“Viemos com o peso do passado e
da semente, esperar tantos anos torna tudo mais urgente e a sede de uma espera
só se estanca na torrente”. O início da canção “Liberdade” de Sérgio Godinho e
o final do artigo que António Costa publicou no
DN do passado fim-de-semana entrelaçam-se na remissão para ela com que o
termina. A canção diz que só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação,
Saúde, Educação, quando houver liberdade de mudar e decidir. O artigo de Costa
também, fala do que já foi feito, do que está a ser feito e do que será feito
graças a essa liberdade de mudar que exercemos em Outubro passado. Em boa hora o
fizemos.
A partir daqui começam a
desafinar. Godinho canta a sede de uma espera de 48 anos. A sede de Costa é bem
mais curta, apenas quatro anos e meio. A nossa, que sentimos nas vidas o
impacto dos quase 10% do PIB que a fatia dos salários emagreceu para engordar a
parte do bolo que cabe aos lucros, rendas e proveitos financeiros desde a
entrada no euro, não é apenas laranja como a de Costa e ameaça ultrapassar os
48 anos da original enquanto não renegociarmos a dívida, a permanência no euro
e os termos do Tratado Orçamental que Costa não quer renegociar por, diz ele,
ser possível conciliá-los com o pão, a habitação, a Saúde e a Educação. Desafina
sobre isto o artigo inteiro.
Regressando à canção, naquela que
porventura será a sua mensagem mais forte, ela diz-nos que não há liberdade a
sério enquanto não pertencer ao povo o que o povo produzir. Em 1974 isto tinha
um significado muito diferente do que possamos dar-lhe hoje. O conceito de
“povo” alargou-se. Hoje muita da burguesia que naquele tempo não o era, hoje é
tão povo como o povo, produz como ele, vê-se tão desapossada como ele,
indigna-se tanto como o povo mais povo quando lê um Primeiro-ministro escrever
apenas duas linhas sobre uma alegada estabilidade do sistema financeiro poucos
dias depois de enterrar muitos meses de urgências de pão, habitação, Saúde e
Educação em mais um banco falido por aquela burguesia que nada produz e vive à
conta de todos.
Costa bem pode cantarolar o que
quiser. Não haverá liberdade a sério enquanto não explicar, entre outras liberdades
que se permitiu, como é que aceitou recusar ofertas melhores pelo BANIF para
vendê-lo ao Santander com os cofres a transbordar de dinheiro que é nosso, seis
vezes mais do que o valor exigido pelas autoridades europeias. A trama do BANIF
adensa-se, ler aqui.
“O galo canta de galo, a galinha cacareja e o pintainho deseja o fim de tanto
badalo e o galo canta de galo. O galo come faisão, a galinha é quem o assa e o
pobre do pinto passa, passa uma fome de cão e o galo come faisão.” (Sérgio Godinho
– “O galo é o dono dos ovos”)


1 comentário:
“Viemos com o peso do passado e da semente, esperar tantos anos torna tudo mais urgente e a sede de uma espera só se estanca na torrente”. O início da canção “Liberdade” de Sérgio Godinho e o final do artigo que António Costa publicou no DN do passado fim-de-semana entrelaçam-se na remissão para ela com que o termina. A canção diz que só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, Saúde, Educação, quando houver liberdade de mudar e decidir. O artigo de Costa também, fala do que já foi feito, do que está a ser feito e do que será feito graças a essa liberdade de mudar que exercemos em Outubro passado. Em boa hora o fizemos.
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