sexta-feira, 29 de abril de 2016

Da longa série "o mundo que andamos a fazer"


Bem sei que nem sempre é assim, também já tive surpresas bastante agradáveis, e ressalvo devidamente que aquilo a que as generalizações mais extremadas não terão qualquer pejo em apelidar de mentalidade de taxista não é um exclusivo da classe. Porém, não lhes estarei a dar nenhuma novidade se vos disser que é rara a vez que ande de táxi sem ouvir o senhor ou senhora que vai ao volante dizer umas “verdades” sobre direitos que nos outros são privilégios, lengalengas sobre salários que nos outros são sempre um exagero, indignações sobre manifestações dos outros que só empatam quem quer trabalhar, que eles próprios, claro está, estão entre os que mais trabalham e, como toda a gente sabe, os tempos que atravessamos se melhoram é com pessoas que querem trabalhar e não apenas um emprego.

É sem réstia de contentamento de espécie nenhuma que hoje os vejo a provarem desse veneno social individualista e indiferente que, ontem a dos outros, amanhã a nossa, hoje a deles, vai destruindo as vidas de todos. Têm toda a razão naquilo que reivindicam, a Uber veio para desregular um sector que para o bem de todos, e apenas quando voltarmos a ser um todo teremos força para lutar por esse bem comum, haveria que continuar regulado. As condutas menos próprias com que nos deparamos combatem-se com mais fiscalização e não permitindo a concorrência desleal de um operador que não paga licenças e rentabiliza a precariedade laboral. E sobre a manifestação de hoje dos taxistas não direi mais do que isto, o mundo será sempre como nós o fizermos, estou solidário com os taxistas, como sempre estarei com todos os que se batam por melhores condições de trabalho.

Já sobre o veneno social que atrás referi, custa-me verificar que, ao contrário do que a enorme disparidade no número de anos que estudaram para leccionar faria supor, entre aqueles que ensinam os mais jovens a ser gente também há quem tenha mentalidade de taxista. Pude comprová-lo numa caixa de comentários de uma postagem num blogue – link aqui – lido maioritariamente por professores sobre uma proposta da autoria do Ministério da Educação que, caso a classe docente não se mobilize para impedir que seja aprovada, no concreto e no imediato desprotege quem até agora era protegido e num abstracto do qual ninguém está livre os deixa a todos à mercê do que possa acontecer a cada um.

Em causa está a inacreditável proposta de alteração ao Regulamento de mobilidade por doença que até agora possibilitava a todos os docentes com a vida condicionada por uma das enfermidades incapacitantes de uma lista, devidamente atestada e sempre ao dispor para confirmação por junta médica, desenvolverem a sua actividade profissional numa escola mais perto de casa do que aquela onde ficaram colocados. O ME começa por dizer que “reconhece a necessidade de protecção e apoio aos docentes em situações de doença, quer do próprio quer do cônjuge, ou da pessoa que com ele viva em união de facto, descendente ou ascendente que estejam a seu cargo” para a seguir dizer quanto e como o reconhece.

No ponto 9 do documento, o ME diz que apenas o reconhece até a um máximo de 5 docentes por escola: a protecção do sexto docente desaparece até mesmo no caso de uma doença tão grave como um cancro.

No ponto 3 diz que mesmo esses 5 ficam condicionados: “A mobilidade dos docentes ao abrigo do presente despacho não pode originar insuficiência ou inexistência de componente lectiva dos docentes do agrupamento de escolas ou da escola não agrupada onde seja efectuada a colocação

Na alínea a) do ponto 2 diz que apenas o reconhece nos casos em que “a deslocação se mostre necessária para assegurar a prestação dos cuidados médicos de que carece o próprio ou para apoio nos restantes casos”: deficientes motores, visuais ou auditivos aos quais seja inútil proceder a qualquer tratamento ficam desprotegidos.

No ponto 5 diz que um docente com 30 anos de serviço que sofra de uma hérnia tem mais direito a ser protegido do que um docente com 29 anos de serviço que sofra de doença oncológica. No ponto 6 diz que um docente que tenha um filho deficiente com mais de 12 anos tem menos direito a ser protegido do que o docente com hérnia. O disparate continua, mas fico-me por aqui.

 Resumindo: o Ministério da Educação quer acabar com o regime de mobilidade por doença. O PS, o PSD e o CDS chumbaram a proposta de redução da idade de reforma sem penalizações para portadores de incapacidades apresentada pelo Bloco de Esquerda em sede de Orçamento de Estado. A sensibilidade “de esquerda” que vem inscrita no presente diploma aponta uma de duas escolhas aos até agora abrangidos pela assim extinta mobilidade por doença: ou reformarem-se antecipadamente e sujeitarem-se a viver com a miséria de uma reforma por invalidez ou mudarem-se com a casa às costas aos 50 e 60 anos para a cidade onde fica a escola onde estão colocados. Não quero acreditar que a classe docente, os seus sindicatos e a esquerda que sempre defendeu quem trabalha sejam incapazes de impedir mais este retrocesso enorme. Não quero acreditar que todos os que leiam estas linhas consigam ficar indiferentes ao futuro que o actual Governo reservou àqueles de nós cuja fragilidade deveria merecer o mínimo dos mínimos de consideração e respeito. Como escrevi atrás, o mundo será sempre como nós o fizermos. E esta proposta é uma indecência do princípio ao fim.

1 comentário:

fb disse...

Resumindo: o Ministério da Educação quer acabar com o regime de mobilidade por doença. O PS, o PSD e o CDS chumbaram a proposta de redução da idade de reforma sem penalizações para portadores de incapacidades apresentada pelo Bloco de Esquerda em sede de Orçamento de Estado. A sensibilidade “de esquerda” que vem inscrita no presente diploma aponta uma de duas escolhas aos até agora abrangidos pela assim extinta mobilidade por doença: ou reformarem-se antecipadamente e sujeitarem-se a viver com a miséria de uma reforma por invalidez ou mudarem-se com a casa às costas aos 50 e 60 anos para a cidade onde fica a escola onde estão colocados. Não quero acreditar que a classe docente, os seus sindicatos e a esquerda que sempre defendeu quem trabalha sejam incapazes de impedir mais este retrocesso enorme. Não quero acreditar que todos os que leiam estas linhas consigam ficar indiferentes ao futuro que o actual Governo reservou àqueles de nós cuja fragilidade deveria merecer o mínimo dos mínimos de consideração e respeito. Como escrevi atrás, o mundo será sempre como nós o fizermos. E esta proposta é uma indecência do princípio ao fim.