É impossível não sorrir com a
pose de Estado de Arménio Carlos (CGTP) que agora, com uma maioria no
Parlamento a favor de uma actualização decente do salário mínimo, pode dizer que a concertação social não se sobrepõe
à Assembleia da República. Continuar a sorrir com a tese contrária
defendida a espumar de raiva por António Saraiva (CIP) que, entre queixas sobre aquilo
que chama deslocalização para a AR do que sempre foi decidido em concertação
social, acusa o primeiro de querer ganhar no Parlamento o que nunca conseguiu
ganhar na concertação social. E sorrir mais ainda com a abertura manifestada
por João Vieira Lopes (CCP) para aprovar uma subida do salário mínimo em
concertação social por recordar ao segundo que, tal como sempre bastou o acordo
de uma central sindical de vendidos para viabilizar qualquer decisão tomada em
concertação social de congelar salários e até de rasgar acordos, também bastará
que a confederação patronal dos comerciantes dê o seu acordo para que a
concertação social dê luz verde à subida do salário mínimo que lhes devolve a
rentabilidade aos seus negócios.
Sempre foram os Governos, através
da instrumentalização da obediência canina dos deputados que os suportaram
incondicionalmente no Parlamento, que fixaram o salário mínimo. Agora, porém,
há 36 deputados que não se deixam enredar nessas obediências caninas. E, ironia
do destino, há uma confederação patronal a fazer o papel que se esperaria de
todos os sindicatos e sem traições de qualquer espécie: para que da concertação
social saia o acordo necessário, na vez de sabujos do quilate de João Proença e
de Carlos Silva (UGT), os quais, por mais lesivas dos interesses dos seus
representados, sempre assinaram qualquer porcaria que lhes fosse dada a assinar,
está o representante de comerciantes que sabem como ninguém que o consumo sem
salários ainda não foi inventado e que a recuperação do poder de compra dos
portugueses também é do seu interesse. Até o senhor Pingo Doce, explorador como
sempre foi, vê com bons olhos a
recuperação salarial anunciada.
Apenas os radicais da exploração
dos seus semelhantes é que não estão nada pelos ajustes e vão fazendo tremenda
algazarra. Temos pena. Tal espécie de empreendedores vai ter que se modernizar,
apostar na inovação e na eficiência, começar a aprender a lidar com o factor
trabalho como recurso a valorizar através da formação que o diferencie e não
apenas como um custo de mais uma matéria-prima indiferenciada e substituível,
começar a reaprender a enriquecer sem explorar. Vão ter que começar a sair da
zona de conforto que sempre alicerçaram no nosso desconforto. E também eles
acabarão por sair a ganhar do Portugal novo que, assim espero, a nossa
exigência soube começar a desenhar no passado dia 4 de Outubro. Apenas começar,
atenção.


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