sábado, 30 de janeiro de 2016

À mesa do café


Alguns de nós escolhem o projecto político que apoiam de acordo com o que for defendendo o partido ou o líder político da sua devoção. Outros escolhem o partido e o líder político  que apoiam segundo o critério da proximidade e da interpretação da defesa  do projecto político que defendem previamente. Isto parece um mero jogo de palavras mas está muito longe de o ser.

É muito diferente aquele que consegue defender um Orçamento que não reverte o desinvestimento na Saúde que vamos rapidamente deixando de ter apenas por ser um Orçamento PS e aquele que repara que sem o investimento necessário para repor os equipamentos do SNS que se avariaram e não foram nem reparados nem substituídos durante a  década negra da austeridade um dia destes acabará obrigado a ajudar a enriquecer uma seguradora privada se quiser assegurar minimamente o seu, e apenas o seu, direito à Saúde.

E são em tudo iguais a forma de pensar daquele que aceita como mudança significativa uma ligeira recomposição da carga fiscal que continua a abusar dos rendimentos do trabalho por não haver vontade política de pôr a pagar quem nunca contribuiu e a forma de pensar daquele que critica a "irresponsabilidade" de arrecadar na bomba de gasolina  e na subida dos preços de todos os bens que repercutem o aumento do imposto sobre combustíveis os milhões para pagar juros que antes eram arrecadados através de uma sobretaxa e de cortes salariais inconstitucionais que se mantêm, que agora podiam sê-lo englobando a distribuição de lucros e proveitos financeiros nos rendimentos tributados em sede de IRS.

Fui-me lembrando disto à medida que ia ouvindo a animada discussão que acontecia na mesa de café mesmo ao lado da minha em torno da notícia do DN de hoje sobre a chegada limpa da equipa da troika que veio a Lisboa exigir cortes nas nossas vidas de valor equivalente ao da injecção de vida que foi dada ao BANIF no final de Dezembro para capitalizar o Santander que o comprou ao preço da uva mijona.

Um dos amigos defendia o Governo que permitiu deixar crescer o monstro. O outro defendia o Governo que cometeu a monstruosidade de engordá-lo ainda mais. Discutiam apesar de,  e sobre isso não me ficou nenhuma dúvida, estarem de acordo sobre a obediência que devemos a uma Europa que, numa semana, ordena que se descubram 2 mil milhões de dinheiro que alegadamente não há para serem oferecidos a quem sempre tem que ganhar e, apenas um par de semanas depois, ordena que esse valor seja extorquido a quem sempre tem que perder. O motivo da discussão era tão-somente o do nome do capataz preferido para espremer cada um destes dois amigos dos amigos do alheio.

A seguir o tema da conversa mudou para o futebol. O meu Benfica é melhor do que o teu Sporting, o meu Sporting é melhor do que o teu Benfica. Os argumentos não mudaram nadinha. Convenceram-me.  O Bayern Munich ganhou-lhes também a segunda discussão. É a vida.

1 comentário:

fb disse...

Alguns de nós escolhem o projecto político que apoiam de acordo com o que for defendendo o partido ou o líder político da sua devoção. Outros escolhem o partido e o líder político que apoiam segundo o critério da proximidade e da interpretação da defesa do projecto político que defendem previamente. Isto parece um mero jogo de palavras mas está muito longe de o ser.