sexta-feira, 11 de março de 2016

O último fósforo



Pensar e ler o mundo dentro e fora da caixa. Fora da caixa é-se “irresponsável”, “radical”, “ideológico”. Dentro da caixa é-se “responsável”, “consensual”, puro. Somos constantemente bombardeados com esta dicotomia que premeia com aceitação, projecção e até carreiras aqueles que adiram ao discurso dominante e que impõe a impopularidade, o descrédito e o silenciamento àqueles que ousem sair da caixinha onde se aninha a cobardia de afirmar sem rodeios que o rei vai nu.


De dentro da caixa apenas se vê a xenofobia do candidato a Presidente dos Estados Unidos que ameaça com muros, a construir ao longo de toda a fronteira Sul para rechaçar a imigração que chega do México, e quer expulsar todos os muçulmanos. De fora da caixa consegue ver-se com nitidez que, do lado de cá do Atlântico, a mesmíssima xenofobia que ergue muros e expulsa indesejados já não é nenhuma ameaça, é uma realidade.


Em desespero de causa, como última cartada, ontem o Banco Central Europeu aumentou a dose de uma receita que vem acumulando fracassos. Dentro da caixa repete-se que é desta que irá resultar porque, argumenta-se, as bolsas reagiram positivamente, como em todas as vezes anteriores em que fracassou.


Mas fora da caixa percebe-se que a medida mais não é do que regar uma fogueira que arde a bom arder com ainda mais gasolina e que, se o objectivo fosse mesmo relançar a economia, em vez de baixar o juro cobrado aos intermediários que continuam a lucrar com o endividamento dos países, as regras seriam alteradas de forma a permitir que o Banco Central Europeu fizesse como todos os outros bancos centrais e passasse a financiar directamente os estados, no caso, ao mesmo juro nulo a que a partir de agora se podem financiar os bancos, eliminando dessa forma o garrote da dívida que impede estados como o português de utilizar o investimento público para reanimar economias que morreram às mãos da ganância da finança.


Como não é, dentro da caixa finge-se que é. E hão-de continuar a entreter-nos com diferenças de décimas nessa austeridade que nos continuará a arruinar e a vendê-las como a diferença entre a virtude e o pecado. Até que a deflação se mude de armas e bagagens para a Europa, até que o festival de imparidades dos colossos da banca europeia mostre que o crash americano não passou de uma brincadeira de crianças e até que a bolha especulativa chinesa estoure de vez, para citar apenas três certezas incertas apenas no quando, haveremos de ouvi-los dizer que não há alternativa. E depois que afinal havia. Em 1929 também foi assim. E depois também houve xenofobia, também houve deportações, também houve povos subjugados por outros povos, também houve indiferença, também havia uns tipos engraçados que convenciam pelo “politicamente incorrecto”, também havia uma caixinha de horrores dentro da qual sempre se respirou a maior normalidade. Até que um dia… Bom, o resto vocês também já conhecem.

1 comentário:

fb disse...

Em desespero de causa, como última cartada, ontem o Banco Central Europeu aumentou a dose de uma receita que vem acumulando fracassos. Dentro da caixa repete-se que é desta que irá resultar porque, argumenta-se, as bolsas reagiram positivamente, como em todas as vezes anteriores em que fracassou.