sábado, 19 de dezembro de 2015

E a demagogia lá foi de carrinho


O Governo decidiu que a chamada "factura da sorte" passe a atribuir como prémio certificados de aforro em vez de carros topo de gama. Não é que um grão de areia faça diferença num imenso areal, de facto a meia dúzia de milhões de euros destes prémios nem aquecem nem arrefecem no balanço final das contas públicas e das contas externas, para além de que se o Governo apostasse realmente no combate à fraude e à evasão fiscal tornaria o NIF elemento obrigatório na emissão de todas as facturas, há países que o fazem, e controlaria e tributaria todos os fluxos financeiros com paraísos fiscais. É, pois, importante perceber que o anúncio coloca-nos perante o simbolismo de uma medida e não diante da ambição que ela objectivamente não tem. É este simbolismo que dá uma valente bofetada de luva branca àqueles a quem, entre outras pérolas, ouvimos referirem-se à recuperação do poder de compra dos salários como um disparate que apenas faz crescer as economias que exportam para Portugal juntamente com baboseiras moralistas sobre o pecado do consumo e a virtude da poupança gerada por salários que suas excelências se encarregaram de encolher como não havia memória ao ponto de, em tantos e cada vez mais casos, não assegurarem sequer o mínimo mais mínimo de dignidade a quem os aufere, quanto mais chegarem para gerar poupanças. Foram estes moralistas, que combatiam as importações mas importavam Audis, que se lembraram de alimentar o sonho consumista pequeno-burguês  de ter um carro topo de gama, que a maioria que os ganhava era obrigada a vender de imediato com a desvalorização respectiva, para catequizar para a poupança e para o dever que é de todos de combater a fraude e a evasão fiscal. E quem acabou com os Audis e com as parolices que neles viajavam foi o Governo que – veremos até quando e até quanto –percebeu que devolver o poder de compra aos salários é, não apenas a política socialmente mais justa, como também aquela que economicamente é a mais racional. Os primeiros tudo fizeram para que ter um Audi se transformasse num sonho apenas realizável através de um acaso da sorte. Os segundos prometem tudo fazer para que o sonho de ter um Audi volte a ser realizável trabalhando para o construir. O Audi da sorte e o Audi do trabalho. Faz toda a diferença.

1 comentário:

fb disse...

Os primeiros tudo fizeram para que ter um Audi se transformasse num sonho apenas realizável através de um acaso da sorte. Os segundos prometem tudo fazer para que o sonho de ter um Audi volte a ser realizável trabalhando para o construir. O Audi da sorte e o Audi do trabalho. Faz toda a diferença.