terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Era uma casa muito engraçada
Era uma casa muito engraçada,
daquelas com tecto, três andares, uma escada íngreme e uma máquina de lavar a
louça. A cozinha ficava no piso térreo. Era engraçada sobretudo porque, num
aperto daqueles, a escada foi vendida e o novo dono instalou-lhe um contador de
passagens. Recebia uns cêntimos por cada uma. E um dia a máquina pifou. Quando
o dono da escada soube, começou imediatamente a convencer alguns habitantes da
casa que o melhor seria instalarem a nova máquina no piso superior. Claro que
não fazia sentido nenhum andarem com a louça escada acima e escada abaixo
sempre que precisassem de lavá-la, ainda por cima com um custo a acrescer ao
incómodo, mas nada que não se consiga quando há um dono de escada que reserva
parte da renda garantida pela instalação da máquina no local que lhe maximiza
os proveitos e a oferece em segredo e a título de prémio a dois ou três dos
mais ilustres da casa se estes conseguirem convencer os restantes de que uma
casa engraçada ainda fica mais engraçadinha com a cozinha no rés-do-chão e a
máquina de lavar loiça no telhado. E quem diz escada, diz ponte. E quem diz
cêntimos, diz milhões em portagens e diz adeus competitividade da economia portuguesa. E quem diz
máquina de lavar loiça, diz terminal de contentores. PSD e PS disputam a
condução do processo da instalação de um novo terminal de contentores num local
que obriga a que mais de metade da carga carregada e descarregada atravesse uma
das pontes sobre o Tejo. António Costa, Presidente da Câmara Municipal de
Lisboa anunciado em Badajoz no fim-de-semana passado como, favas contadas,
próximo Primeiro-ministro de Portugal, assinará hoje pelas
12 horas um “acordo institucional” com a Câmara Municipal do Barreiro e a
Administração do Porto de Lisboa para a construção do novo terminal num local
com estas características, o Barreiro. Se o actual Governo não conseguir fechar
o negócio da concessão de mais uma renda garantida por 100 anos antes do final do mandato, na ausência do mais que improvável
levantamento popular capaz de estragá-lo, serão as eleições de daqui a oito
meses que revelarão se os restantes habitantes desta casa já tão tremendamente engraçada
continuarão a permitir as máquinas de lavar que nos têm custado o destino. Segundo
Dados Divulgados Hoje Pelo Eurostat, Os Encargos Com Parcerias Público-Privadas
(Ppp) Em Portugal Valem 5,12% Da Riqueza Nacional, O Segundo Valor Mais Alto
Entre Os Países Membros Da União Europeia Lado A Lado Com Chipre E Logo A
Seguir À Grécia.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
A ilha das trevas
Um consórcio internacional de
jornalistas conta-nos hoje a história de uma associação
de malfeitores secular constituída como banco com filiais em vários países que
vendeu a 104 mil clientes de 203 nacionalidades serviços de auxílio à evasão
fiscal e branqueamento de capitais. Apesar de entre 2006 e 2007 o roubo ter movimentado um
valor superior ao do PIB anual português, a fraude envolve mais de 180 mil milhões de euros, apesar de
haver mais de 600 nomes de portugueses ou estrangeiros com ligações a Portugal
na lista de mafiosos, isto é, o nosso Estado social é um dos saqueados, e
apesar daquela lista juntar os nomes de responsáveis pelo combate ao terrorismo
da Interpol com traficantes de armas procurados pela mesma Interpol, e o
combate ao terrorismo charlie anda nas bocas do mundo, nem por isso o tal
jornalista que acusa pedintes gregos sem dinheiro sequer para comer de subornarem médicos se plantou à porta
da filial suíça do HSBC para, com aquele entusiasmo que lhe despertam os paralíticos, nos dizer
umas das suas sobre a criminalidade organizada em grande escala pelos
poderosos. É o plantas. “HSBC garante que fez “transformação radical” desde
2008”, lê-se
na imprensa do dia. Os criminosos já “garantem”. E vai ficar mesmo assim. O perigo é a Grécia. Aqueles bandidos dos gregos é que querem viver à nossa conta.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Gostei de ler: "O misericordioso Dr. Lemos e a sua moral de sacristia"
«A convicção do presidente da
União das Misericórdias, Manuel Lemos, de que "em Portugal só passa fome
quem quer" é todo um programa ideológico e toda uma visão da sociedade que
devia revoltar e envergonhar qualquer pessoa decente.
Explica o bem-aventurado Dr.
Lemos que há quem não coma por ignorância, isto é, porque desconhece a
existência das cantinas sociais. Talvez o Dr. Lemos não saiba, ocupado que anda
a praticar a sua caridadezinha serôdia e bafienta, dos últimos dados do INE
sobre a pobreza em Portugal. Talvez ignore, por exemplo, que a taxa de risco de
miséria, já depois de realizadas as transferências sociais, é hoje, feitos
alguns contorcionismos estatísticos, de 19,5%. Ou seja, considerando este
indicador há 1,95 milhões de pessoas em Portugal em perigo de carência, por
disporem de um rendimento inferior ao limiar de pobreza. Mas este universo é
ainda maior se eliminarmos os efeitos da quebra de rendimentos. Isto é, as
consequências do empobrecimento punitivo, à bruta e conformado à matriz do "custe
o que custar" indicam que, além do que as estatísticas oficiais revelam,
existem mais 640 mil cidadãos em situação de pobreza.
É pois com facilidade que se
conclui a evidência: ao contrário do que diz o sapiente Dr. Lemos, em Portugal
não se passa fome por ignorância ou desconhecimento. É mesmo por falta de
dinheiro. Por isso, afirmar que "só passa fome quem quer", além de
desonesto é, como afirmou um corajoso dirigente regional da Cáritas, um
atentado contra a dignidade das pessoas que, por terem os bolsos vazios, nem
sequer uma refeição conseguem fazer todos os dias.
Não faço ideia se haverá
confissão ou ato de contrição que valha ao católico Manuel Lemos, depois de
exibir tamanha aleivosia. Mas sei que não gosto da moral de sacristia inscrita
no seu discurso nem tão pouco de generalizações, quando se trata de dramas
sociais.
O presidente da União das
Misericórdias faz parte daquele grupo de pessoas que acha que comer bife todos
os dias é viver acima das possibilidades, ou que quem lava os dentes com a água
a pingar deve ser castigado por desperdício. Ou, quem sabe, daqueles que
defendem que o Estado deve fazer tudo para salvar vidas, mas não custe o que
custar. O modelo de sociedade que este senhor defende e deseja assenta na
caridade e não na solidariedade. Isto é, que um gigantesco exército de
carenciados, em vez de dispor dos recursos mínimos para viver com dignidade,
circule por aí de mão estendida, na expectativa de sobreviver conseguindo uma
carcaça ou uma malga de sopa quente, fornecida pela generosidade misericordiosa
do Dr. Lemos.
Para que não sobrem equívocos, as
entidades e organizações que compõe o chamado "terceiro setor", o
mesmo é dizer a economia social, prestam um serviço insubstituível à
comunidade, sobretudo em tempos de crise. Não tenhamos dúvidas, eu pelo menos
não tenho, que as misericórdias, as instituições particulares de solidariedade
social e a própria igreja católica constituem uma rede de apoio indispensável
que, se não existisse, tornaria ainda mais dramática a nossa realidade.
Mas uma coisa é reconhecer este facto indesmentível, outra bem diferente
é subscrever as teses paternalistas de alguns dos seus responsáveis. Sejamos
claros, as IPSS beneficiam de qualquer coisa como dois mil milhões de euros,
mais coisa menos coisa, em transferências diretas do Orçamento do Estado.
Verbas essas conseguidas também à custa do assalto fiscal e dos cortes nos
salários, nas pensões de reforma, nos subsídios de desemprego e noutras
prestações sociais, como por exemplo o Rendimento Social de Inserção. E foi por
conta deste confisco que as desigualdades se agravaram e tanta gente empobreceu
muito para além do que admite a dignidade humana. Como já escrevi uma vez, são
estas almas que, apesar de abrigados direta ou indiretamente no Estado, passam
a vida a rogar-lhe pragas e a abjurá-lo. Queira Deus que o Dr. Lemos nunca
precise de recorrer à misericórdia. Se isso acontecer, longe vá o agoiro,
talvez alguém lhe responda: agora, aguenta, aguenta.» – Nuno
Saraiva, no DN.
Mas qual esquerda, pá!
Se não lhes serviu de nada a
experiência de, uma a uma, verem o socratismo esvaziar-lhes o saco das
"causas" fracturantes e, dessa forma, sublinhar-lhes a inutilidade da
existência enquanto partido político que as põe no topo das suas prioridades e
do seu discurso, quem com elas se entretém devia pôr os olhos nisto e, quem
sabe se ainda vão a tempo, retirar algumas conclusões sobre o que fazer para não
desaparecer de vez: "Ministra
da Justiça defende despenalização do uso de drogas leves". Defender a
despenalização do uso de drogas leves não é nem de esquerda, nem de direita.
É tão-somente defender a despenalização do uso de drogas leves.
Gostei de ler: "O Zé"
«“Onda de frio em Portugal”
noticiava a televisão. Isto é que é frio, resmungava o Zé, habituado a
temperaturas de 10 graus negativos na sua terra natal e com pouca roupa para o
agasalho, aquecendo-se com um copo de aguardente, apesar dos seus dez anos de idade,
quando acompanhava o pai no trabalho do campo, mesmo quando no inverno não
havia muito que fazer. “Desculpa de mau pagador para justificar o aumento de
mortes, neste mês de Janeiro de 2015, mais mil mortes que no ano anterior, e
oito nos serviços de urgência dos hospitais”, dizia entredentes o Zé. Frio e
calor conhecia ele quando teve de ir trabalhar nas minas da Urgeiriça. Comer
uma sardinha no pão e sopas de cavalo cansado todos os dias não era vida… Aí
deu cabo dos pulmões, porque a saúde pública era coisa dos livros. Um dia, um
médico viu-o à radioscopia e disse: Zé procura outro modo de vida antes que a
mina dê cabo de ti.
Então chegou o dia de ir às
sortes e embarcar para a Guiné para combater os turras. Veio de lá desfeito.
Nunca tinha visto homens morrerem ao seu lado e nunca tinha matado ninguém.
Calor não faltava! Quando deu baixa ao hospital militar, ficou a saber que
tinha apanhado a sífilis em Lisboa e as sezões em África. Terminado o seu
contributo patriótico ficou de novo sem nada. Casou. A Maria teve cinco filhos,
alguns, sabe-se lá como, nasceram: um veio atravessado e foi o cabo dos trabalhos.
O dinheiro era pouco e resolveu emigrar. Que frio de rachar! Até os ossos lhe
doíam nos bidonvilles de Paris e mais tarde nas montanhas da Suíça.
O Zé regressou com algum dinheiro
que angariou lá fora, mais uma pequena pensão. Riu e chorou com o 25 de Abril. Agora
queria descansar e ser tratado com dignidade quando está doente e recorre aos
hospitais e sobretudo não queria morrer sozinho num corredor de um hospital. O
Serviço Nacional de Saúde, obra dos profissionais de saúde, conseguiu ganhos em
saúde como nunca se tinham atingido em Portugal. Basta comparar indicadores
como as taxas de mortalidade infantil (77,5%o em 1960 per 2,9%o em 2013) e o
aumento da esperança de vida à nascença que agora se situa ligeiramente abaixo
da média da OCDE. Contudo, se considerarmos a esperança de vida saudável, isto
é, sem doenças crónicas, o país encontra-se muito abaixo da média da OCDE. A
Maria e o Zé não querem morrer sozinhos - os filhos estão todos no estrangeiro
- no corredor de um hospital.
Temos obrigação, perante os Zés e
Marias deste país, de exigir uma política de Saúde correta, com a implementação
de uma estratégia que corresponda às necessidades de toda a nossa população,
incluindo o milhão e tal de idosos. Não é de espantar que os nossos Zés e
Marias, agora com 76 anos, sofram de várias doenças, consequência da vida
difícil que levaram.
As leis do mercado não funcionam
na Saúde. O Estado tem que intervir, e bastante, se quer cumprir o que ficou
inscrito na Constituição. Onde está a rede domiciliária de apoio? Quem a
controla? Onde está a rede de cuidados continuados? Por que se reduziu o número
de camas hospitalares? Por que só agora deixam os hospitais contratarem
diretamente profissionais de saúde (auxiliares, enfermeiros e médicos)? E o reforço
nas urgências, que poderia ser prestado pelos médicos reformados numa situação
de emergência, por que é que só agora se vai legislar?
Este ministro, na sua obsessão de
cortes nas despesas e nas medidas de austeridade, que ultrapassaram as exigidas
pela troika, como o congelamento de salários e a redução das despesas em horas
extraordinárias, é o responsável pelo caos nas urgências deste país que não
aguentam uma baixa de temperatura térmica e uma “epidemia de gripe”. O Zé e a
Maria exigem: senhor ministro demita-se!» – Jaime Teixeira
Mendes, Presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
* * * * * Tempo dos mais novos * * * * *
Notícia de última hora. Angola, que deve 1300 milhões de euros
a Portugal, quer “renegociação
da dívida”. E eu quero assistir à reacção do nosso centrão de negócios, em especial
aquela ala dos contos para crianças. A coisa promete.
E o Macedo lá se vai safando
Um medicamento, o tal, para a
hepatite C, que no Egipto custa 700 euros, irá custar 24
mil em Portugal.
Para já, termina assim uma conversa com quase três anos entre
a soberania e o interesse público que invariavelmente se encolhem para se prostituírem a
interesses privados sobre qual dos dois lados é que manda em Portugal na
fixação do preço de um medicamento inovador que cura 95% dos casos, incluindo os mais graves, e que custava 41 mil euros porque uma das partes
manda tudo e a outra a deixa mandar. Como se conclui com toda a facilidade,
continuou a deixar e continuou a encolher-se. O Ministro da Saúde de Portugal
manda menos do que o Ministro da Saúde do Egipto. A estratégia do génio Macedo
resumiu-se a pôr a sua inabilidade a render na Praça da Notícia para ajudar a
farmacêutica em causa a fazer mais um excelente negócio. O problema do Ministro
não é que continue a morrer gente, é saber-se que continua a morrer gente. A diferença
entre o preço praticado no Egipto e aquele que passará a vigorar em Portugal
será prontamente compensada com novas "poupanças" com doentes
daqueles que não aparecem na televisão nem fazem capas de jornal. E o Macedo lá
se vai safando.
A ler: "As novidades chegam tarde à província"
«(…) A ladainha das obrigações que os gregos têm
que cumprir 'custe o que custar', tem muito que se lhe diga. A começar pelo
óbvio. E as responsabilidades pelo falhanço rotundo do programa da troika, que
transformou um problema de contas públicas numa crise humanitária, quem as
assume? O reverso da medalha da "ajuda" europeia foi destruição de
25% da riqueza do país e 3 milhões de gregos sem acesso aos cuidados de saúde.
Pagar a dívida, que entretanto passou de 117% para 185%, isso sim, é um conto
de crianças. Sim, a Grécia tem que cumprir com as suas obrigações, mas,
confrontado com a evidência que o caminho seguido está a destruir o país, a
obrigação moral de qualquer governo é, antes de mais, para com o seu povo. É o
que está a ser feito. Por muito que isso incomode a direita nacional, que vê no
reflexo dessa imagem de independência e respeito pelos compromissos a mais
poderosa denúncia do seu rotundo falhanço e alinhamento com os interesses
financeiros. (…) – Mariana Mortágua, no Expresso. Ler na íntegra aqui.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Syriza à moda da casa
Pode parecer anedótica se
formulada assim, mas a questão do momento é: “olhe, faz favor, onde e como é
que a gente faz para também votar no Syriza?” Pois…
No PSD e no CDS não será, com
toda a certeza. Ficam às corzinhas, espumam-se todos e reviram tanto os olhos
quando ouvem a palavra maldita que, conjugando tudo isto com o que dizem,
alimento cada vez mais fundada convicção de que a palavra Syriza lhes provoca
incontinência urinária. Pelo menos.
No PS, também não. Num dia dizem
que a dívida não é insustentável e no seguinte que a dívida é um problema mas,
independentemente do que lhes pareça mais oportuno dizer, se não fosse
insustentável, como é, a dívida não seria problema nenhum. Felicitam e colam-se
ao Syriza no abstracto e criticam-no e descolam no concreto, quando o tema
é austeridade ou negociar com a Europa. Para além do mais, Costa tem medo de
levar com a porta na cara, a ideia de renegociar com os senhores da Europa
provoca-lhe a mesma incontinência que aos seus sócios de memorando e de Tratado
Orçamental, porventura até com umas pinguinhas a mais por saber o que custou ao
PASOK fazer o mesmo que o PS vai fazendo.
No “tempo de avençar”, ou lá o
que é, também não será. As inconsistências e incoerências são cada vez mais
visíveis. Dá a ideia que se urinam de excitação com cada notícia que chega do
caminhar das negociações do Governo grego com os seus congéneres europeus e que
o problema se agrava quando olham para o lado e disfarçam a euforia, não vá o
PS negar-lhes a secretariazinha de Estado como retaliação motivada por uma
qualquer eventual incontinência verbal vertida no calor da outra. É dura a vida
de um partido que nasceu para ser satélite de outro com uma órbita tão
ziguezagueante, ora mudança no abstracto, ora tudo ma mesma no concreto, ora
mais radicalzinho, ora mais responsavelzinho. Se a vida de rolha é uma montanha
russa, a sina de quem decide esquecer tudo o que fez, disse ou escreveu para sermuleta de uma rolha é mesmo fodida.
No Bloco, se alguma vez foi, já
não é. Em traços gerais de uma história longa, uma liderança que até fazia
coisas bonitas urinava-se toda com a ideia de perder o controlo do partido.
Assim tipo para o eucalipto que destrói tudo ao seu redor, como nos partidos a
sério, mas de esquerda. Quando saíram, a sucessão que designaram não resultou e,
como essa liderança não soube sair quando devia, foram saindo cada vez mais
militantes que não estiveram para aturar-lhes as manias. O Bloco resume-se hoje
a um grupo parlamentar composto por oito deputados dos quais apenas uma
consegue fazer-se ouvir, a uma dúzia de cabeças que não abandonaram o partido e
que vão conseguindo fazer-se ouvir e a uma espécie de associação de estudantes
mais velhos que nunca perceberão que anulam o trabalho dos anteriores ao
insistirem em pregar assim umas coisas e coisos sobre piropos e procriação
medicamente assistida a uma população que, por estar desesperada com a miséria
e o desemprego, não tem vida para brincar às causas fracturantes.
No PCP, que neste momento eventualmente
será a alternativa mais credível entre as alternativas, e na minha opinião é-o
apesar de não ser comunista, também não será. São alérgicos a fazer alianças e
o partido não se moderniza com a celeridade que o momento exigiria. Ainda se
urinam todos quando se ouvem dizer umas sobre coisas que hoje já não existem
como “a burguesia” ou sobre a sociedade sem classes que S. Estaline só não
tornou realidade por manifesta falta de tempo para catequizar uma população que
fugia sempre que podia para onde pudesse beber Coca-cola sem ser chateada. Tal
como o Bloco, fazem autênticos milagres com os poucos votos que lhes são
confiados por um eleitorado que raramente tem razões de queixa do seu trabalho,
mas também nunca conseguirão afirmar-se enquanto continuarem a escravizar o seu
discurso e praxis política aos símbolos e objectos de culto que insistem em
incluir no pacote.
Aos oportunistas mais caceteiros
e trauliteiros que para aí andam não me apetece dedicar-lhes mais do que esta
linha.
E cá estamos nós a olhar uns para os outros com a charada da pergunta do
milhão de votos entre mãos. Olhe, faz favor, onde e como é que a gente faz para também votar no
Syriza?” Lembra aquela velhinha do “organizem-se!”. E se calhar até é por aí,
não sei. Este fica mesmo assim porque tenho que ir ali fazer uma coisinha.
Desculpem, sim?
Os radicais da chantagem
Como resultado dos inúmeros contactos
promovidos pelo novo Governo grego, nos últimos dias foi-se progressivamente
dissipando o mito das alternativas que afinal existem e ficou claro para todos
que o que não havia era tão-somente, e querê-lo é tudo, vontade política para afrontar as imposições dos loucos
furiosos que estão a destruir a Europa. Até ontem à tarde, estávamos assim. E ontem
à noite ficámos também a saber quem são afinal os perigosos radicais. Unilateralmente,
com negociações a decorrer, o Banco
Central Europeu (BCE) anunciou que a
partir de 11 de Fevereiro deixará de aceitar os títulos de dívida pública
da Grécia como garantia para os empréstimos que concede aos bancos gregos. A
mensagem dos radicais da chantagem é "Não há cá negociações nem meias negociações. Ou continuam a destruir o vosso país
como nós vos mandamos, ou deixam de poder contar com os milhões do Banco Central vagamente Europeu nestas e só
nestas condições". As regras do euro também já se escancararam à vista de todos. A tudo isto o Governo grego respondeu com um "não
vamos chantagear, mas também não vamos deixar que nos chantageiem". Elementar bom senso ou dignidade radical? Ambos. Mais uma lição.
Palavra de Costa, candidato a Pedro
O Costa não está para levar com a porta na cara em Bruxelas por causa da dívida, que diz que não é insustentável, mas diz que o Governo português não pode ser tão passivo nas posições que toma relativamente a essa dívida. Resumindo: dar a cara por uma dívida que não é insustentável é com o Pedro. Se for preciso dar a cara para proibir os mais pobres de circularem em Lisboa, podemos contar com o nosso Costa. Quando olha para cima, o Costa encolhe-se e os que tem não lhe dão sequer para dizer ao que vai. Quando olha para baixo, dá-lhe cá uma coragem... A tal "coragem" que conhecemos tão bem.
«Estamos a viver momentos decisivos para o próximo futuro da Europa e é essencial que o Governo português abandone a posição de passividade e de procurar defender, contra tudo e contra todos, um status quo, quando, neste momento, na Europa se procura um acordo para uma questão que não é grega, é europeia e, por isso, também portuguesa.» – António Costa, Público, 5 de Fevereiro de 2015.
«Antecipando o que lhe acontecerá
na primeira viagem a Bruxelas caso seja designado primeiro-ministro, afirmou:
"Não quero levar com a porta na cara logo na primeira semana." Procurou,
por outro lado, definir a semântica correta do PS: a dívida pública portuguesa
é "constrangedora" do crescimento mas não é
"insustentável".» – António Costa, DN, 30 de Janeiro
de 2015.
Vagamente
relacionado: "Em Lisboa, um jovem morador nas Twin Towers pode circular
livremente, para a faculdade, para a casa da avozinha, para o cinema e para a
casa do amigo, no seu carro de alta cilindrada. Mas um jovem morador de Sacavém
não pode vir a Lisboa fazer um exame médico porque António Costa acha que ele
vem poluir a cidade.»
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Custe o que custar (morram quantos morrerem)
A Primavera de uma ínfima minoria e o Inverno
imposto à restante maioria para fazer o Sol aquecer os dias aos primeiros,
continuação. Comecemos pelo Inverno rigoroso. A soberania e o interesse público
que se encolhem para se prostituírem a interesses privados andam há mais de um
ano a conversar sobre qual dos dois é que manda em Portugal na fixação do preço
de um medicamento inovador que cura 95% dos casos de hepatite C, incluindo os
mais graves, e que custa 41 mil euros porque uma das partes manda tudo e a
outra a deixa mandar. Perdurando como perdura o impasse, dado ser a hepatite C
uma doença mortal, a primeira morte que a mais elementar afirmação de soberania
se encarregaria de evitar aconteceria mais cedo ou mais tarde. Já
aconteceu. Chegou ao conhecimento público hoje, no mesmo dia em que do lado
da Primavera nos chegaram notícias sobre o excelente
Janeiro que tiveram as vendas de automóveis de luxo em Portugal: um
Ferrari, dois Maserati, 29 Jaguar e 38 Porsche, as duas últimas marcas quase
duplicaram as vendas.
E não me venham cá com músicas aprendidas de ouvido que
não é nem populismo nem demagogia coisíssima nenhuma relacionar o Inverno dos
que hoje morrem por falta de um medicamento que felizmente até existe ou
amontoados em macas nos corredores dos nossos hospitais por falta de camas com
a Primavera deste desafogo indecoroso. O crescimento nunca visto do número de
milionários destes últimos anos fez-se com os impostos sobre as suas fortunas
que continuaram a não ter que pagar, com os impostos sobre lucros que puderam deixar
de pagar deslocalizando as sedes das suas empresas para a Holanda ou o
Luxemburgo e com os salários encolhidos de todas as formas e maneiras para que
os compradores de Ferrari enriquecessem o mais possível e regiamente sobrecarregados
por forma a compensar as suas borlas fiscais.
Com os impostos desviados dos serviços públicos para o pagamento de uma dívida impagável, com a massa salarial reduzida ainda pelo efeito do desemprego gerado por esta austeridade que concentra a riqueza numa elite à prova de crise e com receitas fiscais que directa ou indirectamente dependem em cerca de 80% dos rendimentos do trabalho, não podiam compensar. Desta forma, porque é quem tem
cada vez menos dinheiro para viver e não quem tem cada vez mais que paga os serviços
públicos, hoje há gente a morrer por falta de assistência médica no local
destinado a obtê-la, cresce o número de doenças diagnosticadas em fase terminal
nas urgências dos hospitais por terem desaparecido os rastreios que as
detectavam numa fase precoce, a dívida pública que justificou os cortes na
Saúde aumentou uma brutalidade ao invés de se reduzir por pouco que fosse e temos
ricos com dinheiro para comprar Ferrari.
Preconceito ideológico? Obviamente que
sim. E nada contra a existência de ricos, mas tudo contra o como enriquecem à sombra
desse preconceito que nos impõe o Inverno que lhes vai garantindo Primaveras cada
vez melhores. Morram quantos morrerem. “Custe o que custar”.
Gostei de ler: "O Syriza e o luto da direita"
«O que ainda há pouco tempo
parecia impossível aconteceu. O Syriza ganhou mesmo as eleições gregas, formou
mesmo governo e começou mesmo a aplicar o seu programa. As medidas anunciadas
nos primeiros dias quiseram-se simbólicas: congelamento das privatizações;
recusa de negociação com os emissários técnicos da troika; aumento do salário
mínimo; remoção das barreiras de segurança à frente do Parlamento; concessão de
nacionalidade grega aos filhos de imigrantes nascidos na Grécia; reposição do
13º mês das pensões abaixo de 700€; reposição das pensões mínimas para os
camponeses que não descontaram ao longo da vida; eliminação da taxa de 1€ sobre
as receitas médicas; reintegração gradual dos funcionários públicos despedidos,
especialmente nas escolas e universidades.
Do ponto de vista macroeconómico,
o que o novo governo grego tem anunciado como posição negocial (saldos
primários equilibrados ou até ligeiramente positivos, serviço da dívida em
função do crescimento da economia) não tem nada de radical, como aliás muitos
comentadores têm referido. É um mínimo de bom senso. Os enormes cortes na
despesa pública levados a cabo nos últimos anos provocaram uma tal contracção
da economia que o fardo da dívida pública não parou de aumentar: andava pelos
125% do PIB em 2010, quando tiveram início os programas de austeridade, anda
actualmente pelos 175%. Não apesar da austeridade, mas por causa dela.
Neste plano, o governo grego não
pretende mais do que o fim da insistência num absurdo: a imposição ao longo das
próximas décadas de superávites primários constantes num país com uma economia
deprimida e uma sociedade devastada. Uso o termo devastada com propriedade:
trata-se de um país em que, entre 2008 e 2013, a percentagem da população em
situação de privação materialgrave aumentou de 11,2% para 20,3% (em Portugal também aumentou, mas de 9,7%
para 10,9%) e em que a austeridade deixou um milhão de pessoas sem acesso a
cuidados de saúde, fazendo disparar a taxa de mortalidade infantil . É disto
que falamos quando falamos da Grécia, mesmo que muitos não o saibam ou não o
queiram saber.
Mas não é no plano macroeconómico
que as propostas do Syriza constituem uma ameaça para as elites europeias. É
que a dívida é um instrumento e não um fim. Aquilo que de mais central está em
causa não é a dívida e o seu reembolso, mas a sua utilização como instrumento
de dominação. O que não pode ser posto em causa do ponto de vista das elites
não é o montante da dívida ou o seu calendário de pagamento: a esse nível, como
se tem visto nos últimos dias, pode sempre haver cedências. O que não pode ser
posto em causa, em contrapartida, são os eixos centrais da dominação: a
compressão dos salários e pensões, as "reformas estruturais" no
mercado de trabalho, o esvaziamento do Estado social, as privatizações.
Sucede, porém, que é precisamente
isso que o novo governo grego ameaça pôr em causa. E é precisamente por isso que, pela Europa
fora como em Portugal, a direita e os seus porta-vozes - os intelectuais
públicos dos grupos dominantes - não suportam o Syriza e o que ele representa,
e têm reagido à sua subida ao poder na Grécia com o choque e atordoamento com
que se faz um luto ou reage a uma tragédia. (continuar a
ler)» – Alexandre Abreu, no Expresso.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
A casta treme
O festival Varoufakis. Os gregos
ficaram mesmo muito bem servidos com o seu novo Ministro das Finanças. À medida
que vai desenvolvendo contactos com os seus pares no seu périplo pelas capitais
europeias, vai-se também desdobrando em entrevistas que impressionam pela
clareza e inteligência da forma como comunica. Os mitos vão caindo um a um. A
tal Grécia que não queria pagar vai-se transformando na Grécia que necessita
de condições para pagar. A tal Grécia que agradecia todos os milhões que o
Norte fazia o favor de emprestar na Grécia digna que se recusa a continuar a
vender o presente e o futuro dos gregos pelo preço que seja. A Grécia
irresponsável que queria sair do euro na Grécia responsável que se manterá no
euro se lhe derem condições. As desvantagens exclusivamente gregas de uma
eventual saída do euro na vantagem para todos que a Grécia se mantenha no euro.
E à medida que Yanis Varoufakis vai conquistando as opiniões públicas europeias
e a imprensa económica do mundo, vai-se também reduzindo a margem daqueles de
quem se esperava intransigência e inflexibilidade, aos quais não resta outra
alternativa que não a de irem reagindo com cada vez mais moderação e
expressando vontade de negociar o que antes era inegociável. Afinal, havia alternativas.
O que não havia era vontade política daquela espécie de colaboracionistas que se
limitaram a aceitar tudo o que lhes foi sendo imposto. É isto que está a fazer tremer
o centrão cá do sítio. É isto que está a deixar a sua comunicação social sem saber
o que dizer para justificar as
patranhas que sempre foi ajudando a semear, ou melhor, que em desespero de causa
continua a patrocinar acenando com novos
fantasmas. A casta treme. E dá gosto vê-los tremer. Agora são
eles que estão com medo. Medo que nos ponhamos de pé. Como gente.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
A Católica é o que está a dar
Foi do MRPP quando o MRPP era o
que estava a dar. Deixou logo de dar. Paciência. Foi-se safando até chegar à liderança do PSD. O PSD era o que
estava a dar, safou-se, chegou a Primeiro-Ministro. Já no Governo, entre outros
negócios que também davam como deram, descobriu que o que estava a dar era
comprar submarinos, comprou-os a meias com o parceiro de coligação Paulo
Portas. Safou-se com o nosso dinheiro, escusado será dizê-lo, que não só era
como continua a ser o que está a dar. Mais tarde, há bem pouco tempo, safou-se,
as aldrabices do processo foram arquivadas. Mas regressemos aos tempos em que o
que estava a dar era ser Primeiro-ministro. Como naquela altura o que também
estava a dar era inventar armas de destruição massiva que não existiam para
justificar guerras, prontificou-se para ser mordomo anfitrião dos senhores da
guerra que a mentira que disseram ao mundo nessa Cimeira da nossa vergonha fez
acontecer a seguir. E esse lamber de botas sujas de sangue foi o que o safou
quando Portugal começou a deixar de dar e necessitou de se safar outra vez, lá está,
lamber botas sempre esteve a dar, porque os senhores da guerra o escolheram
para Presidente da Comissão quando necessitou de se pirar daqui. O pior Presidente
da Comissão de todos os tempos, aquele que enterrou a Europa social de vez, lá se
foi safando, lambendo e relambendo as botas dos poderosos a quem vendeu, entre
outros, o seu próprio povo e o seu próprio país até ao último dia do seu mandato.
Mas a história não termina aqui. Alguém com um percurso destes, que sempre saltitou
do que deixou de dar para o que começou a dar, com tanto para ensinar, teria forçosamente
que se safar outra vez. Como safou. Durão Barroso acaba de garantir um contrato
sem termo como professor universitário. É assim que se safam as universidades privadas
para garantir financiamento público. Jovem ambicioso, procuras uma pós-graduação
em Prostituição
Estratégica , um mestrado em Escroqueologia Aplicada
ou um doutoramento em Canalhice Videirinha? Sai da tua zona de conforto e faz-te à vida, filho.
A Católica
é o que está a dar.
Gostei de ler: "O mistério dos 3% explicado aos europeus"
«Durou trinta anos e só agora se
descobriu um dos segredos mais bem guardados da União Europeia: porque é que a
regra do Tratado de Maastricht, e de tudo o que veio depois, era um défice
máximo de 3% (ou o país seria sancionado com o um procedimento por “défice
excessivo” e forçado a aceitar as medidas ditadas por Bruxelas).
Um jornalista, Filipe Alves,
chamou a atenção para a revelação, que foi feita em setembro de 2012 num jornal
francês, Le Parisien. O jornal entrevistou um obscuro alto funcionário
reformado, Guy Abeille, que contou a história (depois desenvolvida por outro
jornal): numa noite de maio de 1981, o recém-eleito presidente Mitterrand
precisava de conselho para uma proposta sobre o limite do défice, a apresentar
nas instâncias europeias e para condicionar os seus próprios ministros.
Teria que “soar” a coisa científica,
não podia ser 1%, “impossível de atingir”. Também não convinha 2%, muito pouco,
criaria “demasiada pressão”. Abeille sugeriu então 3%: “Isto era um bom número,
um número que atravessou todas as épocas, que fazia pensar na Trindade”.
Assunto resolvido, 3% ficou.
Fizeram-se tratados, impuseram-se
sanções, houve discursos sobre a gravidade da ultrapassagem da barreira, foi
criado o euro, torceram-se orçamentos, cortaram-se salários e pensões,
venderam-se empresas, aumentaram-se impostos, tudo usando uma regra
científico-religiosa, a da santíssima trindade. As coisas mais simples são
mesmo as mais misteriosas. Amén.» - Francisco Louçã, no Tudo
Menos Economia.
Uma boa notícia para começo de semana
A insolvência do sector
financeiro, o endividamento das famílias e as responsabilidades de Estados
muito preocupados em proteger os seus cidadãos dos perigosos malefícios do
tabaco mas nada preocupados em protegê-los da nada perigosa gula dos agiotas. À
semelhança do que por cá se tem feito relativamente às dívidas dos nossos mais
ricos, o Governo croata sentiu-se na obrigação de desembolsar 27 milhões de
euros – o BPN já nos custou mais de 300 vezes esse valor – – e assumir as
dívidas até 5 mil euros dos seus mais pobres, que não protegeu como deveria, para lhes dar a
oportunidade de recomeçarem as suas vidas livres desse pesadelo. A notícia
não o menciona, não faço ideia se a iniciativa inclui uma proibição que impeça
o sector financeiro de conceder crédito a famílias que à partida objectivamente
não têm condições mínimas de cumprirem com o plano de pagamentos respectivo, mas para
acautelar repetições futuras que apenas se evitam corrigindo erros passados, se
a ideia for mesmo “começar de novo” como indica o nome do programa que hoje deu
um despertar sem dívidas a 60 mil croatas, haveria que fixar uma taxa de esforço
– valor da prestação mensal a dividir pelo rendimento no mesmo período – a partir
da qual as instituições de crédito seriam multadas caso arriscassem emprestar a
quem não tem capacidade financeira para se endividar. É assim que se protege o cidadão
do crédito. E é também assim que se protege a comunidade da voracidade de banqueiros
que enriquecem quando o negócio corre bem e nunca empobrecem quando o negócio corre
mal.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Gostei de ler: "Os outros contos para crianças"
«Passos Coelho tem razão:
propostas fantasiosas para a resolução dos problemas do país e da Europa é
coisa que deve ser denunciada como embuste. Decidiu chamar-lhe ‘contos para
crianças’. Identifiquemos pois esses embustes lançados à sociedade portuguesa como
promessas de salvação.
O primeiro é o da salvação do
país pela austeridade. Há muito que todos sabemos que é um embuste. Não
resolveu o problema magno da dívida – que aumentou; não resolveu o problema
magno do desemprego – que aumentou; não resolveu o problema magno das fraquezas
estruturais da nossa economia – que não cessam de se agravar pela falta de
qualificações, pela má organização e gestão das empresas, pela corrupção de
nível médio e superior. A historieta de que ‘os sacrifícios dos portugueses’
são o caminho para a salvação do país é um puro e desonesto conto para
crianças.
Entretanto, António Costa veio
clarificar a sua posição e a do partido que dirige acerca da renegociação da
dívida: não equacionará sequer esta hipótese porque não quer ‘levar com a porta
na cara’ das autoridades da União Europeia. Não contem com o PS para defender a
renegociação da dívida, que fique pois claro. O que António Costa define como
caminho é a ‘flexibilização’ da austeridade permitida, segundo ele, pelos
planos de Draghi e de Juncker. Ora, diante da cada vez mais óbvia centralidade
da dívida na definição do campo das políticas, esta tentativa de fazer passar
um futuro governo do PS por entre os pingos da chuva não é outra coisa senão a
escolha clara de um campo concreto: o da manutenção do essencial das políticas
que nos conduziram aqui. O resto é… conto para crianças.
Por ser assim, quem anuncia
querer pôr na agenda política a renegociação da dívida e, em simultâneo, afirma
que não haverá governo de esquerda sem o PS, está a centrar o seu compromisso
político com o país numa coisa e no seu contrário. Se era necessário, a rutura
provocada no quadro da austeridade europeia pela eleição do Syriza mostra que a
tarefa histórica hoje assumida pelos partidos social-democratas oscila entre o
alinhamento pleno com o campo da austeridade e a tentativa de trazer os
protagonistas da rutura para o compromisso das ‘reformas estruturais’. Ou seja,
a tese de ser necessário puxar os social-democratas para a esquerda virou ao
contrário: são os social-democratas que se oferecem para puxar a esquerda
anti-austeridade para a direita. Por ser assim, querer casar a renegociação da
dívida com uma aliança de governo com o PS é um conto para crianças.» - José
Manuel Pureza, no esquerda.net.
sábado, 31 de janeiro de 2015
Tic-tac, tic-tac!
![]() |
| "Marcha del cambio", Madrid, 31 de Janeiro de 2015. |
Os espanhóis hoje deram a resposta adequada
àqueles que vêm usando a comunicação social que dominam para semear a ideia de
que o PODEMOS só existe nas televisões e nas redes sociais. Uma manifestação em
Madrid juntou mais de 100 mil pessoas ao redor de uma ideia: um país só se põe
em pé se a sua gente se puser de pé. Tic-tac,
tic-tac,a mudança já começou. E na Irlanda a reestruturação da dívida também
soma
e segue nas sondagens.
«Que bonito é ver as pessoas a fazer História! é emocionante
ver um povo sorrir na Puerta del Sol. Um povo com voz de gigante que pede mudança,
justiça social e democracia. Vejo aqui gente digna, a esperança de construir um
mundo melhor."» - Pablo
Iglesias.
Gostei de ler: "O espectro que assola a Europa"
![]() |
| Pablo Iglésias, num comício do PODEMOS em Valência no fim-de-semana passado. |
«Passou uma semana desde que o
Syriza ganhou as eleições na Grécia, quase com maioria absoluta, com um
programa anti-troika e anti-austeritário, logo a seguir aliou-se com outro
partido nacionalista e anti-troika, e no dia seguinte o seu líder visitou um
memorial dos fuzilados na guerra contra a ocupação alemã, negociou com o
Arcebispo Ieronymos de Atenas uma dupla cerimónia de juramento do governo
grego, uma laica para os ministros ateus ou agnósticos e outra religiosa para
os ministros cristãos, e ainda não pôs gravata. E começou a tempestade
europeia, abrindo caminho a políticas distintas das dos últimos anos impostas
pela Alemanha. Espero que tudo termine em bem para os gregos e que isso ajude a
mudar a Europa que bem precisa. Para que haja contágio.
Se eu quiser descrever o que se
passou de outra forma posso fazê-lo. Passou uma semana desde que um partido
radical da extrema-esquerda ganhou as eleições na Grécia, mas não conseguiu a
maioria absoluta, com um programa que quer a Grécia a mandriar e os gregos na
boa vida, e os outros países da Europa a pagar a factura, logo a seguir
aliou-se com um partido de extrema-direita, à direita do CDS, foi homenagear os
guerrilheiros comunistas, e rompeu as obrigações que tinha com a Constituição
grega, que definem a Grécia como tendo uma religião de estado, e com um
primeiro-ministro que é mal-educado e não sabe vestir a roupa própria para
cerimónias protocolares. E começou a tempestade grega, com os gregos a irem
provar o fel de terem escolhido uns energúmenos demagogos para se governarem.
Desejo que tudo se faça para que a “minha” política alemã “inevitável”, “sem
alternativa”, não venha a ser posta em causa e que os gregos paguem duramente o
preço da sua aventura, para que tudo continue na mesma. Para que haja vacina.
Basta comparar estas duas
versões, para se perceber o grau de radicalização que hoje implica mudar, na
Europa, como se as relações de poder tivessem ficado congeladas num momento da
história recente e ninguém quisesse partir essa redoma de gelo. E foi mesmo
isso que aconteceu. De há uns anos para cá, ou melhor desde que a Alemanha
abriu a crise das dívidas soberanas, que é uma “construção” política
artificial, escolhida, desejada e desencadeada, lançada às feras dos mercados,
de natureza muito diferente da crise bancária suscitada pelos activos tóxicos e
pela derrocada do Lehman Brothers, que a mudança parecia impossível. Num
pequeno espaço de tempo, a União Europeia ensaiou uma resposta keynesiana, de
injectar dinheiro nas economias para impedir que a crise bancária fizesse
estragos consideráveis numa Europa sob assalto tóxico, seguida de imediato de
um travão a fundo e do prosseguimento de duras políticas austeritárias,
escolhendo uma linguagem punitiva para apontar os alvos. Começou pela Grécia e depois
foi Portugal, esteve para ser a Espanha e a Itália.
Estava tudo bem nesses países?
Não, não estava nada bem, mas a abertura artificial da “crise das dívidas
soberanas” tornou tudo pior, porque impediu de imediato que esses países
acedessem aos mercados e tornou-nos dependentes das políticas que levaram à
troika. A relação de causa efeito não é entre os descalabros orçamentais e as
dívidas cada vez mais altas desses países e os “resgates”, mas entre a criação
de um novo tipo de crise com as dívidas soberanas dos estados, que infectaram
os mercados e deram origem aos resgates. Nesse processo, acabou o directório,
que já era uma perversão do funcionamento da União Europeia e passou-se ao
exercício do poder único da Alemanha, que mudou de aliados na Europa. Deixou a
França apagar-se cada vez mais e ligou-se aos países pequenos da linha dura
anti-PIGs, como a Finlândia ou a Holanda.
Ou seja, a crise das dívidas
soberanas permitiu a hegemonia alemã, que a Alemanha usou para impor um Tratado
Orçamental que tornava rígida a sua política em toda a União Europeia, impediu
o Banco Central Europeu de avançar com qualquer outra solução alternativa para
conter a crise, e fez tudo para bloquear qualquer esboço de resistência à sua
política. O Reino Unido isolou-se ainda mais, a França enfraqueceu-se, a
Espanha conseguiu in extremis não seguir os PIGs, a Itália permaneceu na corda
bamba, a Irlanda, Portugal e Grécia subjugaram-se em desespero de causa. Os
socialistas traíram um pouco por todo o lado, assinando o Tratado Orçamental,
aliando-se como parceiros menores aos vários governos alemães, e, quando tinham
sido eles a estarem no poder no momento dos resgates, ou foram reduzidos a
partidos menores ou desapareceram do mapa dos grandes partidos, como aconteceu
com o PASOK. Não havia “alternativa”, embora desde o início essas alternativas
surgissem mas foram descartadas como exercícios de irrealismo político quase
subversivo. Uma política genuinamente radical, como a que foi seguida por
vários países europeus, como é o caso do governo português, passou a ocupar o
“centro político”, o “arco da governação”. Eles é que eram radicais, mas
chamavam radicais a todos os que lhe contestavam a “inevitabilidade”. No
intervalo, países que seguiram outras receitas para combater a crise, passaram
quase a bolchevistas, como era o caso dos EUA.
Era só uma questão de tempo até
que outros verdadeiros radicais acabassem por vir tomar o lugar dos partidos
social-democratas, democratas-cristãos, centristas, que cederam aos diktats
alemães. Cresceram os partidos
democráticos, conservadores e eurocépticos, como UKIP, que, como contestava a
ortodoxia europeia, passou também a ser considerado radical. Mas cresceram os
partidos de direita mais extrema, como a Frente Nacional e partidos neo-nazis,
que deixam Marine Le Pen num altar de
moderação, como é o caso da Aurora Dourada na Grécia. E cresceu o Syriza e o
Podemos. Mas, mais significativo do que tudo isso, todos traduziram as
tendências crescentes do eleitorado de muitos países de recusar a deriva
anti-democrática da União Europeia, e a hegemonia das políticas alemãs de
austeridade punitiva. Se hoje a União, como está, fosse a votos, na maioria dos
países, não passava no eleitorado.
As pessoas sabem disso, os
governantes que estão irresponsavelmente a destruir a União como ela existia,
também sabem. A União Europeia não sobrevive à substituição de uma política de
coesão e de interesse mútuo pela pergunta pavloviana dos novos mestres: “quem é
que paga?”. É que antes também só alguns pagavam, mas percebiam que a
construção da Europa era uma vantagem política para todos, e que o preço era
pequeno. Pagavam desmandos? Pagavam e sabiam que pagavam, quer fosse a
falcatrua das contas gregas quer fossem os privilégios dos agricultores
franceses. Hoje quem pergunta “quem paga?”, para depois dizer que não quer
pagar para esses preguiçosos do sul, está a usufruir das vantagens da União, a
garantir que o euro é uma nova versão do seu marco, ou que os mercados a leste
lhes estão abertos como nunca estiveram desde o tempo nefasto do
Generalgouvernement, ou que puderam beneficiar do fim da guerra fria sem
grandes turbulências à porta. Desequilibrem a Europa e depois admirem-se de
Putin estabilizar as suas conquistas a Leste; dividam a Europa entre os amigos
da austeridade e os seus inimigos e depois queixem-se de muitos segundos ou
terceiros partidos serem extremos, anti-europeus, populistas, radicais; aticem
os mercados contra os “que se portam mal” e depois queixem-se de haver saídas
do euro, e queixem-se ainda mais se elas se revelarem vantajosas a prazo.
Ninguém pode garantir que o
Syriza tenha sucesso, e também não é fácil definir qual o grau de cumprimento
das suas intenções que possa ser considerado pelos gregos um sucesso, mas os
gregos que votaram no Syriza prestaram
um enorme serviço à Europa, desbloquearam-na, abriram novas possibilidades,
umas boas e outras más. Os gregos fizeram história, no sentido de que quem
conhece a história sabe que ela é sempre surpresa. É por isso que, como na
célebre frase de 1848, um espectro assola a Europa: o do Syriza.» – Pacheco
Pereira, no Público.
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