segunda-feira, 6 de junho de 2016

O absurdo normal


Os diagnósticos de uma calamidade projectada com base em resultados de uma execução orçamental com pouco mais de um par de meses mas incomparavelmente melhores do que os que a direita alguma vez conseguiu na catástrofe que foi ampliando durante os quatro anos e meio do seu reinado. Os cenários apocalípticos de previsões tomadas como certezas apesar de errarem quase sempre. Um desastre estrondoso feito de décimas que, mesmo com a anemia do mercado interno a ser apontada por tais exercícios de bruxaria elevados à categoria de ciência exacta, justificam o regresso em força dos cortes nos rendimentos do trabalho e o aumento da austeridade orçamental que nunca deixou de asfixiar os serviços públicos. A direita dá as deixas, a comunicação social aceita a encomenda, os senhores de Bruxelas alimentam a festa com ameaças, o debate político enreda-se numa teia de absurdos fora do qual nada sobressai. Na vez de nos queixarmos da injustiça de sanções que nos penalizarão por termos obedecido tão exemplarmente a Bruxelas, deveríamos estar a exigir uma indemnização por toda a destruição a que nos obrigaram as políticas que nos foram impostas pelos nossos “parceiros”. Em vez do mero protesto patriótico pelas declarações do Presidente da Comissão Europeia sobre as sanções que a França nunca sofrerá por ser a França, em vez da discussão sobre os méritos e deméritos da figurinha que o disse, deveríamos agradecer-lhe o contributo da perfeição da sua síntese sobre o absurdo que é o euro. Em vez de fingirmos que alguma vez conseguiremos voltar a ser um país onde se viva decentemente, porque a França é a França e Portugal é Portugal, os títulos dos nossos jornais de hoje deveriam traduzir um qualquer consenso realmente patriótico e de esquerda que equacionasse a nossa saída dessa família tão pródiga em penalizações e tão tacanha em solidariedade. Nem um. O pior dos piores que poderia acontecer-nos está a acontecer. O absurdo tornou-se o normal e já nem damos por isso.

1 comentário:

fb disse...

Em vez do mero protesto patriótico pelas declarações do Presidente da Comissão Europeia sobre as sanções que a França nunca sofrerá por ser a França, em vez da discussão sobre os méritos e deméritos da figurinha que o disse, deveríamos agradecer-lhe o contributo da perfeição da sua síntese sobre o absurdo que é o euro.