domingo, 13 de dezembro de 2015

Os rankings e um estranho "direito de escolha"


"Veja o ranking completo das escolas", lê-se por toda a imprensa do dia. Não irei aborrecer-vos com o óbvio, não ser surpresa nenhuma ver tantos colégios privados, 27, nos primeiros 27 lugares da lista. Estes colégios seleccionam os melhores alunos entre os filhos das classes mais abastadas e dispõem de meios humanos e materiais que as depauperadas escolas da rede pública  não dispõem, o que surpreende é que ainda haja quem se surpreenda, alguns de forma tão vibrante, com o resultado desta corrida em que uns partem mais à frente e correm de Ferrari e outros partem mais atrás e vão de carroça.

Apenas falo nisto porque, pela primeira vez este ano, o Ministério da Educação disponibilizou um indicador que, ao tentar medir a progressão ao longo do ciclo de aprendizagem, embora ainda sem considerar factores importantes como o nível socioeconómico das famílias dos alunos, a sua selecção ou não pelo estabelecimento respectivo e os contextos de interioridade, mostra que "as escolas privadas não são tão melhores como se pensa", ou melhor, como quem detém o poder também de comandar o jogo de percepções através dos média quer que se pense.

A surpreender, o que surpreende este ano, portanto, é que o destaque tenha sido dado ao tradicional ranking "em cru" e não o ranking corrigido, o qual, mesmo ainda sem considerar alguns dos principais factores que distorcem o resultado final apresentado na tabela que continua a ser destacada, tem três escolas no top 10, ao passo que no outro a primeira pública aparece em 28º lugar.

É muito importante que a maioria continue fiel à crença assim alimentada de que as escolas privadas são mais eficientes do que as escolas públicas. Se essa maioria se transformasse em minoria, seria extremamente difícil explicar por que é que colégios privados, já sobejamente favorecidos, continuam a receber o financiamento público que falta à escola pública juntamente com os alunos que aí vão roubar à boleia do dinheiro dos nossos impostos. Por hora, a maioria continua indiferente à ideia de andar a pagar o alegado direito de escolha da minoria que, apesar de auferir rendimentos acima da média, exerce esse estranho direito com  o dinheiro de todos. O negócio dos colégios privados está mais do que assegurado.


Vagamente relacionado: "em 2014, quando saiu da Autoridade Tributária, uma equipa especial por si chefiada tinha identificado cerca de 1.000 famílias ricas – os chamados "high net worth individuais" – que, por definição, acumulavam 25 milhões de euros de património ou, alternativamente, recebiam 5 milhões de euros de rendimento por ano. Ora, "em qualquer país que leva os impostos a sério", este grupo de privilegiados garante habitualmente cerca de 25% da receita do IRS do ano (palavras de Azevedo Pereira). Por cá, os nossos multimilionários apenas asseguravam 0,5% do total de imposto pessoal. Ou seja, (conclusão nossa), como estamos em Portugal, onde estas coisas da igualdade perante a lei e a equidade tributária são aplicadas com alguma flexibilidade, os "multimilionários" pagam 500 vezes menos do que seria suposto."

1 comentário:

fb disse...

Apenas falo nisto porque, pela primeira vez este ano, o Ministério da Educação disponibilizou um indicador que, ao tentar medir a progressão ao longo do ciclo de aprendizagem, embora ainda sem considerar factores importantes como o nível socioeconómico das famílias dos alunos, a sua selecção ou não pelo estabelecimento respectivo e os contextos de interioridade, mostra que "as escolas privadas não são tão melhores como se pensa", ou melhor, como quem detém o poder também de comandar o jogo de percepções através dos média quer que se pense.