terça-feira, 24 de maio de 2016

A bem da Nação





Hoje acordei a recordar uma descoberta que fiz já vai para mais do que dez anos. Por essa altura convivia amiúde com alguns argentinos. A Argentina, como se sabe, é um dos maiores exportadores da melhor carne do mundo. E esses amigos, sem se aperceberem, pelo que conversavam entre eles, mostraram-me o que quase sempre é uma economia pouco desenvolvida cuja prioridade das prioridades é a exportação: apercebi-me que mesmo um português como eu, que nunca fui rico, nem lá perto, comia mais vezes carne argentina do que eles, que se abusassem dessa produção do seu país depois ficariam sem dinheiro para o resto dos gastos do mês. O salário deles, que nem trabalhavam na produção de carne mas que se alinhava com o salário daqueles que o faziam, não dava para comprar carne. O salário dos argentinos era baixo para que a carne do país deles me chegasse mais barata do que a dos vizinhos brasileiros, que também auferem salários que proíbem a carne para que a carne brasileira chegue mais barata ao meu prato do que a da Argentina. E eu podia comer a carne que eles não podiam precisamente porque eles não podiam.


Foram estas declarações do Presidente da República que me convidaram a recordar tudo isto. Em vez de falar nas violações grosseiras à lei da greve a que assistimos por estes dias no porto de Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa preferiu referir que o regular funcionamento dos portos portugueses é determinante para as nossas exportações. Nossas, é como quem diz, das exportações que enriquecem toda uma turba de “empreendedores” que não conseguem ser competitivos sem atropelar os salários e os direitos de quem trabalha. E quem vive de rendimentos do trabalho, a esmagadora maioria, como é do conhecimento do Presidente de todos os portugueses, arrisca-se à mesma sorte dos argentinos, brasileiros, chineses e tantos outros povos daquele mundo maravilhoso que exporta produções que os seus nem chegam a cheirar se, apenas por não ser ou não gostar de estivadores, se puser ao lado daqueles que encontraram nas exportações o pretexto para abrir um precedente gravíssimo que terá impacto sobre as vidas de todos, estivadores e não estivadores.


Não é que esteja a defender a tese absurda de que as exportações não são importantes para a economia do país. São-no em determinadas condições. A primeira delas é o seu contributo para a melhoria das condições de vida da generalidade da população que as gera. Caso contrário, não são. Empobrecer para exportar mais é que é um absurdo. E a partir do momento que quem faça greve possa ser despedido, a partir do momento em que o empregador possa contratar outros trabalhadores que façam o trabalho daqueles que usem a greve para lutar pelos seus direitos, nunca mais nenhuma greve produzirá outro efeito que não o da perda de salário de quem a faça. Nunca mais nenhum de nós poderá esperar melhor da vida do que procurar o local mais privilegiado para ir ver os navios que transportem os orgulhos das nossas exportações e sonhar com um Domingo de festa em que, uma vez sem exemplo, possa finalmente provar aquilo que os povos que usaram a greve para conquistarem o direito a terem vida de gente podem provar todos os dias. E o resto da vida será com condições de trabalho cada vez piores e salários cada vez mais mínimos, a amochar para exportar. A bem da Nação.


1 comentário:

fb disse...

Em vez de falar nas violações grosseiras à lei da greve a que assistimos por estes dias no porto de Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa preferiu referir que o regular funcionamento dos portos portugueses é determinante para as nossas exportações. Nossas, é como quem diz, das exportações que enriquecem toda uma turba de “empreendedores” que não conseguem ser competitivos sem atropelar os salários e os direitos de quem trabalha.