Foi abundante e variada a série
de disparates e absurdos que fizeram da última a mais longa década
presidencial. O país, quero dizer, aquela parte de país a que pertenço, respira
de alívio, já falta pouco para que Cavaco parta para o tal sítio para onde, estou
certo de não ter sido o único, o fomos mandando sem sermos obedecidos. Porque
obedecerá finalmente, cabe-nos agora designar-lhe sucessor e os dois critérios
que me parecem os mais lógicos para orientar essa escolha, não podemos deitar
ao mar o aprendizado desta última década perdida, passam precisamente pela má
experiência Cavaco e pela maximização da utilidade do voto naquele candidato
que melhor garanta que, um, não será o que aquele Aníbal foi e, dois, que tenha
potencial para ser o que ele não foi. Quem queira diferente, como é óbvio,
votará na diferença.
E, sem sair do óbvio, quem não
queira muito diferente, ou por ser da opinião que Cavaco não foi
suficientemente mau, ou por engajamento político, tudo deve fazer para esbater
as diferenças que interessam no que é essencial e, porque Cavaco sai de Belém
com a popularidade na lama e os portugueses exigem diferença, dar o seu melhor para
fazer aparecer diferenças que não fazem diferença nenhuma. Têm trabalhado muito
bem. Marcelo Rebelo de Sousa vai à frente nas sondagens e dispõe de uma enorme
margem para toda a concorrência, é o candidato de uma comunicação social que se
desdobra em entrevistas a apoiantes seus, que lhe enaltece os dotes, que o
ajuda a contornar e não lhe dirige as perguntas difíceis, que direcciona um debate
que deveria ser político para a sua dimensão técnica, onde o jurista comentador
não tem qualquer dificuldade em brilhar.
Entendamo-nos bem sobre o PR que
queremos eleger. Seguramente que não foram os conhecimentos técnicos de cada um
sobre a nossa Constituição e o nosso ordenamento jurídico, os dotes de oratória
também não foram, que fizeram de Cavaco Silva e de Jorge Sampaio
respectivamente o pior e o melhor Presidente das últimas quatro décadas de
democracia, até porque a Presidência da República dispõe de juristas
contratados para esse efeito, quantos deles não trabalharam com ambos, melhor e
pior Presidente da nossa História. O que os fez o Presidente que queremos
esquecer e o Presidente que deixou saudades foi a leitura política que cada um
deles fez da Constituição, dos poderes que a CRP confere ao Presidente da
República em abstracto e o exercício, opção de cada um, desses poderes, do qual
resultaram os Presidentes da República em concreto Cavaco e
Sampaio.
Com toda a certeza não foi por
falta de conhecimentos técnicos e sim por opção política que Cavaco não
accionou um dos poderes que apenas cabe ao Presidente da República, o de
requerer a fiscalização preventiva da constitucionalidade de uma norma
jurídica, mais célere e com efeitos suspensivos que os pedidos de fiscalização
sucessiva não têm, quando pôs o país à espera da decisão do Tribunal
Constitucional sobre os cortes de salários na função pública e confisco de
pensões aos reformados que o anterior Governo inscreveu no OE desse ano.
Recordo que o TC chumbou os cortes mas – e reparem bem os que andam sempre com
a boca cheia de leis – optou por não obrigar o Executivo a devolver a meia
dúzia de meses de cortes confiscados ilegalmente. E faço notar que os vários pedidos
de fiscalização sucessiva que deram origem ao recorde de chumbos a tentativas
de violação da Constituição, o orgulho dos indefectíveis defensores da
austeridade para todo o sempre, apenas aconteceu por haver deputados no
Parlamento em número suficiente para o requererem.
Sem essas 23 assinaturas, e a
votação das legislativas anteriores podia perfeitamente ter ditado que não
houvesse as 23 necessárias, essas normas estariam em vigor porque em Belém durante
dez longos anos morou alguém que, quando não as promoveu, sempre colaborou com
o Governo de Passos Coelho em todas as canalhices. É, pois, por aqui – política
– que passa a diferença entre ter um Marcelo ou ter uma Marisa ou um Edgar a cumprir
e fazer cumprir a Constituição. É também por aqui – política – que passa a indiferença
de ter um Marcelo ou uma Maria de Belém a subjugá-la à obediência a Bruxelas do
partido respectivo. E é ainda por aqui que passa a preferência dos candidatos que
se valem de todas as técnicas para fugirem do debate – político – que os prejudica
para o concurso do mais simpático para convidar a ir lá a casa almoçar, que o seu
exército de comentadores e jornalistas não terá pejo algum em ajudar a ganhar. Corre sempre tudo pelo melhor quando ninguém pergunta se o convidado é dos que ajudam a tirar ou dos que ajudam a pôr comidinha na mesa (ler aqui).


1 comentário:
Entendamo-nos bem sobre o PR que queremos eleger. Seguramente que não foram os conhecimentos técnicos de cada um sobre a nossa Constituição e o nosso ordenamento jurídico, os dotes de oratória também não foram, que fizeram de Cavaco Silva e de Jorge Sampaio respectivamente o pior e o melhor Presidente das últimas quatro décadas de democracia, até porque a Presidência da República dispõe de juristas contratados para esse efeito, quantos deles não trabalharam com ambos, melhor e pior Presidente da nossa História. O que os fez o Presidente que queremos esquecer e o Presidente que deixou saudades foi a leitura política que cada um deles fez da Constituição, dos poderes que a CRP confere ao Presidente da República em abstracto e o exercício, opção de cada um, desses poderes, do qual resultaram os Presidentes da República em concreto Cavaco e Sampaio.
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