domingo, 7 de fevereiro de 2016

Nem de esquerda, nem de direita, antes pelo contrário












Às vezes, o centro é a pior das escolhas. Apanha-se de um lado e apanha-se do outro. Até cair. A História está repleta de exemplos do erro que muitas vezes é querer agradar a gregos e a troianos. Acaba por não se agradar a ninguém. Foi o que aconteceu no Brasil no final do século XIX. A monarquia caiu depois de abolir a escravatura. Os donos de engenhos e os fazendeiros agrícolas não perdoaram à coroa ter-lhes retirado o direito de propriedade que tinham sobre os seus escravos. Os escravos e os movimentos abolicionistas não perdoaram à coroa não ter tomado as medidas necessárias para evitar que os escravos libertados continuassem escravos da falta de direitos para garantirem o seu sustento.


Sem querer abusar da comparação e borrifando-me na popularidade que sempre se perde quando se nada contra a corrente, o certo é que os acontecimentos dos últimos dias me puseram a recordar a conjugação de descontentamentos que estão na génese da proclamação da República no Brasil no ano imediatamente a seguir ao da Lei Áurea que aboliu a escravatura. É verdade que, entre outros esforços bastante louváveis, ao repor algum poder de compra aos salários  e ao aliviar a sobretaxa de IRS, o Orçamento de Estado deste ano traduz um esforço de inversão do sempre a perder dos últimos sete anos. Porém, também é verdade que a carga fiscal irá aumentar e que muita dessa recuperação do poder de compra se irá diluir no aumento de preços  sua consequência, que o investimento público é insuficiente, que haverá cortes na Educação, que a Saúde não receberá nada que se compare com a injecção que o BANIF recebeu nos últimos dias de 2015 para substituir e reparar os equipamentos inutilizados nos anos negros de um desinvestimento que se mantém e que, à excepção do IMI dos fundos imobiliários, os muito ricos e as grandes empresas permanecerão à margem de qualquer contribuição.


Costa também escolheu aquele centro onde, porque não se agrada o suficiente a ninguém,  se leva porrada de todos os lados. Tem contra si uma comunicação social  que nem se dá ao trabalho de esconder o seu apoio à linha de subserviência a Bruxelas do seu antecessor. E ainda se põe a jeito ao viabilizar um negócio ruinoso, o da privatização da TAP, que seria sempre nulo por ter sido firmado por um Governo em gestão. A austeridade continua, as injecções de dinheiro público em bancos falidos também, os negócios em que o Estado perde sempre para  um privado também. Para a grande maioria vai ser complicado sentir no bolso as diferenças entre 2015 e 2016, se é que não o será igualmente relativamente a 2008, há uma criseinternacional por aí a bater à porta. Costa tinha tudo para virar em definitivo uma página negra da nossa História. É uma lástima ir verificando como vai deitando tudo a perder.

1 comentário:

fb disse...

Às vezes, o centro é a pior das escolhas. Apanha-se de um lado e apanha-se do outro. Até cair. A História está repleta de exemplos do erro que muitas vezes é querer agradar a gregos e a troianos. Acaba por não se agradar a ninguém.