sexta-feira, 13 de novembro de 2015

"Estabilidade", espírito "reformista", "emprendedorismo" e essas coisas


É impossível não sorrir com a pose de Estado de Arménio Carlos (CGTP) que agora, com uma maioria no Parlamento a favor de uma actualização decente do salário mínimo,  pode dizer que a concertação social não se sobrepõe à Assembleia da República. Continuar a sorrir com a tese contrária defendida a espumar de raiva por António Saraiva (CIP) que, entre queixas sobre aquilo que chama deslocalização para a AR do que sempre foi decidido em concertação social, acusa o primeiro de querer ganhar no Parlamento o que nunca conseguiu ganhar na concertação social. E sorrir mais ainda com a abertura manifestada por João Vieira Lopes (CCP) para aprovar uma subida do salário mínimo em concertação social por recordar ao segundo que, tal como sempre bastou o acordo de uma central sindical de vendidos para viabilizar qualquer decisão tomada em concertação social de congelar salários e até de rasgar acordos, também bastará que a confederação patronal dos comerciantes dê o seu acordo para que a concertação social dê luz verde à subida do salário mínimo que lhes devolve a rentabilidade aos seus negócios.

Sempre foram os Governos, através da instrumentalização da obediência canina dos deputados que os suportaram incondicionalmente no Parlamento, que fixaram o salário mínimo. Agora, porém, há 36 deputados que não se deixam enredar nessas obediências caninas. E, ironia do destino, há uma confederação patronal a fazer o papel que se esperaria de todos os sindicatos e sem traições de qualquer espécie: para que da concertação social saia o acordo necessário, na vez de sabujos do quilate de João Proença e de Carlos Silva (UGT), os quais, por mais lesivas dos interesses dos seus representados, sempre assinaram qualquer porcaria que lhes fosse dada a assinar, está o representante de comerciantes que sabem como ninguém que o consumo sem salários ainda não foi inventado e que a recuperação do poder de compra dos portugueses também é do seu interesse. Até o senhor Pingo Doce, explorador como sempre foi,  vê com bons olhos a recuperação salarial anunciada.

Apenas os radicais da exploração dos seus semelhantes é que não estão nada pelos ajustes e vão fazendo tremenda algazarra. Temos pena. Tal espécie de empreendedores vai ter que se modernizar, apostar na inovação e na eficiência, começar a aprender a lidar com o factor trabalho como recurso a valorizar através da formação que o diferencie e não apenas como um custo de mais uma matéria-prima indiferenciada e substituível, começar a reaprender a enriquecer sem explorar. Vão ter que começar a sair da zona de conforto que sempre alicerçaram no nosso desconforto. E também eles acabarão por sair a ganhar do Portugal novo que, assim espero, a nossa exigência soube começar a desenhar no passado dia 4 de Outubro. Apenas começar, atenção.

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