sábado, 28 de fevereiro de 2015
Da série "Pedro-espertismo", continuação
Era uma vez um Pedro
- era dos tais - que acusava os gregos do que ele próprio fazia. Acumulou milhares de euros de dívidas
à Segurança Social. Um dia, o jornal que lhe descobriu o calote confrontou-o com
esse seu passado escondido. E o Pedro-esperto,
aflito, lá foi à pressa pagar o que devia na vã esperança de não se ver grego com
as explicações que fica a dever ao país sobre mais este capítulo da sua honesta existência. Os detalhes desta história para crianças e a diferença entre
ser José António Cerejo e ser um qualquer Rodrigues dos Santos desta vida podem ser consultados aqui.
Gostei de ler: "Credibilidade e confiança"
“A nova Europa deverá, portanto,
constituir um todo: um agrupamento de países autónomos na sua governação e
administração, mas orientados por princípios gerais uniformes”, o que implica
“(a) o reconhecimento pelos diferentes Estados da solidariedade dos seus
interesses individuais; (b) uma certa uniformização na estrutura desses
Estados; (c) um acordo geral sobre os princípios e processos a adotar para alcançar
os fins que se têm em vista”. O texto é de 1941, mas podia ser de 2015. Quem
escrevia assim sobre os projetos de “comunidade europeia” (a terminologia era
mesmo essa) que a Alemanha de Hitler queria impor à Europa na II Guerra Mundial
era Tovar de Lemos, negociador económico do Ministério dos Negócios
Estrangeiros, um diplomata monárquico que Salazar mandara para Berlim depois de
se ter convencido (ocupação de França e dos Balcãs, isolamento da Grã-Bretanha,
conquista de metade da parte europeia da União Soviética) que a Alemanha
ganhara a guerra no continente.
Governando um país periférico
face ao conflito, as elites salazaristas (seguindo uma tradição que se mantém
até aos dias de hoje) não queriam perder um barco que os levaria, sem
participar na guerra, a
entrar na Nova Ordem Europeia que Berlim ia tecendo. O mais curioso é ver como os dirigentes de um regime abertamente nacionalista se punham em bicos de pés para, já então, se fazerem passar pelos melhores amigos do chefe da pandilha: um tecnocrata dos anos 40 como era Tovar garantia a Salazar: “Podemos desde já salientar que dificilmente se encontrará na Europa outro país que apresente em relação à Alemanha tamanha similitude de instituições, de princípios de governação e de ideologias políticas e sociais como o nosso. (…) Em parte alguma encontrará a Alemanha menor necessidade de uniformização que em Portugal.” (Relatório, 15/11/1941, reproduzido em Dez Anos de Política Externa, 1936-1947)
entrar na Nova Ordem Europeia que Berlim ia tecendo. O mais curioso é ver como os dirigentes de um regime abertamente nacionalista se punham em bicos de pés para, já então, se fazerem passar pelos melhores amigos do chefe da pandilha: um tecnocrata dos anos 40 como era Tovar garantia a Salazar: “Podemos desde já salientar que dificilmente se encontrará na Europa outro país que apresente em relação à Alemanha tamanha similitude de instituições, de princípios de governação e de ideologias políticas e sociais como o nosso. (…) Em parte alguma encontrará a Alemanha menor necessidade de uniformização que em Portugal.” (Relatório, 15/11/1941, reproduzido em Dez Anos de Política Externa, 1936-1947)
(...)
Já muito se disse sobre esta
especial vocação do Governo português (o de Passos não foi o primeiro, e não
será, infelizmente o último) para fazer o
papel de queixinhas do xerife Schäuble, até mesmo quando o seu vice Juncker
quis vir encenar um arrependimento dissimulado e lamentar-se da humilhação
infligida a portugueses e a gregos. Os intermediários nacionais da humilhação
sentiram-se, naturalmente, magoados... O que me parece significativa é essa
terrível pobreza da política europeia do Estado português, ou simplesmente de
toda a sua política externa.
País periférico do centro europeu da economia
mundial, e parceiro perfeitamente menor da estratégia norte-americana no mundo
(veja-se como andam desesperados os atlantistas militantes ao verificar como
Portugal aparece no item peanuts das prioridades de Washington), a única
estratégia que se percebe haver, de novo, na forma como se tem posicionado
Portugal na Europa e no mundo desde o fim do período revolucionário e a
descolonização é a permanente procura de colagem a quem manda no mundo, isto é,
aos EUA-polícia-global, por mais que a sua política crie cisões no próprio
Ocidente em que Lisboa enfileira; e ao diretório de turno na Europa, o que,
desde Maastricht, Tratado Orçamental e, sobretudo, o pacto com a troika, passou
a ser a Alemanha, mesmo quando esta nem se preocupa em esconder a sua opção por
uma UE organizada em círculos concêntricos, no mais central dos quais está
apenas ela e aqueles que sigam os estritos preceitos que lhe garantam uma
hegemonia económica e comercial que, desde a unificação, ela deixou de fingir
querer partilhar com os demais. Os governos portugueses (direita ou PS, é
indiferente) são, de resto, a par do britânico, do holandês, do dinamarquês e
dos da Europa pós-comunista (a nova Europa, como lhe chamava Rumsfeld, para a
distinguir de alemães e franceses que então mostravam, a propósito da invasão
do Iraque, alguma autonomia), dos que mais se empenham em compatibilizar o que
muitas vezes é incompatível: um atlantismo ortodoxo, que cala todas as críticas
a um aventureirismo bélico americano que se tornou permanente, e um europeísmo
que, sem nunca se assumir federalista, presume a cedência total a
Bruxelas/Berlim da soberania económica como a melhor forma de impor aos
portugueses um modelo que contradiz todos os esforços de democratização social,
contornando uma Constituição que, desta
Não há aqui nenhuma nostalgia das
ilusões salazaristas de manter uma certa autonomia à custa da guerra em África.
Nem a solução está em oferecer a base das Lajes aos chineses; há tanta
criatividade nessa proposta quanto há na venda das nossas empresas públicas a
chineses, franceses, angolanos... O horror que povoa os corredores do poder de
Lisboa face à reivindicação grega de autonomia e a vontade (até agora vã) de
construir uma frente das economias sobreexploradas pela dívida diz tudo de quão
pequena e tacanha é a política externa portuguesa.» - Manuel Loff, no Público.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Portugal não é a Grécia
Quando a sondagem que hoje dá um “empate
técnico” entre a coligação PSD/CDS e o PS foi elaborada, ainda não tinha estourado
a bomba. Mas agora, já depois do país ter ficado a saber que os líderes dos três
partidos do memorando estão de acordo que Portugal está muito melhor do que há quatro
anos, o “empate técnico” vendido pelo Expresso perde grande parte do que lhe restava
de sentido: não são 38 por cento de um lado e 38 por cento do outro, pode perfeitamente
ser uma soma de parcelas que corresponde a uma maioria qualificada se considerarmos
os três partidos do arco da austeridade ou uma confortável maioria absoluta se admitirmos
a possibilidade de PSD e PS chegarem a um acordo quanto a mandarem Paulo Portas
ir dar uma volta de submarino. Evidentemente, isto será apenas uma ideia maluca
enquanto a comunicação social do regime contornar o cenário cada vez mais provável
de uma reedição do Governo Nova Democracia-PASOK que destruiu o que restava destruir
na Grécia entroikada. Austeridade ou austeridade? A sondagem diz que os portugueses
continuam indecisos entre ambas.
Gostei de ler: "O bom aluno"
«Em 1992, numa entrevista a um
canal de televisão grego, o filósofo e psicanalista francês Félix Guattari
incitava os gregos a recusarem as regras que fazem da política europeia um
teatro de sombras semelhante ao que a lei edipiana faz na família: “A Grécia é
o mau aluno da Europa. É essa a sua qualidade. Felizmente que há maus alunos,
como a Grécia, que trazem a complexidade. Que trazem uma recusa de uma certa
normalização germano-francesa. Por isso, continuem a ser maus alunos e
continuaremos bons amigos.” Em Portugal, nessa altura, já estávamos a ser
ungidos pela metáfora do bom aluno e ainda hoje transportamos o brilho intenso
e o contentamento sem reserva que a metáfora irradia.
O que é, neste caso, um bom
aluno? O bom aluno caracteriza-se por um determinado comportamento, por um
programa de acção, mas é também aquele que interiorizou convictamente uma
moral, ao ponto de política e moral serem para ele a mesma coisa. A dívida,
como sabemos muito bem, segrega uma moral própria. Um breve exercício genealógico
ajuda a perceber porquê. Actualmente, já não é preciso ter lido a Genealogia da
Moral, de Nietzsche, para saber que o conceito moral de culpa remonta ao
conceito material de dívida, que, por isso, se diz, em alemão, exactamente com
a mesma palavra — Schuld.
A figura do “homem endividado”,
que o sociólogo italiano Maurizio Lazzarato definiu como o representante por
excelência da condição neoliberal, é afinal a figura típica de uma economia da
salvação, como nos lembrou Walter Benjamin num célebre fragmento de 1921 sobre
O Capitalismo como Religião, onde define o capitalismo como uma religião sem
dogma, caracterizada pela celebração de um culto sem tréguas, para o qual não
existem dias feriados. “Este culto”, diz Benjamin, “é gerador de culpa” (ou de
dívida, já que a palavra verschuldendsignifica as duas coisas). E acrescenta:
“O capitalismo, com toda a probabilidade, é o primeiro caso de um culto que não
redime o pecado, mas gera culpa” (isto é, dívida). Uma culpa que não pode ser
expiada — e essa é a condição paradoxal da religião capitalista — mas tornada
universal.
O bom aluno é aquele que
interiorizou plenamente a moral da culpa e sabe que deve comportar-se como um
ser em débito. Haverá algum momento em que a culpa vai ser expiada, isto é, em
que o débito vai ser saldado? Evidentemente que não. Por isso é que se criou a
figura da “dívida eterna” ou infinita. Por ela, o homem endividado interiorizou
para sempre a dívida e é isso — e não que a pague de uma vez por todas — que o
credor lhe exige. Comentando Nietzsche, escreveu Deleuze: “A dívida torna-se a
relação de um devedor que nunca acabará de pagar e de um credor que nunca
acabará de esgotar os interesses da dívida.” O infinito que o cristianismo
introduziu na religião, reinventa-o o capitalismo ao nível económico, num plano
imanente.
Para se tornar um bom aluno, como
lhe é exigido para continuar a dar-lhe crédito, a Grécia não precisa de pagar a
sua dívida — que é infinita e eterna. Tem é de dar como garantia do fictício e
sempre diferido reembolso um conjunto de virtudes sociais e políticas que são a
carne e o sangue da moralidade a que está obrigada. Tem de sujeitar-se
eternamente ao performativo da promessa. Não é que as promessas paguem dívidas,
mas são um reconhecimentos e uma ritualização da culpa. Em suma: é preciso que
o modo de existência da Grécia, o seu ethos, seja determinado pela culpa que
todos os bons alunos interiorizaram e que os faz arrastarem-se, de ombros
descaídos e olhar baixo, sempre que está por perto um supremo credor.» – António
Guerreiro, no Público.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Da longa série "sucessos/melhorias"
Por serem sistemáticas as desconformidades
na urgência, sendo frequente existir um só elemento escalado para o Atendimento
Geral durante o dia e a noite, porque as condições de trabalho se têm vindo a
degradar desde Novembro pondo em risco a segurança dos doentes, tal como o
fizeram os do Garcia de Horta e do Amadora-Sintra, Os chefes de equipa do
serviço de urgência do Hospital do Litoral Alentejano também se demitiram em
bloco esta quinta-feira. Isto é capaz de
ser ou o sucesso do "ajustamento" português que enche de orgulho a
Ministra das Finanças e o seu patrão alemão, ou as melhorias registadas no país
conseguidas com a preciosa contribuição dos chineses que fizeram o favor de nos
ficar com os 3 milhões de lucros diários da EDP, que o grande estadista António
Costa teve oportunidade de agradecer em nosso nome. Mas também pode ser o tal
pecado cometido contra a nossa dignidade que começou com o memorando que o arco
destes senhores aceitou assinar de cruz em 2011 e que se depender deles – estão
de acordo que o país está cada vez melhor – se prolongará pelas próximas duas décadas,
não sei. As sondagens vão-lhes dando toda a razão para se manterem fieis ao que
sempre foram.
Gostei de ler: "Portugal, 2015"
«Portugal em 2015 está um país
muito esquisito, amorfo e ao mesmo tempo zangado; cansado e ao mesmo tempo
agitado, cheio de "criadores culturais" e ao mesmo tempo ignorante
como nunca; egoísta, mas incomodado pelo seu egoísmo, com má consciência. (...)
Olhe-se em volta. Nos cinemas dos
centros comerciais (não há outros), a parte da Humanidade que é do sexo
feminino faz fila para comprar bilhetes para ver um vago filme erótico, com
chicotes e algemas, mas onde tudo é bonito, milionário, com gosto e controlado,
asséptico. Parece que o sadomasoquismo chique está na moda entre as mulheres.
Na verdade, não é uma grande novidade, mas presumo que os homens se interrogam
sobre o que é que não tinham percebido nas suas mulheres, companheiras,
namoradas, amantes e seja lá o que for. Vão continuar sem saber nada.
A crise grega entra nas redes
sociais por via da roupa do ministro Varoufakis. Discute-se o blusão de couro,
o cachecol, as camisas de fora ou de dentro. Não admira. Muita da nossa inteligência
feminina, metrossexual e gay gosta muito de discutir roupas e ocasionalmente
gatinhos. Sendo assim, não admira que tenham passado dos sapatos Prada, dos
fatos Armani e Boss do nosso ex-primeiro-ministro caído em desgraça, para a
discussão contínua das gravatas e terminar na mais imbecil crítica feita alguma
vez a Passos Coelho, a dos fatos suburbanos de segunda. Essa gente não se
enxerga mesmo. É isto segredo para alguém, indiscrição, boato, ou má língua?
Não, não é. É o conteúdo habitual desse ruído moderno do Twitter e do Facebook,
feito por gente que diz abominar a Caras e a Lux e faz muito pior.
O que tem mais graça, aliás o que
é mais ridículo, é que esta gente que discute roupas, restaurantes e outros
ademanes da cultura urbana, que fazem a Time Out ganhar a sua vida
(honestamente), é toda muito de esquerda, muito de causa dos costumes, muito do
social, muito modernaça. Seja dito, no entanto, que há também uma fauna de
direita, muito "ajustadora", que é exactamente igual. Aliás dão-se
bem e exercem activamente a boa prática do fishing for compliments, ajudando-se
uns aos outros na luta pela vida. (...)
Em política, Pavlov reina como
mestre de cãezinhos. É tudo tão previsível, tão fácil de identificar, tão
rudimentar, tão… pavloviano. Grite-se Sócrates, Costa, Boaventura, Syriza,
Bagão, Louçã, Manuela, eu próprio, os gregos, Varoufakis e logo uma pequena
multidão começa a salivar nas redes sociais, nos blogues, nos
"porta-vozes" oficiais e oficiosos do PSD e do CDS. Muita desta raiva
vem do desespero. Os melhores dias já estão no passado e as perspectivas são
sombrias. (...)
Enganam-se se pensam que são os
esquerdismos do programa do Syriza que mobilizam as simpatias. É por isso que
há pouca gente nas manifestações, porque elas são miméticas desse esquerdismo.
Mas o que faz as sondagens maioritárias pró-gregos, a "maioria
silenciosa", é a afirmação nacional, a independência, a soberania, a honra
perdida das nações resgatada por um povo. É uma gigantesca bofetada nos
patriotas de boca e empáfia que aceitaram tudo, assinaram tudo, geriram o
"protectorado" com zelo e colaboração, e terminam o seu tempo útil
servindo para fazer o sale boulot alemão.» – Pacheco Pereira, na Sábado.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Tanta barulheira e afinal....
"Como nós dizemos em
Portugal, os amigos são para as ocasiões. E numa ocasião difícil para o País,
em que muitos não acreditaram que o país tinha condições para enfrentar e
vencer a crise, a verdade é que os chineses, os investidores disseram presente,
vieram e deram um grande contributo para que Portugal pudesse estar hoje na
situação em que está, bastante diferente daquela que estava há quatro anos
atrás.” Quem disse isto não foi nem Pedro Passos Coelho, nem Paulo Portas, nem nenhuma
figura do PSD ou do CDS. Foi António
Costa. O PS entrou assim no ano da cabra. Foi você que pediu um Governo do arco
do memorando/troika/austeridade?
Vagamente
relacionado (tema austeridade selectiva): Afinal, a isenção de taxas e compensações
urbanísticas que a Câmara de Lisboa propôs à Assembleia Municipal que fosse
concedida ao Benfica não é de 1,8 milhões de euros, mas sim de 4,6 milhões de
euros. O número foi avançado pela Presidente da Assembleia Municipal, Helena Roseta.
Série "poupanças" - continuação das continuações anteriores
Com contas de merceeiro em fundo,
por estes dias tem-se falado em chumbos e em vacinas. Apesar de
reconhecer a sua eficácia na protecção de bebés e crianças contra alguns tipos
de infecções graves como a meningite, a pneumonia e a septicémia e de admitir que
a vacinação dos mais jovens reduziria o número de pneumonias nos mais idosos,
uma das principais causas de morte, o Ministério da Saúde anda há anos a
protelar – eles chamam-lhe “estudar”
– a inclusão de uma vacina no plano nacional de vacinação, uma medida que, sem
regatear preços com a farmacêutica respectiva, custaria anualmente nem 20 milhões
de euros. No sector da Educação, David Justino concluiu aturados estudos sobre a
problemática dos chumbos e entre as suas conclusões vem a proposta de acabar
com as retenções para “poupar” 600
milhões de euros. De repente, as nossas vidas tornaram-se contas. Contas
muito mal feitas. Poupar por poupar, poupar-se-ia bastante mais acabando de vez
com o sistema de ensino e com o plano nacional de vacinação. Mas poupar por
poupar fica muito caro. Tardará menos do que o espaço temporal de uma geração
para chegar a conta da falta de quadros gerada pelo desmantelamento em curso da
Escola pública. Já vai chegando todos os anos a conta dos internamentos causados
pelas “poupanças” na prevenção que os evitaria. E as mortes também não entram nestas
contas feitas ao ano sem contabilizarem custos de longo prazo e igualando a zero
todas as parcelas relativas a sofrimento humano. A Alemanha exige determinado quociente
anual, os capatazes cá do sítio põem o país inteiro a sangrar para se aproximarem
desse valor. Depois, em data com vantagens recíprocas, aparece a Ministra a receber
elogios do patrão alemão no telejornal. Eles sabem que haverá sempre quem fique
muito bem impressionado e aplauda o elogio da destruição do seu país. E que o resto
desta conta se poupa nas reacções e insiste em não contar para nada. Seja feita
a sua vontade. Não há porque fazer-lhes caso.
Sobre a dimensão do “caso de sucesso”
português: "Em Portugal, apesar dos progressos consideráveis na
implementação do programa de ajustamento, permanecem riscos importantes, como o
elevado nível de dívida e de desemprego, o que nos leva a colocar o país na
categoria de desequilíbrios excessivos, que requerem acções decisivas e
vigilância permanente", anunciou hoje o comissário europeu para a Economia,
Pierre
Moscovici. Isto ainda mal começou.
Gostei de ler: "Post Interdito A Pessoas Politicamente Correctas E Crianças Em Geral"
«Estou A Precisar De Uma
Recomendação De Especialistas… ou relatores ou conselheiros,
parentais ou outros, acerca de um aluno meu do 5º ano.
Penso ser uma coisa na área da
Saúde e a mim carecem os conhecimentos e sobram desconhecimentos.
É que ele boceja imenso nas
aulas, muito ruidosamente, assim de forma escancarada e a seguir aos lanches da
manhã arrota sonoramente, benzódeus e alá (não discriminemos), o que me dizem
ser contra as regras da cortesia social e desperta muita gargalhada no resto
dos colegas.

Eu, como sabem, tenho um trauma
por ser fascista e um professor muito retrógrado como disse aquele político que
era bloquista e agora vai avançando para o ps, pelo que receio excluí-lo (ao
aluno) e contribuir para uma cultura punitiva arcaica.
Diz-me @ DT que de casa dizem que
não sabem já o que fazer, que ele em casa não é assim e que a vida e coiso está
difícil e sai-se cedo e chega-se tarde quando se consegue ter emprego.
De cadernos tenho notícia
ocasional e de colaboração na aula ficámos falados lá acima, com o acréscimo da
frase mais comum “o que é que eu fiz desta vez?”
Já o tentei sensibilizar de
diversas formas, mas se o mantenho na sala tenho queixas de parte dos alunos
que dizem que ele os distrai e se o mando sair tenho quem me diga que não sei
controlar a sala de aula.
Eu sei que os especialistas,
relatores, conselheiros unânimes e demais gente que sabe disto, me dirá que
isto são casos particulares e que eu devo desenvolver as minhas skills de forma
a motivar para as aprendizagens, que o problema é meu e que se, de algum modo,
limitar a liberdade do aluno lhe pode provocar danos na auto-estima e problemas emocionais gerais e específicos
de diversa ordem.
Que isto é tudo casuístico e que
eu tenho sempre uma miopia terrível em relação ao grande cenário do custo por
aluno e da ausência de provas sobre os ganhos é um dado adquirido.
Os sampaios dirão que eu estou a
falhar na comunicação e os sebastiões que eu estou a promover a tal exclusão e
que os alunos que se queixam estão a vitimizar-se sem necessidade. E que eu sou
limitado e deveria dar lugar a gente nova, com capacidade para levar com meia
dúzia de arrotos e nem pestanejar.
Não vos queria dizer ou chocar
mas isto, numa daily basis, é uma grande bosta.
E olhem, eu até critiquei aquela
doutora muito professora por traçar um quadro apocalíptico das salas de aula.
Isto é mais uma moínha.
Aguardo a recomendação… não é
preciso ser no trebuchet oficial.
Podem mandar em vídeo.» – Paulo Guinote,
no A
Educação do meu umbigo.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Jogar com o tempo
Como "primeiro passo", ponto
de partida dependente de uma "avaliação positiva" posterior do
"programa", o Eurogrupo acaba
de aprovar à condição a
lista de reformas que lhe foi apresentada pelo Governo grego. Ou seja, não foi
uma aprovação incondicional, mas também não foi a rejeição liminar pretendida por alemães e
alemãezinhos, leia-se, Portugal e Espanha. O Eurogrupo acusa os efeitos da ofensiva
mediática desenvolvida pelo Governo grego junto das opiniões públicas europeias
e, sem margem política para assumir uma rejeição imediata das propostas gregas,
decidiu jogar com o tempo e apostar numa guerra de desgaste em duas frentes, a
das "reformas estruturais" – a agenda de reconfiguração social de
concentração de riqueza que destruiu a Grécia – que continua a exigir por um
lado e a da erosão da base eleitoral do Governo grego, por outro. A corda ainda
não partiu, mas pode partir a qualquer momento. O lado alemão irá tentar fazê-la partir no
momento mais apropriado para evitar que o efeito Syriza alastre pela Europa em ano
de eleições em Espanha e em Portugal. O lado até agora totalmente ganhador sabe que tem
tudo a perder. Oxalá o lado até agora totalmente perdedor, o dos cidadãos europeus, perceba que só tem a ganhar em cerrar
fileiras e fazê-los cair. Os gregos já começaram a ganhar. E note-se que apenas ganharam. Não perderam rigorosamente nada.
Coxa que te quero coxa
O clássico. Os Uns dirão que a culpa
é dos outros, os outros que a culpa é dos uns. E terão todos razão, a responsabilidade
à qual tanto gostam de referir-se usando a palavra “culpa” é de todos os que passaram
pelo Governo, ou melhor, de todos menos daquela inimputável senhora que diz que
a impunidade acabou. Uma inspecção realizada
há mais de um ano e apenas agora revelada ao Departamento Central de
Investigação e Acção Penal (DCIAP), a unidade do Ministério Público
especializada na investigação da criminalidade complexa e organizada, revelou
uma profunda
desorganização no funcionamento daquela estrutura entre 2009 e 2013, polícias
recrutados por amizade, gastos avultados, uma distribuição dos inquéritos sem
qualquer critério e atrasos que chegam aos 10 anos na tramitação dos processos
de prevenção de branqueamento de capitais. Como se constata mais uma vez, o
romance entre a impunidade e a corrupção não é obra do acaso, é herança de um centrão nada interessado em ter mais do que uma Justiça coxa a correr atrás de si.Gostei de ler: "Dignidade, aquele conceito que o Governo não entende"
«1. “Pecámos contra a dignidade
dos povos, nomeadamente na Grécia e em Portugal e muitas vezes na Irlanda”. As
declarações do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, proferidas
a propósito da actuação da troika, perante os representantes dos Estados-membros
e transmitidas pelos órgãos de comunicação social, constituem um mea culpa
formal e em termos raramente ouvidos da boca de um político.
Juncker considerou que a troika
era um órgão sem legitimidade democrática e que a Comissão Europeia agiu de
forma errada ao dar-lhe carta branca para impor políticas de austeridade aos
Estados-membros e ao “confiar cegamente” nela. Juncker considerou que, no
domínio da assistência financeira aos estados, “tudo deve ser revisto” e
admitiu mesmo que parecia “estúpido” ao dizer isto agora, ele que foi
presidente do Eurogrupo, mas que é necessário “aprender com as lições do
passado e não repetir os mesmos erros”. Mas Juncker não disse apenas que a
troika foi ineficaz. Ao usar a expressão que usou, o presidente da Comissão
introduziu um julgamento moral que não pode deixar de ser pesado. Para Juncker,
a acção da troika não foi apenas tecnicamente errada. Ela foi também
politicamente contraproducente e moralmente inaceitável.
É impossível não concordar com o
político luxemburguês quando diz que faz figura de parvo ao admitir agora isto,
enquanto se calou antes, mas é evidente que Juncker, que de estúpido terá pouco,
o diz hoje porque o pode dizer sem grandes custos e não o podia dizer antes sem
arriscar a cabeça.
O que faz com que Juncker tenha
ganho este espaço de manobra não é apenas o facto de ser hoje presidente da
Comissão Europeia, mas o facto de a posição do novo Governo grego ter obrigado
as instituições europeias, os governos europeus, as instituições financeiras,
os analistas, os media e a opinião pública a uma reavaliação do papel e da
legitimidade da troika que dificilmente poderia ter outro resultado.
Se não houvesse outra razão, esta
seria já uma boa razão para nos congratularmos com a eleição do Syriza na
Grécia.
2. As declarações de Juncker são
raras num político, mas não são a história toda. E a história toda poderia
fazer deste episódio um case study nos cursos de relações internacionais, se
Passos Coelho e o seu Governo tivessem relevância política ou intelectual para
ficarem na história.
A história completa-se com a
reacção do Governo português às declarações de Juncker, pela boca de Marques Guedes,
ministro da Presidência do Conselho de Ministros e dos Assuntos Parlamentares,
que considerou as declarações do presidente da Comissão Europeia “infelizes” e
garantiu que a dignidade de Portugal “nunca foi beliscada” pela troika.
Como se pode entender que, por um
lado, a Comissão Europeia diga que ofendeu a dignidade dos portugueses, que se
penitencie pelo facto e que afirme que isso não pode voltar a acontecer, e que,
por outro lado, o Governo português responda que não senhor, que a dignidade
dos portugueses não foi ofendida, que não há razão para penitências nem para
falar de indignidade?
A explicação é chocante, mas
simples: acontece que Jean-Claude Juncker é mais exigente na defesa da
dignidade dos portugueses do que o Governo português.
Para Paulo Portas (que instituiu
oficialmente o regime de “protectorado” de Portugal sob a tutela das potências
europeias sem o mínimo sobressalto patriótico, como se se tratasse apenas de um
contratempo menor) e para Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, para
quem servir os credores de Portugal é a mais alta das honrarias, é difícil
imaginar o que seria ofender a dignidade dos portugueses, porque o conceito de
dignidade do povo português é algo extremamente vago, que se encontra
subalternizado em relação à vassalagem devida aos mais fortes e à admiração
devida aos mais ricos.
Outra razão por que o Governo
português e o seu ministro porta-voz receberam mal a afirmação de Juncker é
porque ele fechou, de facto, a porta à troika e disse que esta indignidade não
pode voltar a acontecer, mas, caso se apresentasse outra oportunidade, o
Governo em bloco gostaria de obedecer de novo às ordens da troika, mesmo sendo
ela arrogante, antidemocrática e ineficaz, porque sabe que isso agrada aos seus
maiorais.
3. Quando o Governo grego disse
que não negociaria com a troika e acabou por aceitar negociar com — além do
Eurogrupo — a Comissão Europeia, o FMI e o Banco Central Europeu, houve quem
tivesse falado de uma mera “questão de semântica”, já que estas três instituições
eram, de facto, a troika. Mas há uma diferença política fundamental. Há um
mundo de diferença entre ter ministros a negociar com Christine Lagarde, Mario
Draghi e Juncker ou ter os mesmos ministros a obedecer a três burocratas com
imenso poder, imensa arrogância, nenhuma legitimidade e nenhuma flexibilidade.
Para perceber como isto é diferente, basta ver as diferenças entre o discurso
dos dirigentes do FMI e a posição do funcionário do FMI na troika durante o
“programa” português. A Grécia conseguiu arredar a troika do panorama e, também
por isso, a vitória do Syriza é importante para a Europa.» – José Vítor
Malheiros, no Público.
«(...) O
governo grego não tem nem terá qualquer aliado entre os outros governos: o
centro está alinhado com Merkel, porque esse é o efeito de uniformização
política produzido pelas regras europeias, que só reconhecem os mercados
financeiros. Dos partidos socialistas não “vêm reforços”, só vem austeridade.
Mas, entretanto, o quadro institucional está a mudar radicalmente, porque o
governo alemão, o tirano silencioso, passou a conduzir as negociações e as
decisões. Numa palavra, sentou-se no trono. Dijsselbloem, em nome de Merkel e
sem vergonha nem hesitação, retirou na segunda feira uma proposta de acordo
negociada por Juncker e o presidente da Comissão Europeia desvaneceu-se. O
fechamento institucional da Europa acelerou-se com esta crise e não tem
remédio. (...)»
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Sobre salário mínimo
De entre as intenções do novo
Governo grego, porventura aquela que mais reacções despertou no meu pequeno
mundo de relacionamentos foi a restauração do seu valor para aquele que
vigorava antes da ocupação externa. A maioria refere-se-lhe nos mesmos termos em
que o faz a comunicação social, chama-lhe “subida”, e reproduz a tese dos
“especialistas” da imprensa económica que vaticinam que a economia grega não
resistirá à devolução desta parcela de dignidade que, a mando da troika, os
Governos anteriores roubaram aos gregos, quando o que objectivamente se
verifica é que a economia grega não resistiu ao roubo, encolhendo-se para três
quartos da riqueza que produzia anualmente antes da “ajuda”e fazendo o
desemprego disparar para mais do dobro. Sem dúvida alguma, os “especialistas”
têm feito um excelente trabalho, tanto mais que por cá os efeitos devastadores da
contínua desvalorização salarial, tornada política oficial em Portugal depois
da adesão ao euro, se notam por toda a parte com cada vez mais intensidade numa
crise à prova de “especialistas” que entrou no nosso quotidiano vai para quinze
anos. Vem no I de hoje: “desde
1999, ano do nascimento do euro, até este ano, Portugal foi o quarto país que
menos aumentou o salário mínimo no conjunto de 21 países da União Europeia”.
A actualização do salário mínimo para mínimos de decência não é mera questão de
justiça social, é também e sobretudo um imperativo de racionalidade económica.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Gostei de ler: "As trombetas do poder"
«O "jornalismo" económico em
Portugal caracteriza-se por não ser jornalismo. Há alguns jornalistas
económicos que não merecem aspas? Há sem dúvidas, mas são a excepção da
excepção. E eles são os primeiros a saber que o são e como são verdadeiras as
afirmações que aqui faço. Até porque fazer jornalismo na imprensa económica é
das coisas mais difíceis nos dias de hoje. Fica-se sem "fontes", sem
a simpatia dos donos e dos anunciantes e pode-se ficar sem emprego.
A maioria que escreve na imprensa
"económica" fá-lo entre páginas e páginas feitas por agências de
comunicação, artigos enviados por auditoras e escritórios de advogados, fugas
"positivas" de membros do Governo. Quase tudo é pago nessa imprensa,
mas esse pagamento não é o salário normal do jornalismo, mas o seu "modelo
de negócio", "vender comunicação" como se fosse jornalismo. É
pago por empresas, associações de interesse, agências de comunicação e
marketing, por sua vez empregues por quem tem muito dinheiro para as pagar.
O público é servido por
"informação" que não é informação, mas publicidade e comunicação
profissionalizada de agências, dos prémios de "excelência" disto e
daquilo, destinados a adornar a publicidade empresarial, páginas encomendadas por
diferentes associações, grupos de interesse e lóbis, nem sempre claramente
identificados,anuário sem que só se pode estar se se pagar, organização de
eventos que parecem colóquios ou debates, mas não são.
Um cidadão que não conheça estes
meandros pensa que o prémio é competitivo e dado por um júri isento, que as
páginas especializadas são feitas pelos jornalistas e que quem é objecto de
notícia é-o pelo seu mérito e não porque uma agência de comunicação
"colocou" lá a notícia, que um anuário é suposto ter todos os
profissionais ou as empresas de um sector e não apenas as que pagam para lá
estar, e que um debate é para ser a sério, ter contraditório e exprimir
opiniões não para a propaganda governamental ou empresarial. O acesso ao pódio
nesses debates é cuidadosamente escolhido para não haver surpresas, e os
participantes pagam caro para serem vistos onde se tem de ser visto, num
exercício de frotteurisme da família das
filias.
As trombetas do poder (2)
Um dos usos que o poder faz deste tipo
de imprensa é a "fuga" punitiva. Dito de outro modo, se o Governo
tiver um problema com os médicos, ou com os professores, ou com os magistrados,
ou com os militares, aparece sempre um relatório, ou uma "informação"
de que os médicos não trabalham e ganham muito, que os professores são a mais e
não sabem nada, que os magistrados são comodistas, e atrasam os processos por
negligência, e que os militares são um sorvedouro de dinheiro e gostam de
gadgets caros. E há sempre um barbeiro gratuito para o pessoal da Carris, ou
uma mulher de trabalhador do Metro que viaja de graça, em vésperas de uma
greve.
As trombetas do poder (3)
A luta contra a corrupção, seja
governamental, seja empresarial, a denúncia de "más práticas", os
excessos salariais de administradores e gestores, a transumância entre
entidades reguladoras e advocacia ligada à regulação, entre profissionais de
auditoras e bancos que auditavam e vice-versa, o embuste de tantos lugares
regiamente pagos para "controlar", "supervisionar",
verificar a "governance" ou a "compliance", para
"comissões de remunerações", a miríade de lugares para gente de
estrita confiança do poder, que depois se verifica que não controlam coisa
nenhuma, nada disto tem um papel central na imprensa económica.
A maioria dos grandes escândalos
envolvendo o poder económico foram denunciados pela imprensa generalista e não
pela imprensa económica, que é suposto conhecer os meandros dos negócios. A sua
dependência dos grandes anunciadores em publicidade, as empresas do PSI-20 por
exemplo, faz com que não haja por regra verdadeiro escrutínio do que se passa.
As trombetas do poder (4)
Esta imprensa auto-intitula-se
"económica", mas verifica-se que reduz a "economia" às
empresas e muitas vezes as empresas aos empresários e gestores mais conhecidos.
Os trabalhadores, ou "colaboradores", é como se não existissem.
Um exemplo típico é Zeinal Bava, cuja
imagem foi cultivada com todo o cuidado pela imprensa económica Agora que Bava
caiu do seu pedestal, como devemos interpretar as loas, os prémios,
doutoramentos honoris causa, "gestor do ano", etc., etc.? A questão
coloca-se porque muita da análise aos seus comportamentos como quadro máximo da
PT é feita para um passado próximo, em que teriam sido cometidos os erros mais
graves. Onde estava a imprensa económica? A louvar Zeinal Bava, como Ricardo
Salgado, como Granadeiro, como Jardim Gonçalves, como… Até ao dia em que caíram
e aí vai pedrada. (...)» – Pacheco Pereira, na Sábado.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
Este camarada
Como sabemos, manifestar simpatia
é muito diferente de apoiar. Manifestar simpatia não compromete ninguém. Um bom
exemplo de alguém que nunca se compromete com nada e vai tentando tirar partido
de eventuais confusões entre as suas manifestações ocasionais de simpatia pelo
Governo grego e o apoio que nunca lhe expressou publicamente é António Costa. Não
perdeu tempo em fazê-lo novamente no comentário que fez à reunião do Eurogrupo
de ontem: “qualquer português fica perplexo quando vê as noticias no final do
Eurogrupo e percebe que o Governo português, em vez de querer que os
portugueses e a economia portuguesa beneficiem da flexibilidade da austeridade,
quer aumentar a agonia da austeridade dos outros”, disse à saída de uma conferência
de líderes socialistas europeus em Madrid. Se toda a razão que tem no que
diz relativamente ao Governo português ninguém lha tira, o local que escolheu
para dizê-lo não poderia ser melhor para ilustrar como a diferença atrás citada vai povoando as
intervenções de um Costa que apenas quer parecer e não ser diferente daqueles
que critica: por que razão não estendeu a crítica aos seus camaradas, por
exemplo, Hollande e Renzi? Seja lá o que tenha conquistado ontem, a Grécia nada
lhes deve. A França e a Itália, aliás como todos os demais países governados
por "socialistas",encolheram-se ao lado da grande Alemanha e ajudaram-na
no seu propósito de prolongar ao máximo a agonia da austeridade que, tanto como
os países governados por liberais e conservadores, impuseram à Grécia em capítulos
anteriores deste naufrágio europeu. À Costa.
Ontem negociou-se
Um acordo de princípio à
condição, que ainda não se sabe se irá durar apenas três dias, o pior dos
cenários, ou se quatro meses, o melhor. Tudo é melhor do que nada, pelo que ser
melhor do que nada nunca será vitória para ninguém. Mas no saldo provisório da
reunião do Eurogrupo de ontem há a registar um enorme recuo da intransigência
tentada pela Alemanha ao longo de toda a semana, que a tradicional subserviência
dos restantes países nunca conseguiu contrariar, e a primeira vez em muitos anos em
que se discutiram políticas, afinal havia alternativas, e que umas eleições
conseguiram dar voz aos eleitores nas instâncias europeias, há muito tempo que a
vontade das pessoas não se conseguia fazer ouvir ali, onde os seus destinos são
decididos por uma gente que não as considera mais do que centros de custos e de
proveitos. E nada disto é pouco. Será esta voz que o Governo grego irá verter
nas propostas que apresentará na próxima Segunda-feira, de igual para igual,
não de membro convidado para membros de pleno direito, pelo que teremos que
aguardar até lá para fazer o balanço final do quanto conseguirá avançar, e note-se
bem que serão sempre avanços, o recuo será sempre relativamente à sua intenção
inicial de avançar mais rapidamente. Empresa difícil.
Ficámos a saber como decorrem
estas reuniões quando há uma voz dissonante. São 18 contra 1, a Comissão
Europeia eclipsa-se, a Alemanha senta-se numa sala, a voz noutra, nada de confianças
de todos sentados à mesma mesa, o diálogo faz-se através de documentos que
circulam pelo corredor carregados por estafetas, os restantes estados ou são
tão alemães como a Alemanha ou esforçam-se por sê-lo ainda mais, como fizeram
Portugal e Espanha, que apostaram tudo em impedir um acordo final apesar de
serem precisamente aqueles cujo interesse nacional mais coincide com o grego.
Uma conduta tão miserável ao ponto de Janis Varoufakis invocar as "boas
maneiras" para não comentar as
posições defendidas por Maria Luís Albuquerque. A nossa vergonha tudo fez
para vergar a dignidade grega. Fracassou, como inexistência que nem mesmo ajoelhando-se
consegue deixar de ser. Ontem negociou-se. E mais uma vez foi o Governo grego que representou o interesse nacional de Portugal.
O
primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, disse este sábado numa declaração
televisiva que o acordo de ontem com o Eurogrupo “deixa para trás a
austeridade, o memorando, a troika”, mas que as “dificuldades reais” estão para
chegar. “O acordo de ontem com o Eurogrupo… cancela os compromissos dos
governos anteriores para cortes nos salários e nas pensões, para despedimentos
no sector público, para subidas do IVA na alimentação , na saúde”. “Ganhámos
uma batalha mas não a guerra". “Evitámos a asfixia da Grécia”, “mas o pior
vem agora". “Com o decisivo apoio do povo grego".
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Gostei de ler: "O euro em fase terminal"
«Quando participei no primeiro
debate televisivo realizado em Portugal sobre o euro ("Prós e
Contras", 15 Abril 2013), afirmei que a moeda única iria acabar. Da mesma
forma que a Inglaterra de 1931 não aguentou a política de austeridade imposta por
um sistema monetário que excluía a desvalorização da moeda - no padrão-ouro, o
reequilíbrio externo teria de ser alcançado por redução dos salários, a chamada
"desvalorização interna" -, também nos nossos dias, um dos países
sujeitos à política cruel imposta pela UE acabará por sair. O primeiro será a
Grécia, os outros vão a seguir, ao ritmo do respectivo ciclo político.
Entretanto, o discurso do medo
voltará às televisões. Dir-nos-ão que sair do euro é uma calamidade porque
perderemos metade do poder de compra, que os bancos vão falir e perderemos as
nossas poupanças, que o Estado não pagará aos funcionários públicos e pensionistas,
que seremos excluídos dos mercados para todo o sempre e, argumento último de
quem está inseguro, que a Alemanha nos invadirá para restabelecer a ordem. Do
serviço público de televisão, gerido por comissários políticos, não se pode
esperar uma informação isenta e fundamentada. Não haverá recolha de depoimentos
de especialistas estrangeiros que ponham em causa o pensamento dominante, não
haverá debate honesto com uma participação plural que ultrapasse o discurso
partidário rotineiro. Dos canais privados também não podemos esperar que
cumpram as exigências básicas de pluralismo, nem que as autoridades competentes
o exijam. O que temos visto fala por si. Aliás, os analistas que ocupam o palco
estão no bolso dos grupos económicos e da finança. Um governo de salvação
nacional também terá de resgatar a comunicação social e pô-la ao serviço do
interesse público.
Recordemos então algumas ideias
simples que os portugueses não têm direito a debater nos media de grande
audiência. Quando Portugal sair do euro, todos os contratos realizados sob
jurisdição nacional ficam automaticamente redenominados em novos escudos,
segundo a jurisprudência internacional ( lex moneta , 1 escudo = 1 euro).
Assim, todos os empréstimos bancários, depósitos, salários, pensões, preços nas
lojas, etc., passam a escudos e, a partir desse dia, o Estado apenas paga e
recebe em escudos. O
Estado fica sem problemas de liquidez porque os seus défices
- necessários para estimular a economia - ficam cobertos por financiamento
interno, quer do sector privado, que procura obrigações do Tesouro para
aplicações seguras, quer do Banco de Portugal, a entidade pública que emite
moeda. Portanto, sair do euro significa a libertação do país dos humores dos
mercados financeiros. Quanto às necessidades de financiamento em outras moedas,
os últimos dias mostraram--nos que os EUA estão dispostos a ajudar para evitar
o recurso aos seus rivais. Note-se que os BRIC têm agora um banco que é
alternativa ao FMI.
Um governo de ruptura deve, à
cabeça, nacionalizar os bancos e instituir o controlo dos movimentos de
capitais. Seria vantajoso comprá-los em bolsa, à cotação do momento, e proceder
à sua recapitalização, tudo com emissão monetária. A inflação será o custo a
pagar para recuperarmos a soberania. Mas será um custo transitório
(inicialmente, cerca de 12%, muito menos nos dois anos seguintes) que pode ser
distribuído com justiça social através de compensações a atribuir aos
rendimentos mais baixos. A classe média/alta, vendo os seus desempregados
recuperarem a dignidade de voltar a trabalhar em condições decentes, aceitará
de bom grado alguma perda temporária de poder de compra. Como seria de esperar,
o novo paradigma da política económica dará prioridade ao emprego, ao contrário
da finança, que diaboliza a inflação e acha inevitável este desemprego típico
dos anos trinta do século passado.
À medida que se forem abrindo
espaços de debate público informado sobre o que significa sair do euro, os
portugueses ficarão cada vez mais receptivos à proposta de uma Europa de países
soberanos. Por muito que custe aos federalistas, não creio que os portugueses
queiram viver num protectorado sujeito a diktats.» – Jorge Bateira, no I.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Aldrapolitik, versão Galamba
Eles agora é como se não tivessem
também assinado o memorando, aceitado o Tratado Orçamental, rejeitado a renegociação
da dívida, aprovado o Tratado de Lisboa sem consulta popular, entre outras façanhas.
O socialista João
Galamba desafiou o primeiro-ministro a “explicar o que pensa" sobre as
declarações do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, sobre o
tratamento indigno aos países da periferia do euro, tendo em conta que o apoiou
para presidir à Comissão. Eles agora é como se também não tivessem votado no mesmo
Juncker, ao lado de PSD, CDS e dos Marinhos desta vida. Gosto muito de os ouvir
falar. Tens cá uma escola, ó Galamba!
Da mesma escola:
"O que disse o presidente Juncker é a pedra que faltava para encerrar definitivamente
este ciclo político." Foi assim que o líder do PS, António Costa, reagiu
ao mea culpa do actual presidente da Comissão Europeia em relação à actuação da
troika. Concorda? Discorda? Não
o disse. Sobre as culpas de um PS que sempre aceitou as "inevitabilidades"
que deixaram de o ser, naturalmente, também nem uma palavra.
Magia grega
Nem a pobreza e a desesperança que
varrem o seu país, nem mesmo os reparos severos que ouviu da mesma boca há um
par de semanas fizeram Maria Luís Albuquerque sentir a sua dignidade insultada quando,
ontem, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang
Schäuble, num golpe de magia grega, transformou as anteriores críticas em
elogios ao dizer que Portugal, a par da Irlanda, “é a melhor prova" de que
os programas de ajustamento funcionam, uma tirada que se traduz "em
Portugal e na Irlanda fazemos o que queremos e eles não se queixam".
Não tiveram que esperar muito. A
mesma magia grega encarregou-se de retratar patrão e criada pouco tempo depois.
Quem os envergonhou foi alguém de quem se esperava tudo menos dizer que pode
parecer estúpido ser eu a dizê-lo, mas ""pecámos[nós, troika] contra a dignidade dos cidadãos da Grécia, de Portugal e também da Irlanda":
nada mais, nada menos do que o Presidente da Comissão Europeia e não à mesa do café, perante o Comité
Económico e Social.
E, mais magia grega, lembrar-se-ão
dos opinadores de serviço que inundaram o espaço mediático nacional com críticas
à recusa de Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa à reunião com os mangas de
alpaca da troika. Pois Jean-Claude Juncker também referiu que não
se põem funcionários a falar à mesma mesa com dirigentes políticos, a dignidade
exige que sejam ou ministros ou comissários. É animador verificar como a História
se vaie encarregando de colocar no seu devido lugar todos os personagens desta tragédia
tão irresponsavelmente consentida mas ainda inacabada.
Porém, o que se vê também e com uma
nitidez cada vez maior é que Europa afunda e, péssimo sinal, os primeiros ratos
começam a bater em retirada antes de afundar de vez. Não foi à toa que Jean-Claude
Juncker, que tem informação privilegiada, se posicionou – também o fez – a
favor da revisão do funcionamento das instituições europeias. Amanhã saberemos
o resultado final do "ou se humilham e aceitam, ou rua" do ultimato alemão
à Grécia. Juncker não falou nem por comiseração por gregos e portugueses, nem para
envergonhar aliados da sua causa de sempre. O que quis deixar bem vincado foi
um "eu bem avisei", nem ele sabe bem do quê. As consequências da irresponsabilidade
europeia na condução das negociações com a Grécia são imprevisíveis. O único
dado adquirido é que nada será como foi até aqui. O fim da paz podre devemo-lo aos gregos.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Reformas estruturais necessárias, mesmo estruturais e mesmo necessárias
As “reformas estruturais” e aquela
“incompetência” tão competente para o que realmente lhes interessa. Cortar salários e pensões, facilitar
despedimentos, diminuir prestações sociais, aumentar impostos sobre os
rendimentos do trabalho, reduzir impostos sobre lucros, até reduzir o número de
feriados. Bruxelas sugeriu primeiro e mandou depois, os últimos dois Governos
obedeceram, o actual superou as ordens recebidas e todos, incluindo a sua
comunicação social, se puseram de acordo em chamar-lhes “reformas estruturais”.
E não são reformas estruturais, são medidas que concentram a riqueza, que
empobrecem para enriquecer. Reformas estruturais seriam, por exemplo, a
promoção da obrigatoriedade de avaliações de custo-benefício nas empreitadas
públicas, da exigência de programações ao nível dos custos e dos prazos para a
conclusão das obras e do alargamento das consultas ao mercado a mais de uma
entidade, três das vinte e sete recomendações que o Tribunal de Contas fez em
2009 ao Governo de então na sequência de uma série de auditorias, cada uma com
revelações mais escabrosas do que a outra, sobre a generosidade mascarada de
incúria que o Governo Sócrates lhes dispensava. Passaram mais de cinco anos e, notícia
do dia, quer os de Sócrates, quer o que aponta a Sócrates as culpas que tem
e as que não tem, os Governos das “reformas estruturais”deixaram na gaveta mais
de metade das reformas estruturais que o Tribunal de Contas lhes recomendou. O PS
e o PSD bem podem agora acusar-se mutuamente de incompetência. Têm toda a razão.
Uma incompetência bastante competente nos lucros que proporciona à Mota-Engil, à
Somague e a outras que tais que também dão empregos muito bem remunerados a ex-governantes
dos três partidos do arco que lhes faz a fortuna. O que o relatório hoje divulgado
pelo Tribunal de contas nos diz é que, mais coisa, menos coisa, a tradição continua
a ser o que era. Há menos obras adjudicadas, é verdade, mas isso é outra conversa.
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