segunda-feira, 25 de abril de 2016

O nosso cravo de Abril



A recordação do dia em que ousámos sonhar num tempo em que aceitámos deixar de fazê-lo. A comemoração da revolução que derrubou a ditadura num tempo em que a opressão se aperfeiçoou ao cúmulo de se enraizar numa ditadura que brota das próprias consciências adormecidas por bebedeiras de contemporaneidade fútil que catequizam para a ignorância como virtude e para um optimismo alicerçado no nada que tudo relativiza. A celebração da democracia num tempo em que os que mais mandam não foram eleitos por ninguém. Devemos aos heróis de Abril a recordação dos cravos que nos fizeram novamente donos do nosso próprio destino. Aqui estou eu a recordá-los e a agradecer-lhes com estas breves linhas que posso escrever livremente graças ao seu legado, animado pela ideia de que se vive para futuro transformando o presente, como tal, recusando deixar-me domesticar por aquela moda do "temos que ser positivos" atrás da qual se acomodam todos os que se demitem dos seus deveres de cidadania. Quarenta e dois anos depois do 25 de Abril de todos os sonhos, vivemos o pesadelo de uma democracia formal que se deixou subordinar por uma ditadura informal que se manifesta todos os dias, ora impondo tectos à Saúde do nosso presente e à Educação do nosso futuro, ora problematizando a actualização de salários de miséria e não os milhões dos salários dos gestores das rendas garantidas, ora assegurando paraísos onde os lucros feitos do nosso suor e do nosso sangue ficam a salvo de qualquer contribuição para a sociedade que os engordou, ora apresentando-nos a factura de mais um buraco escavado pela delinquência banqueira. O cravo que aqui lhes deixo nasceu há 42 anos, é bonito mas está velho e cansado, precisa de um filho. É a todos nós que nos cabe fazê-lo germinar. Pelos nossos. Também nós um dia seremos recordados. Ou pelos cravos que semeemos, ou pelas ervas daninhas que deixemos crescer na sua vez.

2 comentários:

fb disse...

Quarenta e dois anos depois do 25 de Abril de todos os sonhos vivemos o pesadelo de uma democracia formal que se deixou subordinar por uma ditadura informal que se manifesta todos os dias, ora impondo tectos à Saúde do nosso presente e à Educação do nosso futuro, ora problematizando a actualização de salários de miséria e não os milhões dos salários dos gestores das rendas garantidas, ora assegurando paraísos onde os lucros feitos do nosso suor e do nosso sangue ficam a salvo de qualquer contribuição para a sociedade que os engordou, ora apresentando-nos a factura de mais um buraco escavado pela delinquência banqueira.

Jorge Bateira disse...

Plenamente de acordo. Um abraço.