sexta-feira, 6 de março de 2015
Gostei de ler: "A elite consensual"
«Parece um título anódino, mas quando analisado pelo lado de
uma psicologia racional e de um realismo político, ambos respeitosos dos
grandes equilíbrios, verificamos que é de uma grande envergadura. Nem mais
alemães que os alemães, nem mais gregos que os gregos: eis o título da crónica
da semana passada de Francisco Assis, eurodeputado do PS que escreve neste
jornal todas as quintas-feiras. A balança dialéctica do cronista tem a marca
registada da moderação centrista: “Nem-Nem”.
Em tempos recuados, há mais de meio século, quando floresceu
uma análise semiológica da cultura de massas, Roland Barthes analisou numa das
suas “mitologias” aquilo a que chamou “La Critique Ni-Ni”. Tratava-se, aí, de
um tipo de crítica literária, mas a categoria “Nem-Nem”, a “mecânica da dupla
exclusão” que Barthes dizia ser um traço pequeno-burguês (era esta a linguagem
da época), sobrevive hoje com muita vitalidade na opinião e no comentário da
classe político-mediática das várias proveniências.
Não era preciso Francisco Assis ser tão “Nem-Nem” no título,
tão literal na fórmula, para percebermos que ele não veio ao mundo nem chegou
ao espaço público para perturbar quem quer que seja, gregos ou prussianos. Por
isso, convive harmoniosamente com os seus pares de outros partidos, com os
quais contracena nos painéis do editorialismo jornalístico (chamo editorialismo
a um género não crítico). A encenação de debate cria a aparência de que uns e
outros pensam de maneira diferente, mas toda a diferença se anula na mesmidade
que brota da linguagem comum do “Nem-Nem”. Como se todos eles, festivos como os
saltimbancos e nómadas como os cibernautas, se preparassem diante de um espelho
deformador, antes de debitar opinião e analisar a temperatura exterior do
ambiente: “Diz-me, espelho meu! Estou em forma? Estou conforme?”. A
conformidade é a chave que tudo abre e o critério primeiro para definir a elite
consensual que se moldou pela fórmula do “Nem-Nem”.
Modestos e realistas, estes filisteus de uma nova espécie
abarcam todo o espectro político e não se manifestam apenas às quintas-feiras.
Há-os todos os dias, em proliferação: tantos e tão incapazes de despertarem
qualquer gesto político que ultrapasse os limites da rotina, faça emergir uma
ideia e antecipe um qualquer — pequeníssimo que seja — mundo possível. Esta
elite consensual que segrega uma doxa a que poderíamos chamar o tecno-populismo
(dando assim a ver um paradoxo: são os habituais denunciadores do populismo que
representam o populismo mais saliente do nosso tempo) compreende também uma
parte considerável dos profissionais do comentário político, jornalistas e
analistas das várias especialidades da tripla aliança política, económica e
mediática. Empossados como fabricantes de opinião para consumo da população
genérica, quanto mais “Nem-Nem” são, mais hipóteses têm de ser aclamados como
objectivos e responsáveis.
Francisco Assis não é um “Nem-Nem” cheio de sentido de
Estado, essa virtude tão exigida quando o Estado começou a perder o sentido? E
António Costa não chegou a secretário-geral do PS porque Seguro já “Nem” era,
enquanto ele, Costa, ao menos era “Nem-Nem”? Esta elite consensual, resultante
de um agregado onde se instalou a maquinaria infernal de produção do “homem
médio” ou homo mediocris, reivindica-se como uma maioria moral, na medida em
que exerce uma hegemonia da opinião. E a opinião, no sentido de doxa, de senso
comum, é sempre vontade de maioria e de conformidade. Daí, a regra mais
importante da elite consensual: nunca oferecer qualquer resistência ao
presente.» – António Guerreiro, no Público.
quinta-feira, 5 de março de 2015
Histórias da nossa terra (continuação das continuações anteriores)
A gestão de Ricardo Salgado
desobedeceu ao Banco de Portugal 21 vezes entre Dezembro de 2013 e Julho de
2014, praticou actos dolosos de gestão ruinosa por quatro vezes e concedeu dois
financiamentos a administradores e a empresas do Grupo Espírito Santo sem
cumprir as regras aplicáveis aos membros dos órgãos sociais e a partes
relacionadas. Estas são algumas conclusões de apenas um de cinco blocos de uma
auditoria forense ao BES encomendada pelo Banco de Portugal à Deloitte divulgadas
pela imprensa
de hoje. Revelam, em simultâneo, detalhes da actividade criminosa de uma
administração que, porque já sabia que estava a prazo, aproveitou cada minuto para
sangrar o que restava de um banco que depois todos tivemos que pagar e a permissividade,
senão mesmo cumplicidade, de um regulador que não regulou mas escondeu da AR as conclusões desta auditoria. Ricardo Salgado e
restante quadrilha continuam à solta com o património intacto. Carlos Costa,
que lhes forneceu a informação de que estavam a prazo sem apertar a vigilância e fez vista grossa aos crimes agora conhecidos, continua em funções mesmo depois de se saber que os ocultou. O Governo
que deveria retirar-lhe a confiança e substituí-lo recusa-se também a intrometer-se
no sonho de Isabel dos Santos de se tornar a nova dona disto tudo através dafusão do BPI com o BCP. E tudo isto decorre num ambiente primaveril de paz
social com os três partidos do arco disto tudo inabaláveis na zona de conforto proporcionada
por mais de 75% das intenções de voto dos portugueses. A festa pode continuar. Só pode.
(actualizado)
(actualizado)
quarta-feira, 4 de março de 2015
Da série "ó mãe, aquele menino bateu-me" (continuação)
Em entrevista publicada na edição
de hoje do diário espanhol El
País, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, acusou Portugal
e Espanha de terem sido muito exigentes com a Grécia nas últimas semanas, repetindo
a acusação de Tsipras de há uns dias. É só rir. Desta vez, Passos Coelho e Mariano
Rajoy vão mesmo ter que se queixar do enxovalho directamente à patroa.
As palavras não prescrevem como as dívidas
"E depois
há muitos que deviam pagar os impostos e não pagam. Por quê? Porque não
declaram as suas actividades. Ora, nós temos a obrigação de corrigir estas
injustiças, não há nada mais social-democrata do que isso". "Porque
aquilo que deve orientar um princípio de social-democracia é a igualdade de
oportunidades, não é o privilégio, mesmo o pequeno privilégio. Se há quem se
ponha de fora das suas obrigações para com a sociedade, tendo muito ou pouco,
esse alguém está a ser um ónus importante para todos os outros, que têm umfardo maior."
Não admira que este pregador se refira
a qualquer esforço de reestruturação ou renegociação de dívidas como um conto para
crianças: ele próprio já reestruturava as suas próprias dívidas há muito tempo sem ter que se sujeitar aos caprichos
do Eurogrupo. E não, Pedro Passos Coelho também nunca teve que se passear ociosamente
disfarçado numa cadeira de rodas falsa diante de nenhum ministério para pedir favores. Este paralítico sempre os pediu lá dentro,, onde ninguém o via.
Gostei de ler: "O euro e as lições da história"
![]() |
Com o euro, na vez das desvalorizações cambiais (todos
perdem), o "ajustamento" faz-se desvalorizando salários (apenas perde
quem vive do seu trabalho) – gráfico daqui.
|
«Na era contemporânea e até à
data, houve três grandes experiências de fixação da paridade cambial entre
grupos significativos de economias distintas: o padrão-ouro do final do século
XIX e início do século XX; o sistema de Bretton Woods, que vigorou entre o
final da 2ª Guerra Mundial e o início da década de 1970; e o Euro.
Em todos estes casos, a introdução de um sistema de câmbios fixos visou eliminar o risco cambial e, por essa via, facilitar os fluxos de investimento e comércio internacional. No plano político, a intenção declarada era a da promoção da integração económica, da interdependência e, pelo menos no plano das proclamações, da paz e harmonia entre as nações.
Em todos estes casos, a integração cambial (que, na medida da maior ou menor liberdade de circulação de capitais, é também na prática unificação monetária, tal como nos diz o chamado trilema da economia internacional ) não se fez acompanhar por uma integração fiscal ou orçamental susceptível de contrariar a divergência gradual das várias economias em relação aos parâmetros iniciais em função dos quais fora fixada a paridade cambial.
Em todos estes casos, também, o período inicial de relativa estabilidade e sucesso do sistema de câmbios fixos durou apenas até à crise sistémica seguinte. O padrão-ouro do início do século XX durou até à Grande Depressão da década de 1930, no decurso da qual todas as principais divisas abandonaram a paridade estabelecida. É aliás um facto bem conhecido da história económica do século XX que as economias que abandonaram o regime de câmbios fixos mais cedo (o chamado "sterling block", que incluía o Reino Unido e diversos países nórdicos e que saíu do padrão-ouro em 1931) começaram a recuperação da Grande Depressão muito mais cedo do que as que insistiram na permanência no sistema durante mais tempo (como a França, Bélgica e Suiça, que resistiram até 1935-36).
Por sua vez, o sistema de convertibilidade divisas-dólar-ouro, ou sistema de Bretton Woods, durou até à chamada crise da década de 1970. A causa próxima foi a sobrevalorização implícita do dólar e o seu impacto nas contas externas norte-americanas , mas tal ocorreu no contexto de uma crise sistémica mais profunda, que aliás começara a declarar-se já no final da década de 1960.
E o euro, ou pelo menos a fase triunfal do euro, durou até à eclosão em 2007 da crise sistémica seguinte: aquela em que ainda nos encontramos e que, no contexto europeu, veio expor decisivamente a insustentabilidade da paridade cambial subjacente, especialmente em resultado da adopção pela Alemanha de uma política mercantilista assente na compressão salarial, que provocou uma divergência dos níveis de inflação logo desde o início do euro.
Só que o regime de câmbios fixos do euro é um regime especial, que não corresponde apenas ao estabelecimento de uma paridade fixa entre moedas distintas controladas por soberanos distintos.
O euro é o primeiro sistema em que economias distintas, mantendo a autonomia nos planos fiscal e orçamental e a ausência de coordenação distributiva significativa, eliminaram as divisas pre-existentes e adoptaram uma moeda única. Isso faz com que seja um sistema muito mais difícil, custoso e imprevisível de desmontar do que sucedeu nos dois casos anteriores. Mas nem por isso é mais viável. No fundo, o euro é um desafio ostensivo à História, em que ainda por cima se subiu a parada. Só que como estamos e vamos continuar a assistir, não se desafia a História sem pagar um preço.» – Alexandre Abreu, no Expresso.
Em todos estes casos, a introdução de um sistema de câmbios fixos visou eliminar o risco cambial e, por essa via, facilitar os fluxos de investimento e comércio internacional. No plano político, a intenção declarada era a da promoção da integração económica, da interdependência e, pelo menos no plano das proclamações, da paz e harmonia entre as nações.
Em todos estes casos, a integração cambial (que, na medida da maior ou menor liberdade de circulação de capitais, é também na prática unificação monetária, tal como nos diz o chamado trilema da economia internacional ) não se fez acompanhar por uma integração fiscal ou orçamental susceptível de contrariar a divergência gradual das várias economias em relação aos parâmetros iniciais em função dos quais fora fixada a paridade cambial.
Em todos estes casos, também, o período inicial de relativa estabilidade e sucesso do sistema de câmbios fixos durou apenas até à crise sistémica seguinte. O padrão-ouro do início do século XX durou até à Grande Depressão da década de 1930, no decurso da qual todas as principais divisas abandonaram a paridade estabelecida. É aliás um facto bem conhecido da história económica do século XX que as economias que abandonaram o regime de câmbios fixos mais cedo (o chamado "sterling block", que incluía o Reino Unido e diversos países nórdicos e que saíu do padrão-ouro em 1931) começaram a recuperação da Grande Depressão muito mais cedo do que as que insistiram na permanência no sistema durante mais tempo (como a França, Bélgica e Suiça, que resistiram até 1935-36).
Por sua vez, o sistema de convertibilidade divisas-dólar-ouro, ou sistema de Bretton Woods, durou até à chamada crise da década de 1970. A causa próxima foi a sobrevalorização implícita do dólar e o seu impacto nas contas externas norte-americanas , mas tal ocorreu no contexto de uma crise sistémica mais profunda, que aliás começara a declarar-se já no final da década de 1960.
E o euro, ou pelo menos a fase triunfal do euro, durou até à eclosão em 2007 da crise sistémica seguinte: aquela em que ainda nos encontramos e que, no contexto europeu, veio expor decisivamente a insustentabilidade da paridade cambial subjacente, especialmente em resultado da adopção pela Alemanha de uma política mercantilista assente na compressão salarial, que provocou uma divergência dos níveis de inflação logo desde o início do euro.
Só que o regime de câmbios fixos do euro é um regime especial, que não corresponde apenas ao estabelecimento de uma paridade fixa entre moedas distintas controladas por soberanos distintos.
O euro é o primeiro sistema em que economias distintas, mantendo a autonomia nos planos fiscal e orçamental e a ausência de coordenação distributiva significativa, eliminaram as divisas pre-existentes e adoptaram uma moeda única. Isso faz com que seja um sistema muito mais difícil, custoso e imprevisível de desmontar do que sucedeu nos dois casos anteriores. Mas nem por isso é mais viável. No fundo, o euro é um desafio ostensivo à História, em que ainda por cima se subiu a parada. Só que como estamos e vamos continuar a assistir, não se desafia a História sem pagar um preço.» – Alexandre Abreu, no Expresso.
terça-feira, 3 de março de 2015
Em vez de duas demissões óbvias
Manda a receita de sucesso do centrão que
quando a casa estiver a arder, em vez de apagar o fogo, se tente disfarçar
atirando pedras ao telhado do vizinho para soltar areia para os olhos de quem os
leve
a sério. Desta vez calhou arderem em simultâneo a casa do PS e a casa do
PSD. E o espectáculo é decadente. Os socialistas apedrejam um Pedro Passos
Coelho apanhado em flagrante a enganar a Segurança Social. O PSD apedreja um
António Costa apanhado em flagrante a agradecer contributos para um país que
está hoje muito melhor do que há quatro anos. O primeiro, que já não é a primeira
vez que é apanhado com a boca na botija, campeão da imposição de sacrifícios
aos portugueses, nunca mais terá autoridade
alguma para falar sobre evasão contributiva. O segundo, constantemente enredado
em contradições e ambiguidades, nunca
mais poderá criticar o trabalho de um Governo que elogiou
publicamente
. O primeiro é Primeiro-ministro e não se demite. O segundo é candidato a seu sucessor e também não. E as próximas sondagens dar-lhes-ão toda a razão. Mais uma corrida, mais uma viagem. Criança não paga mas também não anda. Venha o próximo flagrante e a próxima pedrada. Eles divertem-se à brava. Isto até pode ser que seja mesmo assim, mas os políticos não caem do céu.
. O primeiro é Primeiro-ministro e não se demite. O segundo é candidato a seu sucessor e também não. E as próximas sondagens dar-lhes-ão toda a razão. Mais uma corrida, mais uma viagem. Criança não paga mas também não anda. Venha o próximo flagrante e a próxima pedrada. Eles divertem-se à brava. Isto até pode ser que seja mesmo assim, mas os políticos não caem do céu.
Vagamente relacionado
– «Em quatro anos livrámo-nos de 400 mil empecilhos, na sua maioria jovens sem
visão empreendedora, que andavam para aí a perorar por trabalho e a viver à
conta de subsídios. 25% dos imbecis que ficaram vivem abaixo da pobreza.
Disponibilizámos 12 000 000 000€ a todos os bancos, demos 7 000 000 000€ ao BPN
(preparamo-nos para dar muito mais ao BES) e comprometemo-nos a pagar pela
"ajuda" da troika 35 000 000 000€. Criámos um regime fiscal especial
para quem fugiu ao fisco poder regularizar a situação sem qualquer pena e
pagando menos do que qualquer outro cidadão ou empresa que tenha pago os seus
impostos a tempo e horas. Nos últimos sete anos duplicámos a dívida pública
portuguesa, passando dos 68,4% de 2007 para os 131,4% do terceiro trimestre de
2014, e continuamos a pagá-la, o que nos faz ser muito interessantes para os
especuladores dos mercados internacionais. Com os cortes conseguimos diminuir
30% dos rendimentos dos inúteis funcionários públicos e pensionistas. O número
de desempregados aumentou mas pagamos menos subsídio. A estrutura produtiva do
país continua a virar-se para servir o turista... Tudo isto e o sangue
derramado nas ruas é dos que se suicidam em silêncio, dos que desesperam uns
com os outros ou dos que morrem à espera de atendimento nos hospitais em ruptura. Entretanto ,
em Outubro, o arco do poder prepara-se para manter o poder mudando, ou talvez
não, de marca.» (Tiago
Mota Saraiva)
Ainda mais vagamente – «(…) Há
muitas lições que o PS e outros poderiam aprender desde já com o Syriza. Uma
delas é que é preciso correr o risco de ser diferente e de ser o primeiro,
mesmo quando não se sabe se os outros nos seguem e quando se enfrentam
adversários poderosos. Outra é que a política se faz de convicções e não apenas
de jogos de poder, de paixão e não apenas de cálculo. Outra é que a justiça
deve ser o principal critério da governação. Estes são os factores que explicam
o apoio popular ao Syriza. A política não é apenas a arte do possível, como
dizia Bismark. A política tem de ser o exercício da vontade porque a soberania
é a expressão da vontade, porque o sonho nos leva mais longe que as convenções
e os preconceitos, porque a história não é outra coisa senão a conquista do
impossível. A política tem de ser a transformação do desejável em realidade. (…)»
(José
Vítor Malheiros)
segunda-feira, 2 de março de 2015
Nós e os monstros
Se há conflitos em que nenhum dos
lados defende causas e valores daqueles pelos quais vale a pena lutar, a guerra
que vai matando gente no Leste da Ucrânia é um deles. Também por isso tenho
evitado escrever sobre ele. Para dizer o óbvio, que a União Europeia envergonha
os europeus ao assumir o papel de peão dos Estados Unidos que apoia
declaradamente um dos lados, aborrece-me. Para escalpelizar detalhadamente as
razões que fazem cada um dos lados pegar em armas, sairia uma coisa longa e
enfadonha que não acrescentaria nada ao que outros escreveram muito melhor do
que eu alguma vez conseguiria. E não será hoje que o farei. Pego no
tema de raspão, apenas para sublinhar o simulacro de condenação consternada que
mereceu a execução do líder da oposição russa pelas mesmas bocas e pelas mesmas
mãos que há tão pouco tempo se desdobravam em elogios a um Vladimir Putin cujo regime
já então sobrevivia à sombra de fraudes eleitorais sucessivas e afastava
opositores prendendo-os
e roubando-lhes a vida. Esta Europa que hoje pede
a cabeça dos assassinos de Boris Nemtsov é a mesma que se calou aos
assassinatos de Farid Babáev e Aleksander
Litvinenko quando se sentava com Putin do mesmo lado da mesa da divisão internacional
da riqueza. A grande imprensa que em 2007 fazia do assassino de estimação dos seus
proprietários a sua personalidade do ano é a mesma que hoje, já com os nazis ucranianos
a ocuparem o lugar que era seu, o crucifica ao mesmo tempo que se cala a barbaridades
como a licença para atirar sobre desertores que o Parlamento
ucraniano concedeu ao seu exército de recrutados à força. Nós e os monstros.
O monstro russo, o monstro ucraniano e o monstro europeu. Estamos nas mãos deste
último e da imprensa que tem ao seu serviço para nos embalar ao colo dos três.
domingo, 1 de março de 2015
Queixinhas
De acordo com a
agência de notícias espanhola Efe, fontes do Governo espanhol anunciaram
ter enviado um protesto conjunto de Espanha e Portugal aos presidentes da
Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e do Conselho Europeu, Donald Tusk, relativamente
às acusações
públicas de Tsipras sobre o tudo que fizeram para minar cada passo para um acordo com a Grécia de forma
a evitar que o exemplo grego crie escola em Espanha e Portugal. Realmente, como
se já não bastasse a vergonha nacional de terem regressado do Eurogrupo com os joelhos imundos de tanto rastejarem
aos pés daqueles que têm os países respectivos a saque, agora ainda se armam em
queixinhas: "Ó mãe, aquele menino bateu-me". Não, isto já não se parece com uma história
de crianças, é uma história tristíssima de gente mesmo muito pouco crescidinha.
E o pior é que não são crianças, são anões que, embora seja dever nacional abrir-lhes a boca
à dieta que
merecem, nem mesmo empanturrados com adubo natural irão adquirir estatura de
gente.
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Da série "Pedro-espertismo", continuação
Era uma vez um Pedro
- era dos tais - que acusava os gregos do que ele próprio fazia. Acumulou milhares de euros de dívidas
à Segurança Social. Um dia, o jornal que lhe descobriu o calote confrontou-o com
esse seu passado escondido. E o Pedro-esperto,
aflito, lá foi à pressa pagar o que devia na vã esperança de não se ver grego com
as explicações que fica a dever ao país sobre mais este capítulo da sua honesta existência. Os detalhes desta história para crianças e a diferença entre
ser José António Cerejo e ser um qualquer Rodrigues dos Santos desta vida podem ser consultados aqui.
Gostei de ler: "Credibilidade e confiança"
“A nova Europa deverá, portanto,
constituir um todo: um agrupamento de países autónomos na sua governação e
administração, mas orientados por princípios gerais uniformes”, o que implica
“(a) o reconhecimento pelos diferentes Estados da solidariedade dos seus
interesses individuais; (b) uma certa uniformização na estrutura desses
Estados; (c) um acordo geral sobre os princípios e processos a adotar para alcançar
os fins que se têm em vista”. O texto é de 1941, mas podia ser de 2015. Quem
escrevia assim sobre os projetos de “comunidade europeia” (a terminologia era
mesmo essa) que a Alemanha de Hitler queria impor à Europa na II Guerra Mundial
era Tovar de Lemos, negociador económico do Ministério dos Negócios
Estrangeiros, um diplomata monárquico que Salazar mandara para Berlim depois de
se ter convencido (ocupação de França e dos Balcãs, isolamento da Grã-Bretanha,
conquista de metade da parte europeia da União Soviética) que a Alemanha
ganhara a guerra no continente.
Governando um país periférico
face ao conflito, as elites salazaristas (seguindo uma tradição que se mantém
até aos dias de hoje) não queriam perder um barco que os levaria, sem
participar na guerra, a
entrar na Nova Ordem Europeia que Berlim ia tecendo. O mais curioso é ver como os dirigentes de um regime abertamente nacionalista se punham em bicos de pés para, já então, se fazerem passar pelos melhores amigos do chefe da pandilha: um tecnocrata dos anos 40 como era Tovar garantia a Salazar: “Podemos desde já salientar que dificilmente se encontrará na Europa outro país que apresente em relação à Alemanha tamanha similitude de instituições, de princípios de governação e de ideologias políticas e sociais como o nosso. (…) Em parte alguma encontrará a Alemanha menor necessidade de uniformização que em Portugal.” (Relatório, 15/11/1941, reproduzido em Dez Anos de Política Externa, 1936-1947)
entrar na Nova Ordem Europeia que Berlim ia tecendo. O mais curioso é ver como os dirigentes de um regime abertamente nacionalista se punham em bicos de pés para, já então, se fazerem passar pelos melhores amigos do chefe da pandilha: um tecnocrata dos anos 40 como era Tovar garantia a Salazar: “Podemos desde já salientar que dificilmente se encontrará na Europa outro país que apresente em relação à Alemanha tamanha similitude de instituições, de princípios de governação e de ideologias políticas e sociais como o nosso. (…) Em parte alguma encontrará a Alemanha menor necessidade de uniformização que em Portugal.” (Relatório, 15/11/1941, reproduzido em Dez Anos de Política Externa, 1936-1947)
(...)
Já muito se disse sobre esta
especial vocação do Governo português (o de Passos não foi o primeiro, e não
será, infelizmente o último) para fazer o
papel de queixinhas do xerife Schäuble, até mesmo quando o seu vice Juncker
quis vir encenar um arrependimento dissimulado e lamentar-se da humilhação
infligida a portugueses e a gregos. Os intermediários nacionais da humilhação
sentiram-se, naturalmente, magoados... O que me parece significativa é essa
terrível pobreza da política europeia do Estado português, ou simplesmente de
toda a sua política externa.
País periférico do centro europeu da economia
mundial, e parceiro perfeitamente menor da estratégia norte-americana no mundo
(veja-se como andam desesperados os atlantistas militantes ao verificar como
Portugal aparece no item peanuts das prioridades de Washington), a única
estratégia que se percebe haver, de novo, na forma como se tem posicionado
Portugal na Europa e no mundo desde o fim do período revolucionário e a
descolonização é a permanente procura de colagem a quem manda no mundo, isto é,
aos EUA-polícia-global, por mais que a sua política crie cisões no próprio
Ocidente em que Lisboa enfileira; e ao diretório de turno na Europa, o que,
desde Maastricht, Tratado Orçamental e, sobretudo, o pacto com a troika, passou
a ser a Alemanha, mesmo quando esta nem se preocupa em esconder a sua opção por
uma UE organizada em círculos concêntricos, no mais central dos quais está
apenas ela e aqueles que sigam os estritos preceitos que lhe garantam uma
hegemonia económica e comercial que, desde a unificação, ela deixou de fingir
querer partilhar com os demais. Os governos portugueses (direita ou PS, é
indiferente) são, de resto, a par do britânico, do holandês, do dinamarquês e
dos da Europa pós-comunista (a nova Europa, como lhe chamava Rumsfeld, para a
distinguir de alemães e franceses que então mostravam, a propósito da invasão
do Iraque, alguma autonomia), dos que mais se empenham em compatibilizar o que
muitas vezes é incompatível: um atlantismo ortodoxo, que cala todas as críticas
a um aventureirismo bélico americano que se tornou permanente, e um europeísmo
que, sem nunca se assumir federalista, presume a cedência total a
Bruxelas/Berlim da soberania económica como a melhor forma de impor aos
portugueses um modelo que contradiz todos os esforços de democratização social,
contornando uma Constituição que, desta
Não há aqui nenhuma nostalgia das
ilusões salazaristas de manter uma certa autonomia à custa da guerra em África.
Nem a solução está em oferecer a base das Lajes aos chineses; há tanta
criatividade nessa proposta quanto há na venda das nossas empresas públicas a
chineses, franceses, angolanos... O horror que povoa os corredores do poder de
Lisboa face à reivindicação grega de autonomia e a vontade (até agora vã) de
construir uma frente das economias sobreexploradas pela dívida diz tudo de quão
pequena e tacanha é a política externa portuguesa.» - Manuel Loff, no Público.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Portugal não é a Grécia
Quando a sondagem que hoje dá um “empate
técnico” entre a coligação PSD/CDS e o PS foi elaborada, ainda não tinha estourado
a bomba. Mas agora, já depois do país ter ficado a saber que os líderes dos três
partidos do memorando estão de acordo que Portugal está muito melhor do que há quatro
anos, o “empate técnico” vendido pelo Expresso perde grande parte do que lhe restava
de sentido: não são 38 por cento de um lado e 38 por cento do outro, pode perfeitamente
ser uma soma de parcelas que corresponde a uma maioria qualificada se considerarmos
os três partidos do arco da austeridade ou uma confortável maioria absoluta se admitirmos
a possibilidade de PSD e PS chegarem a um acordo quanto a mandarem Paulo Portas
ir dar uma volta de submarino. Evidentemente, isto será apenas uma ideia maluca
enquanto a comunicação social do regime contornar o cenário cada vez mais provável
de uma reedição do Governo Nova Democracia-PASOK que destruiu o que restava destruir
na Grécia entroikada. Austeridade ou austeridade? A sondagem diz que os portugueses
continuam indecisos entre ambas.
Gostei de ler: "O bom aluno"
«Em 1992, numa entrevista a um
canal de televisão grego, o filósofo e psicanalista francês Félix Guattari
incitava os gregos a recusarem as regras que fazem da política europeia um
teatro de sombras semelhante ao que a lei edipiana faz na família: “A Grécia é
o mau aluno da Europa. É essa a sua qualidade. Felizmente que há maus alunos,
como a Grécia, que trazem a complexidade. Que trazem uma recusa de uma certa
normalização germano-francesa. Por isso, continuem a ser maus alunos e
continuaremos bons amigos.” Em Portugal, nessa altura, já estávamos a ser
ungidos pela metáfora do bom aluno e ainda hoje transportamos o brilho intenso
e o contentamento sem reserva que a metáfora irradia.
O que é, neste caso, um bom
aluno? O bom aluno caracteriza-se por um determinado comportamento, por um
programa de acção, mas é também aquele que interiorizou convictamente uma
moral, ao ponto de política e moral serem para ele a mesma coisa. A dívida,
como sabemos muito bem, segrega uma moral própria. Um breve exercício genealógico
ajuda a perceber porquê. Actualmente, já não é preciso ter lido a Genealogia da
Moral, de Nietzsche, para saber que o conceito moral de culpa remonta ao
conceito material de dívida, que, por isso, se diz, em alemão, exactamente com
a mesma palavra — Schuld.
A figura do “homem endividado”,
que o sociólogo italiano Maurizio Lazzarato definiu como o representante por
excelência da condição neoliberal, é afinal a figura típica de uma economia da
salvação, como nos lembrou Walter Benjamin num célebre fragmento de 1921 sobre
O Capitalismo como Religião, onde define o capitalismo como uma religião sem
dogma, caracterizada pela celebração de um culto sem tréguas, para o qual não
existem dias feriados. “Este culto”, diz Benjamin, “é gerador de culpa” (ou de
dívida, já que a palavra verschuldendsignifica as duas coisas). E acrescenta:
“O capitalismo, com toda a probabilidade, é o primeiro caso de um culto que não
redime o pecado, mas gera culpa” (isto é, dívida). Uma culpa que não pode ser
expiada — e essa é a condição paradoxal da religião capitalista — mas tornada
universal.
O bom aluno é aquele que
interiorizou plenamente a moral da culpa e sabe que deve comportar-se como um
ser em débito. Haverá algum momento em que a culpa vai ser expiada, isto é, em
que o débito vai ser saldado? Evidentemente que não. Por isso é que se criou a
figura da “dívida eterna” ou infinita. Por ela, o homem endividado interiorizou
para sempre a dívida e é isso — e não que a pague de uma vez por todas — que o
credor lhe exige. Comentando Nietzsche, escreveu Deleuze: “A dívida torna-se a
relação de um devedor que nunca acabará de pagar e de um credor que nunca
acabará de esgotar os interesses da dívida.” O infinito que o cristianismo
introduziu na religião, reinventa-o o capitalismo ao nível económico, num plano
imanente.
Para se tornar um bom aluno, como
lhe é exigido para continuar a dar-lhe crédito, a Grécia não precisa de pagar a
sua dívida — que é infinita e eterna. Tem é de dar como garantia do fictício e
sempre diferido reembolso um conjunto de virtudes sociais e políticas que são a
carne e o sangue da moralidade a que está obrigada. Tem de sujeitar-se
eternamente ao performativo da promessa. Não é que as promessas paguem dívidas,
mas são um reconhecimentos e uma ritualização da culpa. Em suma: é preciso que
o modo de existência da Grécia, o seu ethos, seja determinado pela culpa que
todos os bons alunos interiorizaram e que os faz arrastarem-se, de ombros
descaídos e olhar baixo, sempre que está por perto um supremo credor.» – António
Guerreiro, no Público.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Da longa série "sucessos/melhorias"
Por serem sistemáticas as desconformidades
na urgência, sendo frequente existir um só elemento escalado para o Atendimento
Geral durante o dia e a noite, porque as condições de trabalho se têm vindo a
degradar desde Novembro pondo em risco a segurança dos doentes, tal como o
fizeram os do Garcia de Horta e do Amadora-Sintra, Os chefes de equipa do
serviço de urgência do Hospital do Litoral Alentejano também se demitiram em
bloco esta quinta-feira. Isto é capaz de
ser ou o sucesso do "ajustamento" português que enche de orgulho a
Ministra das Finanças e o seu patrão alemão, ou as melhorias registadas no país
conseguidas com a preciosa contribuição dos chineses que fizeram o favor de nos
ficar com os 3 milhões de lucros diários da EDP, que o grande estadista António
Costa teve oportunidade de agradecer em nosso nome. Mas também pode ser o tal
pecado cometido contra a nossa dignidade que começou com o memorando que o arco
destes senhores aceitou assinar de cruz em 2011 e que se depender deles – estão
de acordo que o país está cada vez melhor – se prolongará pelas próximas duas décadas,
não sei. As sondagens vão-lhes dando toda a razão para se manterem fieis ao que
sempre foram.
Gostei de ler: "Portugal, 2015"
«Portugal em 2015 está um país
muito esquisito, amorfo e ao mesmo tempo zangado; cansado e ao mesmo tempo
agitado, cheio de "criadores culturais" e ao mesmo tempo ignorante
como nunca; egoísta, mas incomodado pelo seu egoísmo, com má consciência. (...)
Olhe-se em volta. Nos cinemas dos
centros comerciais (não há outros), a parte da Humanidade que é do sexo
feminino faz fila para comprar bilhetes para ver um vago filme erótico, com
chicotes e algemas, mas onde tudo é bonito, milionário, com gosto e controlado,
asséptico. Parece que o sadomasoquismo chique está na moda entre as mulheres.
Na verdade, não é uma grande novidade, mas presumo que os homens se interrogam
sobre o que é que não tinham percebido nas suas mulheres, companheiras,
namoradas, amantes e seja lá o que for. Vão continuar sem saber nada.
A crise grega entra nas redes
sociais por via da roupa do ministro Varoufakis. Discute-se o blusão de couro,
o cachecol, as camisas de fora ou de dentro. Não admira. Muita da nossa inteligência
feminina, metrossexual e gay gosta muito de discutir roupas e ocasionalmente
gatinhos. Sendo assim, não admira que tenham passado dos sapatos Prada, dos
fatos Armani e Boss do nosso ex-primeiro-ministro caído em desgraça, para a
discussão contínua das gravatas e terminar na mais imbecil crítica feita alguma
vez a Passos Coelho, a dos fatos suburbanos de segunda. Essa gente não se
enxerga mesmo. É isto segredo para alguém, indiscrição, boato, ou má língua?
Não, não é. É o conteúdo habitual desse ruído moderno do Twitter e do Facebook,
feito por gente que diz abominar a Caras e a Lux e faz muito pior.
O que tem mais graça, aliás o que
é mais ridículo, é que esta gente que discute roupas, restaurantes e outros
ademanes da cultura urbana, que fazem a Time Out ganhar a sua vida
(honestamente), é toda muito de esquerda, muito de causa dos costumes, muito do
social, muito modernaça. Seja dito, no entanto, que há também uma fauna de
direita, muito "ajustadora", que é exactamente igual. Aliás dão-se
bem e exercem activamente a boa prática do fishing for compliments, ajudando-se
uns aos outros na luta pela vida. (...)
Em política, Pavlov reina como
mestre de cãezinhos. É tudo tão previsível, tão fácil de identificar, tão
rudimentar, tão… pavloviano. Grite-se Sócrates, Costa, Boaventura, Syriza,
Bagão, Louçã, Manuela, eu próprio, os gregos, Varoufakis e logo uma pequena
multidão começa a salivar nas redes sociais, nos blogues, nos
"porta-vozes" oficiais e oficiosos do PSD e do CDS. Muita desta raiva
vem do desespero. Os melhores dias já estão no passado e as perspectivas são
sombrias. (...)
Enganam-se se pensam que são os
esquerdismos do programa do Syriza que mobilizam as simpatias. É por isso que
há pouca gente nas manifestações, porque elas são miméticas desse esquerdismo.
Mas o que faz as sondagens maioritárias pró-gregos, a "maioria
silenciosa", é a afirmação nacional, a independência, a soberania, a honra
perdida das nações resgatada por um povo. É uma gigantesca bofetada nos
patriotas de boca e empáfia que aceitaram tudo, assinaram tudo, geriram o
"protectorado" com zelo e colaboração, e terminam o seu tempo útil
servindo para fazer o sale boulot alemão.» – Pacheco Pereira, na Sábado.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Tanta barulheira e afinal....
"Como nós dizemos em
Portugal, os amigos são para as ocasiões. E numa ocasião difícil para o País,
em que muitos não acreditaram que o país tinha condições para enfrentar e
vencer a crise, a verdade é que os chineses, os investidores disseram presente,
vieram e deram um grande contributo para que Portugal pudesse estar hoje na
situação em que está, bastante diferente daquela que estava há quatro anos
atrás.” Quem disse isto não foi nem Pedro Passos Coelho, nem Paulo Portas, nem nenhuma
figura do PSD ou do CDS. Foi António
Costa. O PS entrou assim no ano da cabra. Foi você que pediu um Governo do arco
do memorando/troika/austeridade?
Vagamente
relacionado (tema austeridade selectiva): Afinal, a isenção de taxas e compensações
urbanísticas que a Câmara de Lisboa propôs à Assembleia Municipal que fosse
concedida ao Benfica não é de 1,8 milhões de euros, mas sim de 4,6 milhões de
euros. O número foi avançado pela Presidente da Assembleia Municipal, Helena Roseta.
Série "poupanças" - continuação das continuações anteriores
Com contas de merceeiro em fundo,
por estes dias tem-se falado em chumbos e em vacinas. Apesar de
reconhecer a sua eficácia na protecção de bebés e crianças contra alguns tipos
de infecções graves como a meningite, a pneumonia e a septicémia e de admitir que
a vacinação dos mais jovens reduziria o número de pneumonias nos mais idosos,
uma das principais causas de morte, o Ministério da Saúde anda há anos a
protelar – eles chamam-lhe “estudar”
– a inclusão de uma vacina no plano nacional de vacinação, uma medida que, sem
regatear preços com a farmacêutica respectiva, custaria anualmente nem 20 milhões
de euros. No sector da Educação, David Justino concluiu aturados estudos sobre a
problemática dos chumbos e entre as suas conclusões vem a proposta de acabar
com as retenções para “poupar” 600
milhões de euros. De repente, as nossas vidas tornaram-se contas. Contas
muito mal feitas. Poupar por poupar, poupar-se-ia bastante mais acabando de vez
com o sistema de ensino e com o plano nacional de vacinação. Mas poupar por
poupar fica muito caro. Tardará menos do que o espaço temporal de uma geração
para chegar a conta da falta de quadros gerada pelo desmantelamento em curso da
Escola pública. Já vai chegando todos os anos a conta dos internamentos causados
pelas “poupanças” na prevenção que os evitaria. E as mortes também não entram nestas
contas feitas ao ano sem contabilizarem custos de longo prazo e igualando a zero
todas as parcelas relativas a sofrimento humano. A Alemanha exige determinado quociente
anual, os capatazes cá do sítio põem o país inteiro a sangrar para se aproximarem
desse valor. Depois, em data com vantagens recíprocas, aparece a Ministra a receber
elogios do patrão alemão no telejornal. Eles sabem que haverá sempre quem fique
muito bem impressionado e aplauda o elogio da destruição do seu país. E que o resto
desta conta se poupa nas reacções e insiste em não contar para nada. Seja feita
a sua vontade. Não há porque fazer-lhes caso.
Sobre a dimensão do “caso de sucesso”
português: "Em Portugal, apesar dos progressos consideráveis na
implementação do programa de ajustamento, permanecem riscos importantes, como o
elevado nível de dívida e de desemprego, o que nos leva a colocar o país na
categoria de desequilíbrios excessivos, que requerem acções decisivas e
vigilância permanente", anunciou hoje o comissário europeu para a Economia,
Pierre
Moscovici. Isto ainda mal começou.
Gostei de ler: "Post Interdito A Pessoas Politicamente Correctas E Crianças Em Geral"
«Estou A Precisar De Uma
Recomendação De Especialistas… ou relatores ou conselheiros,
parentais ou outros, acerca de um aluno meu do 5º ano.
Penso ser uma coisa na área da
Saúde e a mim carecem os conhecimentos e sobram desconhecimentos.
É que ele boceja imenso nas
aulas, muito ruidosamente, assim de forma escancarada e a seguir aos lanches da
manhã arrota sonoramente, benzódeus e alá (não discriminemos), o que me dizem
ser contra as regras da cortesia social e desperta muita gargalhada no resto
dos colegas.

Eu, como sabem, tenho um trauma
por ser fascista e um professor muito retrógrado como disse aquele político que
era bloquista e agora vai avançando para o ps, pelo que receio excluí-lo (ao
aluno) e contribuir para uma cultura punitiva arcaica.
Diz-me @ DT que de casa dizem que
não sabem já o que fazer, que ele em casa não é assim e que a vida e coiso está
difícil e sai-se cedo e chega-se tarde quando se consegue ter emprego.
De cadernos tenho notícia
ocasional e de colaboração na aula ficámos falados lá acima, com o acréscimo da
frase mais comum “o que é que eu fiz desta vez?”
Já o tentei sensibilizar de
diversas formas, mas se o mantenho na sala tenho queixas de parte dos alunos
que dizem que ele os distrai e se o mando sair tenho quem me diga que não sei
controlar a sala de aula.
Eu sei que os especialistas,
relatores, conselheiros unânimes e demais gente que sabe disto, me dirá que
isto são casos particulares e que eu devo desenvolver as minhas skills de forma
a motivar para as aprendizagens, que o problema é meu e que se, de algum modo,
limitar a liberdade do aluno lhe pode provocar danos na auto-estima e problemas emocionais gerais e específicos
de diversa ordem.
Que isto é tudo casuístico e que
eu tenho sempre uma miopia terrível em relação ao grande cenário do custo por
aluno e da ausência de provas sobre os ganhos é um dado adquirido.
Os sampaios dirão que eu estou a
falhar na comunicação e os sebastiões que eu estou a promover a tal exclusão e
que os alunos que se queixam estão a vitimizar-se sem necessidade. E que eu sou
limitado e deveria dar lugar a gente nova, com capacidade para levar com meia
dúzia de arrotos e nem pestanejar.
Não vos queria dizer ou chocar
mas isto, numa daily basis, é uma grande bosta.
E olhem, eu até critiquei aquela
doutora muito professora por traçar um quadro apocalíptico das salas de aula.
Isto é mais uma moínha.
Aguardo a recomendação… não é
preciso ser no trebuchet oficial.
Podem mandar em vídeo.» – Paulo Guinote,
no A
Educação do meu umbigo.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Jogar com o tempo
Como "primeiro passo", ponto
de partida dependente de uma "avaliação positiva" posterior do
"programa", o Eurogrupo acaba
de aprovar à condição a
lista de reformas que lhe foi apresentada pelo Governo grego. Ou seja, não foi
uma aprovação incondicional, mas também não foi a rejeição liminar pretendida por alemães e
alemãezinhos, leia-se, Portugal e Espanha. O Eurogrupo acusa os efeitos da ofensiva
mediática desenvolvida pelo Governo grego junto das opiniões públicas europeias
e, sem margem política para assumir uma rejeição imediata das propostas gregas,
decidiu jogar com o tempo e apostar numa guerra de desgaste em duas frentes, a
das "reformas estruturais" – a agenda de reconfiguração social de
concentração de riqueza que destruiu a Grécia – que continua a exigir por um
lado e a da erosão da base eleitoral do Governo grego, por outro. A corda ainda
não partiu, mas pode partir a qualquer momento. O lado alemão irá tentar fazê-la partir no
momento mais apropriado para evitar que o efeito Syriza alastre pela Europa em ano
de eleições em Espanha e em Portugal. O lado até agora totalmente ganhador sabe que tem
tudo a perder. Oxalá o lado até agora totalmente perdedor, o dos cidadãos europeus, perceba que só tem a ganhar em cerrar
fileiras e fazê-los cair. Os gregos já começaram a ganhar. E note-se que apenas ganharam. Não perderam rigorosamente nada.
Coxa que te quero coxa
O clássico. Os Uns dirão que a culpa
é dos outros, os outros que a culpa é dos uns. E terão todos razão, a responsabilidade
à qual tanto gostam de referir-se usando a palavra “culpa” é de todos os que passaram
pelo Governo, ou melhor, de todos menos daquela inimputável senhora que diz que
a impunidade acabou. Uma inspecção realizada
há mais de um ano e apenas agora revelada ao Departamento Central de
Investigação e Acção Penal (DCIAP), a unidade do Ministério Público
especializada na investigação da criminalidade complexa e organizada, revelou
uma profunda
desorganização no funcionamento daquela estrutura entre 2009 e 2013, polícias
recrutados por amizade, gastos avultados, uma distribuição dos inquéritos sem
qualquer critério e atrasos que chegam aos 10 anos na tramitação dos processos
de prevenção de branqueamento de capitais. Como se constata mais uma vez, o
romance entre a impunidade e a corrupção não é obra do acaso, é herança de um centrão nada interessado em ter mais do que uma Justiça coxa a correr atrás de si.Gostei de ler: "Dignidade, aquele conceito que o Governo não entende"
«1. “Pecámos contra a dignidade
dos povos, nomeadamente na Grécia e em Portugal e muitas vezes na Irlanda”. As
declarações do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, proferidas
a propósito da actuação da troika, perante os representantes dos Estados-membros
e transmitidas pelos órgãos de comunicação social, constituem um mea culpa
formal e em termos raramente ouvidos da boca de um político.
Juncker considerou que a troika
era um órgão sem legitimidade democrática e que a Comissão Europeia agiu de
forma errada ao dar-lhe carta branca para impor políticas de austeridade aos
Estados-membros e ao “confiar cegamente” nela. Juncker considerou que, no
domínio da assistência financeira aos estados, “tudo deve ser revisto” e
admitiu mesmo que parecia “estúpido” ao dizer isto agora, ele que foi
presidente do Eurogrupo, mas que é necessário “aprender com as lições do
passado e não repetir os mesmos erros”. Mas Juncker não disse apenas que a
troika foi ineficaz. Ao usar a expressão que usou, o presidente da Comissão
introduziu um julgamento moral que não pode deixar de ser pesado. Para Juncker,
a acção da troika não foi apenas tecnicamente errada. Ela foi também
politicamente contraproducente e moralmente inaceitável.
É impossível não concordar com o
político luxemburguês quando diz que faz figura de parvo ao admitir agora isto,
enquanto se calou antes, mas é evidente que Juncker, que de estúpido terá pouco,
o diz hoje porque o pode dizer sem grandes custos e não o podia dizer antes sem
arriscar a cabeça.
O que faz com que Juncker tenha
ganho este espaço de manobra não é apenas o facto de ser hoje presidente da
Comissão Europeia, mas o facto de a posição do novo Governo grego ter obrigado
as instituições europeias, os governos europeus, as instituições financeiras,
os analistas, os media e a opinião pública a uma reavaliação do papel e da
legitimidade da troika que dificilmente poderia ter outro resultado.
Se não houvesse outra razão, esta
seria já uma boa razão para nos congratularmos com a eleição do Syriza na
Grécia.
2. As declarações de Juncker são
raras num político, mas não são a história toda. E a história toda poderia
fazer deste episódio um case study nos cursos de relações internacionais, se
Passos Coelho e o seu Governo tivessem relevância política ou intelectual para
ficarem na história.
A história completa-se com a
reacção do Governo português às declarações de Juncker, pela boca de Marques Guedes,
ministro da Presidência do Conselho de Ministros e dos Assuntos Parlamentares,
que considerou as declarações do presidente da Comissão Europeia “infelizes” e
garantiu que a dignidade de Portugal “nunca foi beliscada” pela troika.
Como se pode entender que, por um
lado, a Comissão Europeia diga que ofendeu a dignidade dos portugueses, que se
penitencie pelo facto e que afirme que isso não pode voltar a acontecer, e que,
por outro lado, o Governo português responda que não senhor, que a dignidade
dos portugueses não foi ofendida, que não há razão para penitências nem para
falar de indignidade?
A explicação é chocante, mas
simples: acontece que Jean-Claude Juncker é mais exigente na defesa da
dignidade dos portugueses do que o Governo português.
Para Paulo Portas (que instituiu
oficialmente o regime de “protectorado” de Portugal sob a tutela das potências
europeias sem o mínimo sobressalto patriótico, como se se tratasse apenas de um
contratempo menor) e para Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, para
quem servir os credores de Portugal é a mais alta das honrarias, é difícil
imaginar o que seria ofender a dignidade dos portugueses, porque o conceito de
dignidade do povo português é algo extremamente vago, que se encontra
subalternizado em relação à vassalagem devida aos mais fortes e à admiração
devida aos mais ricos.
Outra razão por que o Governo
português e o seu ministro porta-voz receberam mal a afirmação de Juncker é
porque ele fechou, de facto, a porta à troika e disse que esta indignidade não
pode voltar a acontecer, mas, caso se apresentasse outra oportunidade, o
Governo em bloco gostaria de obedecer de novo às ordens da troika, mesmo sendo
ela arrogante, antidemocrática e ineficaz, porque sabe que isso agrada aos seus
maiorais.
3. Quando o Governo grego disse
que não negociaria com a troika e acabou por aceitar negociar com — além do
Eurogrupo — a Comissão Europeia, o FMI e o Banco Central Europeu, houve quem
tivesse falado de uma mera “questão de semântica”, já que estas três instituições
eram, de facto, a troika. Mas há uma diferença política fundamental. Há um
mundo de diferença entre ter ministros a negociar com Christine Lagarde, Mario
Draghi e Juncker ou ter os mesmos ministros a obedecer a três burocratas com
imenso poder, imensa arrogância, nenhuma legitimidade e nenhuma flexibilidade.
Para perceber como isto é diferente, basta ver as diferenças entre o discurso
dos dirigentes do FMI e a posição do funcionário do FMI na troika durante o
“programa” português. A Grécia conseguiu arredar a troika do panorama e, também
por isso, a vitória do Syriza é importante para a Europa.» – José Vítor
Malheiros, no Público.
«(...) O
governo grego não tem nem terá qualquer aliado entre os outros governos: o
centro está alinhado com Merkel, porque esse é o efeito de uniformização
política produzido pelas regras europeias, que só reconhecem os mercados
financeiros. Dos partidos socialistas não “vêm reforços”, só vem austeridade.
Mas, entretanto, o quadro institucional está a mudar radicalmente, porque o
governo alemão, o tirano silencioso, passou a conduzir as negociações e as
decisões. Numa palavra, sentou-se no trono. Dijsselbloem, em nome de Merkel e
sem vergonha nem hesitação, retirou na segunda feira uma proposta de acordo
negociada por Juncker e o presidente da Comissão Europeia desvaneceu-se. O
fechamento institucional da Europa acelerou-se com esta crise e não tem
remédio. (...)»
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