domingo, 31 de janeiro de 2016

Gostei de ler: "O feminismo favorito dos machistas"


«No tempo de antena de Maria de Belém, alguém lhe pergunta se há “uma forma feminina de encarar a política”. A candidata responde: “A engª. Maria de Lurdes Pintasilgo costumava dizer que sim. Dizia que a importância da entrada das mulheres na política era para acrescentar alguma coisa.” Estamos perante uma espécie de feminismo em segunda mão, do qual devemos desconfiar. Tenho sérias dúvidas de que Pintasilgo tenha dito aquela frase – que é, aliás, bastante canhestra. E quero acreditar que responderia de outro modo a perguntas sobre a “forma feminina de encarar a política”. Como feminista, considero o seguinte: a importância da entrada das mulheres na política reside no facto de as mulheres terem tanto direito a estar na política como os homens. Não é relevante se acrescentam, retiram ou deixam tudo na mesma. Têm o mesmo direito, e é tudo. Qual é a importância da entrada dos negros na política? A mesma. Têm esse direito. No entanto, creio que toda a gente teria achado absurdo que alguém perguntasse a Barack Obama se havia uma forma negra de encarar a política. Assim como não se pergunta a Donald Trump se há uma forma alaranjada de encarar a política. Trump, bem como qualquer outra pessoa cor-de-laranja, tem o direito de participar na vida política.

A ideia de que “as mulheres acrescentam” é, por isso, um pouco perigosa. Primeiro, porque parece ser sempre formulada por quem acha que o argumento da igualdade de direitos não é suficiente. Daí sugerirem que as mulheres devem entrar na política porque são diferentes (para melhor, claro) dos homens. É uma ideia paternalista que a realidade, felizmente, se encarrega de desmentir. Não vejo grandes diferenças entre a governação de Margaret Thatcher, Angela Merkel, Fátima Felgueiras ou Dilma Rousseff e a de vários políticos do sexo masculino. Em segundo lugar, em que medida é que enunciar a expressão “as mulheres são”, seguida de um adjectivo agradável, é menos preconceituoso do que dizer “os negros são” e acrescentar um adjectivo desagradável?

 Noutra entrevista, Maria de Belém disse: “Nunca tive complexos com a minha altura, porque sempre tive muitos pretendentes”. A ex-ministra para a Igualdade é tão feminista como o meu tio Alfredo. Para o meu tio Alfredo, a medida dos complexos de uma mulher também é o interesse que ela desperta nos homens. Para ele, também é natural que uma mulher que não tenha muitos pretendentes seja complexada em relação à sua altura. Creio que, mais uma vez, fica comprovado que “as mulheres” são um grupo bastante heterogéneo, e que algumas, tal como alguns homens, não acrescentam nada de novo. Mas têm o mesmo direito a participar na vida política.» – Ricardo Araújo Pereira, na Visão.

3 comentários:

fb disse...

A ideia de que “as mulheres acrescentam” é um pouco perigosa. Primeiro, porque parece ser sempre formulada por quem acha que o argumento da igualdade de direitos não é suficiente. Daí sugerirem que as mulheres devem entrar na política porque são diferentes (para melhor, claro) dos homens. É uma ideia paternalista que a realidade, felizmente, se encarrega de desmentir. Não vejo grandes diferenças entre a governação de Margaret Thatcher, Angela Merkel, Fátima Felgueiras ou Dilma Rousseff e a de vários políticos do sexo masculino. Em segundo lugar, em que medida é que enunciar a expressão “as mulheres são”, seguida de um adjectivo agradável, é menos preconceituoso do que dizer “os negros são” e acrescentar um adjectivo desagradável?

Adília disse...

Eu percebo a ideia de as mulheres acrescentarem algo, essa ideia tem a ver com o facto de se esperar que à partida sejam mais sensíveis à injustiça e à discriminação, dado que , ricas ou pobres, letradas ou analfabetas, belas ou feias ,acabam por sofrer na pela dessas maleitas; nesse aspeto há alguma analogia com a eleição de um negro pare um cargo politico.
Mas muitas vezes o que acontece é que tem de ser, como costuma dizer-se, mais papistas que o papa e aí o acrescento passa a ser um remendo muito mal amanhado. tem de se afirmar num universo que tem sido exclusivamente masculino e a função não é fácil.

Filipe Tourais disse...

Pois eu não percebo como é que com tantos exemplos de mulheres que trouxeram coisas tão más à política haja quem insista na tese de que são mais sensíveis e que trazem essa sensibilidade à política. Têm tanto direito a estar na política ou no lugar que seja que os homens. O resto é machismo no feminino.