terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O melhor de dois mundos


O caso Sócrates é assunto estafado. Estafado pela lentidão da Justiça, e a Justiça, por passar por ela a vida de todos e de cada um de nós,  em caso algum poderá ser assunto estafado. Justifica-se, como tal, esta breve referência à entrevista que deu à TVI na noite passada. Dou-lhe toda a razão, é um excesso inaceitável ter alguém em prisão preventiva durante tanto tempo para, passado mais de um ano, ainda não haver nem provas nem acusação. Sou sensível à sensação de impotência para cobrar em sede própria a prepotência e o abuso reiterado de que se queixa. Também eu, cidadão anónimo e sem mediatismo para dar entrevistas de um minuto sequer, já a senti por mais de uma vez. Faço notar, porém, que quer a ineficiência da Justiça, quer o anacronismo medieval da inimputabilidade de agentes judiciários que não respondem por nada nem perante ninguém , ambos são também uma herança sua, o ex-governante que deles se queixa ao mesmo tempo que se vangloria da sua incapacidade para o pôr a responder à pergunta que qualquer cidadão gostaria de ver respondida no único local onde a resposta valerá alguma coisa, que definitivamente não é um canal de televisão: onde é que se arranjam amigos como aquele que nós sabemos? E ser inocente é uma coisa, outra bem distinta é ser inocente porque todos o somos até prova em contrário e porque essa prova em contrário não apareceu, da mesma forma que uma coisa é essa prova não aparecer e ser instaurado um processo para averiguar o porquê de não ter aparecido e outra bem distinta é a prova não aparecer e continuar a presumir-se que quem conduziu o processo continua a ser digno do poder de julgar que a sociedade lhe confiou. E presumivelmente continua, para garantia de felicidade e para objecto de queixa dos presumíveis criminosos. O melhor de dois mundos.

1 comentário:

fb disse...

Quer a ineficiência da Justiça, quer o anacronismo medieval da inimputabilidade de agentes judiciários que não respondem por nada nem perante ninguém , ambos são também uma herança sua, o ex-governante que deles se queixa ao mesmo tempo que se vangloria da sua incapacidade para o pôr a responder à pergunta que qualquer cidadão gostaria de ver respondida no único local onde a resposta valerá alguma coisa, que definitivamente não é um canal de televisão: onde é que se arranjam amigos como aquele que nós sabemos? E ser inocente é uma coisa, outra bem distinta é ser inocente porque todos o somos até prova em contrário e porque essa prova em contrário não apareceu, da mesma forma que uma coisa é essa prova não aparecer e ser instaurado um processo para averiguar o porquê de não ter aparecido e outra bem distinta é a prova não aparecer e continuar a presumir-se que quem conduziu o processo continua a ser digno do poder de julgar que a sociedade lhe confiou. E presumivelmente continua, para garantia de felicidade e para objecto de queixa dos presumíveis criminosos. O melhor de dois mundos.