A popularidade dos Governos é
como os gatos, tem sete vidas. Foi durante a primeira da deste, em pleno estado
de graça, naquela fase em que é quase pecado fazer o mínimo reparo, que, numa
conversa de amigos, alguém reagiu com uma intempestividade inusitada à
observação que lhe fiz sobre a diferença de palmo entre o Governo de esquerda
que ele festejava e o Governo de centro com apoio parlamentar de esquerda que se
anunciava.
Abstenho-me de repetir a breve enumeração
que então lhe fiz das medidas que constavam no programa eleitoral do PS que a
esquerda que realmente o é, esquerda, condenou àquela gaveta onde estão
guardadas todas as outras com o mesmo sinal que esperam por maioria absoluta
para darem um ar da sua desgraça. Ele não quis ouvir nada.
Limito-me a constatar que, apesar
de ter passado tão pouco tempo em que, há que dizê-lo, também fez coisas
bonitas, o gato entretanto já gastou algumas vidas. Brincou com uns largos
milhares de milhão que fez aparecer do dia para a noite para limpar um banco
que, ordens de Bruxelas, ofereceu limpinho e hiper-capitalizado a um banco
espanhol, brincou às generosidades actualizando pensões em até 2,5 euros
mensais, brincou à subsidiação da exploração do trabalho concedendo àquela
espécie de empreendedores que pagam salários mais miseráveis um desconto na TSU
para compensá-los pelo incómodo da actualização do salário mínimo e, com o
petróleo em mínimos de mais de uma década, brincou às rendas garantidas
viabilizando um aumento de 2,5% naqueles que já eram líderes no campeonato dos
tarifários eléctricos mais caros de toda a Europa.
Aparece-nos hoje a brincar ao
“pagar a quem trabalha é uma chatice”, o raio do gato diz que há
constrangimentos orçamentais que impedem que a reposição das 35 horas seja
consumada antes do dia 1 de Julho, grande lata, é o mesmo gato que aceitou que
a conta da luz de todo o Estado aumentasse 2,5%, e também o mesmo que faz
aparecer milhões do dia para a noite quando quer ronronar a Bruxelas e à
delinquência banqueira. Tudo e rapidamente para uns, muito pouco ou quase nada e
muito a custo para os de sempre. E sobre reposição dos dias de férias, da
protecção na doença, descongelamento das carreiras na função pública e redução da
taxa de desconto para a ADSE, entre outros roubos da autoria do gato anterior, nem
ouvir falar. A verdade é que quase ninguém se queixa, às tantas isto é mesmo assim, não
sei.
Quando encontrar novamente o meu
amigo, hei-de tornar a dizer-lhe que atirámos o pau ao gato, sim, mas o gato definitivamente
não morreu. Espero que desta vez não se zangue comigo. Depois conto-vos se ele também
já anda a ficar com o tal gato atravessado. Ao menos que já tenha percebido que
de esquerda é que este gato manhoso seguramente não é. E que há que tê-lo debaixo de olho.


1 comentário:
o raio do gato diz que há constrangimentos orçamentais que impedem que a reposição das 35 horas seja consumada antes do dia 1 de Julho, grande lata, é o mesmo gato que aceitou que a conta da luz de todo o Estado aumentasse 2,5%, e também o mesmo que faz aparecer milhões do dia para a noite quando quer ronronar a Bruxelas e à delinquência banqueira. Tudo e rapidamente para uns, muito pouco ou quase nada e muito a custo para os de sempre. E sobre reposição dos dias de férias, da protecção na doença, descongelamento das carreiras na função pública e redução da taxa de desconto para a ADSE, entre outros roubos da autoria do gato anterior, nem ouvir falar. A verdade é que ninguém se queixa, às tantas isto é mesmo assim, não sei.
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