segunda-feira, 7 de março de 2016

Gostei de ler: "Mr. Scrooge and Dr. Moedas"


«Diz Carlos Moedas, agora comissário europeu, que não há consenso para a reestruturação da dívida. “No curto prazo”, tem o cuidado de acrescentar. Em todo o caso, a questão é uma garotice, sublinha o comissário: “Sinceramente, é daqueles temas em que eu não consigo intelectualmente perder muito tempo com ele, exactamente porque sei que há outras maneiras de conseguir avançar na Europa e não estar a ir para temas onde não vamos conseguir qualquer tipo de consenso”. Ele não consegue “intelectualmente perder muito tempo com ele”, para que havemos de o incomodar.

Houve um tempo, mas isso foi ainda antes de ser comissarionado, e já vai para meia dúzia de anos, foi quase no século passado, que um certo Carlos Moedas achava que “intelectualmente” o problema merecia consideração. De tal modo que e ia “falar com os nossos credores” para lhes impor uma perda implacável, porque “só resta o caminho da reestruturação da dívida”. Não resta mesmo mais nada, assim afirmava corajosamente o futuro comissário. A 26 de maio de 2010, receitava ele:

“Se Portugal quisesse voltar aos níveis de dívida pública de 2007 teria que apresentar um superavit primário de 6% ao ano durante 5 anos. Alguém acredita que estes cenários são possíveis? Eu tenho muitas dúvidas e por isso só nos resta o possível caminho da reestruturação da dívida. Ou seja, ir falar com os nossos credores e dizer-lhes que dos 100 que nos emprestaram já só vão receber 70 ou 80. Este é um caminho árduo e complicado, a tal parede que tanto se fala, mas que nos permitiria começar de novo”.

O “caminho árduo e complicado” ficou pelo caminho. Deitar abaixo a “parede”, talvez outro dia. É o cheiro do poder, dirão os leitores mais maliciosos. Ainda não era secretário de Estado, ainda não era Comissário, ainda não estava lá em cima, dizia o que pensava, agora é vê-lo, senso e oficialismo, bem sei que é isso que estão a pensar. Tudo errado, é simplesmente o peso da responsabilidade, mas claro que antes eram declarações responsáveis, só que hoje são ainda mais responsáveis. Agora, meia bola e força, “sinceramente, é daqueles temas em que eu não consigo intelectualmente perder muito tempo com ele”. Como é que Moedas havia de ouvir Moedas?

Charles Dickens fez destas dúvidas dilacerantes um conto de Natal, em que Mr. Scrooge é perturbado pelo fantasma do seu próprio passado e pelo do seu futuro. Para descanso de todos, espero que o fantasma de Moedas nunca povoe os sonhos do comissário Moedas. Isso seria “intelectualmente uma perda de tempo”. Nem de dia nem de noite ele aceita “estar a ir para temas onde não vamos conseguir qualquer tipo de consenso”. Ele é homem de consenso, mesmo que esse consenso seja difícil consigo próprio, em particular se se lembrar do seu antigo eu.» – Francisco Louçã, no TME.

1 comentário:

fb disse...

Carlos Moedas em 2010: “Se Portugal quisesse voltar aos níveis de dívida pública de 2007 teria que apresentar um superavit primário de 6% ao ano durante 5 anos. Alguém acredita que estes cenários são possíveis? Eu tenho muitas dúvidas e por isso só nos resta o possível caminho da reestruturação da dívida. Ou seja, ir falar com os nossos credores e dizer-lhes que dos 100 que nos emprestaram já só vão receber 70 ou 80. Este é um caminho árduo e complicado, a tal parede que tanto se fala, mas que nos permitiria começar de novo”.