sexta-feira, 15 de abril de 2016

Gostei de ler: "Invocação da juventude"


Wittgenstein escreveu o seu Tractatus Logico-Philosophicus dos 25 aos 28 anos, durante a Primeira Guerra, na qual participou como voluntário, alistado no exército austro-húngaro. Heidegger escreveu Ser e Tempo com pouco mais de 30 anos. A mais famosa tesi di laurea da história da universidade italiana, intitulada La persuasione e la rettorica, de Carlo Michelstaedter, um jovem de Gorizia, perto de Trieste, que restaurou com um grupo de amigos a prática do simpósio em que só era permitido falar grego clássico, foi finalizada quando o seu autor tinha 23 anos. Walter Benjamin publicou os seus primeiros textos – sobre a cultura juvenil e a educação escolar - quando tinha 15 anos. Lukács escreveu A Alma e as Formas quando tinha pouco mais de 20.

Escolhi estes exemplos por pertencerem todos a um tempo, o início do século XX, e a um espaço cultural onde os movimentos de juventude foram muito importantes do ponto de vista  social, político e até filosófico (Walter Benjamin escreveu em 1913, tinha 21 anos, um texto programático chamado Metafísica da Juventude).  À juventude cabia a missão de imprimir uma marca profunda na sua época. Essa missão, de carácter messiânico, recusava o convencional engagement político e tinha uma inspiração anarquista e romântica. A juventude devia realizar uma verdadeira redenção da cultura moderna.

Ora, o que é feito hoje da juventude? A resposta é simples: é um ideal de beleza física e um conjunto de hábitos, práticas de consumo e modas vestimentárias. Mas é também uma vida bloqueada. A Universidade moderna, fundada em Berlim por Humboldt no princípio do século XIX, tinha como um dos seus princípios fundamentais a renovação do saber pela sucessão das gerações. Hoje, as escolas e as universidades, em boa parte da Europa, estão envelhecidas: a grande maioria dos professores tem mais de cinquenta anos. Não só há um fosse etário profundo entre eles e os alunos (no ensino básico e secundário isto é gravíssimo) como estes não têm qualquer hipótese de suceder aos seus professores. E noutras profissões acontece o mesmo: os jornais, por exemplo, estão habitados por uma população que anda neles há muito tempo (categoria de usurpadores na qual me incluo) e os vai ocupar até que eles se extingam. Está para breve. Todos aqueles que nos últimos anos entraram de novo na profissão foi apenas para providenciar à proletarização do jornalismo.

Um dia, todo o país das profissões clássicas vai entrar na reforma ao mesmo tempo e não haverá professores, nem médicos, nem funcionários públicos porque entretanto não foram formados, uma vez que não havia lugar para eles, por falta de “empregabilidade”. A sociedade que assim está a ser construída é estéril e corporativa. Aqueles que têm experiência exigem experiência aos que a não têm. A experiência é o requisito que serve de máscara ao sénior e lhe garante que tudo continua na mesma. É, em suma, o capital detido por aqueles que já perderam a juventude, os ideais, a esperança. A metafísica da juventude, a ideia da juventude como uma categoria ética e do “espírito”, foi completamente abolida e o que ficou no lugar dela é o racionalismo dos velhos. Por isso já não há uma vida dos estudantes e até a vida da infância está a desaparecer.

A tarefa política mais urgente seria a criação de movimentos de juventude para recusar com veemência a mutilação e a instrumentalização a que os jovens estão submetidos. Hoje, já ninguém escreve um Tractatus aos 25 anos porque a um jovem não é dada aquela disponibilidade a que dantes se chamava “abstracção pura do espírito”.» – António Guerreiro, no Público.

1 comentário:

fb disse...

Ora, o que é feito hoje da juventude? A resposta é simples: é um ideal de beleza física e um conjunto de hábitos, práticas de consumo e modas vestimentárias. Mas é também uma vida bloqueada. A Universidade moderna, fundada em Berlim por Humboldt no princípio do século XIX, tinha como um dos seus princípios fundamentais a renovação do saber pela sucessão das gerações. Hoje, as escolas e as universidades, em boa parte da Europa, estão envelhecidas: a grande maioria dos professores tem mais de cinquenta anos. Não só há um fosse etário profundo entre eles e os alunos (no ensino básico e secundário isto é gravíssimo) como estes não têm qualquer hipótese de suceder aos seus professores. E noutras profissões acontece o mesmo: os jornais, por exemplo, estão habitados por uma população que anda neles há muito tempo (categoria de usurpadores na qual me incluo) e os vai ocupar até que eles se extingam. Está para breve. Todos aqueles que nos últimos anos entraram de novo na profissão foi apenas para providenciar à proletarização do jornalismo.