sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Vamos a isto: nem PAF, nem PUF


Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e António Costa bem podem fazer o pino, cantar o “não sejas mau p'ra mim”, encher  os bolsos de crucifixos ou ameaçar com o caos da ingovernabilidade. Já todos percebemos, eles também, que não haverá maioria absoluta nem para a PAF dos dois primeiros, nem para o PUF  do segundo, que se foi esvaziando de intenções de voto à medida que as inconsistências e contradições do seu programa lhe foram revelando a agenda marcadamente de direita que, com o passar dos dias, foram deixando o que resta de esquerda no PS reduzido a umas quantas, pouquinhas e desajeitadas, desesperadas habilidades retóricas.

Já nem a lengalenga do voto útil lhes vale. Os votos úteis vão fugindo para as duas alternativas às “reformas estruturais” e ao Tratado Orçamental da austeridade para todo o sempre até haver renegociação da dívida, com o Bloco de Esquerda a subir nas sondagens para mais do dobro das projecções iniciais, de cerca de 4 para mais de 9%, e a CDU a registar aumentos acima dos 50%, de 6 para mais de 9%.

É, pois, livres da chantagem dessa “utilidade”, argumento estafado do rotativismo que dela se tem conseguido servir para fazer o somatório de todas as benfeitorias e malfeitorias que aconteceram em Portugal nas últimas décadas, com eleitores aos milhares a maximizarem a utilidade de cada voto aplicando-a na sua e não naquela “estabilidade” que lhes desestabilizou as vidas e com a perspectiva do melhor resultado de sempre da esquerda que o é, esquerda, que partimos para um dos fins-de-semana mais importantes dos últimos anos no que toca a decisões sobre o nosso futuro colectivo.

A pergunta que muitos farão, sobretudo depois dos diálogos entre Passos e Costa e dos sinais de fumo que o inquilino do Palácio de Belém foi soltando para fomentar a confusão que é sua função dissipar, é quem governará e com quem. A Constituição da República Portuguesa fornece algumas pistas no artigo 187º, que não fala nem em partido mais votado, nem em partido com mais mandatos. Diz textualmente o seguinte sobre os poderes do Presidente da República nesta matéria: “1. O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais". Isto em termos práticos equivale a um ouvidos os partidos, que por sua vez conversarão previamente entre si tendo em conta os resultados eleitorais de forma a que, quando o PR os ouça, possa viabilizar o acordo que reúna o maior número de apoios no Parlamento.

E não vale a pena fantasiar demasiado sobre o assunto. Se as sondagens não errarem por muito, e não costumam errar assim tanto, com a PAF nos 38% e o PS nos 32%, afastando a hipótese mais do que improvável de o PS aceitar não flexibilizar despedimentos, não congelar pensões de reforma e não desfalcar a Segurança Social, condições mínimas necessárias para um consenso à esquerda, as combinações possíveis para somar uma maioria absoluta não são muitas: a maioria que suportará o próximo Governo resultará ou da soma dos deputados do PS com os do CDS, ou da soma dos primeiros com os do PSD, ou até mesmo da soma dos três. Pior castigo pelo que têm feito ao país seria difícil.

Reparem bem na série de crueldades que o resultado do crescimento da esquerda poderá provocar. Primeira crueldade,  ao falhar o objectivo maioria absoluta que lhe dava a sua razão de existir, a coligação irá desfazer-se. Segunda crueldade, se o PS obtiver um resultado melhor e o número de deputados do CDS chegar para somar os 116 que são necessários, poderão vir a ser os votos "úteis" no PS que assegurarão a sétima vida a Paulo Portas. Terceira crueldade, se o resultado eleitoral do PS for tão mau que torne necessário somar os seus aos deputados do PSD, António Costa sai de cena: tinha sido em António Costa que os socialistas votaram, não tinha? Quarta crueldade, talvez a pior, um Governo PSD-PS irá dar visibilidade às semelhanças que ambos tanto fazem para vender aos seus eleitorados como diferenças. Ainda dentro desta, será a repetição da experiência grega da coligação PASOK-Nova Democracia da qual o PASOK saiu pulverizado. Finalmente, quinta e última crueldade possível, pode acontecer que Pedro Passos Coelho,  Paulo Portas e António Costa, os três, dois deles ou apenas um, sejam obrigados a demitir-se para que se produza um acordo que viabilize um Governo  com suporte maioritário no Parlamento. Uma delícia.
Estas eleições têm tudo para que seja desta que de uma vez por todas fique claro que em eleições legislativas elegemos deputados e não Primeiros-ministros ou Governos. Já será uma enorme lição de democracia, mas podemos dar-lhes uma ainda maior se ninguém faltar ao seu dever no dia que a democracia nos deu para ajustarmos contas com quem nos faz mal e para agradecer a quem tudo dá pelo nosso bem colectivo. Vamos. Será como nós o fizermos.

1 comentário:

fb disse...

Já nem a lengalenga do voto útil lhes vale. Os votos úteis vão fugindo para as duas alternativas às “reformas estruturais” e ao Tratado Orçamental da austeridade para todo o sempre até haver renegociação da dívida, com o Bloco de Esquerda a subir nas sondagens para mais do dobro das projecções iniciais, de cerca de 4 para mais de 9%, e a CDU a registar aumentos acima dos 50%, de 6 para mais de 9%.