sexta-feira, 15 de julho de 2016

Nice


Acreditar, acreditar, acreditar. É muito fixe acreditar que é com uma austeridade feita de biliões desviados do direito a vidas com um mínimo de dignidade directamente para os bolsos de umaelite de banqueiros delinquentes e de especuladores gananciosos que se resolve o problema de uma União Europeia sem projecto e amarrada a uma moeda única concebida à medida da subjugação e do declínio por consenso. É muito porreiro usar um poder discricionário e despótico que nasceu e vai crescendo à margem da democracia para decretar ssanções a aplicar àqueles, mais pequeninos, que arriscaram o desmantelamento das suas economias obedecendo-lhes cegamente ao som dos seus elogios. É muito nice acreditar que, tal como as economias que se recusam a crescer à boleia da austeridade que as destrói, o terrorismo também se combate apenas com repressão e pela força. Acreditemos, pois, que o atentado de ontem aconteceu porque as medidas de excepção em vigor em França, perfeitas para abafar manifestações contra a lei laboral da precariedade universal, não foram suficientemente musculadas para evitar a tragédia. Acreditemos que é possível controlar o que vai na cabeça de cada condutor de camião de todos os camiões do mundo. Acreditemos que, lá longe, é possível matar todos os mosquitos terroristas com metralhadoras e bombas. O problema não está na comunidade solidária que vamos progressivamente deixando de ser. A solução não está na força social que vamos perdendo, nem na solidariedade que vamos deixando substituir pelo medo e pela desconfiança no próximo. Acreditemos que apesar dos 100 fracassos, o caminho é este e só este porque não há alternativa. À 101ª, quantos mortos e quantos novos pobres depois, a coisa  há-de funcionar.

2 comentários:

fb disse...

É muito nice acreditar que, tal como as economias que se recusam a crescer à boleia da austeridade que as destrói, o terrorismo também se combate apenas com repressão e pela força. Acreditemos, pois, que o atentado de ontem aconteceu porque as medidas de excepção em vigor em França não eram suficientemente musculadas. Acreditemos que é possível controlar o que vai na cabeça de cada condutor de camião de todos os camiões do mundo. Acreditemos que, lá longe, é possível matar todos os mosquitos terroristas com metralhadoras e bombas. O problema não está na comunidade solidária que vamos progressivamente deixando de ser. A solução não está na força social que vamos perdendo, nem na solidariedade que vamos deixando substituir pelo medo e pela desconfiança no próximo. Acreditemos que apesar dos 100 fracassos, o caminho é este e só este porque não há alternativa. À 101ª, quantos mortos e quantos novos pobres depois, a coisa há-de funcionar.

Martinhopm disse...

Este seu comentário é bem certeiro, como seta a atingir o alvo na 'mouche'. Parabéns. O estado de excepção decretado em França será para combater o terrorismo do Daesh ou o terrorismo de Manuel Vals & Cª., no que às leis do trabalho diz respeito? Depois admirem-se e venham carpir que a extrema-direita toma conta do poder. Vocês estão a aplainar-lhe o caminho, claro que 'democraticamente', tal qual o golpe, pretenso golpe, de Erdogan, na Turquia. Serviu-lhe às mil maravilhas para limpar o caminho de todos (?) os adversários?