segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Para melhor, sempre



As eleições voltaram a mostrar-nos um país bastante diferente daquele que gostaríamos que fosse e porventura ainda mais distante daquele que imaginamos.


Naturalizámos um sistema de ensino que permitimos seja omisso na Educação para a cidadania que continua completamente ausente na Escola pública, aceitamos que as programações da televisão e da rádio pública em nada se distingam das congéneres comerciais e ouvimos falar numa juventude que emigra às centenas de milhar mas surpreendemo-nos que os jovens não votem e envergonhamo-nos com uma abstenção que permitimos seja legitimada com explicações que afastam a reprovação social que lhe vamos ficando a dever.


Vemos o empobrecimento generalizado mas não vemos as sopas dos pobres que passaram a fazer parte do quotidiano de tantos, dadas por mãos que as cobram quando chega a hora de votar. Os partidos da pobreza que tem que ser, que apenas quem tem o mínimo dos mínimos como direito e não como caridade pode recusar sem medo e sem deixar dívidas de gratidão por saldar, ganharam nos distritos mais pobres do país.


Habituámo-nos a conviver com naturalidade com meios de comunicação social que vendem uma narrativa tem que ser da austeridade que não pode ser combinada com uma versão futeboleira da política, muito distante das escolhas colectivas que seria sua função aprofundar, mas não vemos os milhões de portugueses que é através dessa janela distorcida que, entre papões, percepcionam o mundo que lhes é oferecido quase sem contraditório. Grande avaria, os três do rotativismo, os três do memorando, os três dessa austeridade que faz ricos espremendo pobres e remediados renovaram a maioria qualificada que continua a permitir-lhes fazer com a nossa Constituição o que lhes ordenarem Berlim e Bruxelas.


Ainda assim, temos excelentes motivos para sorrir e não podemos desvalorizar o que conseguimos ontem, pelo contrário. Foi neste país condicionado e foi este povo, o “melhor povo do mundo”, que reagiu aos quatro anos e meio de malfeitorias de uma quadrilha feita coligação retirando-lhe mais de meio milhão de votos e a maioria absoluta para o espezinhar. Foi este povo e não outro que soube enguiçar a engrenagem do rotativismo e negou o poder ao alter-ego da coligação, que subiu a votação mas poucochinho, e o obriga agora a mostrar o que andou a esconder. Foi este, e não outro, o povo que soube simultaneamente responder a sondagens feitas à medida de utilidades estranhas às suas vidas e agradecer aos seus, à esquerda de confiança que por si resiste e dá voz a quem não a tem, com o melhor resultado de sempre de Bloco de Esquerda e com mais um deputado à CDU, recusando poder a uma série de oportunistas que se perfilaram para conquistar o seu lugar ao sol do regime.


Ainda não foi desta que o poder ficou em mãos capazes de darem decência ao país que o rotativismo tornou indecente, é verdade, mas foi este povo, e não outro, que soube usar a sua democracia para assinalar o seu descontentamento dando uma expressão eleitoral à esquerda que o é como há muito não se via. Com os resultados de ontem ficou garantido que pelo menos durante a próxima legislatura na lei eleitoral PS e PSD não vão poder tocar. Os 10% de deputados necessários para requerer a fiscalização sucessiva de legislação ao Tribunal Constitucional foram largamente excedidos. O país das pessoas sai das eleições de ontem mais fortalecido para enfrentar as estocadas dos próximos quatro, se calhar nem dois anos. Temos boas razões para voltar a acreditar em nós próprios. Podemos dar a volta a isto. Falta querê-lo com a força necessária: a nossa. Todos juntos podemos fazer coisas bonitas.

2 comentários:

fb disse...

Ainda não foi desta que o poder ficou em mãos capazes de darem decência ao país que o rotativismo tornou indecente, é verdade, mas foi este povo, e não outro, que soube usar a sua democracia para assinalar o seu descontentamento dando uma expressão eleitoral à esquerda que o é como há muito não se via. Com os resultados de ontem ficou garantido que pelo menos durante a próxima legislatura na lei eleitoral PS e PSD não vão poder tocar. Os 10% de deputados necessários para requerer a fiscalização sucessiva de legislação ao Tribunal Constitucional foram largamente excedidos. O país das pessoas sai das eleições de ontem mais fortalecido para enfrentar as estocadas dos próximos quatro, se calhar nem dois anos. Temos boas razões para voltar a acreditar em nós próprios. Podemos dar a volta a isto. Falta querê-lo com a força necessária: a nossa. Todos juntos podemos fazer coisas bonitas.

fernanda disse...

De facto, o bloco de esquerda foi a única excepção ao'vazio de ideias num diluvio de palavras'. Notou-se da parte da Catarina Martins uma preparação em questões económicas e politicas que constituiu uma agradável surpresa. Jeronimo de Sousa, mais uma vez, só disse trivialidades; o António Costa revelou nítida impreparação teórica, a direita só teve retórica, mas, tem de se reconhecer, ao menos teve uma boa na retórica; e é bom refletir que quando faltam ideias, a retórica ganha.