«(...) Depois do meu último
post sobre a TAP e sobre o Secretário de Estado dos Transportes, asseguro
ao leitor que planeava deixar ambos em paz por umas semanas ou meses.
O problema é que o Conselho de
Ministros do XIX Governo Constitucional reuniu pela última vez a 22 de Outubro
de 2015 para uma “importante”
resolução sobre a TAP, (a única
resolução dessa reunião do Conselho de Ministros e não tenho conhecimento
de outros pontos na agenda). Houve direito a um “briefing”
à imprensa, em que também participou o Secretário de Estado dos Transportes
e a Secretária de Estado do Tesouro.
A resolução do Conselho de
Ministros meramente aprova um
anexo a um acordo de venda, que não é público. E deve o cidadão confiar
nesta transparência toda? Da resolução publicada em Diário da República deveria
constar o anexo aprovado ou, pelo menos, o teor das medidas alteradas nesse
acordo. O que não ocorreu.
Segundo a imprensa, a alteração
ao anexo do acordo de venda, alegadamente, resulta da dificuldade do consórcio
comprador em refinanciar
a dívida da TAP e pedir
mais 120 milhões de euros emprestados, i.e., endividar a TAP ainda mais do
que já estava.
O governo tinha assegurado que o
comprador é que tinha de mostrar que tinha meios para financiar a compra da TAP
(e injectar
imediatamente 269 milhões de euros). Mas aparentemente os
bancos “não
foram na conversa” (em particular, o Deutsche
Bank) e o Governo achou que tinha de dar a proverbial “mãozinha” ao
comprador, i.e., no que se me afigura consubstanciar uma forma de ajuda
estatal.
Na conferência de imprensa os
governantes presentes falaram sobre alguns detalhes das alterações introduzidas
no anexo ao acordo. E, como já se tornou habitual nestes casos, foi o
Secretário de Estado dos Transportes que estava mais a par dos detalhes e que
explicou porque se justificava a resolução do Conselho de Ministros,
evidenciando o seu elevado envolvimento pessoal em todas as fases do processo.
Fiquei espantado pela medida
aprovada.
Então não é que a TAP privatizada
vai passar a ser mais controlada pelo sector público, que a TAP (ou a sua
gestão) quando esta era pública? Vai ter de apresentar contas consolidadas
mensais; ser auditada todos os meses, para se saber do estado das contas; se o
comprador não cumprir, a TAP reverte logo para o sector público mas sempre mais
capitalizada do que quando foi vendida. Ou seja o Secretário de Estado dos
Transportes promete-nos o céu. Só que quando a esmola é muita…
Não é possível analisar, com base
em “conversas”,
o que consta no referido anexo ao acordo e qual o seu propósito. Posso, no
entanto, fazer um “educated guess”: a banca pretendia manter as garantias
estatais para os seus empréstimos à TAP. E, a forma encontrada parece simples:
se o negócio correr mal para o grupo comprador e a TAP enfrentar problemas, a
TAP reverte para o Estado e os bancos vêem os seus empréstimos passar de um
grupo privado — em dificuldades — novamente para o Estado. Ou seja, se a coisa
correr bem os lucros privatizam-se, se correr mal socializam-se as perdas.
Se o meu “educated guess” estiver
correcto, ganham os compradores porque sem esta intervenção do Estado a banca
não concordaria com o negócio, dado que exigia garantias bancárias que os
compradores (ao que tudo indica) não possuem. A banca beneficia, em parte,
porque renova os empréstimos a taxas de juro mais altas, como se estivesse a
emprestar a uma empresa do sector privado quando, na realidade, se o comprador
do sector privado não cumprir o contrato de empréstimo a TAP e a sua dívida
passam novamente para o Estado (através da Parpública). A TAP passa a ter uma
despesa com juros mais elevada, deteriorando a sua viabilidade
económico-financeira. E o erário público lá estará, no final da linha, à espera
de assumir os resultados deste experimentalismo todo, com toda a dívida da TAP
como dívida contingente.
Em suma, parece que o Secretário
de Estado dos Transportes é mesmo incompreendido. Muitos, no país e no
estrangeiro, no sector público e privado, têm de passar a imitar as melhores
práticas aprovadas neste Conselho de Ministros – certamente que alguns dos
membros do Conselho de Ministros já passaram por processos de encerramento de
contas consolidadas anuais ou trimestrais e, por isso, sabem que é mesmo mesmo
fácil, passar a encerrá-las e auditá-las todos os meses –. E nada como ter o
Estado a meter o bedelho no dia-a-dia de uma empresa recém-privatizada.
Onde é que se vão desencantar
estas ideias maravilhosas? Ainda por cima publicadas, com orgulho e para a
posteridade, no Diário da República. E logo a última resolução do XIX Governo
Constitucional! Que fim em grande…» – Ricardo Cabral, no TME.
Actualização: a negociata confirmou-se poucos dias depois. Ler aqui.


1 comentário:
Como é?!
A TAP não pode ser financiada quando é pública e já o pode ser quando é privada ?!
Mas que infâmia é esta?!
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