segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O "possível", o aplauso da "vergonha"


Muita gente escolhe o projecto político que defende de acordo com as decisões que vão sendo tomadas pelo partido que apoia, quando o que deveria fazer, e ao não fazê-lo vai ajudando o debate político a transformar-se numa disputa de claques estéril que alimenta uma abstenção que não para de aumentar,  seria apoiar o partido que melhor execute o projecto político em que acredita. É esta forma de estar que hoje rapidamente transforma medidas que objectivamente foram uma vergonha quando eram executadas pelo PSD em medidas "possíveis" e "realistas" quando são e por serem implementadas pelo PS, ou, na versão da facção rival, transforma em "vergonha" as "reformas estruturais necessárias" implementadas pelo PSD e pelo CDS.

Para não me alongar muito, irei saltar os milhares de milhão de dinheiro público que estão a ser desviados para a espanholização em curso do nosso sector financeiro, a oferta da TAP, que não foi anulada como devia, que se prepara para resultar numa venda a chineses que irá render um encaixe de muitos milhões a um consórcio que ficou dono da TAP sem ter que pagar um cêntimo, a actualização, injustificável num contexto de queda abrupta das cotações do petróleo, de 2,5% nos tarifários da energia, decidida à medida de um aumento ainda maior da renda garantida pelo anterior Governo aos chineses que a compraram ao preço da chuva, o acréscimo de vários milhares de milhão previsto no Orçamento deste ano para garantir um aumento equivalente nos lucros das PPP rodoviárias, o desinvestimento que irá continuar a apodrecer o Serviço Nacional de Saúde este ano e o corte que foi decidido para o sector da Educação em paralelo com a manutenção dos contratos de associação através dos quais todos nós continuaremos a subsidiar o negócio dos colégios privados. Se tudo isto era uma vergonha, e era, nos anos negros da governação PSD-CDS, o argumento da falta de tempo é muito fraco para transformar toda a série noutra coisa qualquer, a vergonha é a mesma, mantém-se.

E já me alonguei demasiado. O meu propósito inicial era escrever um texto curtinho sobre a entrevista que o Ministro Vieira da Silva deu ao DN e à TSF para deixar no ar a promessa vaga de que as pensões com carreiras contributivas mais longas vão ser recompensadas e acenar com uma redução da Taxa Social Única dos trabalhadores com salários até 600 euros em 2017, isto é, um, para justificar publicamente por que razão, e tanto como o anterior, o actual Governo continua a obrigar aqueles trabalhadores que perderam a juventude começando a trabalhar aos 12 e aos 13 anos a carreiras contributivas de 50 e mais anos para não serem penalizados na reforma que recebem e, dois, para não explicar o inexplicável, o impossível da redução da TSU dos trabalhadores com salários inferiores a 600 euros que aconteceu em simultâneo com a compensação daqueles patrões que pagam os salários mais miseráveis com um incentivo à exploração do factor trabalho através de um desconto na mesma TSU que não pôde ser reduzida aos trabalhadores.

Não é que a utilização no presente de dinheiros da Segurança Social que farão falta no futuro seja uma medida da minha simpatia, pelo contrário, o que defendo passa por uma redução quer da idade da reforma quer do horário semanal de trabalho, só assim se consegue garantir trabalho a quem tem esse direito obstruído por políticas que privilegiam o lucro e a concentração da riqueza em vez do pleno emprego e só assim, juntamente com a diversificação das suas fontes de financiamento, se garante a sustentabilidade da Segurança Social, mas também aqui nada mudou. Desagrada-me ainda mais, sinto-me intrujado, esta série interminável de apostas na continuidade que vão sendo vendidas como alteração da orientação de política económica que definitivamente não são. Cabe-nos apoiar o Governo em tudo o que faça de diferente e melhor relativamente ao anterior, e tem feito algumas coisas bonitas,  estou de acordo. No que faça de mau e de igual ou semelhante, porém, não contem comigo para aplaudi-los. Isto não é um Benfica-Sporting, é política, e a política esvazia-se quando perde de vista o país e as vidas que todos queremos melhores. Nunca vi nada a mudar ao som de aplausos. O que se aplaude fica sempre muito bem como está.

1 comentário:

fb disse...

Isto é, um, uma entrevista para justificar publicamente por que razão, e tanto como o anterior, o actual Governo continua a obrigar aqueles trabalhadores que perderam a juventude começando a trabalhar aos 12 e aos 13 anos a carreiras contributivas de 50 e mais anos para não serem penalizados na reforma que recebem e, dois, para não explicar o inexplicável, o impossível da redução da TSU dos trabalhadores com salários inferiores a 600 euros que aconteceu em simultâneo com a compensação daqueles patrões que pagam os salários mais miseráveis com um incentivo à exploração do factor trabalho através de um desconto na mesma TSU que não pôde ser reduzida aos trabalhadores.