terça-feira, 15 de março de 2016

Sobre os afectos, a grandeza dos portugueses e essas coisas


Tinha uma boa vida e uma carreira promissora à sua frente. Viveu num tempo em que o horror se banalizou, podia perfeitamente ter sido mais um a fechar os olhos ao que se passava ao seu redor, ninguém lho apontaria. Porém, não o fez, arriscou tudo e tudo perdeu para salvar milhares de seres humanos à morte certa. E é isto que distingue os grandes homens de todos os anões grandes apenas naquela aparência que incha à sombra da indiferença aos seus contributos para o horror. Os mais atentos já perceberam a quem me refiro. Aristides de Sousa Mendes, um dos melhores portugueses de sempre. As iniciativas que lhe fizeram a justiça de o retirarem do esquecimento a que a nossa ditadura o condenou juntamente com a miséria que lhe destinou não têm mais de seis anos. Há seis dias o país vibrou com os afectos de um discurso que inchou sobre o elogio à grandeza dos portugueses. E ontem PS, PSD e CDS concertaram-se para verem aprovada uma despesa de mais de duas dezenas de milhão, encomendados por essa Europa amiga do nosso aniquilamento económico e social e, à revelia de todas as convenções internacionais e do património europeu em matéria de direitos humanos, destinados a pagar a um estado acusado da autoria de diversos atentados terroristas contra o seu próprio povo por um serviço de acolhimento a refugiados com inegáveis semelhanças com aquele outro do qual Aristides de Sousa Mendes salvou milhares de judeus. A grandeza dos portugueses, pois sim. Estou mesmo a vê-los no consulado português em Bordéus naquele 1940 também de refugiados aos milhares, um a puxar os afectos à sua popularidade, outro de bandeirinha na lapela a invejar o comando da obediência ao vizinho, o vizinho a dizer que tem que ser e a jurar fidelidade ao consenso europeu. O de 1940 mandava os indesejados para a Polónia. O de 2016 manda-os para a Turquia. E a grandeza dos portugueses espelhada no voto dos seus eleitos. PS, PSD e CDS, em maioria, não perderão um único voto por terem permitido esta vergonha imensa. Bloco e PCP, em minoria, não ganharão um único voto por terem tentado impedi-la. Descansa em paz, grande Aristides, olha lá que se este tempo fosse o teu também não te safavas.




Foto retirada daqui.

2 comentários:

fb disse...

A grandeza dos portugueses, pois sim. Estou mesmo a vê-los no consulado português em Bordéus naquele 1940 também de refugiados aos milhares, um a puxar os afectos à sua popularidade, outro de bandeirinha na lapela a invejar o comando da obediência ao vizinho, o vizinho a dizer que tem que ser e a jurar fidelidade ao consenso europeu. O de 1940 mandava os indesejados para a Polónia. O de 2016 manda-os para a Turquia. E a grandeza dos portugueses espelhada no voto dos seus eleitos. PS, PSD e CDS, em maioria, não perderão um único voto por terem permitido esta vergonha imensa. Bloco e PCP, em minoria, não ganharão um único voto por terem tentado impedi-la. Descansa em paz, grande Aristides, olha lá que se este tempo fosse o teu também não te safavas.

fernanda disse...

De facto a retórica dos afetos é isso mesmo retorica porque quando toca a finados é que se vê o que eles contam. Aristide de Sousa Mendes foi grande e não consta que tenha invocado afetos invocou sim a sua consciencia e a necessidade de ficar de bem com ela, mesmo desobedecendo a homens, esses sim, de baixa estatura.