quarta-feira, 11 de março de 2015
Sobre aquele lado mais magrinho do Estado - Raquel Varela
«Directa e indirectamente, a
salvação dos activos da Banca (e a nacionalização dos prejuízos) faz sair do
Estado qualquer coisa como o equivalente a 28% do PIB, 47 mil milhões de euros
(12 mil milhões de recapitalização e 35 mil de garantias). A PT não é um
restaurante familiar que foi à falência porque está afogado em impostos e não
tem clientes. É um monopólio de facto que, quando foi entregue aos gestores
privados – os que são agraciados com cruzes de mérito – valia 10 vezes mais.
Dez vezes mais.
A verdadeira comissão de inquérito era os
trabalhadores obrigarem a PT e o BES a abrir os livros de contas, e estes serem
entregues no Ministério Público, e a polícia judiciária – que tem um Gabinete
de Recuperação de Activos – começar a recuperar os activos e devolver uma
parte, apenas uma parte, deste esquema, a que assistimos na forma de sketchs
humorísticos, só que agora é diariamente no parlamento, com uma comissão que
não tem qualquer poder de decisão judicial/criminal. Too Big to Fail, Too Big
To Jail? Veja-se: o que se pede é o mínimo - cumprimento da lei e respeito pela
população. Abertura das contas, escrutínio público, investigação judicial,
consequências criminais.
Não é possível levar duas das maiores empresas
do país à falência e ao desmantelamento e o resultado ser sessões diárias para
a TV, no Parlamento, a explicar "não sei", "não me lembro"
e..., bom, a vida continua, com o salário e as reformas e o Estado Social a
carregarem estas cruzes. Se no fim disto tudo ainda alguém acha as altas taxas
de abstenção incompreensíveis é porque não tem assistido aos filmes destas
comissões com atenção. Cá em casa já optámos por considerar estes filmes um
momento de relax ao final do dia, e os Monty Python um debate político elevado.»
– Raquel
Varela.
Vagamente
relacionado: Em resposta às 21 questões enviadas pelos deputados da Comissão
Parlamentar de Inquérito à Gestão do BES e do GES , Vítor
Gaspar diz desconhecer qualquer tipo de problema tanto no Banco Espírito
Santo (BES) como no Grupo Espírito Santo (GES) no período em que foi ministro
das Finanças
Ainda
mais vagamente: A construção do duplex da Avenida da Liberdade no qual António
Costa viveu, entre Julho de 2012 e o final do ano passado, foi autorizada pela
Câmara de Lisboa, no início de 2010, contra a opinião dos técnicos do Núcleo
Residente da Estrutura Consultiva do Plano Director Municipal. O apartamento,
que não se encontra em propriedade horizontal, e faz parte de um prédio
pertencente a uma imobiliária da família Violas (casinos Solverde e BPI, entre
outros investimentos), tinha acabado de ser construído quando o autarca passou
a habitá-lo pagando uma renda
mensal de 1100 euros.
E nada a ver com: o ex-dirigente
social-democrata José Luís Arnault colaborou na decisão da Goldman Sachs, da
qual é um dos vice-presidentes, de financiar em 680 milhões de euros o BES. A
operação de securitização foi acordada semanas antes de o banco ser
intervencionado, diz a edição digital desta segunda-feira do Wall Street
Journal.
terça-feira, 10 de março de 2015
Da longa série "tudo o que um PR não deve ser"
Nem cumprir, nem fazer cumprir a
Constituição que não cumpriu nem fez cumprir, nem ser o Presidente de todos os
portugueses que nunca foi, nem intervir quando preferiu fazer-se de morto. Dom
Cavaco acaba de cavalgar sobre o Presidente da República que não foi para, na
boa tradição monárquica, dizer que o seu sucessor deverá ter uma experiência
pelo menos igual à sua no domínio
da política externa. Lástima que a tradição republicana tenha abolido os
cognomes. Dom Cavaco, o da fraca memória, esqueceu-se do que defendia em 1991 Dom
Cavaco, PM especialista em assuntos internos: precisamente que o Presidente da
República nãodeve intrometer-se em questões de política externa. Dom Cavaco, sempre em grande. Mas afinal, em
que ficamos? Dom Cavaco, o especialista em assuntos externos, leu a notícia do Ministro
da Justiça holandês que acaba de demitir-se por ter mentido ao Parlamento. E
Dom Cavaco, o especialista em assuntos internos, nada fez nas várias vezes que D.
Maria Luís, a dos swaps, mentiu ao Parlamento e, na semana passada, para não fazer
nada outra vez, reduziu a politiquice de campanha os calotes à Segurança Social
de D. Pedro Piegas, o recordista dos cortes nas prestações sociais e do confisco
de pensões de reforma. Ficamos angustiados com o ano de mandato que resta a Dom
Cavaco, a nódoa que continua a exemplificar tudo o que um Presidente da República
não deve ser. A característica principal do perfil do seu sucessor é ter a capacidade
de reabilitar a figura institucional do Presidente da República que Dom Cavaco continua
a enterrar na lama. Não vai ser mesmo nada fácil. Dom Cavaco, o cavaco, passou dois mandatos a especializar-se em fazer do Palácio de Belém um lugar de má fama. Superou-se.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Alerta IMI
Se diferenciasse imóveis
habitados de imóveis devolutos, seria um instrumento importante no combate à
desertificação dos centros das nossas cidades. Não diferencia. Resultado: cidades
cada vez mais desertas e degradadas e custos económicos sociais e ambientais acrescidos
por trajectos casa-trabalho-casa mais longos. Se sobrecarregasse os que mais têm
para aliviar os que menos podem, seria socialmente mais justo. Diferencia ao
contrário. Sobrecarrega os que menos têm para poder isentar fundos imobiliários
da banca a 50% e a 100% o maior proprietário do país, a Igreja Católica Portuguesa,
sem fazer depender a isenção da utilização do imóvel para fins sociais. Resultado:
os fundos imobiliários podem continuar a desenvolver a sua actividade
especulativa e a Igreja Católica pode continuar a manter imóveis vazios
ignorando a multidão de sem abrigo que aumenta por todo o país. Nos próximos tempos
e à medida que vão chegando as notificações para pagar a primeira prestação de 2015,
o IMI estará na ordem do dia. Este ano já não haverá tecto de 75 euros para os aumentos
que decorrem das sobreavaliações feitas pelas
finanças nos últimos anos e o agravamento fiscal em sede de IMI, alerta
o DN, pode ultrapassar os 500%, isto é, para as famílias, e 250% para os
bancos, e 0% para a ICAR. A austeridade selectiva em ano de eleições será como se vê. Para o ano, será como os portugueses decidirem.
domingo, 8 de março de 2015
Gostei de ler: "Uma economia que mata"
«Vários órgãos de Comunicação
Social noticiaram que a EDP vai distribuir 1,040 mil milhões de euros de
lucros. Se esta ainda fosse uma empresa pública, esses lucros constituiriam
receita no Orçamento do Estado. Tomando como base comparativa os gastos do Estado
em rubricas importantes no ano de 2015, conclui-se que é um montante
equivalente a mais de metade da despesa da Segurança Social em subsídio de
desemprego, a cinco vezes mais que o rendimento social de inserção ou, noutra
ótica, a mais de um quarto do investimento público. Se a EDP ainda fosse uma
empresa pública, Portugal poderia não ser um dos países da Europa com o preço
da energia mais caro. Se a EDP fosse uma empresa pública não existiriam as tais
rendas excessivas de que todos falam. Para onde vão os mil e quarenta milhões? Quanto desaguará em investimento produtivo? Quantos empregos irá
criar?
Segundo o jornal "i",
desde 2010 até 2014 os gestores e acionistas da PT levaram para casa 3,5 mil
milhões de euros. Nesse mesmo período as remunerações dos trabalhadores da
empresa diminuíram 5,3%, a remuneração fixa e variável dos administradores
aumentou 19%. Se ainda fosse uma empresa pública, grande parte destes 3,5 mil
milhões de euros poderia ter sido reinvestida na empresa, desenvolvendo-a e criando
emprego e também podia ter ajudado a reforçar os orçamentos da saúde, da
educação, ou da proteção social. Em vez disso, para onde foram os 3,5 mil
milhões de euros? Esse valor é pouco menos de metade do valor pelo qual foi
vendida a PT.
Face a estes números astronómicos
ocorre a pergunta: como é possível? Como é possível remunerar capitais de forma
tão choruda, num país onde centenas de milhares de pessoas estão a enfrentar
carências violentas? Acontece porque a "legalidade" instituída para
que tudo isto seja possível deixa bem longe a moral e a ética, porque nos
conselhos de administração e assembleias-gerais destas empresas o que conta,
como critério de todas as decisões, é a valorização, o mais elevada e rápida
possível, dos detentores do capital. As decisões que conduzem a estas
imoralidades são privadas, mas os seus efeitos atingem a vida de cada cidadão e
comprometem o nosso destino coletivo.
Este é o inevitável resultado de
opções estratégicas do capitalismo neoliberal que nos sufoca e que, ao quebrarem
todas as barreiras e limites, se transformou num sistema económico, não de
produção, mas de predação. Entretanto, a entrega de milhões e milhões aos
grandes detentores do capital não se fica por aqui. As práticas predatórias
estão nos esquemas das PPP, nos negócios das swaps que no último ano terão
acrescentado mais de 430 milhões de euros de prejuízos, nos saques
"legais" que o sistema bancário, especialista na fuga ao Fisco,
consegue fazer.
Num Mundo em que o capital é
totalmente livre de se deslocar, os detentores do poder, para o seduzirem,
estão sempre prontos a oferecer-lhe uma remuneração maior do que a
concorrência. Sempre maior, nem que para isso seja preciso comprimir
injustamente outras remunerações e restringir liberdades e direitos.
Neste Mundo implacável, sem
ética, ocorre perguntar: o que fazer? Talvez pensar em limitar a liberdade
desses capitais sem terra, antes de limitar as liberdades e os direitos das
pessoas. Talvez efetivar o direito a salários e pensões dignas. Talvez trazer
de novo à agenda a taxação sobre as transações financeiras. Talvez fazer os
capitais pagar portagem nas suas viagens, em vez de as cobrar tão excessivas
nas scut, nos impostos de trabalhadores e pensionistas, nas faturas de energia,
nas contas do telemóvel e do telefone. Talvez pensar em acabar com
privatizações sem sentido como a da TAP, e, considerar mesmo a sério, a
possibilidade de devolver à esfera pública posições determinantes na banca e
algumas grandes empresas que hoje são privadas.
Uma economia onde o especulativo
aniquila o produtivo, onde o dinheiro dos poderosos vale mais do que os bens e
serviços necessários a uma vida digna para o conjunto dos cidadãos e em que a
ética definha é uma economia capaz de matar por mais um ponto percentual de taxa
de lucro.» – Manuel Carvalho da Silva, no
JN.
(corrigido)
(corrigido)
sábado, 7 de março de 2015
infracções contributivas, segundo Cavaco: a diferença entre ser grande e ser pequeno
Até os malfeitores conseguem ser
solidários. Um tal Aníbal, Presidente da Quinta da Coelha, acaba de ter um gesto
público de solidariedade com o seu colega de evasões contributivas Pedro. A solidariedade
entre rufiões seria uma coisa bonita e comovente não tivessem os portugueses escolhido
o Primeiro para Presidente da República e o segundo para Primeiro-ministro, mas
assim aconteceu. E foi nessa qualidade que o tal Aníbal tentou convencer o povo
que o escolheu por duas vezes para PR de que infracções contributivas cometidas
por cidadãos comuns são isso mesmo, infracções contributivas punidas por lei,
mas que infracções contributivas cometidas por um Primeiro-ministro se resumem a mera querela
político-partidária. Ainda não foi desta que a criatura teve o seu primeiro assomo de decência. Mas se a redução é imbecil ao extremo, a disputa político-partidária não tem nada de absurdo. Basta registar como no parceiro de memorando
se esfregam tantas mãos de contentamento diante da possibilidade de chegar ao poder
sem discutir a calamidade, recentemente elogiada pelo seu líder, causada por uma
austeridade que continuará a destruir o país caso o PS ganhe as próximas eleições.
Será muito mau para a nossa democracia se Pedro Passos Coelho resistir à sua série
infindável de calotes ao Estado português, mas não será nada melhor para todos nós
que o aldrabão que se segue consiga chegar ao poder montado nas aldrabices do aldrabão
anterior. Foi assim que Passos Coelho roubou o poder a José Sócrates. Tem sido
assim que a alternância se tem perpetuado. Oxalá não seja outra vez assim que a
austeridade consiga arranjar maneira de continuar por aí a desmantelar o que lhe
resta e a fazer milionários à custa da miséria que vai semeando.
Quatro anos sem poder entrar e sair de casa
É um caso raro em que o direito
de alguém a sair de casa prevaleceu sobre os direitos de propriedade e a
estupidez egoísta de vizinhos e da insensibilidade de um juiz de primeira instância.
O Supremo tribunal de Justiça pronunciou-se a favor da instalação de uma
cadeira elevatória num prédio, em Lisboa, contra a vontade dos proprietários e
dos condóminos que, nem mesmo sendo o inquilino a pagá-la do seu próprio bolso,
sempre se opuseram ao
seu direito de entrar e sair de casa autonomamente. O desfecho
surpreende-me por saber que, por incrível que pareça, a discriminação de cidadãos
portadores de deficiências não tem enquadramento legal minimamente satisfatório
neste país terceiro-mundista também nesta matéria. No caso em apreço, o cidadão
conseguiu fazer valer os seus direitos após uma batalha judicial de quatro anos
perdidos juntamente com todo o dinheiro que lhe custou o processo. De acordo
com a legislação em vigor, se quiser queixar-se das humilhações que com toda a
certeza, e só ele sabe quantas, sofreu
ao longo desta eternidade – e foram discriminações bastante directas, mesmo nada
"indirectas", como as considerou o STJ –, o processo nem sequer segue
para tribunal: a entidade competente para apreciar este tipo de casos é o
Instituto Nacional para a Reabilitação, estrutura com outras vocações que não o
de dirimir conflitos e sem poderes e meios para poder fazer grande coisa. Se há
muito a fazer no que respeita a discriminações de género, raciais e de natureza
sexual, e há, o caminho a percorrer até que os portadores de deficiências se tornem
cidadãos de pleno direito é bastante mais longo e difícil. O tema não está na
moda e a sensibilidade para percebê-lo também não existe.
sexta-feira, 6 de março de 2015
Gostei de ler: "A elite consensual"
«Parece um título anódino, mas quando analisado pelo lado de
uma psicologia racional e de um realismo político, ambos respeitosos dos
grandes equilíbrios, verificamos que é de uma grande envergadura. Nem mais
alemães que os alemães, nem mais gregos que os gregos: eis o título da crónica
da semana passada de Francisco Assis, eurodeputado do PS que escreve neste
jornal todas as quintas-feiras. A balança dialéctica do cronista tem a marca
registada da moderação centrista: “Nem-Nem”.
Em tempos recuados, há mais de meio século, quando floresceu
uma análise semiológica da cultura de massas, Roland Barthes analisou numa das
suas “mitologias” aquilo a que chamou “La Critique Ni-Ni”. Tratava-se, aí, de
um tipo de crítica literária, mas a categoria “Nem-Nem”, a “mecânica da dupla
exclusão” que Barthes dizia ser um traço pequeno-burguês (era esta a linguagem
da época), sobrevive hoje com muita vitalidade na opinião e no comentário da
classe político-mediática das várias proveniências.
Não era preciso Francisco Assis ser tão “Nem-Nem” no título,
tão literal na fórmula, para percebermos que ele não veio ao mundo nem chegou
ao espaço público para perturbar quem quer que seja, gregos ou prussianos. Por
isso, convive harmoniosamente com os seus pares de outros partidos, com os
quais contracena nos painéis do editorialismo jornalístico (chamo editorialismo
a um género não crítico). A encenação de debate cria a aparência de que uns e
outros pensam de maneira diferente, mas toda a diferença se anula na mesmidade
que brota da linguagem comum do “Nem-Nem”. Como se todos eles, festivos como os
saltimbancos e nómadas como os cibernautas, se preparassem diante de um espelho
deformador, antes de debitar opinião e analisar a temperatura exterior do
ambiente: “Diz-me, espelho meu! Estou em forma? Estou conforme?”. A
conformidade é a chave que tudo abre e o critério primeiro para definir a elite
consensual que se moldou pela fórmula do “Nem-Nem”.
Modestos e realistas, estes filisteus de uma nova espécie
abarcam todo o espectro político e não se manifestam apenas às quintas-feiras.
Há-os todos os dias, em proliferação: tantos e tão incapazes de despertarem
qualquer gesto político que ultrapasse os limites da rotina, faça emergir uma
ideia e antecipe um qualquer — pequeníssimo que seja — mundo possível. Esta
elite consensual que segrega uma doxa a que poderíamos chamar o tecno-populismo
(dando assim a ver um paradoxo: são os habituais denunciadores do populismo que
representam o populismo mais saliente do nosso tempo) compreende também uma
parte considerável dos profissionais do comentário político, jornalistas e
analistas das várias especialidades da tripla aliança política, económica e
mediática. Empossados como fabricantes de opinião para consumo da população
genérica, quanto mais “Nem-Nem” são, mais hipóteses têm de ser aclamados como
objectivos e responsáveis.
Francisco Assis não é um “Nem-Nem” cheio de sentido de
Estado, essa virtude tão exigida quando o Estado começou a perder o sentido? E
António Costa não chegou a secretário-geral do PS porque Seguro já “Nem” era,
enquanto ele, Costa, ao menos era “Nem-Nem”? Esta elite consensual, resultante
de um agregado onde se instalou a maquinaria infernal de produção do “homem
médio” ou homo mediocris, reivindica-se como uma maioria moral, na medida em
que exerce uma hegemonia da opinião. E a opinião, no sentido de doxa, de senso
comum, é sempre vontade de maioria e de conformidade. Daí, a regra mais
importante da elite consensual: nunca oferecer qualquer resistência ao
presente.» – António Guerreiro, no Público.
quinta-feira, 5 de março de 2015
Histórias da nossa terra (continuação das continuações anteriores)
A gestão de Ricardo Salgado
desobedeceu ao Banco de Portugal 21 vezes entre Dezembro de 2013 e Julho de
2014, praticou actos dolosos de gestão ruinosa por quatro vezes e concedeu dois
financiamentos a administradores e a empresas do Grupo Espírito Santo sem
cumprir as regras aplicáveis aos membros dos órgãos sociais e a partes
relacionadas. Estas são algumas conclusões de apenas um de cinco blocos de uma
auditoria forense ao BES encomendada pelo Banco de Portugal à Deloitte divulgadas
pela imprensa
de hoje. Revelam, em simultâneo, detalhes da actividade criminosa de uma
administração que, porque já sabia que estava a prazo, aproveitou cada minuto para
sangrar o que restava de um banco que depois todos tivemos que pagar e a permissividade,
senão mesmo cumplicidade, de um regulador que não regulou mas escondeu da AR as conclusões desta auditoria. Ricardo Salgado e
restante quadrilha continuam à solta com o património intacto. Carlos Costa,
que lhes forneceu a informação de que estavam a prazo sem apertar a vigilância e fez vista grossa aos crimes agora conhecidos, continua em funções mesmo depois de se saber que os ocultou. O Governo
que deveria retirar-lhe a confiança e substituí-lo recusa-se também a intrometer-se
no sonho de Isabel dos Santos de se tornar a nova dona disto tudo através dafusão do BPI com o BCP. E tudo isto decorre num ambiente primaveril de paz
social com os três partidos do arco disto tudo inabaláveis na zona de conforto proporcionada
por mais de 75% das intenções de voto dos portugueses. A festa pode continuar. Só pode.
(actualizado)
(actualizado)
quarta-feira, 4 de março de 2015
Da série "ó mãe, aquele menino bateu-me" (continuação)
Em entrevista publicada na edição
de hoje do diário espanhol El
País, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, acusou Portugal
e Espanha de terem sido muito exigentes com a Grécia nas últimas semanas, repetindo
a acusação de Tsipras de há uns dias. É só rir. Desta vez, Passos Coelho e Mariano
Rajoy vão mesmo ter que se queixar do enxovalho directamente à patroa.
As palavras não prescrevem como as dívidas
"E depois
há muitos que deviam pagar os impostos e não pagam. Por quê? Porque não
declaram as suas actividades. Ora, nós temos a obrigação de corrigir estas
injustiças, não há nada mais social-democrata do que isso". "Porque
aquilo que deve orientar um princípio de social-democracia é a igualdade de
oportunidades, não é o privilégio, mesmo o pequeno privilégio. Se há quem se
ponha de fora das suas obrigações para com a sociedade, tendo muito ou pouco,
esse alguém está a ser um ónus importante para todos os outros, que têm umfardo maior."
Não admira que este pregador se refira
a qualquer esforço de reestruturação ou renegociação de dívidas como um conto para
crianças: ele próprio já reestruturava as suas próprias dívidas há muito tempo sem ter que se sujeitar aos caprichos
do Eurogrupo. E não, Pedro Passos Coelho também nunca teve que se passear ociosamente
disfarçado numa cadeira de rodas falsa diante de nenhum ministério para pedir favores. Este paralítico sempre os pediu lá dentro,, onde ninguém o via.
Gostei de ler: "O euro e as lições da história"
![]() |
Com o euro, na vez das desvalorizações cambiais (todos
perdem), o "ajustamento" faz-se desvalorizando salários (apenas perde
quem vive do seu trabalho) – gráfico daqui.
|
«Na era contemporânea e até à
data, houve três grandes experiências de fixação da paridade cambial entre
grupos significativos de economias distintas: o padrão-ouro do final do século
XIX e início do século XX; o sistema de Bretton Woods, que vigorou entre o
final da 2ª Guerra Mundial e o início da década de 1970; e o Euro.
Em todos estes casos, a introdução de um sistema de câmbios fixos visou eliminar o risco cambial e, por essa via, facilitar os fluxos de investimento e comércio internacional. No plano político, a intenção declarada era a da promoção da integração económica, da interdependência e, pelo menos no plano das proclamações, da paz e harmonia entre as nações.
Em todos estes casos, a integração cambial (que, na medida da maior ou menor liberdade de circulação de capitais, é também na prática unificação monetária, tal como nos diz o chamado trilema da economia internacional ) não se fez acompanhar por uma integração fiscal ou orçamental susceptível de contrariar a divergência gradual das várias economias em relação aos parâmetros iniciais em função dos quais fora fixada a paridade cambial.
Em todos estes casos, também, o período inicial de relativa estabilidade e sucesso do sistema de câmbios fixos durou apenas até à crise sistémica seguinte. O padrão-ouro do início do século XX durou até à Grande Depressão da década de 1930, no decurso da qual todas as principais divisas abandonaram a paridade estabelecida. É aliás um facto bem conhecido da história económica do século XX que as economias que abandonaram o regime de câmbios fixos mais cedo (o chamado "sterling block", que incluía o Reino Unido e diversos países nórdicos e que saíu do padrão-ouro em 1931) começaram a recuperação da Grande Depressão muito mais cedo do que as que insistiram na permanência no sistema durante mais tempo (como a França, Bélgica e Suiça, que resistiram até 1935-36).
Por sua vez, o sistema de convertibilidade divisas-dólar-ouro, ou sistema de Bretton Woods, durou até à chamada crise da década de 1970. A causa próxima foi a sobrevalorização implícita do dólar e o seu impacto nas contas externas norte-americanas , mas tal ocorreu no contexto de uma crise sistémica mais profunda, que aliás começara a declarar-se já no final da década de 1960.
E o euro, ou pelo menos a fase triunfal do euro, durou até à eclosão em 2007 da crise sistémica seguinte: aquela em que ainda nos encontramos e que, no contexto europeu, veio expor decisivamente a insustentabilidade da paridade cambial subjacente, especialmente em resultado da adopção pela Alemanha de uma política mercantilista assente na compressão salarial, que provocou uma divergência dos níveis de inflação logo desde o início do euro.
Só que o regime de câmbios fixos do euro é um regime especial, que não corresponde apenas ao estabelecimento de uma paridade fixa entre moedas distintas controladas por soberanos distintos.
O euro é o primeiro sistema em que economias distintas, mantendo a autonomia nos planos fiscal e orçamental e a ausência de coordenação distributiva significativa, eliminaram as divisas pre-existentes e adoptaram uma moeda única. Isso faz com que seja um sistema muito mais difícil, custoso e imprevisível de desmontar do que sucedeu nos dois casos anteriores. Mas nem por isso é mais viável. No fundo, o euro é um desafio ostensivo à História, em que ainda por cima se subiu a parada. Só que como estamos e vamos continuar a assistir, não se desafia a História sem pagar um preço.» – Alexandre Abreu, no Expresso.
Em todos estes casos, a introdução de um sistema de câmbios fixos visou eliminar o risco cambial e, por essa via, facilitar os fluxos de investimento e comércio internacional. No plano político, a intenção declarada era a da promoção da integração económica, da interdependência e, pelo menos no plano das proclamações, da paz e harmonia entre as nações.
Em todos estes casos, a integração cambial (que, na medida da maior ou menor liberdade de circulação de capitais, é também na prática unificação monetária, tal como nos diz o chamado trilema da economia internacional ) não se fez acompanhar por uma integração fiscal ou orçamental susceptível de contrariar a divergência gradual das várias economias em relação aos parâmetros iniciais em função dos quais fora fixada a paridade cambial.
Em todos estes casos, também, o período inicial de relativa estabilidade e sucesso do sistema de câmbios fixos durou apenas até à crise sistémica seguinte. O padrão-ouro do início do século XX durou até à Grande Depressão da década de 1930, no decurso da qual todas as principais divisas abandonaram a paridade estabelecida. É aliás um facto bem conhecido da história económica do século XX que as economias que abandonaram o regime de câmbios fixos mais cedo (o chamado "sterling block", que incluía o Reino Unido e diversos países nórdicos e que saíu do padrão-ouro em 1931) começaram a recuperação da Grande Depressão muito mais cedo do que as que insistiram na permanência no sistema durante mais tempo (como a França, Bélgica e Suiça, que resistiram até 1935-36).
Por sua vez, o sistema de convertibilidade divisas-dólar-ouro, ou sistema de Bretton Woods, durou até à chamada crise da década de 1970. A causa próxima foi a sobrevalorização implícita do dólar e o seu impacto nas contas externas norte-americanas , mas tal ocorreu no contexto de uma crise sistémica mais profunda, que aliás começara a declarar-se já no final da década de 1960.
E o euro, ou pelo menos a fase triunfal do euro, durou até à eclosão em 2007 da crise sistémica seguinte: aquela em que ainda nos encontramos e que, no contexto europeu, veio expor decisivamente a insustentabilidade da paridade cambial subjacente, especialmente em resultado da adopção pela Alemanha de uma política mercantilista assente na compressão salarial, que provocou uma divergência dos níveis de inflação logo desde o início do euro.
Só que o regime de câmbios fixos do euro é um regime especial, que não corresponde apenas ao estabelecimento de uma paridade fixa entre moedas distintas controladas por soberanos distintos.
O euro é o primeiro sistema em que economias distintas, mantendo a autonomia nos planos fiscal e orçamental e a ausência de coordenação distributiva significativa, eliminaram as divisas pre-existentes e adoptaram uma moeda única. Isso faz com que seja um sistema muito mais difícil, custoso e imprevisível de desmontar do que sucedeu nos dois casos anteriores. Mas nem por isso é mais viável. No fundo, o euro é um desafio ostensivo à História, em que ainda por cima se subiu a parada. Só que como estamos e vamos continuar a assistir, não se desafia a História sem pagar um preço.» – Alexandre Abreu, no Expresso.
terça-feira, 3 de março de 2015
Em vez de duas demissões óbvias
Manda a receita de sucesso do centrão que
quando a casa estiver a arder, em vez de apagar o fogo, se tente disfarçar
atirando pedras ao telhado do vizinho para soltar areia para os olhos de quem os
leve
a sério. Desta vez calhou arderem em simultâneo a casa do PS e a casa do
PSD. E o espectáculo é decadente. Os socialistas apedrejam um Pedro Passos
Coelho apanhado em flagrante a enganar a Segurança Social. O PSD apedreja um
António Costa apanhado em flagrante a agradecer contributos para um país que
está hoje muito melhor do que há quatro anos. O primeiro, que já não é a primeira
vez que é apanhado com a boca na botija, campeão da imposição de sacrifícios
aos portugueses, nunca mais terá autoridade
alguma para falar sobre evasão contributiva. O segundo, constantemente enredado
em contradições e ambiguidades, nunca
mais poderá criticar o trabalho de um Governo que elogiou
publicamente
. O primeiro é Primeiro-ministro e não se demite. O segundo é candidato a seu sucessor e também não. E as próximas sondagens dar-lhes-ão toda a razão. Mais uma corrida, mais uma viagem. Criança não paga mas também não anda. Venha o próximo flagrante e a próxima pedrada. Eles divertem-se à brava. Isto até pode ser que seja mesmo assim, mas os políticos não caem do céu.
. O primeiro é Primeiro-ministro e não se demite. O segundo é candidato a seu sucessor e também não. E as próximas sondagens dar-lhes-ão toda a razão. Mais uma corrida, mais uma viagem. Criança não paga mas também não anda. Venha o próximo flagrante e a próxima pedrada. Eles divertem-se à brava. Isto até pode ser que seja mesmo assim, mas os políticos não caem do céu.
Vagamente relacionado
– «Em quatro anos livrámo-nos de 400 mil empecilhos, na sua maioria jovens sem
visão empreendedora, que andavam para aí a perorar por trabalho e a viver à
conta de subsídios. 25% dos imbecis que ficaram vivem abaixo da pobreza.
Disponibilizámos 12 000 000 000€ a todos os bancos, demos 7 000 000 000€ ao BPN
(preparamo-nos para dar muito mais ao BES) e comprometemo-nos a pagar pela
"ajuda" da troika 35 000 000 000€. Criámos um regime fiscal especial
para quem fugiu ao fisco poder regularizar a situação sem qualquer pena e
pagando menos do que qualquer outro cidadão ou empresa que tenha pago os seus
impostos a tempo e horas. Nos últimos sete anos duplicámos a dívida pública
portuguesa, passando dos 68,4% de 2007 para os 131,4% do terceiro trimestre de
2014, e continuamos a pagá-la, o que nos faz ser muito interessantes para os
especuladores dos mercados internacionais. Com os cortes conseguimos diminuir
30% dos rendimentos dos inúteis funcionários públicos e pensionistas. O número
de desempregados aumentou mas pagamos menos subsídio. A estrutura produtiva do
país continua a virar-se para servir o turista... Tudo isto e o sangue
derramado nas ruas é dos que se suicidam em silêncio, dos que desesperam uns
com os outros ou dos que morrem à espera de atendimento nos hospitais em ruptura. Entretanto ,
em Outubro, o arco do poder prepara-se para manter o poder mudando, ou talvez
não, de marca.» (Tiago
Mota Saraiva)
Ainda mais vagamente – «(…) Há
muitas lições que o PS e outros poderiam aprender desde já com o Syriza. Uma
delas é que é preciso correr o risco de ser diferente e de ser o primeiro,
mesmo quando não se sabe se os outros nos seguem e quando se enfrentam
adversários poderosos. Outra é que a política se faz de convicções e não apenas
de jogos de poder, de paixão e não apenas de cálculo. Outra é que a justiça
deve ser o principal critério da governação. Estes são os factores que explicam
o apoio popular ao Syriza. A política não é apenas a arte do possível, como
dizia Bismark. A política tem de ser o exercício da vontade porque a soberania
é a expressão da vontade, porque o sonho nos leva mais longe que as convenções
e os preconceitos, porque a história não é outra coisa senão a conquista do
impossível. A política tem de ser a transformação do desejável em realidade. (…)»
(José
Vítor Malheiros)
segunda-feira, 2 de março de 2015
Nós e os monstros
Se há conflitos em que nenhum dos
lados defende causas e valores daqueles pelos quais vale a pena lutar, a guerra
que vai matando gente no Leste da Ucrânia é um deles. Também por isso tenho
evitado escrever sobre ele. Para dizer o óbvio, que a União Europeia envergonha
os europeus ao assumir o papel de peão dos Estados Unidos que apoia
declaradamente um dos lados, aborrece-me. Para escalpelizar detalhadamente as
razões que fazem cada um dos lados pegar em armas, sairia uma coisa longa e
enfadonha que não acrescentaria nada ao que outros escreveram muito melhor do
que eu alguma vez conseguiria. E não será hoje que o farei. Pego no
tema de raspão, apenas para sublinhar o simulacro de condenação consternada que
mereceu a execução do líder da oposição russa pelas mesmas bocas e pelas mesmas
mãos que há tão pouco tempo se desdobravam em elogios a um Vladimir Putin cujo regime
já então sobrevivia à sombra de fraudes eleitorais sucessivas e afastava
opositores prendendo-os
e roubando-lhes a vida. Esta Europa que hoje pede
a cabeça dos assassinos de Boris Nemtsov é a mesma que se calou aos
assassinatos de Farid Babáev e Aleksander
Litvinenko quando se sentava com Putin do mesmo lado da mesa da divisão internacional
da riqueza. A grande imprensa que em 2007 fazia do assassino de estimação dos seus
proprietários a sua personalidade do ano é a mesma que hoje, já com os nazis ucranianos
a ocuparem o lugar que era seu, o crucifica ao mesmo tempo que se cala a barbaridades
como a licença para atirar sobre desertores que o Parlamento
ucraniano concedeu ao seu exército de recrutados à força. Nós e os monstros.
O monstro russo, o monstro ucraniano e o monstro europeu. Estamos nas mãos deste
último e da imprensa que tem ao seu serviço para nos embalar ao colo dos três.
domingo, 1 de março de 2015
Queixinhas
De acordo com a
agência de notícias espanhola Efe, fontes do Governo espanhol anunciaram
ter enviado um protesto conjunto de Espanha e Portugal aos presidentes da
Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e do Conselho Europeu, Donald Tusk, relativamente
às acusações
públicas de Tsipras sobre o tudo que fizeram para minar cada passo para um acordo com a Grécia de forma
a evitar que o exemplo grego crie escola em Espanha e Portugal. Realmente, como
se já não bastasse a vergonha nacional de terem regressado do Eurogrupo com os joelhos imundos de tanto rastejarem
aos pés daqueles que têm os países respectivos a saque, agora ainda se armam em
queixinhas: "Ó mãe, aquele menino bateu-me". Não, isto já não se parece com uma história
de crianças, é uma história tristíssima de gente mesmo muito pouco crescidinha.
E o pior é que não são crianças, são anões que, embora seja dever nacional abrir-lhes a boca
à dieta que
merecem, nem mesmo empanturrados com adubo natural irão adquirir estatura de
gente.
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Da série "Pedro-espertismo", continuação
Era uma vez um Pedro
- era dos tais - que acusava os gregos do que ele próprio fazia. Acumulou milhares de euros de dívidas
à Segurança Social. Um dia, o jornal que lhe descobriu o calote confrontou-o com
esse seu passado escondido. E o Pedro-esperto,
aflito, lá foi à pressa pagar o que devia na vã esperança de não se ver grego com
as explicações que fica a dever ao país sobre mais este capítulo da sua honesta existência. Os detalhes desta história para crianças e a diferença entre
ser José António Cerejo e ser um qualquer Rodrigues dos Santos desta vida podem ser consultados aqui.
Gostei de ler: "Credibilidade e confiança"
“A nova Europa deverá, portanto,
constituir um todo: um agrupamento de países autónomos na sua governação e
administração, mas orientados por princípios gerais uniformes”, o que implica
“(a) o reconhecimento pelos diferentes Estados da solidariedade dos seus
interesses individuais; (b) uma certa uniformização na estrutura desses
Estados; (c) um acordo geral sobre os princípios e processos a adotar para alcançar
os fins que se têm em vista”. O texto é de 1941, mas podia ser de 2015. Quem
escrevia assim sobre os projetos de “comunidade europeia” (a terminologia era
mesmo essa) que a Alemanha de Hitler queria impor à Europa na II Guerra Mundial
era Tovar de Lemos, negociador económico do Ministério dos Negócios
Estrangeiros, um diplomata monárquico que Salazar mandara para Berlim depois de
se ter convencido (ocupação de França e dos Balcãs, isolamento da Grã-Bretanha,
conquista de metade da parte europeia da União Soviética) que a Alemanha
ganhara a guerra no continente.
Governando um país periférico
face ao conflito, as elites salazaristas (seguindo uma tradição que se mantém
até aos dias de hoje) não queriam perder um barco que os levaria, sem
participar na guerra, a
entrar na Nova Ordem Europeia que Berlim ia tecendo. O mais curioso é ver como os dirigentes de um regime abertamente nacionalista se punham em bicos de pés para, já então, se fazerem passar pelos melhores amigos do chefe da pandilha: um tecnocrata dos anos 40 como era Tovar garantia a Salazar: “Podemos desde já salientar que dificilmente se encontrará na Europa outro país que apresente em relação à Alemanha tamanha similitude de instituições, de princípios de governação e de ideologias políticas e sociais como o nosso. (…) Em parte alguma encontrará a Alemanha menor necessidade de uniformização que em Portugal.” (Relatório, 15/11/1941, reproduzido em Dez Anos de Política Externa, 1936-1947)
entrar na Nova Ordem Europeia que Berlim ia tecendo. O mais curioso é ver como os dirigentes de um regime abertamente nacionalista se punham em bicos de pés para, já então, se fazerem passar pelos melhores amigos do chefe da pandilha: um tecnocrata dos anos 40 como era Tovar garantia a Salazar: “Podemos desde já salientar que dificilmente se encontrará na Europa outro país que apresente em relação à Alemanha tamanha similitude de instituições, de princípios de governação e de ideologias políticas e sociais como o nosso. (…) Em parte alguma encontrará a Alemanha menor necessidade de uniformização que em Portugal.” (Relatório, 15/11/1941, reproduzido em Dez Anos de Política Externa, 1936-1947)
(...)
Já muito se disse sobre esta
especial vocação do Governo português (o de Passos não foi o primeiro, e não
será, infelizmente o último) para fazer o
papel de queixinhas do xerife Schäuble, até mesmo quando o seu vice Juncker
quis vir encenar um arrependimento dissimulado e lamentar-se da humilhação
infligida a portugueses e a gregos. Os intermediários nacionais da humilhação
sentiram-se, naturalmente, magoados... O que me parece significativa é essa
terrível pobreza da política europeia do Estado português, ou simplesmente de
toda a sua política externa.
País periférico do centro europeu da economia
mundial, e parceiro perfeitamente menor da estratégia norte-americana no mundo
(veja-se como andam desesperados os atlantistas militantes ao verificar como
Portugal aparece no item peanuts das prioridades de Washington), a única
estratégia que se percebe haver, de novo, na forma como se tem posicionado
Portugal na Europa e no mundo desde o fim do período revolucionário e a
descolonização é a permanente procura de colagem a quem manda no mundo, isto é,
aos EUA-polícia-global, por mais que a sua política crie cisões no próprio
Ocidente em que Lisboa enfileira; e ao diretório de turno na Europa, o que,
desde Maastricht, Tratado Orçamental e, sobretudo, o pacto com a troika, passou
a ser a Alemanha, mesmo quando esta nem se preocupa em esconder a sua opção por
uma UE organizada em círculos concêntricos, no mais central dos quais está
apenas ela e aqueles que sigam os estritos preceitos que lhe garantam uma
hegemonia económica e comercial que, desde a unificação, ela deixou de fingir
querer partilhar com os demais. Os governos portugueses (direita ou PS, é
indiferente) são, de resto, a par do britânico, do holandês, do dinamarquês e
dos da Europa pós-comunista (a nova Europa, como lhe chamava Rumsfeld, para a
distinguir de alemães e franceses que então mostravam, a propósito da invasão
do Iraque, alguma autonomia), dos que mais se empenham em compatibilizar o que
muitas vezes é incompatível: um atlantismo ortodoxo, que cala todas as críticas
a um aventureirismo bélico americano que se tornou permanente, e um europeísmo
que, sem nunca se assumir federalista, presume a cedência total a
Bruxelas/Berlim da soberania económica como a melhor forma de impor aos
portugueses um modelo que contradiz todos os esforços de democratização social,
contornando uma Constituição que, desta
Não há aqui nenhuma nostalgia das
ilusões salazaristas de manter uma certa autonomia à custa da guerra em África.
Nem a solução está em oferecer a base das Lajes aos chineses; há tanta
criatividade nessa proposta quanto há na venda das nossas empresas públicas a
chineses, franceses, angolanos... O horror que povoa os corredores do poder de
Lisboa face à reivindicação grega de autonomia e a vontade (até agora vã) de
construir uma frente das economias sobreexploradas pela dívida diz tudo de quão
pequena e tacanha é a política externa portuguesa.» - Manuel Loff, no Público.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Portugal não é a Grécia
Quando a sondagem que hoje dá um “empate
técnico” entre a coligação PSD/CDS e o PS foi elaborada, ainda não tinha estourado
a bomba. Mas agora, já depois do país ter ficado a saber que os líderes dos três
partidos do memorando estão de acordo que Portugal está muito melhor do que há quatro
anos, o “empate técnico” vendido pelo Expresso perde grande parte do que lhe restava
de sentido: não são 38 por cento de um lado e 38 por cento do outro, pode perfeitamente
ser uma soma de parcelas que corresponde a uma maioria qualificada se considerarmos
os três partidos do arco da austeridade ou uma confortável maioria absoluta se admitirmos
a possibilidade de PSD e PS chegarem a um acordo quanto a mandarem Paulo Portas
ir dar uma volta de submarino. Evidentemente, isto será apenas uma ideia maluca
enquanto a comunicação social do regime contornar o cenário cada vez mais provável
de uma reedição do Governo Nova Democracia-PASOK que destruiu o que restava destruir
na Grécia entroikada. Austeridade ou austeridade? A sondagem diz que os portugueses
continuam indecisos entre ambas.
Gostei de ler: "O bom aluno"
«Em 1992, numa entrevista a um
canal de televisão grego, o filósofo e psicanalista francês Félix Guattari
incitava os gregos a recusarem as regras que fazem da política europeia um
teatro de sombras semelhante ao que a lei edipiana faz na família: “A Grécia é
o mau aluno da Europa. É essa a sua qualidade. Felizmente que há maus alunos,
como a Grécia, que trazem a complexidade. Que trazem uma recusa de uma certa
normalização germano-francesa. Por isso, continuem a ser maus alunos e
continuaremos bons amigos.” Em Portugal, nessa altura, já estávamos a ser
ungidos pela metáfora do bom aluno e ainda hoje transportamos o brilho intenso
e o contentamento sem reserva que a metáfora irradia.
O que é, neste caso, um bom
aluno? O bom aluno caracteriza-se por um determinado comportamento, por um
programa de acção, mas é também aquele que interiorizou convictamente uma
moral, ao ponto de política e moral serem para ele a mesma coisa. A dívida,
como sabemos muito bem, segrega uma moral própria. Um breve exercício genealógico
ajuda a perceber porquê. Actualmente, já não é preciso ter lido a Genealogia da
Moral, de Nietzsche, para saber que o conceito moral de culpa remonta ao
conceito material de dívida, que, por isso, se diz, em alemão, exactamente com
a mesma palavra — Schuld.
A figura do “homem endividado”,
que o sociólogo italiano Maurizio Lazzarato definiu como o representante por
excelência da condição neoliberal, é afinal a figura típica de uma economia da
salvação, como nos lembrou Walter Benjamin num célebre fragmento de 1921 sobre
O Capitalismo como Religião, onde define o capitalismo como uma religião sem
dogma, caracterizada pela celebração de um culto sem tréguas, para o qual não
existem dias feriados. “Este culto”, diz Benjamin, “é gerador de culpa” (ou de
dívida, já que a palavra verschuldendsignifica as duas coisas). E acrescenta:
“O capitalismo, com toda a probabilidade, é o primeiro caso de um culto que não
redime o pecado, mas gera culpa” (isto é, dívida). Uma culpa que não pode ser
expiada — e essa é a condição paradoxal da religião capitalista — mas tornada
universal.
O bom aluno é aquele que
interiorizou plenamente a moral da culpa e sabe que deve comportar-se como um
ser em débito. Haverá algum momento em que a culpa vai ser expiada, isto é, em
que o débito vai ser saldado? Evidentemente que não. Por isso é que se criou a
figura da “dívida eterna” ou infinita. Por ela, o homem endividado interiorizou
para sempre a dívida e é isso — e não que a pague de uma vez por todas — que o
credor lhe exige. Comentando Nietzsche, escreveu Deleuze: “A dívida torna-se a
relação de um devedor que nunca acabará de pagar e de um credor que nunca
acabará de esgotar os interesses da dívida.” O infinito que o cristianismo
introduziu na religião, reinventa-o o capitalismo ao nível económico, num plano
imanente.
Para se tornar um bom aluno, como
lhe é exigido para continuar a dar-lhe crédito, a Grécia não precisa de pagar a
sua dívida — que é infinita e eterna. Tem é de dar como garantia do fictício e
sempre diferido reembolso um conjunto de virtudes sociais e políticas que são a
carne e o sangue da moralidade a que está obrigada. Tem de sujeitar-se
eternamente ao performativo da promessa. Não é que as promessas paguem dívidas,
mas são um reconhecimentos e uma ritualização da culpa. Em suma: é preciso que
o modo de existência da Grécia, o seu ethos, seja determinado pela culpa que
todos os bons alunos interiorizaram e que os faz arrastarem-se, de ombros
descaídos e olhar baixo, sempre que está por perto um supremo credor.» – António
Guerreiro, no Público.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Da longa série "sucessos/melhorias"
Por serem sistemáticas as desconformidades
na urgência, sendo frequente existir um só elemento escalado para o Atendimento
Geral durante o dia e a noite, porque as condições de trabalho se têm vindo a
degradar desde Novembro pondo em risco a segurança dos doentes, tal como o
fizeram os do Garcia de Horta e do Amadora-Sintra, Os chefes de equipa do
serviço de urgência do Hospital do Litoral Alentejano também se demitiram em
bloco esta quinta-feira. Isto é capaz de
ser ou o sucesso do "ajustamento" português que enche de orgulho a
Ministra das Finanças e o seu patrão alemão, ou as melhorias registadas no país
conseguidas com a preciosa contribuição dos chineses que fizeram o favor de nos
ficar com os 3 milhões de lucros diários da EDP, que o grande estadista António
Costa teve oportunidade de agradecer em nosso nome. Mas também pode ser o tal
pecado cometido contra a nossa dignidade que começou com o memorando que o arco
destes senhores aceitou assinar de cruz em 2011 e que se depender deles – estão
de acordo que o país está cada vez melhor – se prolongará pelas próximas duas décadas,
não sei. As sondagens vão-lhes dando toda a razão para se manterem fieis ao que
sempre foram.
Gostei de ler: "Portugal, 2015"
«Portugal em 2015 está um país
muito esquisito, amorfo e ao mesmo tempo zangado; cansado e ao mesmo tempo
agitado, cheio de "criadores culturais" e ao mesmo tempo ignorante
como nunca; egoísta, mas incomodado pelo seu egoísmo, com má consciência. (...)
Olhe-se em volta. Nos cinemas dos
centros comerciais (não há outros), a parte da Humanidade que é do sexo
feminino faz fila para comprar bilhetes para ver um vago filme erótico, com
chicotes e algemas, mas onde tudo é bonito, milionário, com gosto e controlado,
asséptico. Parece que o sadomasoquismo chique está na moda entre as mulheres.
Na verdade, não é uma grande novidade, mas presumo que os homens se interrogam
sobre o que é que não tinham percebido nas suas mulheres, companheiras,
namoradas, amantes e seja lá o que for. Vão continuar sem saber nada.
A crise grega entra nas redes
sociais por via da roupa do ministro Varoufakis. Discute-se o blusão de couro,
o cachecol, as camisas de fora ou de dentro. Não admira. Muita da nossa inteligência
feminina, metrossexual e gay gosta muito de discutir roupas e ocasionalmente
gatinhos. Sendo assim, não admira que tenham passado dos sapatos Prada, dos
fatos Armani e Boss do nosso ex-primeiro-ministro caído em desgraça, para a
discussão contínua das gravatas e terminar na mais imbecil crítica feita alguma
vez a Passos Coelho, a dos fatos suburbanos de segunda. Essa gente não se
enxerga mesmo. É isto segredo para alguém, indiscrição, boato, ou má língua?
Não, não é. É o conteúdo habitual desse ruído moderno do Twitter e do Facebook,
feito por gente que diz abominar a Caras e a Lux e faz muito pior.
O que tem mais graça, aliás o que
é mais ridículo, é que esta gente que discute roupas, restaurantes e outros
ademanes da cultura urbana, que fazem a Time Out ganhar a sua vida
(honestamente), é toda muito de esquerda, muito de causa dos costumes, muito do
social, muito modernaça. Seja dito, no entanto, que há também uma fauna de
direita, muito "ajustadora", que é exactamente igual. Aliás dão-se
bem e exercem activamente a boa prática do fishing for compliments, ajudando-se
uns aos outros na luta pela vida. (...)
Em política, Pavlov reina como
mestre de cãezinhos. É tudo tão previsível, tão fácil de identificar, tão
rudimentar, tão… pavloviano. Grite-se Sócrates, Costa, Boaventura, Syriza,
Bagão, Louçã, Manuela, eu próprio, os gregos, Varoufakis e logo uma pequena
multidão começa a salivar nas redes sociais, nos blogues, nos
"porta-vozes" oficiais e oficiosos do PSD e do CDS. Muita desta raiva
vem do desespero. Os melhores dias já estão no passado e as perspectivas são
sombrias. (...)
Enganam-se se pensam que são os
esquerdismos do programa do Syriza que mobilizam as simpatias. É por isso que
há pouca gente nas manifestações, porque elas são miméticas desse esquerdismo.
Mas o que faz as sondagens maioritárias pró-gregos, a "maioria
silenciosa", é a afirmação nacional, a independência, a soberania, a honra
perdida das nações resgatada por um povo. É uma gigantesca bofetada nos
patriotas de boca e empáfia que aceitaram tudo, assinaram tudo, geriram o
"protectorado" com zelo e colaboração, e terminam o seu tempo útil
servindo para fazer o sale boulot alemão.» – Pacheco Pereira, na Sábado.
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