quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Quem não quiser ser Zuckerberg que ponha o dedo no ar



Hoje o mundo amanheceu com vivas ao capitalismo inflamadas pela filantropia do dono do facebook, que anunciou a sua intenção de, ao longo da vida, ir doando grande parte da fortuna pessoal a uma fundaçãotambém sua propriedade e com o seu nome. Não nos/se baralhem, por favor. Em primeiro lugar, porque por melhor que seja uma fundação ela não substitui as funções que apenas podem caber ao Estado. Se, tal como o Estado, as fundações aplicam os recursos de acordo com a vontade de quem as financia, essa vontade não coincide necessariamente com o interesse público e muito menos obedece – e não faz sentido que obedeça – às regras democráticas a que está sujeita a gestão da coisa pública. Em segundo lugar, porque a excepção (ainda) não faz a regra. E a regra é a acumulação de riqueza que um resolveu doar e todos os restantes mantêm a salvo de qualquer redistribuição, lucros poupados pela fiscalidade, a crescer, e salários sobrecarregados com impostos, a diminuir, e, apesar do flagelo do desemprego condenar milhões à miséria, porque os aumentos de produtividade decorrentes de avanços tecnológicos não são repartidos entre quem emprega e quem trabalha, a jornada de trabalho continua por reduzir, a idade para deixarmos o nosso posto de trabalho a quem dele necessita vem sendo progressivamente aumentada juntamente com a penalização da sua antecipação voluntária. E atenção que é sobre o capitalismo que escrevo. Sobre o gesto de Zuckerberg, aplaudo-o, sim, mas sem me comover, não consigo comover-me com o destino dado a um fruto de uma aberração que a maioria aceita como natural apesar de proibi-los de também serem Zuckerbergs. Se já vivêssemos num mundo em que a jornada de trabalho e a idade para a aposentação fossem fixadas de forma a assegurar o direito ao trabalho de todos, se a riqueza gerada já fosse distribuída de forma a assegurar uma vida digna para todos, se a fiscalidade deixasse de sobrecarregar os rendimentos do trabalho com os impostos que poupa aos lucros e às rendas, em vez da generosidade facultativa de um teríamos a solidariedade obrigatória de todos: todos os dias e não apenas num só, com toda a naturalidade e sem agradecimentos, Cada um de nós seria um Zuckerberg. E sê-lo-íamos porque não haveria Zuckerbergs, nem dos generosos, nem dos avarentos e gananciosos.

1 comentário:

fb disse...

Sobre o gesto de Zuckerberg, aplaudo-o, sim, mas sem me comover, não consigo comover-me com o destino dado a um fruto de uma aberração que a maioria aceita como natural apesar de proibi-los de também serem Zuckerbergs.