«Durante o fim de semana foi
concluído o acordo entre o PS e o PCP, depois de ter sido estabelecido entre o
BE e o PS. Há assim uma maioria no parlamento para derrotar o governo mais
breve da história da democracia e para interromper a saga de Passos Coelho e de
Portas. O resultado é fundamental e é histórico: depois da sangria da
austeridade, começa-se a virar a página.
Nas últimas semanas, critiquei
tanto a demora em fechar este acordo quanto a pouca ousadia na sua conclusão,
porque só por falta de escolha de uma afirmação forte é que pode aceitar que
haja dois acordos separados – dizendo aliás o mesmo – ou até três moções de
rejeição distintas. Mas agora há acordo, ele é público e por isso os temas mais
importantes passam a ser o seu conteúdo e a sua durabilidade, que discuto a
partir do único ponto de vista que (me) interessa, o das respostas para a crise
social agravada pelo tormento da austeridade.
Começo pelo conteúdo do acordo.
As três condições de Catarina no
debate com Costa, o abandono pelo PS da redução da TSU patronal e da TSU dos
trabalhadores com diminuição da pensão, o arquivamento do despedimento
conciliatório e o fim do congelamento de pensões, foram, ainda antes da
campanha eleitoral, o ponto de partida do acordo deste fim de semana. Perante
os resultados eleitorais em que a direita perdeu a maioria, o PS aceitou estas
condições. Muitos socialistas respiraram de alívio, porque não concordavam com
estas três ideias do seu partido.
Mas os acordos agora revelados e
incluídos no programa para o novo governo vão mais longe, até muito mais longe.
Criam uma resposta de urgência com medidas de urgência mas vão mais além, com
respostas duradouras na alternativa à austeridade se houver determinação para
tanto.
Determinam o
fim das privatizações. Não haverá mais privatizações. Incluem ainda a reversão
dos recentes processos de concessão dos transportes urbanos de Lisboa e Porto.
Protegem a água como bem público essencial.
Quanto aos
rendimentos do trabalho, beneficiam milhões de trabalhadores. Os salários
função pública são repostos (a restituição é concluída já em 2016) e todos os
salários do sector privado são beneficiados (acima de 600 euros pela redução da
sobretaxa, que é extinta em 2017, abaixo de 600 euros pelo abatimento da
dedução para a segurança social, sem efeito nas pensões futuras e sem reduzir o
financiamento do sistema previdencial). São repostos os quatro feriados, cuja
perda significava mais horário de trabalho com o mesmo salário. Todos os
trabalhadores são beneficiados, são 4,5 milhões.
Todas as
pensões são beneficiadas (abaixo de 600 euros pelo descongelamento e pequena
recuperação, acima dos 600 euros pelo fim da sobretaxa em IRS), são dois
milhões de pessoas. Em contrapartida, a direita propunha-se cortar 4000 milhões
de euros na segurança social (1600 milhões por via do congelamento das pensões,
2400 por abatimento de prestações anuais de 600 milhões prometidos a Bruxelas).
A diferença é gigantesca.
São
estabelecidas novas normas fiscais: repor a progressividade com mais escalões
no IRS, o fim do quociente familiar que favorecia as famílias mais ricas e a
sua substituição por uma dedução em IRS em valor igual por cada criança, uma
cláusula barreira nos aumentos do IMI, que não poderão ultrapassar 75 euros num
ano, a interrupção da redução de IRC, a redução do prazo para reporte de
prejuízos das empresas para cinco e não doze anos e ainda a alteração às regras
de modo a reduzir os benefícios fiscais de dividendos. Finalmente, reduz-se o
IVA da restauração para 13%.
Na resposta à
pobreza, é aumentado o Salário Mínimo para 557 euros já em 1 de janeiro de 2017
e para 600 euros até ao fim da legislatura, e é reduzida a tarifa da
electricidade para as famílias mais pobres. Um milhão de pessoas beneficia
destas medidas.
São tomadas
medidas para que os falsos recibos verdes passem a contratos efectivos e é
relançada a contratação colectiva. Termina o regime de mobilidade especial na
função pública, que conduzia ao despedimento.
É proibida a
penhora de habitação própria por dívidas ao Estado e, quando se trata de dívida
hipotecárias ao banco, a entrega da casa liquida a dívida, quando não houver
outra alternativa de alteração de prazos e juros.
Foi apresentada
uma lista de medidas na saúde e educação, da redução das taxas moderadoras até
à reutilização dos manuais escolares.
O PS retirou
ainda a sua proposta de nova lei eleitoral com círculos uninominais.
Finalmente,
fica assente um procedimento de cooperação parlamentar e de consultas mútuas,
incluindo a criação de comissões sobre a sustentabilidade da dívida externa e
sobre o futuro da segurança social, que devem apresentar relatórios
trimestrais.
O que se consegue deste modo é
estabilidade na vida das pessoas, alívio para os pensionistas, recuperação de
salário, protecção do emprego e mais justiça fiscal. Por outro lado, com este
aumento da procura agregada, a economia vai reagir positivamente de imediato.
O que falta então?
Faltam ainda respostas
estruturais para o investimento, para gerir a conta externa e para melhorar a
balança de rendimentos, o que só se fará com uma reestruturação da dívida. E,
sem ela, não se vê como possa haver suficiente margem de manobra para resistir
a pressões externas e para relançar o emprego. É preciso investimento e criação
de capacidade produtiva e o Estado tem que ter um papel estratégico na resposta
à prolongada recessão que temos vivido.
Além disso, não se pode ainda
antecipar o que serão as condições de Bruxelas e de Berlim, do BCE ou das
agências de rating, mas não serão favoráveis. É de recordar que a Comissão
Europeia publicou um comunicado dois dias depois das eleições exigindo novas
medidas para a segurança social e que o tema continuará a ser um terreno de
disputa, ou que as agências de rating têm vindo a ameaçar a República
Portuguesa. Finalmente, o dossier do Novo Banco vai explodir antes do Verão,
com perdas importantes para o saldo orçamental ou com exigências de
recapitalização, ou de um processo de resolução bancária feito segundo
exigências técnicas que protejam o bem público e abatam a dívida externa.
Estes são os problemas que nos
vão bater à porta nos próximos meses e anos. A nova maioria sabe que assim é,
porque assina uma cláusula de salvaguarda que garante que, perante imprevistos
orçamentais ou novas situações, a resposta nunca será o aumento de impostos
sobre o trabalho ou a redução de salários e pensões. Convém então que comece já
a preparar o que vai ser essa resposta porque os imprevistos chegarão mais
depressa do que o novo Orçamento.» – Francisco Louçã, no TME.


3 comentários:
Nas últimas semanas, critiquei tanto a demora em fechar este acordo quanto a pouca ousadia na sua conclusão, porque só por falta de escolha de uma afirmação forte é que pode aceitar que haja dois acordos separados – dizendo aliás o mesmo – ou até três moções de rejeição distintas. Mas agora há acordo, ele é público e por isso os temas mais importantes passam a ser o seu conteúdo e a sua durabilidade, que discuto a partir do único ponto de vista que (me) interessa, o das respostas para a crise social agravada pelo tormento da austeridade.
É tudo muito bonito mas ninguém explica de onde vem o dinheiro, a longo prazo, para financiar tudo isto. Sem uma saída do euro é inevitável que o défice se torne insustentável e seja apenas uma questão de tempo até voltarmos ao mesmo. Isto é apenas um "já chega de levar na alheira, parem e dêem-nos vaselina para aguentar a próxima".
É tudo muito bonito, sim, mas ninguém explica para onde foi o dinheiro da dívida que aumentou para 130% e o dinheiro das comissões das privatizações ao desbarato destes últimos quatro anos e meio. É tudo muito bonito, sim, mas as contas do novo Governo estão feitas, o dinheiro virá do crescimento económico proporcionado pela recuperação de rendimentos do trabalho.
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