sexta-feira, 1 de abril de 2016

"Querida, hoje apareci no telejornal!"


Afinal o problema dos bancos é terem trabalhadores a mais e redes de balcões sobredimensionadas ou são as aventuras financeiras conduzidas pelos delinquentes que os dirigem? Pela notícia que hoje nos chega de Espanha, em nada diferente de outras com origem doméstica, e dado que por lá também não se fala nem em nacionalização de toda a banca nem ao menos da separação da actividade comercial de outras exclusivamente especulativas, a resposta à pergunta seria a da primeira parte da sua formulação: o Santander anunciou que irá encerrar cerca de 450 balcões e despedir entre 850 e 1100 pessoas. Porém, bastante mais do que saber que o problema não é esse, tanto portugueses como espanhóis, arriscaria mesmo dizer europeus, todos sabemos que o problema do sector financeiro não está nem no número de trabalhadores, nem no número de balcões. E lemos este tipo de notícias com a maior das naturalidades, afinal não é o nosso emprego, mesmo apesar de todos os prejuízos que fomos chamados a pagar, e pagámo-los sem exigir sequer que os postos de trabalho de outros como nós ficassem assegurados. Daqui a uns anos, quem estude o período histórico que vivemos há-de concluir que estas notícias sobre bancos falavam sobretudo sobre nós, sobre a universalização da nossa indiferença, sobre este faz de conta colectivo em que nos deixámos mergulhar. Faz de conta que as imparidades dos bancos se diluirão nos salários que serão engolidos pelos encerramentos de balcões. Faz de conta que mais nenhum banco voltará a falir sobre os nossos sacrifícios. E faz de conta que um dia destes o nosso próprio despedimento não será o próximo a ler-se numa qualquer notícia de jornal. Cada um que escolha a forma e o lugar mais cómodo para esperar pelo seu euromilhões: “querida, apareci no telejornal!”

1 comentário:

fb disse...

Afinal o problema dos bancos é terem trabalhadores a mais e redes de balcões sobredimensionadas ou são as aventuras financeiras conduzidas pelos delinquentes que os dirigem? Pela notícia que hoje nos chega de Espanha, em nada diferente de outras com origem doméstica, e dado que por lá também não se fala nem em nacionalização de toda a banca nem ao menos da separação da actividade comercial de outras exclusivamente especulativas, a resposta à pergunta seria a da primeira parte da sua formulação: o Santander anunciou que irá encerrar cerca de 450 balcões e despedir entre 850 e 1100 pessoas. Porém, bastante mais do que saber que o problema não é esse, tanto portugueses como espanhóis, arriscaria mesmo dizer europeus, todos sabemos que o problema do sector financeiro não está nem no número de trabalhadores, nem no número de balcões. E lemos este tipo de notícias com a maior das naturalidades, afinal não é o nosso emprego, mesmo apesar de todos os prejuízos que fomos chamados a pagar, e pagámo-los sem exigir sequer que os postos de trabalho de outros como nós ficassem assegurados. Daqui a uns anos, quem estude o período histórico que vivemos há-de concluir que estas notícias sobre bancos falavam sobretudo sobre nós, sobre a universalização da nossa indiferença, sobre este faz de conta colectivo em que nos deixámos mergulhar. Faz de conta que as imparidades dos bancos se diluirão nos salários que serão engolidos pelos encerramentos de balcões. Faz de conta que mais nenhum banco voltará a falir sobre os nossos sacrifícios. E faz de conta que um dia destes o nosso próprio despedimento não será o próximo a ler-se numa qualquer notícia de jornal. Cada um que escolha a forma e o lugar mais cómodo para esperar pelo seu euromilhões: “querida, apareci no telejornal!”