«1. Em 1968, a URSS e um grupo de
países do Pacto de Varsóvia invadiram a Checoslováquia em nome da teoria da
soberania limitada. Frente aos interesses prioritários do “campo socialista”, a
independência da Checoslováquia era secundária. Hoje, a teoria da soberania
limitada é a essência daquilo que se chama a “Europa”, ou as “regras
europeias”, que nada tem que ver com a intenção original dos fundadores da
União Europeia. Não se faz com as lagartas dos tanques, mas com a torneira do
dinheiro.
2. Todos os fundamentos do
processo de integração europeia estão de há muito abandonados, e o que existe é
uma coisa muito diferente e contrária ao projecto inicial dos fundadores que
veio com as tropas americanas para a parte da Europa que ficou fora da ocupação
soviética e que foi consolidado com o gigantesco esforço de solidariedade do
Plano Marshall. A Guerra Fria ajudou a consolidar a vontade de construção de
uma outra Europa, de democracia, paz e cooperação, mas estes fundamentos não
existem na “Europa” que hoje se invoca para pôr na ordem os países mal
comportados. E esses princípios originais eram claros: a “comunidade” era em
primeiro lugar uma construção política para acabar a guerra na Europa; todos os
membros da “união” eram iguais em poderes e direitos, mesmo que cada um
soubesse que era desigual; nunca se dava um passo sem que isso correspondesse à
vontade colectiva de povos e governos; esses passos eram “pequenos” e
prudentes, porque havia a consciência de que na Europa as nações têm muita
história e interesses diversos, e, também por isso, deixavam-se de fora
políticas de defesa e segurança (que ficavam para a NATO), e negócios
estrangeiros que deviam ser minimalistas. A “alma” da “comunidade” era a
Comissão e não o Parlamento, e muito menos o Conselho.
3. O outro aspecto essencial era
o de que a política da “comunidade” era solidária, como tinham sido os
americanos com o Plano Marshall e, com Delors, instituía-se a ideia da “coesão
social”, ou seja, uma deslocação de recursos dos países mais ricos para os
menos desenvolvidos. Sendo assim, com os “pequenos passos” de Jean Monnet, a
“comunidade” deu grandes passos.
4. O que aconteceu depois foi que
tudo isto foi mudado: o experimentalismo político vanguardista substituiu os
“pequenos passos”; à medida que as coisas falhavam em baixo, acelerava-se em
cima; o medo ao voto foi crescendo à medida que “projectos europeístas”, como a
Constituição Europeia, caíram aos pés do “canalizador polaco”; o receio de que
os países do centro e do Leste na Europa pusessem em causa o poder do “motor
franco-alemão” (e que os agricultores polacos quisessem receber o mesmo que os
agricultores franceses…) foi criando uma hierarquia, depois um directório e
depois um poder solitário da Alemanha; o crescimento do poder da burocracia de
Bruxelas, que acha que sabe melhor como governar os países do que os
parlamentos e governos; as divisões sobre o Iraque; o cepticismo inglês que
cresceu com a ideia de que “um buldogue inglês é melhor do que uma
couve-de-bruxelas”; e uma patética e perigosa política externa que destruiu a
Líbia ajudou ao incêndio sírio e gerou a guerra civil da Ucrânia. Chega?
5. Não chega. Há mais e, agora,
cada vez mais é no cerne da soberania e da democracia que a “Europa” suga como
um vácuo. Deu-se então a tempestade perfeita, a crise bancária de 2008,
chocando com uma Europa dominada pelos partidos conservadores do PPE, a começar
por esse tandem altamente capaz Merkel-Schäuble, acolitado pelos anões em que
se tornaram os partidos socialistas europeus. A resposta à crise financeira foi
transformá-la artificialmente numa crise de outra natureza, a das dívidas
soberanas, e tornar essa crise num poder sólido dos alemães que se exerceu
sempre como poder político. Tudo começou com a punição à Grécia, que o PPE,
aliás, governava com a Nova Democracia e o Pasok, e depois Sócrates, mais a
“coligação negativa” que o derrubou, entregou-lhe, com regozijo do PSD e do
CDS, Portugal numa bandeja.
6. Depois é que se sabe: da
troika ao Governo dos não “piegas”, a utilização de uma ideologia da
austeridade e do “não há alternativa” para proceder a uma engenharia social que
destruiu uma parte da classe média, desequilibrou as relações laborais,
transformou o desemprego num meio de baixar salários e acelerar a precariedade,
tornou os velhos um fardo e violou todos os contratos com os mais fracos para
manter aqueles que eram sacrossantos com os mais fortes. Portugal retrocedeu
dezenas de anos, sem que haja uma única mudança estrutural que possa ser
creditada a esta governação. E, pior que tudo, disseminou com sucesso, mas como
um veneno, uma concepção egoísta entre os portugueses, que passaram a olhar
para o vizinho do lado com ressentimento e inveja, ou porque tinha emprego, ou
porque tinha direitos e força para os manter, ou porque tem uma pensão
“milionária” de mil euros, em vez de olharem para cima. Pergunta-se “quem paga”
a quem é aumentado 1,80 euros na sua reforma de 600 euros, e não a quem meteu
milhares de milhões para salvar um banco ou para comprar um parecer a um
escritório de advogados, ou a uma consultora financeira, depois de ter atirado
para fora da função pública os funcionários competentes que o podiam fazer.
Quem paga? Nós. Mas a pergunta certa devia ser: quem é que não paga e devia
pagar?
7. Daqui resulta que, na Europa
de hoje, apenas no espaço da soberania é que ainda há uma possibilidade de
democracia. Quanto mais soberania, mais democracia. Daí a pressão contínua,
nunca sufragada pelos povos, para tornar a “Europa” e “Bruxelas” numa sede de
poder que obedece à sua burocracia e aos partidos do PPE, para retirar aos
parlamentos nacionais e aos governos qualquer poder de decidir sobre o destino
dos povos e das nações. O meu voto vale quase nada e, quando o uso para valer
alguma coisa, há que pedir novas eleições. Tantas quantas forem precisas para
haver um resultado “europeu”, amigo dos negócios, amigo do “não há
alternativa”, amigo de colocar na ordem sindicatos e partidos desalinhados.
8. É essa possibilidade que hoje
está a ser atacada com aquilo a que chamo "a teoria da democracia
limitada", forma de interiorizar e materializar a soberania limitada. Com
mais ou menos sofisticação, significa que votem os povos como quiserem, quem
manda são os mercados. Na verdade, a frase mais correcta é “mandam os partidos
dos mercados”. E os “partidos dos mercados” são a expressão orgânica dos
grandes interesses financeiros – o eufemismo é “os nossos credores” –e
representam a desaparição do primado do poder político sobre o poder económico,
ou seja, da autonomia do poder político assente no voto numa democracia.
9. Portugal está nessa
encruzilhada. O governo do PSD-CDS é o que a “Europa” do PPE quer e precisa
para não haver contágio em Espanha. O governo do centro-esquerda do PS, com
apoio do PCP e do BE, não só não pode ter sucesso, como nem sequer pode existir
como possibilidade, para o caso miraculoso de mostrar que “há alternativa”. Não
é um jogo a feijões – é um jogo, se se pode chamar assim, em que estão todos os
grandes interesses europeus e nacionais que agitam fantasmas, que vão da CGTP
ao PREC, para gerar o medo e impor o monopólio político da direita. É verdade
que o mecanismo ideal da teoria da democracia limitada é ver os partidos
socialistas a fazerem a política da direita e com a direita. Mas isso parece
falhar em Portugal, como já falhou no Partido Trabalhista inglês. Não é porque
Costa seja um Corbyn – não é certamente –, mas porque a recusa visceral de que
“os mesmos” continuem a governar, traduzida em 62% dos votos, mudou as regras
do jogo e levou o PCP a abrir uma porta que nunca tinha sido aberta e pela qual
entraram o PS e o BE.
10. Não sei se vão falhar, tudo
aponta para que as dificuldades sejam imensas. Mas há quem deseje ardentemente
que falhem, mesmo que isso signifique dar cabo da economia que resta, criar um
sério conflito institucional entre um governo em gestão a testar sempre os seus
limites (como fez com a TAP), um Presidente que será pressionado para meter na
gaveta tudo o que uma Assembleia hostil decidir e uma Assembleia a ter de
“governar”, sem ter o governo que apoia em funções. Isto, sim, é o PREC. Aliás,
nada é mais parecido com a linguagem e as atitudes do PREC do que o que diz e o
que faz a direita radicalizada que hoje temos. Obra da “Europa” da soberania
limitada, a querer impor à força uma democracia limitada. E não é com “eles” –
é connosco.» – José Pacheco Pereira, no Público.


1 comentário:
Portugal retrocedeu dezenas de anos, sem que haja uma única mudança estrutural que possa ser creditada a esta governação. E, pior que tudo, disseminou com sucesso, mas como um veneno, uma concepção egoísta entre os portugueses, que passaram a olhar para o vizinho do lado com ressentimento e inveja, ou porque tinha emprego, ou porque tinha direitos e força para os manter, ou porque tem uma pensão “milionária” de mil euros, em vez de olharem para cima. Pergunta-se “quem paga” a quem é aumentado 1,80 euros na sua reforma de 600 euros, e não a quem meteu milhares de milhões para salvar um banco ou para comprar um parecer a um escritório de advogados, ou a uma consultora financeira, depois de ter atirado para fora da função pública os funcionários competentes que o podiam fazer. Quem paga? Nós. Mas a pergunta certa devia ser: quem é que não paga e devia pagar?
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