Quando o tema é subvenções
vitalícias de ex-detentores de cargos políticos, gera-se imediatamente uma
histeria colectiva que tudo abafa. É extremamente fácil escrever uma porcaria
qualquer sobre o tema, daquelas que
sempre fazem disparar as partilhas e põem a popularidade do seu autor em forte
alta. Não gosto de alimentar histerias.
Sobre as subvenções apenas direi
que são, ou melhor, eram um privilégio injustificável, este post não é sobre
subvenções vitalícias.
Nem sobre a aberração de fazer
depender o seu recebimento da prova de rendimentos do agregado familiar abaixo
dos dois mil euros, que quem defenda que as regras não podem ser alteradas no
final do jogo, por mais que deteste políticos, tem que avaliar como um avanço
perigoso para terrenos onde os direitos adquiridos desaparecem ao sabor da
vontade de políticos que, se resumirmos a coisa ao plano dos afectos, também
têm todo o direito de não morrerem de amores pelos seus titulares.
Finalmente, o que fez saltar
estas linhas também não foi a decisão do Tribunal Constitucional, ontem tornada
pública, pela inconstitucionalidade da
norma atrás referida, com a qual, pela razão já apontada, não me resta outra alternativa que não a de
estar de acordo.
O que aponto aqui como errado, e
muito errado, começa no pedido que lhe deu origem, subscrito por pelo menos 23
deputados anónimos, e termina na decisão de obrigar o Estado a devolver as
subvenções cortadas pelo artigo em causa.
O primeiro é uma cobardia
inqualificável, mais inqualificável ainda por ter obtido cobertura de um Tribunal
Constitucional que se presta ao papel de se colocar entre eleitos e eleitores, qual
guarda-costas que protege a cobardia gananciosa dos primeiros do julgamento
político dos segundos. Podemos não saber exactamente quem são, mas não há
Tribunal Constitucional com poderes de influenciar a percepção precisa que
temos sobre os partidos a que pertencem.
A segunda é uma arbitrariedade
vergonhosa, o mesmo Tribunal Constitucional que adiou o mais que pôde a
declaração de inconstitucionalidade de cortes de salários, de pensões e de
complementos de reforma, o mesmo que decidiu que não haveria devolução desses
confiscos feitos ao arrepio da Lei fundamental nem mesmo depois de se
pronunciar pela sua inconstitucionalidade, porque desta vez são subvenções e
não salários ou pensões, porque desta vez são ex-políticos e não cidadãos que
vivem dos rendimentos do seu trabalho, decide o que se negou a decidir no
pronunciamento anterior e ainda por cima fundamenta o seu veredicto nos
princípios da igualdade e da confiança, exactamente aqueles que a sua decisão
mais agride.
Não há igualdade que resista a um
tribunal superior que trata ex-políticos de uma maneira e o cidadão comum de
outra, da mesma maneira que não há confiança que resista à cobertura dada pela
falta de vergonha dos juízes que o compõem ao anonimato cobarde de pelo menos
23 nódoas que mancham um Parlamento composto por 230 deputados todos
diferentes. A gravidade da decisão de ontem está aqui. O valor das
subvenções, que nem é assim tão elevado, o objecto do burburinho e a delícia desses
comentadores que se tornam populares opinando ao paladar de plateias que aplaudem
o que querem ler e ouvir, é apenas um figurante de mais um episódio triste de uma
história triste, ainda mais triste pela confusão instalada entre figurantes e protagonistas,
um contributo para que ainda mais gente volte as costas à democracia e à participação
nas nossas escolhas colectivas. E um bom bocado mais triste ainda por ser a nossa
história.
Actualização: entretanto
foi revelada a
lista dos deputados que pediram a fiscalização sucessiva da norma do OE 2015
que fazia depender o recebimento da subvenção do rendimento auferido. Há 21 magníficos
do PS e 9 magníficos do PSD. À cabeça está a candidata presidencial Maria de Belém
Roseira, que em 2012 se recusou a fazer parte
dos 23 deputados do Bloco e do PS que solicitaram a fiscalização que culminou no
chumbo das normas do OE relativas ao confisco de salários de funcionários públicos
e de pensões de reforma. Nas mesmas condições estão os actuais ministros João Soares e Ana Paula
Vitorino, os ex-ministros Alberto Costa, Alberto Martins e Jorge Lacão, todos socialistas,
João Bosco Mota Amaral, ex-presidente da Assembleia da República, e os
ex-ministros do PSD Carlos Costa Neves e Couto dos Santos. Completam a lista André Figueiredo, António
Braga, Celeste Correia, Fernando Serrasqueiro, Idália Serrão, José Junqueiro,
José Lello, José Magalhães, Laurentino Dias, Miguel Coelho, Paulo Campos,
Renato Sampaio, Rosa Albernaz, Sérgio Sousa Pinto e Vitalino Canas, todos do PS;
e Arménio Santos, Correia de Jesus, Francisco Gomes, Guilherme Silva, Hugo
Velosa e Joaquim Ponte, do PSD.


2 comentários:
Não há igualdade que resista a um tribunal superior que trata ex-políticos de uma maneira e o cidadão comum de outra, da mesma maneira que não há confiança que resista à cobertura dada pela falta de vergonha dos juízes que o compõem ao anonimato cobarde de pelo menos 23 nódoas que mancham um Parlamento composto por 230 deputados todos diferentes. A gravidade da decisão de ontem está aqui. O valor das subvenções, que nem é assim tão elevado, o objecto do burburinho e a delícia desses comentadores que se tornam populares opinando ao paladar de plateias que aplaudem o que querem ler e ouvir, é apenas um figurante de mais um episódio triste de uma história triste, ainda mais triste pela confusão instalada entre figurantes e protagonistas. E um bom bocado mais triste ainda por ser a nossa história.
Não posso deixar de participar nesta indignante atitude do tribunal constitucional, seita de despudorados que gozam o povo mas, não tarda a resposta que será demolidora.
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