segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Porreiro, pá






O Acordo Ortográfico de 1990 sempre me irritou. Pelo resultado final, transformou a nossa Língua numa amálgama ilógica e disforme, pela argumentação utilizada para o imporem sem referendo, que vivemos num mundo cada vez mais global sem lugar para a riqueza da diversidade e que uma Língua com regras ortográficas comuns para as suas diferentes variantes, que nenhum acordo tornaria iguais ,resultaria numa Língua mais inclusiva, pelo que acabou por acontecer, hoje somos o único país da lusofonia onde há quem escreva segundo as novas regras, os outros deixaram-nos a escrever sozinhos com o aborto nos braços, mas sobretudo por termos aceitado negociar alterações a uma Língua que por ser nossa não fazia qualquer sentido negociar.

Se repararem bem, Maastricht, que aconteceu mais ou menos pela mesma altura para evoluir até ao Tratado de Lisboa, embora divirja do AO nas cores políticas dos apoios que obteve, foi beber à mesma fonte dos disparates. Também  nos armámos em gajos porreiros para nos esquecermos de quem somos, um país pobre que ficaria ainda mais pobre se aceitasse reger-se por regras que, nesse mundo cada vez mais global onde mergulhámos de cabeça ignorando os tubarões e as alforrecas, apenas trariam proveitos para os países ricos. Também nos foi imposto como facto consumado, conseguiram impô-lo sem consulta popular. Também abdicámos desse poder que é nosso e só nosso de escolher que presente e que futuro queremos para a comunidade que vamos deixando de ser à medida que empobrecemos.

E a União Europeia também se vai transformando numa amálgama disforme, um absurdo ainda maior do que o AO que cresce à sombra da nossa capacidade de acomodar disparates. Ele é o Ministro das Finanças da Alemanha a disfarçar o colapso iminente do Deutsche Bank com paleio moralista sobre o nervosismo causado pelos, no máximo dos máximos, para usar a benevolência ao extremo, 0,2% de alívio da austeridade num país cujo PIB não chega a ser nem 2% do PIB europeu. Ele é o Ministro das Finanças da Holanda, um dos paraísos fiscais que anualmente nos rouba milhares de milhão em impostos, a alinhar na mesma conversa do moralista alemão. Ele é a Dinamarca a aprovar legislação absolutamente vergonhosa para confiscar os poucos pertences que os refugiados que cheguem ao país ainda possam conservar na sua posse. Ele é a Hungria que decide murar o país sem que haja uma voz que se insurja quer contra a violação da liberdade de circulação dentro do espaço europeu, quer contra a desumanidade que lhe está subjacente e viola todos os tratados internacionais.

E agora o Reino Unido. Em vez de exigirmos regras que excepcionem países como Portugal, Grécia e Espanha do pior que a Europa tem, aceitamos regras  excepcionais com o pior que a Europa passará a ter para vigorarem apenas no Reino Unido. Um trabalhador português continuará a descontar tanto como um britânico mas apenas terá direito ao mesmo abono de família que ele se os seus filhos estiverem no país, o britânico não perderá esse direito nem que os seus filhos vivam na China. Os bancos europeus poderão continuar a arruinar-se sem qualquer controlo no grande casino da city londrina mas o Reino Unido ficará isento de qualquer contribuição no caso de ser necessário tapar os rombos causados por uma especulação financeira que adquiriu o estatuto de sagrada.

Tudo isto se tornou um absurdo tão grande que, ao mesmo tempo que David Cameron se vangloria de ter alcançado o melhor de dois mundos, por cá, primeiro pela voz de António Costa, logo a seguir pela de Augusto Santos Silva, o PS desdobra-se em convites ao PSD para "consensos não apenas potenciais, também absolutamente necessários" em matérias que incluem esta política europeia e o comprometimento com esta União Económica e Monetária, isto é, um consenso para acomodar o contrário do melhor dos dois mundos do PM britânico. Se depender do centrão, tal como no Acordo Ortográfico, acabaremos sozinhos a dar beijinhos aos tubarões e a fazer carinhos às alforrecas que se servem da fortuna que nos cobram em juros para, através da chantagem, nos imporem a austeridade que melhor nos aniquila. Esta gente mete medo.

1 comentário:

fb disse...

Se depender do centrão, tal como no Acordo Ortográfico, acabaremos sozinhos a dar beijinhos aos tubarões e a fazer carinhos às alforrecas que se servem da fortuna que nos cobram em juros para, através da chantagem, nos imporem a austeridade que melhor nos aniquila. Esta gente mete medo.