que a
transformou numa colónia de Bruxelas sob regras económicas impostas por Berlim,
é perfeitamente razoável que os gregos, insultados todos os dias de laxistas e
corruptos, queiram reabrir um problema que o Estado alemão sabe bem que tão
cedo não se fechará. Aliás: é acima de tudo a atitude de Berlim que mais
contribui para que se não feche! A iniciativa do Governo grego é até
perfeitamente subsidiária: é verdade que Atenas quer voltar a discutir um
“empréstimo” que o ocupante alemão subtraiu dos cofres gregos durante a guerra,
em 1942, e que nunca foi devolvido, mas é sobretudo uma sentença do Tribunal
Supremo grego, de 2000, que irrita os alemães. A justiça reconheceu, então, o
direito dos descendentes de vítimas do massacre perpetrado pelas Waffen SS na
aldeia de Distomo, em 1944, matando 218 pessoas, a receberem uma indemnização,
fixada em 28,6 milhões de euros, a cargo do Estado alemão. Perante a recusa
alemã em pagar, o Supremo exigiu ao Governo que expropriasse bens alemães na
Grécia. Querendo evitar enfrentar Berlim, o Governo não o fez. Quando um
tribunal italiano deu razão aos gregos, a Alemanha levou o processo ao Tribunal
Internacional da Haia e, para escândalo das organizações internacionais de
direitos humanos, ganhou. Já em 2013, uma comissão de especialistas nomeada
pelo anterior Governo calculara entre 269 e 332 mil milhões de euros o montante
de todas as reparações devidas pela Alemanha e que não foram pagas em 1960. Uma
quantia que supera toda a dívida grega. Chantageado como se vê por Schäuble e
Dijsselbloem, porque haveria Tsipras hesitar em reabrir a questão? Porque a sua
atitude não contribui para a construção europeia? Porquê: a dos alemães e dos
seus aliados austeritários, contribui?» (Manuel
Loff, vale a pena ler na íntegra)
sexta-feira, 13 de março de 2015
Gostei de ler: "Aldrabões à nossa volta"
![]() |
| Sócrates e Passos, passado e presente. |
«A origem do dinheiro é variada,
e relativamente indiferente para o argumento em questão. Vejamos o caso de
Ricardo Salgado: um 'presente' de 14 milhões, generosamente enviado de Angola
por um construtor, de seu nome José Guilherme; ou o seu quinhão na comissão
paga à ESCOM pelo consórcio alemão GSC no negócio dos submarinos. Mas nem só de
liberalidades vive um homem, e nem só de Salgado vive um paraíso fiscal.
Só na filial suíça do HSBC são
969 milhões de dólares, separados por 778 contas bancárias, pertencentes a 611
clientes, individuais ou coletivos, todos eles relacionados com Portugal. Mas
há outros bancos na Suíça, e há muitas suíças no mundo.
A viagem não é fácil mas, pelos
vistos, vale bem a pena. Há duas formas de lá chegar: a boa e velha mala, sem
perguntas nem registos, ou, em alternativa, uma complexa rede de offshores
(veja-se o caso dos submarinos), com o objetivo de branquear a origem e rasto
do dinheiro. Mas porquê tanto trabalho? O que há no fim da jornada?
Nas palavras do especialista
Michel Canals: "Quando o possuidor de uma conta especial numerada chega ao
banco, é recebido pelo gestor, que é o único a saber a sua identidade.
Atendemos essa pessoa em salas especiais e atendemos os seus desejos".
Desejos, que desejos?!
Para começar, total
confidencialidade, acrescida da palavra de honra que nunca, mas nunca, haverá
lugar a colaborações com entidades fiscais e judiciais. Para continuar, a possibilidade
de não declarar o capital no país de origem, evitando assim a maçada de lá
deixar uma percentagem em impostos. Para acabar, uma luxuosa lavandaria de
dinheiro sujo do tráfico, da corrupção ou de crimes económicos.
Mas não há bela sem senão. Uma vez
colocado no estrangeiro, o dinheiro poderá lá ser esbanjado, especulado ou
investido sem problemas de maior. O problema reaparece quando é preciso que as
notas, limpas e tax free, regressem a Portugal. É preciso fazer o caminho de
volta, mas desta vez os trilhos são diferentes. A hipótese dos offshore é menos
provável, afinal, esse foi o problema inicial. Sobram três alternativas. A
primeira, ainda menos provável que a anterior, é declarar o dinheiro, pagar
impostos, e arriscar acusações de fuga ao fisco. A segunda? Adivinharam, a
sempre disponível e rudimentar mala.
Apesar das dificuldades, o
negócio tinha (e tem) tal sucesso que vários empreendedores resolveram investir
no transporte de malas e serviços conexos. Dois deles - Michel Canals e Nicolas
Figueiredo - oriundos da UBS (também suíça), uniram-se, numa joint venture, ao
self made man 'Zé das Medalhas', para montar um 'pequeno' negócio de transporte
e lavagem de capitais. O caso ficou conhecido por Monte Branco, e não é nada
mais nada menos que a maior teia do género alguma vez detetada em Portugal. Sem
entrar em pormenores, basta dizer que parece um daqueles jogos de ligar os
pontos entre o BPN e a Operação furacão, a família Espírito Santo e a Akoya
Asset Management de Álvaro Sobrinho e Helder Bataglia, dono da ESCOM. O caso
ainda está em investigação mas, na comunicação social, são vários os nomes de
proeminentes personalidades portuguesas que têm surgido como potenciais
clientes desta rede.
Resta, por fim, referir a
terceira possibilidade. Uma que resolve todos os problemas: uma taxa de imposto
reduzida (5% ou 7,5%), proteção contra processos judiciais e completa
confidencialidade. Mas quem é o responsável por mais este paraíso na terra?
Bom, a taxa de imposto reduzida é garantida pelas finanças, a proteção pelo
Estado português, e a confidencialidade pelo Banco de Portugal, que guarda os
processos, qual HSBC, sem fugas ou distrações. O paraíso chama-se Regime
Extraordinário de Regularização Tributária (RERT), e é, de facto,
extraordinário pelas condições que oferece, mas não por aquilo que
(supostamente) diz ser.
Desde 2005, este país já viu três
RERT. Dois pelas mãos de Sócrates e um no mandato de Passos Coelho. O último já
foi depois da lista negra do HSBC ter sido entregue à então ministra das
finanças francesa Lagarde, e acontece exatamente no momento em que se começava
a desvendar a teia do caso Monte Branco. Talvez por isso tenha sido tão bem
sucedido.
No total, nestes últimos 10 anos,
foram declarados 4600 milhões de euros que pagaram uma taxa média de imposto
6,43%. No mesmo país em que o levantamento do sigilo bancário é exigido a quem
ganha o RSI ou quer aceder a um passe social de transporte. Em que metade dos
desempregados não tem acesso ao subsídio de desemprego. Em que as finanças abusam
de quem passa numa portagem sem pagar. Em que se esmaga quem trabalha com
impostos de todas as formas e feitios. É caso para dizer, parafraseando Ricardo
Salgado numa reunião do Conselho Superior do clã Espírito Santo, 'só vejo
aldrabões à nossa volta'.» – Mariana Mortágua, no Expresso.
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| Costa e Rio, o futuro deste passado. |
quinta-feira, 12 de março de 2015
Um conto para crianças, mas "socialista"
As histórias para crianças estão
na moda. O centrão diverte-se imenso a disputar cada centímetro dos terrenos
deste nosso imaginário colectivo mais infantil. Há um par de semanas, Pedro
Passos Coelho teve oportunidade de contar a sua, sobre uns meninos gregos muito
maus que ousaram desobedecer à madrinha. A coisa até nem lhe saiu nada bem, o
certo é que já havia muita gente a reclamar uma história para crianças
socialista: ó Costa, tu não te fiques, os socialistas não vão ficar nada
contentes se não lhes contares uma também. E a história lá chegou, ontem, António
Costa contou-a em entrevista à RTP. Quanta imaginação. Na versão de António Costa,
um Primeiro-ministro não paga à Segurança Social, dá umas desculpas
esfarrapadas, que não sabia, que só soube três anos depois de um jornalista o
ter lembrado, que não é um cidadão
perfeito mas que para Primeiro-ministro serve perfeitamente, patati, patatá, e,
apesar do esquecido se ter lembrado de andar quatro anos a fio a perseguir com cobranças do que deviam e do que não deviam cidadãos que empobreceu o mais que pôde, o narrador diz
que entende que as explicações são mais do que suficientes porque ele, que também
é o criador do conto, não gosta de "política
de casos". Está no seu direito. Não passa pela cabeça de ninguém obrigar,
por exemplo a Margarida Rebelo Pinto, a incluir nos seus livros os casos das centenas
de milhar de portugueses que perderam o direito a subsídio de desemprego,
Rendimento Social de Inserção, Complemento Solidário para Idosos e abono de família, todos eles pagos pela
mesma Segurança Social que o senhor Primeiro-ministro que lhos retirou tentou ludibriar: a
autora não gosta de casos de pobreza. Para além do mais, António Costa,
tal como Pedro Passos Coelho, pertence àquela corrente de contadores de histórias
descrita sucintamente na crónica da semana passada de Ricardo Araújo Pereira naquela
passagem onde se lê "um aluno falha a
entrega dos trabalhos de casa mas justifica-se dizendo que não procedeu tão mal
como um aluno que, no ano anterior, tinha roubado a lancheira a outro menino"."
António Costa já tem lancheira para ser melhor do que Pedro Passos Coelho, chega-lhepara fazer este conto para crianças terminar consigo, daqui a meia dúzia de meses, a fazer de Primeiro-ministro
apanhado a dar umas borlas fiscais, sei lá, por exemplo 4,8 milhões ao Benfica,
com a austeridade como personagem secundária de mais quatro anos de contos para
crianças. Sim, que ele não está para levar com a porta na cara em Bruxelas por causa
da dívida. Questão de gosto outra vez. Portugal está hoje muito melhor do que estava em 2011... Até 2025 teremos austeridade de sobra para nos fartarmos destas histórias contadas à moda do centrão.
quarta-feira, 11 de março de 2015
Lições gregas, continuação
A casta vem repetindo à exaustão que contas são contas, que quem deve paga, que os credores são quem manda.
Pois está a chegar a hora da Alemanha mostrar que é tão boa a pagar como o é a cobrar
dívidas. Finalmente os gregos têm um Governo com a coragem que o Executivo socialista
no poder em 2000 não teve para aplicar a decisão do Supremo Tribunal de Atenas:
exigir
à Alemanha o pagamento das compensações
fixadas na Conferência Internacional de Paris de 1946 pelos crimes e destruição
do país pelos nazis durante a II Guerra Mundial (108 mil milhões de euros) e pelo
empréstimo que o Banco da Grécia foi obrigado a fazer à Alemanha de Hitler (54 mil
milhões). A soma, 162 mil milhões de euros, ainda não inclui qualquer indemnização
pela destruição do país imposta pela troika CE/BCE/FMI nos últimos 6 anos. Essas são contas
a fazer a seu tempo, nas quais Portugal também poderá entrar como credor na eventualidade de, como os gregos, os portugueses alguma vez chegarem a aprender a usar a democracia para elegerem quem os represente sem os dissociar de um interesse nacional que os europeísmos mais servis insistem em manter à prova de gente.
Vagamente relacionado: o ministro dos Negócios Estrangeiros, Gunnar Bragi Sveinsson, anunciou,
em nota distribuída à imprensa, ter comunicado a decisão à Letónia, que
preside à União Europeia, e informado a Comissão Europeia de que a Islândia retira
a sua candidatura de adesão à União Europeia.
Sobre aquele lado mais magrinho do Estado - Raquel Varela
«Directa e indirectamente, a
salvação dos activos da Banca (e a nacionalização dos prejuízos) faz sair do
Estado qualquer coisa como o equivalente a 28% do PIB, 47 mil milhões de euros
(12 mil milhões de recapitalização e 35 mil de garantias). A PT não é um
restaurante familiar que foi à falência porque está afogado em impostos e não
tem clientes. É um monopólio de facto que, quando foi entregue aos gestores
privados – os que são agraciados com cruzes de mérito – valia 10 vezes mais.
Dez vezes mais.
A verdadeira comissão de inquérito era os
trabalhadores obrigarem a PT e o BES a abrir os livros de contas, e estes serem
entregues no Ministério Público, e a polícia judiciária – que tem um Gabinete
de Recuperação de Activos – começar a recuperar os activos e devolver uma
parte, apenas uma parte, deste esquema, a que assistimos na forma de sketchs
humorísticos, só que agora é diariamente no parlamento, com uma comissão que
não tem qualquer poder de decisão judicial/criminal. Too Big to Fail, Too Big
To Jail? Veja-se: o que se pede é o mínimo - cumprimento da lei e respeito pela
população. Abertura das contas, escrutínio público, investigação judicial,
consequências criminais.
Não é possível levar duas das maiores empresas
do país à falência e ao desmantelamento e o resultado ser sessões diárias para
a TV, no Parlamento, a explicar "não sei", "não me lembro"
e..., bom, a vida continua, com o salário e as reformas e o Estado Social a
carregarem estas cruzes. Se no fim disto tudo ainda alguém acha as altas taxas
de abstenção incompreensíveis é porque não tem assistido aos filmes destas
comissões com atenção. Cá em casa já optámos por considerar estes filmes um
momento de relax ao final do dia, e os Monty Python um debate político elevado.»
– Raquel
Varela.
Vagamente
relacionado: Em resposta às 21 questões enviadas pelos deputados da Comissão
Parlamentar de Inquérito à Gestão do BES e do GES , Vítor
Gaspar diz desconhecer qualquer tipo de problema tanto no Banco Espírito
Santo (BES) como no Grupo Espírito Santo (GES) no período em que foi ministro
das Finanças
Ainda
mais vagamente: A construção do duplex da Avenida da Liberdade no qual António
Costa viveu, entre Julho de 2012 e o final do ano passado, foi autorizada pela
Câmara de Lisboa, no início de 2010, contra a opinião dos técnicos do Núcleo
Residente da Estrutura Consultiva do Plano Director Municipal. O apartamento,
que não se encontra em propriedade horizontal, e faz parte de um prédio
pertencente a uma imobiliária da família Violas (casinos Solverde e BPI, entre
outros investimentos), tinha acabado de ser construído quando o autarca passou
a habitá-lo pagando uma renda
mensal de 1100 euros.
E nada a ver com: o ex-dirigente
social-democrata José Luís Arnault colaborou na decisão da Goldman Sachs, da
qual é um dos vice-presidentes, de financiar em 680 milhões de euros o BES. A
operação de securitização foi acordada semanas antes de o banco ser
intervencionado, diz a edição digital desta segunda-feira do Wall Street
Journal.
terça-feira, 10 de março de 2015
Da longa série "tudo o que um PR não deve ser"
Nem cumprir, nem fazer cumprir a
Constituição que não cumpriu nem fez cumprir, nem ser o Presidente de todos os
portugueses que nunca foi, nem intervir quando preferiu fazer-se de morto. Dom
Cavaco acaba de cavalgar sobre o Presidente da República que não foi para, na
boa tradição monárquica, dizer que o seu sucessor deverá ter uma experiência
pelo menos igual à sua no domínio
da política externa. Lástima que a tradição republicana tenha abolido os
cognomes. Dom Cavaco, o da fraca memória, esqueceu-se do que defendia em 1991 Dom
Cavaco, PM especialista em assuntos internos: precisamente que o Presidente da
República nãodeve intrometer-se em questões de política externa. Dom Cavaco, sempre em grande. Mas afinal, em
que ficamos? Dom Cavaco, o especialista em assuntos externos, leu a notícia do Ministro
da Justiça holandês que acaba de demitir-se por ter mentido ao Parlamento. E
Dom Cavaco, o especialista em assuntos internos, nada fez nas várias vezes que D.
Maria Luís, a dos swaps, mentiu ao Parlamento e, na semana passada, para não fazer
nada outra vez, reduziu a politiquice de campanha os calotes à Segurança Social
de D. Pedro Piegas, o recordista dos cortes nas prestações sociais e do confisco
de pensões de reforma. Ficamos angustiados com o ano de mandato que resta a Dom
Cavaco, a nódoa que continua a exemplificar tudo o que um Presidente da República
não deve ser. A característica principal do perfil do seu sucessor é ter a capacidade
de reabilitar a figura institucional do Presidente da República que Dom Cavaco continua
a enterrar na lama. Não vai ser mesmo nada fácil. Dom Cavaco, o cavaco, passou dois mandatos a especializar-se em fazer do Palácio de Belém um lugar de má fama. Superou-se.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Alerta IMI
Se diferenciasse imóveis
habitados de imóveis devolutos, seria um instrumento importante no combate à
desertificação dos centros das nossas cidades. Não diferencia. Resultado: cidades
cada vez mais desertas e degradadas e custos económicos sociais e ambientais acrescidos
por trajectos casa-trabalho-casa mais longos. Se sobrecarregasse os que mais têm
para aliviar os que menos podem, seria socialmente mais justo. Diferencia ao
contrário. Sobrecarrega os que menos têm para poder isentar fundos imobiliários
da banca a 50% e a 100% o maior proprietário do país, a Igreja Católica Portuguesa,
sem fazer depender a isenção da utilização do imóvel para fins sociais. Resultado:
os fundos imobiliários podem continuar a desenvolver a sua actividade
especulativa e a Igreja Católica pode continuar a manter imóveis vazios
ignorando a multidão de sem abrigo que aumenta por todo o país. Nos próximos tempos
e à medida que vão chegando as notificações para pagar a primeira prestação de 2015,
o IMI estará na ordem do dia. Este ano já não haverá tecto de 75 euros para os aumentos
que decorrem das sobreavaliações feitas pelas
finanças nos últimos anos e o agravamento fiscal em sede de IMI, alerta
o DN, pode ultrapassar os 500%, isto é, para as famílias, e 250% para os
bancos, e 0% para a ICAR. A austeridade selectiva em ano de eleições será como se vê. Para o ano, será como os portugueses decidirem.
domingo, 8 de março de 2015
Gostei de ler: "Uma economia que mata"
«Vários órgãos de Comunicação
Social noticiaram que a EDP vai distribuir 1,040 mil milhões de euros de
lucros. Se esta ainda fosse uma empresa pública, esses lucros constituiriam
receita no Orçamento do Estado. Tomando como base comparativa os gastos do Estado
em rubricas importantes no ano de 2015, conclui-se que é um montante
equivalente a mais de metade da despesa da Segurança Social em subsídio de
desemprego, a cinco vezes mais que o rendimento social de inserção ou, noutra
ótica, a mais de um quarto do investimento público. Se a EDP ainda fosse uma
empresa pública, Portugal poderia não ser um dos países da Europa com o preço
da energia mais caro. Se a EDP fosse uma empresa pública não existiriam as tais
rendas excessivas de que todos falam. Para onde vão os mil e quarenta milhões? Quanto desaguará em investimento produtivo? Quantos empregos irá
criar?
Segundo o jornal "i",
desde 2010 até 2014 os gestores e acionistas da PT levaram para casa 3,5 mil
milhões de euros. Nesse mesmo período as remunerações dos trabalhadores da
empresa diminuíram 5,3%, a remuneração fixa e variável dos administradores
aumentou 19%. Se ainda fosse uma empresa pública, grande parte destes 3,5 mil
milhões de euros poderia ter sido reinvestida na empresa, desenvolvendo-a e criando
emprego e também podia ter ajudado a reforçar os orçamentos da saúde, da
educação, ou da proteção social. Em vez disso, para onde foram os 3,5 mil
milhões de euros? Esse valor é pouco menos de metade do valor pelo qual foi
vendida a PT.
Face a estes números astronómicos
ocorre a pergunta: como é possível? Como é possível remunerar capitais de forma
tão choruda, num país onde centenas de milhares de pessoas estão a enfrentar
carências violentas? Acontece porque a "legalidade" instituída para
que tudo isto seja possível deixa bem longe a moral e a ética, porque nos
conselhos de administração e assembleias-gerais destas empresas o que conta,
como critério de todas as decisões, é a valorização, o mais elevada e rápida
possível, dos detentores do capital. As decisões que conduzem a estas
imoralidades são privadas, mas os seus efeitos atingem a vida de cada cidadão e
comprometem o nosso destino coletivo.
Este é o inevitável resultado de
opções estratégicas do capitalismo neoliberal que nos sufoca e que, ao quebrarem
todas as barreiras e limites, se transformou num sistema económico, não de
produção, mas de predação. Entretanto, a entrega de milhões e milhões aos
grandes detentores do capital não se fica por aqui. As práticas predatórias
estão nos esquemas das PPP, nos negócios das swaps que no último ano terão
acrescentado mais de 430 milhões de euros de prejuízos, nos saques
"legais" que o sistema bancário, especialista na fuga ao Fisco,
consegue fazer.
Num Mundo em que o capital é
totalmente livre de se deslocar, os detentores do poder, para o seduzirem,
estão sempre prontos a oferecer-lhe uma remuneração maior do que a
concorrência. Sempre maior, nem que para isso seja preciso comprimir
injustamente outras remunerações e restringir liberdades e direitos.
Neste Mundo implacável, sem
ética, ocorre perguntar: o que fazer? Talvez pensar em limitar a liberdade
desses capitais sem terra, antes de limitar as liberdades e os direitos das
pessoas. Talvez efetivar o direito a salários e pensões dignas. Talvez trazer
de novo à agenda a taxação sobre as transações financeiras. Talvez fazer os
capitais pagar portagem nas suas viagens, em vez de as cobrar tão excessivas
nas scut, nos impostos de trabalhadores e pensionistas, nas faturas de energia,
nas contas do telemóvel e do telefone. Talvez pensar em acabar com
privatizações sem sentido como a da TAP, e, considerar mesmo a sério, a
possibilidade de devolver à esfera pública posições determinantes na banca e
algumas grandes empresas que hoje são privadas.
Uma economia onde o especulativo
aniquila o produtivo, onde o dinheiro dos poderosos vale mais do que os bens e
serviços necessários a uma vida digna para o conjunto dos cidadãos e em que a
ética definha é uma economia capaz de matar por mais um ponto percentual de taxa
de lucro.» – Manuel Carvalho da Silva, no
JN.
(corrigido)
(corrigido)
sábado, 7 de março de 2015
infracções contributivas, segundo Cavaco: a diferença entre ser grande e ser pequeno
Até os malfeitores conseguem ser
solidários. Um tal Aníbal, Presidente da Quinta da Coelha, acaba de ter um gesto
público de solidariedade com o seu colega de evasões contributivas Pedro. A solidariedade
entre rufiões seria uma coisa bonita e comovente não tivessem os portugueses escolhido
o Primeiro para Presidente da República e o segundo para Primeiro-ministro, mas
assim aconteceu. E foi nessa qualidade que o tal Aníbal tentou convencer o povo
que o escolheu por duas vezes para PR de que infracções contributivas cometidas
por cidadãos comuns são isso mesmo, infracções contributivas punidas por lei,
mas que infracções contributivas cometidas por um Primeiro-ministro se resumem a mera querela
político-partidária. Ainda não foi desta que a criatura teve o seu primeiro assomo de decência. Mas se a redução é imbecil ao extremo, a disputa político-partidária não tem nada de absurdo. Basta registar como no parceiro de memorando
se esfregam tantas mãos de contentamento diante da possibilidade de chegar ao poder
sem discutir a calamidade, recentemente elogiada pelo seu líder, causada por uma
austeridade que continuará a destruir o país caso o PS ganhe as próximas eleições.
Será muito mau para a nossa democracia se Pedro Passos Coelho resistir à sua série
infindável de calotes ao Estado português, mas não será nada melhor para todos nós
que o aldrabão que se segue consiga chegar ao poder montado nas aldrabices do aldrabão
anterior. Foi assim que Passos Coelho roubou o poder a José Sócrates. Tem sido
assim que a alternância se tem perpetuado. Oxalá não seja outra vez assim que a
austeridade consiga arranjar maneira de continuar por aí a desmantelar o que lhe
resta e a fazer milionários à custa da miséria que vai semeando.
Quatro anos sem poder entrar e sair de casa
É um caso raro em que o direito
de alguém a sair de casa prevaleceu sobre os direitos de propriedade e a
estupidez egoísta de vizinhos e da insensibilidade de um juiz de primeira instância.
O Supremo tribunal de Justiça pronunciou-se a favor da instalação de uma
cadeira elevatória num prédio, em Lisboa, contra a vontade dos proprietários e
dos condóminos que, nem mesmo sendo o inquilino a pagá-la do seu próprio bolso,
sempre se opuseram ao
seu direito de entrar e sair de casa autonomamente. O desfecho
surpreende-me por saber que, por incrível que pareça, a discriminação de cidadãos
portadores de deficiências não tem enquadramento legal minimamente satisfatório
neste país terceiro-mundista também nesta matéria. No caso em apreço, o cidadão
conseguiu fazer valer os seus direitos após uma batalha judicial de quatro anos
perdidos juntamente com todo o dinheiro que lhe custou o processo. De acordo
com a legislação em vigor, se quiser queixar-se das humilhações que com toda a
certeza, e só ele sabe quantas, sofreu
ao longo desta eternidade – e foram discriminações bastante directas, mesmo nada
"indirectas", como as considerou o STJ –, o processo nem sequer segue
para tribunal: a entidade competente para apreciar este tipo de casos é o
Instituto Nacional para a Reabilitação, estrutura com outras vocações que não o
de dirimir conflitos e sem poderes e meios para poder fazer grande coisa. Se há
muito a fazer no que respeita a discriminações de género, raciais e de natureza
sexual, e há, o caminho a percorrer até que os portadores de deficiências se tornem
cidadãos de pleno direito é bastante mais longo e difícil. O tema não está na
moda e a sensibilidade para percebê-lo também não existe.
sexta-feira, 6 de março de 2015
Gostei de ler: "A elite consensual"
«Parece um título anódino, mas quando analisado pelo lado de
uma psicologia racional e de um realismo político, ambos respeitosos dos
grandes equilíbrios, verificamos que é de uma grande envergadura. Nem mais
alemães que os alemães, nem mais gregos que os gregos: eis o título da crónica
da semana passada de Francisco Assis, eurodeputado do PS que escreve neste
jornal todas as quintas-feiras. A balança dialéctica do cronista tem a marca
registada da moderação centrista: “Nem-Nem”.
Em tempos recuados, há mais de meio século, quando floresceu
uma análise semiológica da cultura de massas, Roland Barthes analisou numa das
suas “mitologias” aquilo a que chamou “La Critique Ni-Ni”. Tratava-se, aí, de
um tipo de crítica literária, mas a categoria “Nem-Nem”, a “mecânica da dupla
exclusão” que Barthes dizia ser um traço pequeno-burguês (era esta a linguagem
da época), sobrevive hoje com muita vitalidade na opinião e no comentário da
classe político-mediática das várias proveniências.
Não era preciso Francisco Assis ser tão “Nem-Nem” no título,
tão literal na fórmula, para percebermos que ele não veio ao mundo nem chegou
ao espaço público para perturbar quem quer que seja, gregos ou prussianos. Por
isso, convive harmoniosamente com os seus pares de outros partidos, com os
quais contracena nos painéis do editorialismo jornalístico (chamo editorialismo
a um género não crítico). A encenação de debate cria a aparência de que uns e
outros pensam de maneira diferente, mas toda a diferença se anula na mesmidade
que brota da linguagem comum do “Nem-Nem”. Como se todos eles, festivos como os
saltimbancos e nómadas como os cibernautas, se preparassem diante de um espelho
deformador, antes de debitar opinião e analisar a temperatura exterior do
ambiente: “Diz-me, espelho meu! Estou em forma? Estou conforme?”. A
conformidade é a chave que tudo abre e o critério primeiro para definir a elite
consensual que se moldou pela fórmula do “Nem-Nem”.
Modestos e realistas, estes filisteus de uma nova espécie
abarcam todo o espectro político e não se manifestam apenas às quintas-feiras.
Há-os todos os dias, em proliferação: tantos e tão incapazes de despertarem
qualquer gesto político que ultrapasse os limites da rotina, faça emergir uma
ideia e antecipe um qualquer — pequeníssimo que seja — mundo possível. Esta
elite consensual que segrega uma doxa a que poderíamos chamar o tecno-populismo
(dando assim a ver um paradoxo: são os habituais denunciadores do populismo que
representam o populismo mais saliente do nosso tempo) compreende também uma
parte considerável dos profissionais do comentário político, jornalistas e
analistas das várias especialidades da tripla aliança política, económica e
mediática. Empossados como fabricantes de opinião para consumo da população
genérica, quanto mais “Nem-Nem” são, mais hipóteses têm de ser aclamados como
objectivos e responsáveis.
Francisco Assis não é um “Nem-Nem” cheio de sentido de
Estado, essa virtude tão exigida quando o Estado começou a perder o sentido? E
António Costa não chegou a secretário-geral do PS porque Seguro já “Nem” era,
enquanto ele, Costa, ao menos era “Nem-Nem”? Esta elite consensual, resultante
de um agregado onde se instalou a maquinaria infernal de produção do “homem
médio” ou homo mediocris, reivindica-se como uma maioria moral, na medida em
que exerce uma hegemonia da opinião. E a opinião, no sentido de doxa, de senso
comum, é sempre vontade de maioria e de conformidade. Daí, a regra mais
importante da elite consensual: nunca oferecer qualquer resistência ao
presente.» – António Guerreiro, no Público.
quinta-feira, 5 de março de 2015
Histórias da nossa terra (continuação das continuações anteriores)
A gestão de Ricardo Salgado
desobedeceu ao Banco de Portugal 21 vezes entre Dezembro de 2013 e Julho de
2014, praticou actos dolosos de gestão ruinosa por quatro vezes e concedeu dois
financiamentos a administradores e a empresas do Grupo Espírito Santo sem
cumprir as regras aplicáveis aos membros dos órgãos sociais e a partes
relacionadas. Estas são algumas conclusões de apenas um de cinco blocos de uma
auditoria forense ao BES encomendada pelo Banco de Portugal à Deloitte divulgadas
pela imprensa
de hoje. Revelam, em simultâneo, detalhes da actividade criminosa de uma
administração que, porque já sabia que estava a prazo, aproveitou cada minuto para
sangrar o que restava de um banco que depois todos tivemos que pagar e a permissividade,
senão mesmo cumplicidade, de um regulador que não regulou mas escondeu da AR as conclusões desta auditoria. Ricardo Salgado e
restante quadrilha continuam à solta com o património intacto. Carlos Costa,
que lhes forneceu a informação de que estavam a prazo sem apertar a vigilância e fez vista grossa aos crimes agora conhecidos, continua em funções mesmo depois de se saber que os ocultou. O Governo
que deveria retirar-lhe a confiança e substituí-lo recusa-se também a intrometer-se
no sonho de Isabel dos Santos de se tornar a nova dona disto tudo através dafusão do BPI com o BCP. E tudo isto decorre num ambiente primaveril de paz
social com os três partidos do arco disto tudo inabaláveis na zona de conforto proporcionada
por mais de 75% das intenções de voto dos portugueses. A festa pode continuar. Só pode.
(actualizado)
(actualizado)
quarta-feira, 4 de março de 2015
Da série "ó mãe, aquele menino bateu-me" (continuação)
Em entrevista publicada na edição
de hoje do diário espanhol El
País, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, acusou Portugal
e Espanha de terem sido muito exigentes com a Grécia nas últimas semanas, repetindo
a acusação de Tsipras de há uns dias. É só rir. Desta vez, Passos Coelho e Mariano
Rajoy vão mesmo ter que se queixar do enxovalho directamente à patroa.
As palavras não prescrevem como as dívidas
"E depois
há muitos que deviam pagar os impostos e não pagam. Por quê? Porque não
declaram as suas actividades. Ora, nós temos a obrigação de corrigir estas
injustiças, não há nada mais social-democrata do que isso". "Porque
aquilo que deve orientar um princípio de social-democracia é a igualdade de
oportunidades, não é o privilégio, mesmo o pequeno privilégio. Se há quem se
ponha de fora das suas obrigações para com a sociedade, tendo muito ou pouco,
esse alguém está a ser um ónus importante para todos os outros, que têm umfardo maior."
Não admira que este pregador se refira
a qualquer esforço de reestruturação ou renegociação de dívidas como um conto para
crianças: ele próprio já reestruturava as suas próprias dívidas há muito tempo sem ter que se sujeitar aos caprichos
do Eurogrupo. E não, Pedro Passos Coelho também nunca teve que se passear ociosamente
disfarçado numa cadeira de rodas falsa diante de nenhum ministério para pedir favores. Este paralítico sempre os pediu lá dentro,, onde ninguém o via.
Gostei de ler: "O euro e as lições da história"
![]() |
Com o euro, na vez das desvalorizações cambiais (todos
perdem), o "ajustamento" faz-se desvalorizando salários (apenas perde
quem vive do seu trabalho) – gráfico daqui.
|
«Na era contemporânea e até à
data, houve três grandes experiências de fixação da paridade cambial entre
grupos significativos de economias distintas: o padrão-ouro do final do século
XIX e início do século XX; o sistema de Bretton Woods, que vigorou entre o
final da 2ª Guerra Mundial e o início da década de 1970; e o Euro.
Em todos estes casos, a introdução de um sistema de câmbios fixos visou eliminar o risco cambial e, por essa via, facilitar os fluxos de investimento e comércio internacional. No plano político, a intenção declarada era a da promoção da integração económica, da interdependência e, pelo menos no plano das proclamações, da paz e harmonia entre as nações.
Em todos estes casos, a integração cambial (que, na medida da maior ou menor liberdade de circulação de capitais, é também na prática unificação monetária, tal como nos diz o chamado trilema da economia internacional ) não se fez acompanhar por uma integração fiscal ou orçamental susceptível de contrariar a divergência gradual das várias economias em relação aos parâmetros iniciais em função dos quais fora fixada a paridade cambial.
Em todos estes casos, também, o período inicial de relativa estabilidade e sucesso do sistema de câmbios fixos durou apenas até à crise sistémica seguinte. O padrão-ouro do início do século XX durou até à Grande Depressão da década de 1930, no decurso da qual todas as principais divisas abandonaram a paridade estabelecida. É aliás um facto bem conhecido da história económica do século XX que as economias que abandonaram o regime de câmbios fixos mais cedo (o chamado "sterling block", que incluía o Reino Unido e diversos países nórdicos e que saíu do padrão-ouro em 1931) começaram a recuperação da Grande Depressão muito mais cedo do que as que insistiram na permanência no sistema durante mais tempo (como a França, Bélgica e Suiça, que resistiram até 1935-36).
Por sua vez, o sistema de convertibilidade divisas-dólar-ouro, ou sistema de Bretton Woods, durou até à chamada crise da década de 1970. A causa próxima foi a sobrevalorização implícita do dólar e o seu impacto nas contas externas norte-americanas , mas tal ocorreu no contexto de uma crise sistémica mais profunda, que aliás começara a declarar-se já no final da década de 1960.
E o euro, ou pelo menos a fase triunfal do euro, durou até à eclosão em 2007 da crise sistémica seguinte: aquela em que ainda nos encontramos e que, no contexto europeu, veio expor decisivamente a insustentabilidade da paridade cambial subjacente, especialmente em resultado da adopção pela Alemanha de uma política mercantilista assente na compressão salarial, que provocou uma divergência dos níveis de inflação logo desde o início do euro.
Só que o regime de câmbios fixos do euro é um regime especial, que não corresponde apenas ao estabelecimento de uma paridade fixa entre moedas distintas controladas por soberanos distintos.
O euro é o primeiro sistema em que economias distintas, mantendo a autonomia nos planos fiscal e orçamental e a ausência de coordenação distributiva significativa, eliminaram as divisas pre-existentes e adoptaram uma moeda única. Isso faz com que seja um sistema muito mais difícil, custoso e imprevisível de desmontar do que sucedeu nos dois casos anteriores. Mas nem por isso é mais viável. No fundo, o euro é um desafio ostensivo à História, em que ainda por cima se subiu a parada. Só que como estamos e vamos continuar a assistir, não se desafia a História sem pagar um preço.» – Alexandre Abreu, no Expresso.
Em todos estes casos, a introdução de um sistema de câmbios fixos visou eliminar o risco cambial e, por essa via, facilitar os fluxos de investimento e comércio internacional. No plano político, a intenção declarada era a da promoção da integração económica, da interdependência e, pelo menos no plano das proclamações, da paz e harmonia entre as nações.
Em todos estes casos, a integração cambial (que, na medida da maior ou menor liberdade de circulação de capitais, é também na prática unificação monetária, tal como nos diz o chamado trilema da economia internacional ) não se fez acompanhar por uma integração fiscal ou orçamental susceptível de contrariar a divergência gradual das várias economias em relação aos parâmetros iniciais em função dos quais fora fixada a paridade cambial.
Em todos estes casos, também, o período inicial de relativa estabilidade e sucesso do sistema de câmbios fixos durou apenas até à crise sistémica seguinte. O padrão-ouro do início do século XX durou até à Grande Depressão da década de 1930, no decurso da qual todas as principais divisas abandonaram a paridade estabelecida. É aliás um facto bem conhecido da história económica do século XX que as economias que abandonaram o regime de câmbios fixos mais cedo (o chamado "sterling block", que incluía o Reino Unido e diversos países nórdicos e que saíu do padrão-ouro em 1931) começaram a recuperação da Grande Depressão muito mais cedo do que as que insistiram na permanência no sistema durante mais tempo (como a França, Bélgica e Suiça, que resistiram até 1935-36).
Por sua vez, o sistema de convertibilidade divisas-dólar-ouro, ou sistema de Bretton Woods, durou até à chamada crise da década de 1970. A causa próxima foi a sobrevalorização implícita do dólar e o seu impacto nas contas externas norte-americanas , mas tal ocorreu no contexto de uma crise sistémica mais profunda, que aliás começara a declarar-se já no final da década de 1960.
E o euro, ou pelo menos a fase triunfal do euro, durou até à eclosão em 2007 da crise sistémica seguinte: aquela em que ainda nos encontramos e que, no contexto europeu, veio expor decisivamente a insustentabilidade da paridade cambial subjacente, especialmente em resultado da adopção pela Alemanha de uma política mercantilista assente na compressão salarial, que provocou uma divergência dos níveis de inflação logo desde o início do euro.
Só que o regime de câmbios fixos do euro é um regime especial, que não corresponde apenas ao estabelecimento de uma paridade fixa entre moedas distintas controladas por soberanos distintos.
O euro é o primeiro sistema em que economias distintas, mantendo a autonomia nos planos fiscal e orçamental e a ausência de coordenação distributiva significativa, eliminaram as divisas pre-existentes e adoptaram uma moeda única. Isso faz com que seja um sistema muito mais difícil, custoso e imprevisível de desmontar do que sucedeu nos dois casos anteriores. Mas nem por isso é mais viável. No fundo, o euro é um desafio ostensivo à História, em que ainda por cima se subiu a parada. Só que como estamos e vamos continuar a assistir, não se desafia a História sem pagar um preço.» – Alexandre Abreu, no Expresso.
terça-feira, 3 de março de 2015
Em vez de duas demissões óbvias
Manda a receita de sucesso do centrão que
quando a casa estiver a arder, em vez de apagar o fogo, se tente disfarçar
atirando pedras ao telhado do vizinho para soltar areia para os olhos de quem os
leve
a sério. Desta vez calhou arderem em simultâneo a casa do PS e a casa do
PSD. E o espectáculo é decadente. Os socialistas apedrejam um Pedro Passos
Coelho apanhado em flagrante a enganar a Segurança Social. O PSD apedreja um
António Costa apanhado em flagrante a agradecer contributos para um país que
está hoje muito melhor do que há quatro anos. O primeiro, que já não é a primeira
vez que é apanhado com a boca na botija, campeão da imposição de sacrifícios
aos portugueses, nunca mais terá autoridade
alguma para falar sobre evasão contributiva. O segundo, constantemente enredado
em contradições e ambiguidades, nunca
mais poderá criticar o trabalho de um Governo que elogiou
publicamente
. O primeiro é Primeiro-ministro e não se demite. O segundo é candidato a seu sucessor e também não. E as próximas sondagens dar-lhes-ão toda a razão. Mais uma corrida, mais uma viagem. Criança não paga mas também não anda. Venha o próximo flagrante e a próxima pedrada. Eles divertem-se à brava. Isto até pode ser que seja mesmo assim, mas os políticos não caem do céu.
. O primeiro é Primeiro-ministro e não se demite. O segundo é candidato a seu sucessor e também não. E as próximas sondagens dar-lhes-ão toda a razão. Mais uma corrida, mais uma viagem. Criança não paga mas também não anda. Venha o próximo flagrante e a próxima pedrada. Eles divertem-se à brava. Isto até pode ser que seja mesmo assim, mas os políticos não caem do céu.
Vagamente relacionado
– «Em quatro anos livrámo-nos de 400 mil empecilhos, na sua maioria jovens sem
visão empreendedora, que andavam para aí a perorar por trabalho e a viver à
conta de subsídios. 25% dos imbecis que ficaram vivem abaixo da pobreza.
Disponibilizámos 12 000 000 000€ a todos os bancos, demos 7 000 000 000€ ao BPN
(preparamo-nos para dar muito mais ao BES) e comprometemo-nos a pagar pela
"ajuda" da troika 35 000 000 000€. Criámos um regime fiscal especial
para quem fugiu ao fisco poder regularizar a situação sem qualquer pena e
pagando menos do que qualquer outro cidadão ou empresa que tenha pago os seus
impostos a tempo e horas. Nos últimos sete anos duplicámos a dívida pública
portuguesa, passando dos 68,4% de 2007 para os 131,4% do terceiro trimestre de
2014, e continuamos a pagá-la, o que nos faz ser muito interessantes para os
especuladores dos mercados internacionais. Com os cortes conseguimos diminuir
30% dos rendimentos dos inúteis funcionários públicos e pensionistas. O número
de desempregados aumentou mas pagamos menos subsídio. A estrutura produtiva do
país continua a virar-se para servir o turista... Tudo isto e o sangue
derramado nas ruas é dos que se suicidam em silêncio, dos que desesperam uns
com os outros ou dos que morrem à espera de atendimento nos hospitais em ruptura. Entretanto ,
em Outubro, o arco do poder prepara-se para manter o poder mudando, ou talvez
não, de marca.» (Tiago
Mota Saraiva)
Ainda mais vagamente – «(…) Há
muitas lições que o PS e outros poderiam aprender desde já com o Syriza. Uma
delas é que é preciso correr o risco de ser diferente e de ser o primeiro,
mesmo quando não se sabe se os outros nos seguem e quando se enfrentam
adversários poderosos. Outra é que a política se faz de convicções e não apenas
de jogos de poder, de paixão e não apenas de cálculo. Outra é que a justiça
deve ser o principal critério da governação. Estes são os factores que explicam
o apoio popular ao Syriza. A política não é apenas a arte do possível, como
dizia Bismark. A política tem de ser o exercício da vontade porque a soberania
é a expressão da vontade, porque o sonho nos leva mais longe que as convenções
e os preconceitos, porque a história não é outra coisa senão a conquista do
impossível. A política tem de ser a transformação do desejável em realidade. (…)»
(José
Vítor Malheiros)
segunda-feira, 2 de março de 2015
Nós e os monstros
Se há conflitos em que nenhum dos
lados defende causas e valores daqueles pelos quais vale a pena lutar, a guerra
que vai matando gente no Leste da Ucrânia é um deles. Também por isso tenho
evitado escrever sobre ele. Para dizer o óbvio, que a União Europeia envergonha
os europeus ao assumir o papel de peão dos Estados Unidos que apoia
declaradamente um dos lados, aborrece-me. Para escalpelizar detalhadamente as
razões que fazem cada um dos lados pegar em armas, sairia uma coisa longa e
enfadonha que não acrescentaria nada ao que outros escreveram muito melhor do
que eu alguma vez conseguiria. E não será hoje que o farei. Pego no
tema de raspão, apenas para sublinhar o simulacro de condenação consternada que
mereceu a execução do líder da oposição russa pelas mesmas bocas e pelas mesmas
mãos que há tão pouco tempo se desdobravam em elogios a um Vladimir Putin cujo regime
já então sobrevivia à sombra de fraudes eleitorais sucessivas e afastava
opositores prendendo-os
e roubando-lhes a vida. Esta Europa que hoje pede
a cabeça dos assassinos de Boris Nemtsov é a mesma que se calou aos
assassinatos de Farid Babáev e Aleksander
Litvinenko quando se sentava com Putin do mesmo lado da mesa da divisão internacional
da riqueza. A grande imprensa que em 2007 fazia do assassino de estimação dos seus
proprietários a sua personalidade do ano é a mesma que hoje, já com os nazis ucranianos
a ocuparem o lugar que era seu, o crucifica ao mesmo tempo que se cala a barbaridades
como a licença para atirar sobre desertores que o Parlamento
ucraniano concedeu ao seu exército de recrutados à força. Nós e os monstros.
O monstro russo, o monstro ucraniano e o monstro europeu. Estamos nas mãos deste
último e da imprensa que tem ao seu serviço para nos embalar ao colo dos três.
domingo, 1 de março de 2015
Queixinhas
De acordo com a
agência de notícias espanhola Efe, fontes do Governo espanhol anunciaram
ter enviado um protesto conjunto de Espanha e Portugal aos presidentes da
Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e do Conselho Europeu, Donald Tusk, relativamente
às acusações
públicas de Tsipras sobre o tudo que fizeram para minar cada passo para um acordo com a Grécia de forma
a evitar que o exemplo grego crie escola em Espanha e Portugal. Realmente, como
se já não bastasse a vergonha nacional de terem regressado do Eurogrupo com os joelhos imundos de tanto rastejarem
aos pés daqueles que têm os países respectivos a saque, agora ainda se armam em
queixinhas: "Ó mãe, aquele menino bateu-me". Não, isto já não se parece com uma história
de crianças, é uma história tristíssima de gente mesmo muito pouco crescidinha.
E o pior é que não são crianças, são anões que, embora seja dever nacional abrir-lhes a boca
à dieta que
merecem, nem mesmo empanturrados com adubo natural irão adquirir estatura de
gente.
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