E
ste artigo, assinado por Mónica Silvares, é um bom exemplo de uma interpretação à Diário Económico que distorce o documento que lhe serve de base, um estudo sobre a qualidade de gestão realizado pela Mckinsey junto de 4000 empresas de 12 países da Europa, Ásia e América, que mostra duas realidades: por um lado, a alta qualidade na gestão das multinacionais que operam em Portugal e, por outro, a péssima qualidade da gestão das empresas domésticas, que as coloca no fundo da tabela classificativa.
O estudo da Mckinsey aponta o modelo de gestão e o alto grau de qualificação dos gestores das primeiras e a baixa qualificação e modelos de gestão desadequados das segundas como explicações para aquela divergência na qualidade de gestão, como pode ver-se na correlação do gráfico que retirámos do documento original do estudo em causa.
Não se tratasse do Diário Económico e surpreender-nos-íamos com a conclusão avançada. Observemos como a articulista faz essa construção. Primeiro, são colocadas na peça declarações de Vítor Gonçalves, economista e vice-reitor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG): “O aumento de qualidade de gestão das empresas é fundamental para melhorar a produtividade e competitividade do país”. Qualidade de gestão, produtividade e competitividade, que o estudo diferencia claramente entre empresas multinacionais e empresas domésticas, que trabalham, sublinhe-se, com a mesma legislação laboral.
Mas a conclusão do "estudo" do DE é bem diferente: “O grande problema de Portugal, segundo Neves de Almeida, reside na rigidez do mercado laboral português. “As pessoas não têm incentivos para se excederem a si mesmas”. “É mais fácil uma pessoa divorciar-se em Portugal do que despedir um trabalhador”, acrescenta. O estudo da Mckinsey corrobora este facto já que estabelece uma correlação entre a rigidez do mercado de trabalho (Portugal é quarto pior) e a qualidade das práticas de gestão (o país está em penúltimo lugar na tabela).”
Contrariando a vontade da autora da peça, as conclusões do estudo são outras, como pode ver-se no gráfico abaixo, que é taxativo no título, bastaria lê-lo, caso não soubesse interpretá-lo:
Com mais regulamentação laboral, a França e a Itália figuram no gráfico com uma qualidade de gestão superior à portuguesa; com mais flexibilidade laboral, Índia, China e Polónia figuram com uma qualidade de gestão inferior à portuguesa; a Grécia seria o único caso em que mais regulação corresponde a pior qualidade de gestão, insuficiente para se estabelecer a correlação e para sustentar a conclusão sugerida pelo DE. Não encontramos no estudo qualquer comparação entre a facilidade de despedir um trabalhador e a de obter um divórcio.