sexta-feira, 22 de abril de 2016

Estabilidade, de esquerda e tal...


É muito bonito dizer que se anda a virar a página da austeridade quando na verdade o que se faz é recompor-lhe ligeiramente as parcelas e aumentar-lhe o total. É um acto de coragem ir à Grécia assinar uma declaração conjunta com um colega de obediência ao patrão europeu onde se fala em mais Europa para resolver o problema dos refugiados poucos dias depois de terem ambos assinado o outsourcing das deportações para campos de concentração na Turquia e jurar amizade eterna para bater o pé a Bruxelas poucos dias antes da apresentação pública de um documento onde se anuncia que mais uma vez se obedece aos mesmos senhores. E é muito honesto acenar com a promessa eleitoral de devolver as cinco horas semanais de trabalho gratuito que o anterior Governo impôs aos funcionários públicos para depois, chegado ao poder, andar a adiar essa devolução, recusar-se a devolver três dias de férias também roubados e acabar a comprometer-se com uma redução de efectivos na Administração Pública à boleia do excelente trabalho desenvolvido pelos ladrões anteriores.
O chamado “programa de estabilidade” do Governo é mais uma evidência de que a troika nunca se foi embora. A discussão, técnica, sobre se as contas nele contidas estão ou não mal feitas, sobre se Portugal irá ou não conseguir obedecer às imposições externas, é mais uma demonstração do que é e não deveria ser o debate político que se faz por estes dias, onde a vida dos portugueses, a degradação dos serviços públicos, a criação de emprego e uma recuperação significativa do poder de compra dos salários são pormenores sem importância rigorosamente nenhuma no meio de toda a algazarra.
E até as boas notícias se perdem na desorientação que preside a todas as escolhas. Apesar do resultado poder eventualmente ser o mesmo, uma coisa é reduzir as rendas das PPP para combater os enriquecimentos parasitários, outra bem distinta é fazê-lo para reduzir o défice orçamental. Uma coisa é englobar todos os imóveis de um contribuinte e tributá-los pelo valor da soma assim obtida e pelo critério da sua ocupação por forma a combater a degradação, a desertificação e a especulação urbanística, outra bem distinta é fazê-lo pelo medo de desagradar a uma Europa que se está nas tintas para o nosso bem-estar colectivo. Senão, ponhamos a questão ao contrário. Será que o Governo estaria disposto a aumentar a remuneração do parasitismo das PPP caso não houvesse um tecto para o défice? Será que aceitaria uma proibição de Bruxelas ao combate à especulação urbanística que vem desertificando e degradando os centros das nossas cidades? Gostava de ter o mais ligeiro sinal que as respostas a ambas as questões seriam não.

1 comentário:

fb disse...

O chamado “programa de estabilidade” do Governo é mais uma evidência de que a troika nunca se foi embora. A discussão, técnica, sobre se as contas nele contidas estão ou não mal feitas, sobre se Portugal irá ou não conseguir obedecer às imposições externas, é mais uma demonstração do que é e não deveria ser o debate político que se faz por estes dias, onde a vida dos portugueses, a degradação dos serviços públicos, a criação de emprego e uma recuperação significativa do poder de compra dos salários são pormenores sem importância rigorosamente nenhuma no meio de toda a algazarra.