sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Os tolos e as lebres, as lebres e os tolos



Nada como soltar uma lebre, há sempre quem corra atrás. O CDS foi o único partido que votou contra a Constituição da República Portuguesa e desde a primeira hora, ao longo das últimas quatro décadas, sempre se manifestou contra ela. A comunicação social pertence a quem pertence e essa voz nunca se ouviu a dizer que o CDS não podia governar quando governou, e nos últimos quatro anos fez parte do Governo que foi sucessivamente batendo todos os recordes da inconstitucionalidade para chegar ao final do mandato com uma economia devastada, uma sociedade depauperada, uma população envelhecida pela sangria de emigração jovem e um país incomparavelmente mais endividado.

Já à lebre contra a maioria que não pode juntar forças no Parlamento para sustentar um Governo que inverta este rumo de destruição vemo-la por aí, doida, em corrida desenfreada, a semear medos que se propagam pela multidão que corre atrás dela, e isto porque, sem que de nenhum deles  se fale que irá integrar o futuro Governo e apesar dos documentos em causa não terem o mesmo valor da CRP, dois partidos dessa maioria se relacionam com o Tratado Orçamental e as regras do euro de forma semelhante à que o CDS se foi relacionando com a nossa Lei fundamental, com a grande diferença de que defender salários mais dignos e mais equidade fiscal não viola nem um nem o outro, antes pelo contrário.

Têm medo concretamente do quê, afinal?

Do primeiro e do segundo medo, os mais imediatos, ressalta uma estranha aliança entre enriquecidos e empobrecidos pela política desastrosa de quatro anos e meio que acabaram tal como começaram, com um défice orçamental bastante acima dos 7%, e com a dívida pública atirada para a estratosfera. Entende-se que os que enriqueceram queiram continuar a enriquecer, e daí a lebre, mas é absurdo que quem empobreceu se junte aos primeiros no coro contra o aumento do salário mínimo para os 600 euros que chegaram a estar acordados para vigorarem a partir de 2013, e 90% de nós vive de rendimentos do trabalho, e cada um desses 90%, entre eles os que ajudam a lebre a correr, perdeu em média dois salários nos últimos quatro anos. Da mesma forma, entende-se que quem  nunca pagou impostos queira continuar à margem de qualquer contribuição para a sociedade que o enriqueceu e estranha-se que quem pertence aos 90% que até agora tudo pagou junte a sua voz à dos primeiros contra uma esquerda que sempre lutou por uma equidade fiscal que agora finalmente porá a pagar aqueles que nunca pagaram para aliviar quem sempre pagou tudo.

E mais estranha ainda é que essa cumplicidade raivosa se mantenha intacta mesmo depois de se saber que alguém que atestou a idoneidade de Ricardo Salgado foi escolhido para Ministro, que o Secretário de Estado que ofereceu ao desbarato o Metro e a TAP tenha sido escolhido para repetir tais façanhas na venda do Novo Banco e que o Governo aprovou às escondidas um diploma que impõe como requisito obrigatório para a atribuição de pensões de invalidez o atestado, que nenhum médico passa, de que o candidato a essa prestação social irá falecer ou ficar completamente dependente nos três anos seguintes.

Portanto, medo de salários mais dignos, medo do aumento de receitas fiscais e do  emprego  criado por uma riqueza mais bem distribuída, medo de mais justiça fiscal, medo que acabe a falta de pudor, medo que cesse a venda do país ao desbarato, medo que se inverta um caminho rumo a uma sociedade que nega sustento a quem deixa de poder trabalhar e abandona os seus doentes À sua sorte, medo que a direita se dilua na percepção colectiva de quatro anos e meio de sacrifícios draconianos a favor de uma casta de milionários que enriqueceu como nunca antes. E medo da descoberta de um papão que afinal não estava na esquerda que soube transigir no que lhe era possível  e ficar à espera que se torne maioritária a percepção de que o euro e as regras do Tratado Orçamental nos condenam ao declínio e à miséria para evitar que o papão comesse o que restava de país.

Claro está, tudo isto poderá terminar com Bruxelas a chumbar logo o primeiro orçamento de forma a forçar repetições de eleições até que vençam os melhores intérpretes  do papel que reservaram para nós,, mas isso depois logo se vê como reagir-lhes, o erro maior seria nem sequer tentar. E ao longo deste processo haverá sempre lebres para todos os tolos e tolos para todas as lebres, aqui e onde seja. De tolos que defendem quem os rouba e se atiram a quem os defende nunca se poderá esperar grande coisa. É deixá-los falar. Acabam invariavelmente na panela. Mas juram que são felizes assim.

1 comentário:

fb disse...

Portanto, medo de salários mais dignos, medo do aumento de receitas fiscais e do emprego criado por uma riqueza mais bem distribuída, medo de mais justiça fiscal, medo que acabe a falta de pudor, medo que cesse a venda do país ao desbarato, medo que se inverta um caminho rumo a uma sociedade que nega sustento a quem deixa de poder trabalhar e abandona os seus doentes À sua sorte, medo que a direita se dilua na percepção colectiva de quatro anos e meio de sacrifícios draconianos a favor de uma casta de milionários que enriqueceu como nunca antes. E medo da descoberta de um papão que afinal não estava na esquerda que soube transigir no que lhe era possível e ficar à espera que se torne maioritária a percepção de que o euro e as regras do Tratado Orçamental nos condenam ao declínio e à miséria para evitar que o papão comesse o que restava de país.