«The
Inquiry, um dos podcasts mais interessantes da actualidade, dedicou um
dos seus últimos episódios a discutir a questão “Deveriam os governos atirar
dinheiro a partir de helicópteros?”. A pergunta, que fora de contexto
parece absurda, remete
para uma reflexão teórica desenvolvida originalmente por Milton Friedman,
economista que ficou famoso por liderar a contra-revolução anti-keynesiana na
década de 1970, pelas posições libertárias de direita e pela proximidade e
colaboração com o regime de Pinochet.
Quais seriam as consequências se[, à semelhança do que o BCE tem feito com o sector financeiro,]
um helicóptero sobrevoasse uma determinada economia e largasse milhares de
dólares em notas prontamente recolhidas pelos agentes económicos, estando estes
convencidos de que se trata de um evento único e irrepetível? Numa economia em
situação de pleno emprego, tal como postulado por Friedman, a injecção
monetária não terá qualquer efeito expansivo e não alterará os equilíbrios de
mercado. Mas a conclusão de ineficácia depende da premissa de pleno emprego
original, e como é óbvio nem todos concordam com a justeza desta última.
A partir desta formulação
seminal, “helicopter
money” passou a designar, de forma genérica, a colocação directa de moeda,
criada escrituralmente pelas autoridades monetárias, nas mãos dos agentes
económicos – ainda que em vez da hipótese literal (e seguramente espectacular)
dos sacos de notas atirados a partir de helicópteros se tenha habitualmente em
mente algo como a entrega de cheques, sem qualquer contrapartida, a todos os
cidadãos.
Os vinte minutos do podcast da
BBC são infelizmente demasiado curtos para permitir tratar a questão com
suficiente profundidade, mas ainda assim o episódio reúne depoimentos de alguns
economistas com reflexões interessantes e relevantes sobre estas matérias, tais
como Richard Koo (cujo tratamento teórico das “balance sheet recessions” é um
dos mais relevantes para a compreensão da crise iniciada em 2007-08) e Adair
Turner (que, apesar de provir de uma carreira na finança, tornou-se nos últimos
anos numa das vozes mais críticas das disfuncionalidades dessa mesma finança).
Dos quatro economistas
entrevistados, Turner é aliás o que mais explicitamente defende uma política de
tipo “helicopter money”, que na sua proposta assumiria a forma de um cheque de
montante idêntico enviado a todos os cidadãos, financiado não através da
cobrança de impostos mas pela criação de moeda por parte do Banco Central, com
o objectivo de estimular a economia e/ou produzir inflação. Aliás, num contexto
caracterizado tanto pela subutilização da capacidade produtiva como pela
existência de um enorme lastro de endividamento que constrange a procura, não é
sequer fundamental antecipar em que medida é que a injecção monetária se traduz
em
inflação ou em estímulo à actividade económica, pois ambos são desejáveis
(o estímulo à actividade por motivos óbvios, a inflação por permitir erodir
progressivamente o lastro do endividamento).
Não admira assim que este tipo de
discussão volte a estar em cima da mesa no contexto actual, ainda que para já
apenas num registo principalmente académico. Especialmente se tivermos em conta
que a medida em causa permite fazer mais directamente aquilo que o quantitative
easing faz apenas indirectamente e com alguns efeitos secundários nefastos. O
estímulo à procura por parte do QE actua, a meu ver, através de três canais
principais: a redução do custo de financiamento dos estados no mercado primário
através do aumento da procura no mercado secundário de títulos de dívida
pública; o aumento do património líquido dos agentes que detêm títulos que são
objecto de procura pelo Banco Central, o que alivia as restrições dos seus
balanços e tende a favorecer o consumo e/ou investimento; e o aumento das
reservas dos bancos a quem são adquiridos títulos. Todos estes mecanismos são
indirectos e, o que é mais importante, não é certo que actuem sobre os factores
que em cada momento restringem activamente a procura. A colocação directa de
moeda nas mãos da população, em contrapartida, actuaria de forma imediata e
mais eficaz – para além de socialmente menos iníqua, pois não valorizaria
tendencialmente o património dos mais ricos.
Claro que, chegados a este ponto,
podemos dar um passo adicional e defender, em vez do envio de um cheque
idêntico a todos os cidadãos, o envio de cheques diferenciados em função do
rendimento, de modo a reduzir a desigualdade e combater a pobreza. Ou então,
como na proposta de People’s Quantitative Easing de Jeremy Corbyn, mandatar o
Banco Central para investir “na
renovação do parque habitacional e energético, no sistema de transportes e em
projectos digitais: quantitative easing para as pessoas e não para os bancos”.
Ou, finalmente, propôr uma combinação de ambas as coisas: transferências
directas para os grupos sociais mais necessitados e investimentos públicos de
elevado retorno social.
E claro que aqui chegados
percebemos que não estamos a falar de outra coisa que não da possibilidade de
articulação entre a política orçamental e a política monetária, algo de
desesperadamente necessário no contexto de estagnação tendencial e
endividamento crónico em que se encontra grande parte da economia mundial, mas
que se encontra vedado por décadas de evolução institucional no sentido da
independência dos bancos centrais – com a agravante, no nosso caso, do banco
central ter sido entretanto subtraído ao seguramente mais democrático âmbito
nacional.» – Alexandre Abreu, no Expresso.


1 comentário:
Quais seriam as consequências se um helicóptero sobrevoasse uma determinada economia e largasse milhares de dólares em notas prontamente recolhidas pelos agentes económicos, estando estes convencidos de que se trata de um evento único e irrepetível? Numa economia em situação de pleno emprego, tal como postulado por Friedman, a injecção monetária não terá qualquer efeito expansivo e não alterará os equilíbrios de mercado. Mas a conclusão de ineficácia depende da premissa de pleno emprego original, e como é óbvio nem todos concordam com a justeza desta última.
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