quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Aqui há gato


A popularidade dos Governos é como os gatos, tem sete vidas. Foi durante a primeira da deste, em pleno estado de graça, naquela fase em que é quase pecado fazer o mínimo reparo, que, numa conversa de amigos, alguém reagiu com uma intempestividade inusitada à observação que lhe fiz sobre a diferença de palmo entre o Governo de esquerda que ele festejava e o Governo de centro com apoio parlamentar de esquerda que se anunciava.

Abstenho-me de repetir a breve enumeração que então lhe fiz das medidas que constavam no programa eleitoral do PS que a esquerda que realmente o é, esquerda, condenou àquela gaveta onde estão guardadas todas as outras com o mesmo sinal que esperam por maioria absoluta para darem um ar da sua desgraça. Ele não quis ouvir nada.

Limito-me a constatar que, apesar de ter passado tão pouco tempo em que, há que dizê-lo, também fez coisas bonitas, o gato entretanto já gastou algumas vidas. Brincou com uns largos milhares de milhão que fez aparecer do dia para a noite para limpar um banco que, ordens de Bruxelas, ofereceu limpinho e hiper-capitalizado a um banco espanhol, brincou às generosidades actualizando pensões em até 2,5 euros mensais, brincou à subsidiação da exploração do trabalho concedendo àquela espécie de empreendedores que pagam salários mais miseráveis um desconto na TSU para compensá-los pelo incómodo da actualização do salário mínimo e, com o petróleo em mínimos de mais de uma década, brincou às rendas garantidas viabilizando um aumento de 2,5% naqueles que já eram líderes no campeonato dos tarifários eléctricos mais caros de toda a Europa.

Aparece-nos hoje a brincar ao “pagar a quem trabalha é uma chatice”, o raio do gato diz que há constrangimentos orçamentais que impedem que a reposição das 35 horas seja consumada antes do dia 1 de Julho, grande lata, é o mesmo gato que aceitou que a conta da luz de todo o Estado aumentasse 2,5%, e também o mesmo que faz aparecer milhões do dia para a noite quando quer ronronar a Bruxelas e à delinquência banqueira. Tudo e rapidamente para uns, muito pouco ou quase nada e muito a custo para os de sempre. E sobre reposição dos dias de férias, da protecção na doença, descongelamento das carreiras na função pública e redução da taxa de desconto para a ADSE, entre outros roubos da autoria do gato anterior, nem ouvir falar. A verdade é que quase ninguém se queixa, às tantas isto é mesmo assim, não sei.

Quando encontrar novamente o meu amigo, hei-de tornar a dizer-lhe que atirámos o pau ao gato, sim, mas o gato definitivamente não morreu. Espero que desta vez não se zangue comigo. Depois conto-vos se ele também já anda a ficar com o tal gato atravessado. Ao menos que já tenha percebido que de esquerda é que este gato manhoso seguramente não é. E que há que tê-lo debaixo de olho.

1 comentário:

fb disse...

o raio do gato diz que há constrangimentos orçamentais que impedem que a reposição das 35 horas seja consumada antes do dia 1 de Julho, grande lata, é o mesmo gato que aceitou que a conta da luz de todo o Estado aumentasse 2,5%, e também o mesmo que faz aparecer milhões do dia para a noite quando quer ronronar a Bruxelas e à delinquência banqueira. Tudo e rapidamente para uns, muito pouco ou quase nada e muito a custo para os de sempre. E sobre reposição dos dias de férias, da protecção na doença, descongelamento das carreiras na função pública e redução da taxa de desconto para a ADSE, entre outros roubos da autoria do gato anterior, nem ouvir falar. A verdade é que ninguém se queixa, às tantas isto é mesmo assim, não sei.