Hoje o mundo amanheceu com vivas
ao capitalismo inflamadas pela filantropia do dono do facebook, que anunciou a
sua intenção de, ao longo da vida, ir doando grande parte da fortuna pessoal a
uma fundaçãotambém sua propriedade e com o seu nome. Não nos/se baralhem, por favor. Em primeiro lugar, porque
por melhor que seja uma fundação ela não substitui as funções que apenas podem caber
ao Estado. Se, tal como o Estado, as fundações aplicam os recursos de acordo
com a vontade de quem as financia, essa vontade não coincide necessariamente
com o interesse público e muito menos obedece – e não faz sentido que obedeça –
às regras democráticas a que está sujeita a gestão da coisa pública. Em segundo
lugar, porque a excepção (ainda) não faz a regra. E a regra é a acumulação de
riqueza que um resolveu doar e todos os restantes mantêm a salvo de qualquer
redistribuição, lucros poupados pela fiscalidade, a crescer, e salários
sobrecarregados com impostos, a diminuir, e, apesar do flagelo do desemprego condenar
milhões à miséria, porque os aumentos de produtividade decorrentes de avanços
tecnológicos não são repartidos entre quem emprega e quem trabalha, a jornada
de trabalho continua por reduzir, a idade para deixarmos o nosso posto de
trabalho a quem dele necessita vem sendo progressivamente aumentada juntamente
com a penalização da sua antecipação voluntária. E atenção que é sobre o capitalismo
que escrevo. Sobre o gesto de Zuckerberg, aplaudo-o, sim, mas sem me comover, não
consigo comover-me com o destino dado a um fruto de uma aberração que a maioria
aceita como natural apesar de proibi-los de também serem Zuckerbergs. Se já vivêssemos
num mundo em que a jornada de trabalho e a idade para a aposentação fossem fixadas
de forma a assegurar o direito ao trabalho de todos, se a riqueza gerada já fosse
distribuída de forma a assegurar uma vida digna para todos, se a fiscalidade deixasse
de sobrecarregar os rendimentos do trabalho com os impostos que poupa aos lucros
e às rendas, em vez da generosidade facultativa de um teríamos a solidariedade obrigatória
de todos: todos os dias e não apenas num só, com toda a naturalidade e sem agradecimentos,
Cada um de nós seria um Zuckerberg. E sê-lo-íamos porque não haveria Zuckerbergs,
nem dos generosos, nem dos avarentos e gananciosos.
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Há 1 hora


1 comentário:
Sobre o gesto de Zuckerberg, aplaudo-o, sim, mas sem me comover, não consigo comover-me com o destino dado a um fruto de uma aberração que a maioria aceita como natural apesar de proibi-los de também serem Zuckerbergs.
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