«Ele é, por definição, um
herdeiro. Filho de dirigente salazarista que, com 53 anos em 1974, havia feito
todo o cursus honorum da ditadura (Mocidade Portuguesa, deputado, subsecretário
de Estado, governador colonial, ministro), Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) foi
“educado para ser político”, como escreve o seu “biógrafo consentido”, Vítor
Matos (VM), que assim se autodefine no livro de 2012 onde reúne informação
preciosa obtida do próprio biografado, e que aqui citarei. Marcelo é um
herdeiro – não apenas no sentido estrito de primogénito de uma das figuras mais
típicas dessa elite de funcionários fiéis que Salazar e Caetano recrutavam,
cuja legitimidade repousava exclusivamente na lealdade para com o Chefe, mas
também como produto (e produtor) de uma universidade classista que, na
definição de Pierre Bourdieu (1964), é “a própria instância de reprodução dos
privilégios e da preservação dos interesses dos herdeiros”. A tal ponto MRS se
terá sentido a vida toda um herdeiro que logo aos 27 anos (1976) quis escrever
as suas memórias. A maioria delas não eram suas mas sim daqueles de quem ele
era herdeiro. “Tinha conhecido o salazarismo por dentro e vivera o marcelismo,
lançara o Expresso, estivera na fundação do PPD e vivera a Constituinte. Tinha
histórias para contar.”
“Se havia gente que o achava
afilhado de Caetano” - e não o era, por falta de vontade deste - “ele deixava
achar”, assegura o padre João Seabra *). Desde os “10 ou 12 anos” que o pai
Baltazar o leva a assistir aos lanches de sábado no restaurante A Choupana, em
S. João do Estoril, onde Caetano, afastado do governo em 1958, reunia os
marcelistas indefetíveis enquanto fazia a sua travessia do deserto que só
terminará com o AVC de Salazar. “Ouvir horas de discussão entre seniores do
regime podia ter injetado em Marcelo o talento para para a intriga por detrás
do pano. (…) O pai empenha-se em instruí-lo nos meandros do regime”. MRS
descreve a experiência como “uma escola”, e é revelador que ache que “os
comportamentos políticos não são muito diferentes em ditadura ou em
democracia[,] as amizades, as inimizades, as traições, a atração do poder”. Aos
20 anos, senta-se à mesa de todos os jantares oficiais do Governo Geral de
Moçambique assumido pelo pai desde 1968. Quando Caetano sobe ao poder, janta
uma vez por semana com ele. O adolescente a quem nunca faltou inteligência e
intuição para o poder empenhou-se a fundo nessa “educação para ser político”,
isto é, um futuro hierarca do regime; há quem se lembre no Liceu ouvi-lo dizer
que um dia queria ser Presidente do Conselho. Muito jovem, assumirá os
discursos e os temas de “exaltação nacionalista” do salazarismo dos anos 60:
critica “a falta de amor pátrio daqueles que, direta ou indiretamente, (…) se
divertiram neste Carnaval de 1962”, semanas depois da perda de Goa e em plena
guerra em Angola. “Mais do que uma vilania foi uma afronta, uma verdadeira
declaração de traição”. Em 1963, conclui uma redação escrevendo: “Pobres das
nações que não têm filhos que lutem por elas e para elas!...” É surpreendente
que, anos depois, não tenha feito a guerra em África. E teria tido tempo:
acabou a licenciatura em 1971 e o Curso Complementar de Político-Económicas em
1972.
No liceu foi “nacionalista” (e o
termo não lhe repugnava ainda há poucos anos atrás), mas muitos outros
envolveram-se no movimento estudantil do secundário, transitando diretamente
para a oposição aberta à ditadura nas universidades. Fazer opções destas aos 15
anos pode ser pouco representativo; na universidade, fazem-se com consciência,
e Marcelo voltou a escolher a direita salazarista que queria fazer o “combate
ideológico ao marxismo”; na crise académica de 1969, “participa nas
manifestações públicas de apoio à ditadura”. Nas eleições desse ano, momento de
consciencialização política de tanta gente da sua geração, tem 21 anos e apoia,
de novo, o partido único. (Até Cavaco, na sua autobiografia, dirá que terá
votado na CEUD de Mário Soares – mas, claro, o voto é secreto...) “Ninguém se
lembra de afirmações de Marcelo contra a guerra ultramarina”, garante VM. Com o
pai ministro do Ultramar, não é de estranhar, admitamos. O que é completamente
exótico é Leonor Beleza, sua colega e também filha de subsecretário de Estado
da ditadura, achar hoje que “na época era cómodo estar de um lado ou do outro.
Não pertencer a um grupo nem a outro e estar no meio era mais incómodo.” Da
“comodidade” dos estudantes presos, torturados e mandados para a guerra por a
ela se oporem, Beleza parece lembrar-se pouco... Em 1970, com Beleza e Braga de
Macedo, Marcelo fura a greve académica na faculdade. E reúne-se com o novo
ministro Veiga Simão para lhe dar “informações” sobre as “movimentações
académicas”. É este, aliás, que lhe dá o seu primeiro emprego, no Ministério da
Educação, em gabinete dirigido por Adelino da Amaro da Costa (**), outro filho de
subsecretário, que o tentara atrair repetidamente para o Opus Dei.
É verdade que manifesta
publicamente o seu ceticismo relativamente à viabilidade da Reforma Educativa
que Simão quer levar a cabo: “a verdadeira democratização do ensino (…)
parece-me impossível no quadro de um regime autoritário e antidemocrático”,
escreve ele em 1971, o que leva Caetano a exigir a Veiga Simão que o despeça.
Mas não é despedido. Campeão da ambiguidade, o já jovem assistente de Direito
não desiste de procurar o perdão de Caetano. Em 1973, já no Expresso, e já
abortada pelo próprio ditador a Primavera marcelista, pede desculpa a Caetano
pela “vivacidade” dos seus 24 anos e garante que “sempre estive na convicção”
de que os “meus princípios não se opunham à pessoa de V.Exa”, cuja “presença na
Chefia do Governo” volta a elogiar, prometendo-lhe “[inequivocamente]
afastar-me do que possa ser entendido como atividade política ostensiva”. A
mãe, que do filho espera o cumprimento do destino de um herdeiro, intercede
repetidamente por ele junto de Caetano. Em janeiro de 1974, dele escreve Artur
Portela Filho: “Era o filho pródigo do Regime. (…) Estava talhado, calibrado,
destinado”.
Herdeiro de um hierarca
politicamente influente, cuja família, só por isso, era automaticamente
cooptada para o convívio da mais alta burguesia, “Marcelo começa a perceber
como é a vida dos que têm posses.” E gosta. Ainda hoje gosta. Por mais que
encene uma cristã preocupação com os mais pobres, “dirá ao longo da vida:
'melhor que ser rico, é ser amigo de ricos'”. É curioso que tenha escrito em
1999, na fotobiografia do seu pai, que “os governantes, na década de 50,
enquanto o são, devem abster-se de fazer vida de ricos. Podem e devem dar-se
entre si, eles e as famílias, mas evitar demasiados contactos com esse mundo
perverso que os desviará do interesse geral.” É curioso porque não era verdade.
Depois do 25 de Abril, já sabemos
das muitas razões para que os seus próprios correligionários o descrevam como
um cata-vento, ou falem da sua “habilidade natural de iludir a realidade das
coisas” (José M. Ricciardi, Expresso, 26.12.2014), de ter apoiado, depois
traído, por vezes reconciliado com dezenas de personagens, da invenção de
factos políticos. “Velho Rasputine”, chamou-lhe Paulo Portas, que dele podia
ser um alter ego. “É filho de Deus e do Diabo: Deus deu-lhe a inteligência, o
Diabo deu-lhe a maldade” (Portas, RTP, 4.12.1994). Em MRS intui-se, acima de
tudo, a desmedida ambição que se estampa contra os erros de avaliação dos
momentos e das conjunturas: os Inadiáveis contra Sá Carneiro (1978), Salgueiro
contra Cavaco (1985), o fracasso da aliança com Paulo Portas (1999), três anos
na liderança do PSD de que pouco mais fica a demonstração da sua infinita
criatividade na criação de obstáculos mesmo nas mais plácidas conjunturas
políticas. “Para se defender da frustração não assumida de não ter chegado a
primeiro-ministro, conformou-se com a sua projeção de poder através da
influência e da exposição comunicacional”. Desde 1973, primeiro no Expresso,
depois no Semanário, na TSF (1993-96) e na TVI ou na RTP (consecutivamente
desde 2000), que conta as histórias que quer, como quer, explicando Portugal
como se fosse como ele diz, mas que não passa de um país que ele inventa
semanalmente a seu gosto. Para o ajudar a chegar onde ele quer.» - Manuel Loff,
no Público.
(*) Ver referências bibliográficas
no original.
(**) No original aparece erroneamente Adelino da Palma Carlos.
(**) No original aparece erroneamente Adelino da Palma Carlos.


3 comentários:
Na crise académica de 1969, “participa nas manifestações públicas de apoio à ditadura”. Em 1970, com Beleza e Braga de Macedo, Marcelo fura a greve académica na faculdade. E reúne-se com o novo ministro Veiga Simão para lhe dar “informações” sobre as “movimentações académicas”. É este, aliás, que lhe dá o seu primeiro emprego, no Ministério da Educação, em gabinete dirigido por Adelino da Palma Carlos, outro filho de subsecretário, que o tentara atrair repetidamente para o Opus Dei.
... erro em Adelino da Palma Carlos, muito menos que fosse filho de Subsecretário de Estado: tratar-se-á de Adelino Amaro da Costa? ASC
Também estranhei quando li pela primeira vez e esqueci-me de confirmar depois, o que fiz agora. Substitui no texto e coloquei uma nota, obrigado pelo reparo e pela sugestão.
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